Saindo da estufa

Catto: “Sinto que a maconha serviu para me tirar do remédio psiquiátrico”

A person wearing a black satin suit holding a cigarette, exhaling smoke with a confident expression, set against a tiled background.

Catto já usou todas as drogas, mas a única que ficou na rotina foi a maconha. A cantora fuma para escrever, ouvir música numa outra atmosfera e para correr oito quilômetros depois do primeiro paff logo de manhã. Ela diz que o beck a ajuda a sair do sofá e ir viver, o caminho inverso do álcool, cujo consumo decidiu reduzir depois de perceber o quanto era dependente da bebida.

Nessa conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, Catto falou sobre sua relação com a maconha, contou como ela entrou no processo criativo e por que sente que a planta a ajudou a ficar longe de remédios psiquiátricos. Falou também sobre o alcoolismo na família, sobre sua vida boêmia em São Paulo, sobre a transição de gênero e sobre a anti-diva que encarna o luxo e a luxúria no palco, mas que, fora dele, encontra prazer justamente na rotina e nas simplezas da vida real.

Como é para você ser uma anti-diva popular?

Eu gosto muito dessa parada da iconografia da diva. A iconografia da diva é a minha pesquisa e também a minha subversão. Esse lugar é muito legal, sempre me inspirei. Acho a diva um arquétipo tão divertido. Dentro dessa ideia da diva eu posso fazer tudo. Posso cantar o que eu quiser, posso fazer o que eu quiser, ela me traz essa grande liberdade. E justamente por isso eu sou uma anti-diva, porque isso me leva para o presente, me leva também para a vida. Essa diva é reflexo da pessoa que eu sou, uma pessoa conectada com a vida, com o mundo, com a noite, com as pessoas, com uma vida que é voltada para isso. Nesse sentido, é a diva que está por aí. Essa coisa da diva encastelada, que fica vivendo o seu mundo, preocupada com a própria vaidade o tempo todo, eu de verdade não acredito muito. Acho que é uma bobagem e uma perda de tempo. Eu posso viver essa ideia enquanto estou em cena, enquanto estou fazendo a minha arte, porque é ali que ela pertence. Fora dali, ela é meio anacrônica.

Você ficou sete anos sem lançar um álbum autoral de inéditas e voltou no ano passado com o disco Caminhos Selvagens. Quais caminhos selvagens foram esses pelos quais você andou passando?

Nossa. Esse assunto é o filme Backrooms, porque é muito visceral o processo que aconteceu nesse Caminhos Selvagens. Eu sempre começo um trabalho com uma pergunta, uma inquietação que me leva a entrar num buraco de minhoca. Quando comecei a trabalhar nesse disco, eu estava em turnê com o Nascimento de Vênus, meu disco de 2017, e estava muito animada para voltar a compor. Não é que eu não estivesse compondo nos últimos anos, mas meu trabalho passou por muitas experimentações. Eu era muito jovem quando surgi. Gravei o Saga, um EP só de músicas minhas, e tinha músicas lindas ali, já, mas eram músicas dentro do contexto de uma pessoa em formação, muito nova, que estava se experimentando e se entendendo. Quando chego em São Paulo, vou para o palco, começo a cantar meio que de tudo e a buscar as intersecções entre o meu trabalho como autora do EP e a música brasileira. Gravei Reginaldo Rossi, gravei Zé Ramalho, gravei Arnaldo Antunes. Foi um trabalho de encontros e de possibilidades de expandir aquilo que já era o meu universo, e fui me explorando nesse sentido. Quando chegou 2017, eu tinha voltado a compor, porque nesse processo todo de me dedicar ao palco ou a outra coisa eu sempre dou foco para a minha pesquisa da hora. Ali eu tinha voltado a compor com tudo e fiquei muito feliz de reencontrar a minha voz como compositora de uma forma muito mais universal. Achei que aquela proposta do Saga, de onde eu surgi, tinha amadurecido através de todas essas trocas, de compor com outros artistas, de cantar compositores diferentes, de poder ouvir estilos de música diferentes na minha voz. Foi um período muito rico, de muito aprendizado no começo da minha carreira. E aí. cara, o que eu quero compor? Eu quero me divertir. Comecei ingenuamente pensando em escrever um disco de amor, só porque eu queria muito brincar com esse lugar. O que é o amor? Por que o amor é assim? Eu estava super vivendo as questões do amor romântico.

