Por Anita Krepp

Quando desceu do pódio do Mundial com a prata no peito, no fim de maio, Tayane Porfírio foi levada direto para a sala do exame antidoping, protocolo reservado aos dois primeiros colocados. Antes da urina no pote vem a papelada em que o atleta declara tudo o que consumiu no período de treinos, e ela informou, sem rodeios, que fazia uso de CBD e que na véspera da final havia tomado uns dois drops da seringa que acompanha o frasco. “Você sabe quando é aquela surpresa que não é surpresa? Eu já tava imaginando que isso poderia acontecer. Podia ser que acontecesse e aconteceu”, conta Tayane.
O resultado apontou THC em nível bem acima do limite tolerado pela Usada, a agência antidoping americana que atendia à competição. Alto a ponto de descartar, na leitura do advogado que a acompanha, a hipótese de a atleta ter fumado. A faixa preta de 31 anos perdeu a medalha, recebeu suspensão por três meses e decidiu que não vai recorrer, uma escolha que soa estranha para quem ainda não conhece a matemática particular dela. “Se já paguei 4 anos por algo que eu não fiz, qual o problema de pagar 3 meses por algo que eu fiz mesmo?”, diverte-se ela, que é dessas que ri pra não chorar.
Zero atleta
Os quatro anos a que ela se refere são de 2018, quando outro exame acusou uma substância que ela garante nunca ter tomado. A única suspeita recai sobre uma pessoa que preparou a comida que ela comeu antes daquele campeonato e que, no dia seguinte ao teste, parou de falar com ela e a bloqueou no Instagram. Na época, Tayane recorreu, pediu a abertura do frasco B, debateu com a federação, e nada disso evitou a pena. O período longe dos tatames cobrou um preço que nenhuma medalha cobre. “Tudo o que aconteceu comigo criou um bloqueio em mim, eu perdi a minha identidade. Eu tô como se eu estivesse me conhecendo de novo.”
O esporte que ela teve medo de reencontrar entrou na sua vida sem nenhuma pretensão de pódio. Tayane começou a treinar aos 15 para 16 anos, pesando mais de 150 quilos, querendo emagrecer e destravar a adolescência. O professor avisava que ela era zero atleta, e ela seguia sem dieta, sem suplemento e sem vontade de mexer em jogo que estava ganhando. Foi competindo, foi vencendo e acabou vivendo do jiu-jitsu, que ela costuma dizer que a escolheu – e não o contrário.
A punição terminaria em 2022, e foi justamente no último ano dela que Tayane descobriu a gravidez. Chegou a acreditar que não voltaria a lutar nunca mais. O patrocinador da época a dispensou por causa da barriga, e foi a deixa pra que ela criasse sua marca própria de kimonos, lançada para que ela lutasse representando a si mesma. A volta aos tatames só aconteceu depois de tratamento psiquiátrico e de idas recorrentes à psicóloga, e veio acompanhada de uma mudança de prioridades que ela atribui à maternidade. “Hoje eu luto porque eu amo realmente o que eu faço. E eu não tenho obrigação nenhuma de provar mais nada para ninguém, porque isso eu já fiz.”
Uma cartela de Tylenol
As crises de ansiedade ganharam força depois do primeiro doping. Coração acelerado, insônia e tremedeira do nada passaram a compor o seu quadro emocional rotineiro. Desde 2021, Tayane trata dos sintomas com óleo de cannabis receitado, além de recorrer à pomada com CBD para as lesões e inchaços do treino. Antes da planta, o kit de sobrevivência dos campeonatos era outro. “Eu já cheguei a lutar campeonato de ter tomado uma cartela de Tylenol. Duas, três horas antes de eu lutar, eu pegava, jogava remédio para dentro para poder conseguir lutar.”
No ano passado, ela tomou o óleo uma semana antes de competir e passou pelo exame sem sustos. Este ano, ansiosa e sem conseguir dormir na véspera da final, pegou um dos vários frascos que acumula entre compras e presentes e tomou sem conferir se aquele rótulo tinha mais THC do que o permitido. Quando a notícia estourou, os portais correram para o clique fácil da atleta brasileira flagrada no doping. “Teve um que postou que fui pega com maconha. Até parece que eu tava com 1 kg de maconha na minha bolsa e levei para o campeonato”, ironiza.
A repercussão que ela temia, principalmente pelas crianças a quem dá aula, virou uma enxurrada de apoio, com mensagens de gente famosa e a piada que ela mesma fez sobre a galera da maconha ser mais unida que a dos anabolizantes. Do hype, Tayane já tirou uma parceria com uma marca de cannabis, um novo médico prescritor e luta marcada para o mês que vem, em evento de outra federação, fora do alcance da suspensão.
Parte da serenidade ela credita ao livro que está terminando, A Sutil Arte de Ligar o Foda-se, que caiu nas suas mãos junto com a polêmica e ajudou a assumir a decisão sem prestar contas à plateia. A receita nova prevê oito gotas por noite, que ela nunca conta direito porque despeja a seringa na boca de uma vez. “Se eu tiver que ser pega 20 vezes com o THC acima do permitido, eu vou ser pega 20 vezes, porque é algo que me ajuda. Eu não vou deixar de fazer algo que me faz bem.” Boa luta, Tayane.