Nesse momento você estava se separando?

Eu estava separada, mas já estava namorando. Mas o amor para mim sempre foi um labirinto muito louco. Como eu sou uma pessoa trans e antes mesmo de transicionar eu já era uma pessoa LGBT, a minha vida amorosa, afetiva e sexual foi marcada por muitos cortes. Era aquela adolescência em que tu não podias te apaixonar por ninguém, porque não existia a possibilidade de ter uma vida normal, de ter o carinho normal, de poder ter um namorado que tu ias encontrar na escola. Hoje a gente já vive esse mundo, e eu acho muito bonito que eu tenha feito parte de alguma forma, com a minha geração, para que esse cenário fosse possível para os jovens. Mas eu fui uma jovem muito triste, muito torturada por essa rejeição. Sempre que eu me apaixonava, aquilo era fatal, uma coisa que trazia essa dramaticidade. E não era só uma dramaticidade de adolescente, era de fato uma tragédia. Então comecei a entrar dentro desses meus traumas amorosos e a tentar reencontrar essa pessoa que eu sempre fui, que estava lá, que tinha esse romantismo dentro de si, essas histórias para contar. E meio que fez um bololô de várias emoções, sentimentos, situações, pessoas, nomes.

Você acha que essa sua entrada na música tem a ver com isso? Com um lugar para você poder expressar essa tragédia vivida no campo amoroso na adolescência, ou isso aconteceu de forma diferente?

Acho que sim, mas não só. A minha música vem de antes disso, porque eu sou de uma família de artistas, de músicos. Meu pai é músico, meu irmão é músico. Eu tinha uma coisa dentro de casa que já me levava para a arte, e a arte sempre foi o lugar onde eu podia dar voz a essa diva que eu era por dentro. Primeiro através das artes plásticas, porque eu desenhava roupa, desenhava vestidos, desenhava mulheres, desenhava bonecas. Sempre mulheres muito elegantes e chiquérrimas. É engraçado como eu virei esse desenho que fiz na minha infância.

Interessante, porque de fato, quando a gente olha para você, dá para sentir que tem uma construção anterior.

É, só que essa construção imagética que eu tenho como artista é feita a partir das minhas referências, e as minhas referências eram os meus próprios sonhos. Eram as coisas que eu tinha naquele momento, que não eram de consumir, mas de expressar. A arte desde muito pequena me salvou um pouco disso. E claro que, quando comecei a entrar no mundo das paixões e no mundo da sexualidade, isso se converteu em música também. Até porque eu sempre gostei das cantoras, tipo Alanis, Fiona Apple, Tori Amos, essas mulheres do rock que cantavam sobre os próprios sentimentos, que faziam seus desabafos, esse lugar do ponto de vista feminino sobre as coisas. O olhar feminino sempre foi o meu ponto de vista para essa situação, e isso era muito confuso para mim. O Saga, por exemplo, é um EP absolutamente sobre o ponto de vista feminino, porque de fato eu já era uma pessoa trans ali, só que não podia expressar. Essas letras eram feitas a partir de crônicas ou tinham uma tentativa de uma coisa meio Chico Buarque. Eu ficava pensando que, se Chico Buarque pode cantar aquilo, é a mesma coisa. Só que é difícil você fazer isso numa sociedade em 2008, 2009. Enfim, estou divagando porque estou assim, ó, na brisa, já brisadíssima. Risos. Mas voltando para a questão do amor. Quando eu pude, aos poucos, lá no Nascimento de Vênus, que foi onde comecei a me expressar no meu feminino, foi ali que a minha não-binariedade se acentuou muito. A partir desse disco de 2017, ela ficou muito evidente para mim. Não é que tenha ficado bem resolvida ali. Assim que eu entendi que era não binária, já estava bem resolvido. Mas eu pude abrir a minha cabeça para experimentações com a própria ideia de gênero, e acho que o caminho selvagem nasceu meio disso. Eu pude finalmente pegar a narrativa das minhas histórias de amor para escrever as músicas que eu sempre quis ter escrito desde adolescente, a partir do ponto de vista da primeira pessoa. Pela primeira vez pude fazer isso em primeira pessoa, de uma forma sem nenhum tabu. Pude finalmente dizer o que estava entalado na minha garganta a minha vida inteira.

Além dessa experimentação artística, teve alguma outra coisa que te levou a essa segurança para falar em primeira pessoa o que você já vinha sentindo há tempos?

Cara, eu sou muito de sentir. Quando a coisa me guia, eu não tenho dúvidas. Eu tinha que seguir um desejo da minha alma, e era um momento da minha vida em que, na carreira, entre aspas, eu tinha mandado todo mundo se foder, tinha saído da gravadora, tinha mudado tudo. Eu estava vivendo pela primeira vez com a minha vida nas minhas mãos e dando conta. Com novos parceiros, vivendo coisas em que eu era finalmente dona do meu trabalho. Quando eu comecei, não tinha como gravar discos, não existia isso. Ou você tinha um contrato com uma gravadora, ou tinha muitos amigos na música e podia gravar um disco de graça na colaboração de muita gente. Eu não tinha nada. Tinha uma grana guardada, gravei um EP curto com o material que eu tinha na mão, porque precisava começar a girar, a fazer as minhas coisas e sair da casa dos meus pais. Ir embora de lá e poder finalmente viver a minha vida em paz e livre. Desculpa, agora eu me perdi porque estou brisada. Risos.

Nesse caminho selvagem teve o entendimento da sua não binariedade. E a transição de gênero em si, certo?

Sim, foi uma transição e uma transgressão juntas. Acho que o Caminhos Selvagens foi o disco que trouxe para mim tudo o que a transição de gênero representava, principalmente na questão imagética. A coisa de platinar o cabelo, por exemplo, que era uma ideia de transformação absolutamente radical para mim, que sempre tive o cabelo virgem, nunca tinha pintado o cabelo na vida. Para mim isso é um símbolo muito forte. Essas coisas me pegam muito. Quando estou vivenciando as coisas, eu ritualizo. O simbolismo da parada é muito forte, e o meu trabalho artístico parte primeiro dessa necessidade psicanalítica. Eu não consigo subir no palco e fazer uma coisa que não está alinhada com o que estou vivendo no meu ventre, entendeu? Porque senão eu me traio, e aí eu entro em depressão. Era inevitável viver esse processo terapêutico de identidade através da arte. A transição aconteceu durante esses sete anos e foi mais um florescimento e uma revelação. Estou cada dia mais confortável no meu corpo. De fato, precisei fazer várias intervenções estéticas em mim para poder finalmente me alinhar com como eu me via, com como eu podia vivenciar a minha imagem, a minha beleza, o meu corpo no dia a dia. Isso demora muito para a gente. São resultados, e a gente tem que ter muita resiliência nesse processo de se amar. Entender que é um processo em que você vai ser chamada de senhor, isso vai acontecer, mas a gente tem que se amar mais do que isso. A gente precisa se amar ainda mais. Então o disco sobre esses amores foi um processo muito visceral, cheio de rasuras, cheio de sangue mesmo, cheio de coisas viscerais que aconteceram nessa parada de me entender como Fiona Catto.

E as drogas tiveram um papel importante nessa fase?

Tiveram muito. Foi um processo desde 2017 até agora. As drogas sempre estiveram ali, tanto para o bem quanto para o mal, dependendo muito da consciência com que eu estava na hora de usar.

Era um apoio emocional ou mais um expansor de possibilidades?

Cara, eu não vou nem falar droga, porque eu estou falando de maconha, e maconha para mim não é droga. Maconha é uma planta.

Pois é, essa era a próxima pergunta. De quais substâncias ou drogas, estamos falando?

Eu já usei de tudo, já usei todas as drogas, mas a maconha é a única que está no meu dia a dia. Eu fumo, gosto para escrever, gosto para ouvir música. Me relaxa de um jeito que talvez eu fosse uma pessoa que precisasse tomar remédio psiquiátrico, por exemplo. Não estou dizendo que estou me automedicando, posso estar falando uma bobagem, mas sinto que a maconha, no meu caso, serviu para me tirar do remédio psiquiátrico. Eu não faço terapia nem psiquiatra, eu faço psicanálise. A minha psicanalista está ali, e eu sempre pergunto para ela, amor, tu achas que preciso de um remédio? E ela responde, não, gata, vai no teu processo. Porque eu mergulho mesmo no processo. Eu não deixo a minha angústia quieta, não engulo muito os sentimentos, apesar de ser uma pessoa com vários quadros de ansiedade, de disforia etc. A maconha sempre me ajudou muito nesse processo de canalizar, de expressar o que estava dentro de mim, e de talvez não precisar de remédio psiquiátrico. Para mim é uma coisa que está super no meu dia a dia, eu adoro, e me ajudou muito.

A maconha te ajudou a atravessar esse momento?

Me ajudou a criar. Quando comecei a fumar mais regularmente, que foi depois que me separei do meu primeiro marido, eu tinha parado de fumar cigarro e estava muito nervosa, naquela separação violenta, uó. Falei, meu, eu preciso de um beck. Comecei a fumar, e a primeira coisa que percebi, porque eu já tinha fumado antes, mas não era de fumar sempre, foi que eu ouvia as músicas de um jeito completamente diferente. Comecei a ouvir música meio que em 3D. Sentia todas as camadas de som e ouvia coisas na própria música que nunca tinha percebido. Também percebi que a maconha me deixava muito disposta para fazer atividade física. Eu fumava um, ia correr, ia nadar, ia para a praia. A maconha para mim estava associada a uma parte de mim que não era sombria, como o álcool e a cocaína, que me levam para uma coisa sombria. Eu queria entender quem era essa pessoa que estava ali, que a maconha ajudava a revelar. Que era da praia, que sentia prazer, que sentia que tinha beleza em si.

Uma pessoa mais solar…

Uma pessoa mais solar. Eu gosto de acordar, fumar um e dar uma corrida de oito quilômetros. Ela é um canalizador disso. Eu não me sinto chapada. Também eu fumo agora umas flores ótimas, né? Porque isso também faz diferença. E estou num processo, desde 2024, de reduzir ao máximo que eu puder o álcool. Com o tempo percebi o quanto eu era dependente. O álcool estava na minha rotina quase diariamente. Minha família bebe muito, minha família bebe demais. Eu tenho um histórico de alcoolismo familiar severo.

E você acha que a maconha entra em que lugar nisso?

Quando parei de beber, comecei a investir num fumo mais legal para fazer a substituição, porque realmente me ajuda muito a não ter fissuras. Às vezes, quando estou num ambiente social que me dá ansiedade, posso fumar um, ficar de boa e tomar uma água com gás. Aí fico ótima, consigo ficar até as três da manhã no rolê, entendeu? Porque o álcool estava me levando para um lugar absolutamente horroroso. Cheguei a ter situações extremamente perigosas por causa dele.

Me conta essa onda errada do álcool.

O álcool é uma parada muito perigosa. Tu ficas completamente vulnerável, e eu tenho geneticamente aquele fator de não ter o controle de parar. Sou de uma família de pessoas alcoolistas.

E essa tendência de não parar é uma questão só com o álcool, ou você acha que você também tem com outras substâncias?

Não, é só com o álcool, porque eu uso álcool, tabaco e maconha. Todas as outras drogas químicas, ou até alucinógenos, sei lá, cogumelo, essas coisas, sempre foram para mim uma parada recreativa, mas muito pontual. Nunca comprei nada disso, entendeu? Quer dizer, cogumelo sim, mas não sou uma pessoa com problema de vício em drogas químicas. Nenhum. Mas já experimentei todas.

E o cogumelo também é natural, né?

O cogumelo é natural, é de boas. Claro que eu tomo cogumelo em microdose. Vou tomar uma microdosezinha para ficar de boas, porque a ideia de pirar e ficar vendo a distorção do meu campo de visão me deixa com ansiedade. Eu não gosto da sensação da droga para ficar fora da realidade. E o álcool era uma coisa que de certa forma me deixava fora da realidade, mas ainda com aquele controle, um conforto. Como ele é muito naturalizado, eu sempre falava, ah, mas não estou fazendo nada, estou bebendo um vinho. Só que no beber um vinho, tu bebes um vinho, tu bebes dois vinhos, entendeu? E tu estás, sei lá, em algum lugar com algum bofe que tu nem sabes quem é. E acho que a coisa da transição, de me entender cada vez mais como uma pessoa trans, fez com que eu tivesse um pouco mais de juízo, porque afinal hoje eu sou mais vulnerável. Apesar de eu ser superdesencanada, e a verdade seja dita, eu sempre fui muito porra louca. Eu era de sair sozinha na Augusta às cinco da manhã, morri. Eu era dessas. Eu moro nessa zona de São Paulo, na parte da Augusta, há muitos anos, desde que cheguei. A minha vida sempre foi muito boêmia. Eu ando com artista, ando com a galera da noite, gosto de estar nos excessos, gosto muito desse mundo. Então o álcool, mais do que qualquer coisa, sempre foi o canalizador de me deixar meio wild, sem controle. Mas agora eu sou velha e não posso mais fazer isso, entendeu?

É, porque bate diferente com a idade, realmente. Mas como funciona isso exatamente? Você fuma um beck hoje e não vai ter vontade de beber amanhã? Como você percebe esse impacto de um uso sob o outro?

Cara, o alcoolismo é todo dia. Eu não fui para o AA, mas li muito sobre o AA e senti no meu coração o que era a coisa do só por um dia. Quando resolvi dar um tempo, fiquei um mês e pouco sem botar uma gota de álcool na boca e queria ter ficado mais. Só não fiquei totalmente sem álcool porque acho que só a ideia da proibição já ia me deixar ainda mais compulsiva, porque a proibição me atrai para o vício. Então eu não me proíbo, mas eu reduzo. É todo dia. Hoje eu não vou beber. Amanhã eu acordo e falo, hoje eu não vou beber. E a maconha está ali para eu relaxar, para eu fazer as minhas coisas com tesão, para eu botar a minha musiquinha e ficar bem louca, dançando. Para me ajudar, porque a minha tendência é ser uma maníaco-depressiva, a real é essa. A minha pulsão de morte é também uma pulsão de depressão, de ficar imóvel, jogada no sofá. O que eu mais queria era ficar com uma pizza de quatro queijos, comendo, tomando um litro de vinho branco delicioso e fumando quinze Derbys um atrás do outro. Risos. Essa sou eu também. Para eu não ser essa pessoa completamente sedentária e jogada em todas as compulsões, porque eu tenho compulsão alimentar, compulsão do cigarro, compulsão do álcool, compulsão de tudo que me apresentarem, se me derem, e isso é uma coisa contra a qual vou ter que lutar a vida inteira, a maconha é a coisa que fala, vai, garota, vai viver, bota esse tênis, corre, vai para a academia, vamos dançar. É uma coisa que me ajuda a sair dessa prostração, dessa tristeza.

Tanta gente fala que com a maconha você vai ficar prostrado no sofá. E no seu caso é o oposto disso….

Se tu fumares uns prensados da biqueira, talvez sim, porque o prensado é uma maconha de que tu não sabes a procedência. Mas a maconha hoje em dia está longe de ser isso. A gente tem dosagens, a gente pode ter um pouco mais de conhecimento sobre ela, e ela pode ajudar no teu sintoma. A que eu fumo é a sativa, que é a que dá o vamos lá, garota. Ela é 60% sativa e 40% índica. É a que fumei antes da entrevista. Fico falante, fico doidinha e é legal.

Dá o brilhinho. E onde você tem acessado a sua maconha?

Olha, amore, os meus advogados vão entrar em contato com você. Risos.

Não precisa responder. Você já plantou?

Não tenho, não planto. Não posso, né? É crime.

Não exatamente. Tem gente que tem HC, tem gente que usa aquela saída do STF das seis plantas descriminalizadas…

É que a minha rotina não permite que eu tenha cuidado com a planta da cannabis. Ela precisa de muito cuidado, e eu realmente não tenho como cuidar. E também ainda estou engatinhando nisso. A minha vida é muito corrida, muito louca. Eu adoraria me regulamentar e ser como no Uruguai, ir à farmácia e comprar, porque acho isso um luxo. Ir à farmácia e comprar com a tua carteirinha, tudo regulamentado, todo mundo feliz, todo mundo pagando imposto para aquilo acontecer. Que seja caro mesmo, então, sabe? Tudo bem, não é para criança comprar, é óbvio. Vamos tratar como uma coisa séria. É como se a gente não tivesse vários exemplos para seguir em relação à legalização. E a hipocrisia do Brasil, eu estou cansada de ter que ficar revoltada, porque é uma coisa tão escancarada. É tão claro por que a cannabis não é legalizada aqui, e não é pelo moralismo religioso. A gente sabe por que é.

E por que é?

Porque todo esse moralismo é uma parada útil às máfias todas. A gente sabe que isso aqui é uma grande máfia, é um bololô. Não dá para ficar fazendo teoria da conspiração, mas o crime organizado está em tudo. E está na política, inclusive. Quanto mais eles puderem segurar essa regulamentação para ganhar dinheiro em cima disso, eles vão segurar. Ainda mais que a tendência das pessoas é usar cada vez mais a cannabis e abandonar o álcool. As gerações novas estão diminuindo muito o consumo de álcool, e a cannabis está ganhando protagonismo como a planta do século 21, uma planta que pode ajudar muito a humanidade, enquanto commodity também. O fato de a cannabis restaurar o solo, tudo que ela pode oferecer em termos de manufatura. É uma planta maravilhosa, não só para a medicina. O meu cachorro toma canabidiol preventivo. Ele tem 13 aninhos e está ótimo, maravilhoso. Faz bastante tempo que ele toma, e eu comecei a dar como preventivo.

Então você está bem informada sobre a cannabis, não é uma coisa que você só consome. Você está envolvida?

Não, eu não estou envolvida politicamente, nem faço parte de nenhum clube, nenhum grupo. Não sou uma nerd da cannabis, mas sou uma pessoa que está no século 21 pensando essa parada. A gente sabe que a descriminalização e a pesquisa em cima da cannabis dão muitos frutos. A gente vê exemplos de como ela é uma planta medicinal que ainda pode dar muitos frutos para a humanidade. É uma coisa maravilhosa que a humanidade tem nas mãos. E tratar isso como droga, tratar como crack, como cocaína, é tão ignorante que eu não quero nem perder o meu tempo com raiva disso. É uma coisa canastrona, como todo esse tear de absurdos e anacronismos absolutamente irrelevantes. Eu fico viajando em qualquer debate sério, até na imprensa. Falo, ah, meus amores, todo mundo adora os Estados Unidos, a Califórnia, tudo legalizado. Em Washington DC você fuma um beck na frente da Casa Branca, cara. E aqui estão os caras falando que maconha é a porta de entrada para as drogas. Eles só querem do mundo civilizado, entre muitas aspas, o que interessa a eles. Querem igreja, querem liberalismo econômico, mas na hora de fazer as coisas que são progressistas, que de fato têm um impacto enorme na economia, que podiam ajudar um monte de gente, aí é difícil, né, amores? Quando é para ferrar a gente, para ganhar dinheiro e fazer essa merda toda, é fácil. Agora, quando é para fazer uma coisa sensata, é o mínimo, é sensatez, gente. Alô. É uma planta, afinal. E é isso, tá aí. Quem quiser comprar maconha hoje, compra. Toda essa hipocrisia, eu não fico nem com raiva, só fico com preguiça.

E como foi o seu primeiro contato com a maconha? 

Lógico, foi com as minhas amigas sapatão. Risos. Eu não lembro muito bem direito como foi. A gente estava num rolê de adolescente. Eu morava em Porto Alegre, no bairro mais extremo da zona norte, que divide com outra cidade, e a minha turma estava meio que naquela outra cidade, uma região bem mais periférica, obviamente. A gente dava rolê de madrugada, tipo gangue de adolescentes, fumando maconha. Eu lembro de andar de noite por umas ruas, uma galera junta. Teve uma hora que a gente subiu numa laje e ficou lá fumando beck, bebendo cerveja, conversando, falando de música. Era maravilhoso. Os anos 2000 foram divertidos.

Nessa época de adolescente, você também estava passando por esse momento difícil, e foi quando você conheceu várias outras drogas. Como você fez a diferença entre o que ia levar adiante e o que era isso daqui que eu experimentei, mas não quero?

Eu sempre tive um juízo, na real. Apesar de ser muito porra louca, intensa, eu estava trabalhando, estava estudando, nunca fui uma pessoa à toa. Tinha muita coisa séria rolando na vida. Sempre levei muito a sério o meu trabalho, os meus estudos e acho que isso sempre me guiou. Eu não deixava nada disso atrapalhar os meus objetivos. Era uma mulher de negócios desde muito cedo. Mas não era um momento triste. Era ruim, tinha muitos conflitos de adolescência e tal, mas essa minha turma de LGBTs adolescentes dos anos 2000 era os meus anjos da guarda. A gente cuidava muito um do outro. Acho que os amigos sempre me ajudaram a ficar num lugar de mais sensatez em relação a isso. Nunca estive sozinha usando droga. Sempre estava em grupo, sempre foi uma coisa muito de criatividade no meio da turma de amigos. Teve gente que se ferrou, mas 80% das pessoas estão bem. Sempre tem a pessoa que vai se detonar. Sempre temos a amiga louca que morre, faz parte.

E como é que a gente identifica o uso intensivo mais controlado do que seria realmente um uso abusivo? Acho que cada pessoa mais ou menos tem uma ideia de como funciona consigo, mas também tem momentos em que essa fronteira pode ficar meio borrosa, né?

Para mim, os meus usos de substância são simples. Tem fases da vida em que a gente vai estar mais ou menos sensível e vulnerável. Não adianta, isso faz parte dos ciclos. Não existe uma resposta que seja uma fórmula, sabe? Mesmo para mim, que tenho esse temperamento, pode ser que em algum momento eu entre numa crise e tenha um uso abusivo de alguma substância, porque afinal pode acontecer com qualquer pessoa. Mas acho que a questão é tu teres um norte, um acompanhamento terapêutico. Eu sei que preciso de terapia até o fim da vida. Sou uma pessoa trans, eu vivo neste mundo aqui. Por mais que eu seja a boazuda que não tem medo de nada, que enfrenta tudo, eu sei que sou uma pessoa vulnerável. Mas eu ando na rua e enfrento isso sem medo, porque não quero viver com medo, nem me sentir como se eu não pertencesse a este lugar. Eu pertenço a este lugar, sim. Mesmo assim, tudo que vem junto é como se fosse uma coisa invisível às vezes. Existe uma camada invisível da tua vida que te machuca mesmo, sabe? Eu sei muito bem onde me fere, onde estão as minhas raivas, as minhas angústias, e onde eu acho que estou sendo, entre muitas aspas, injustiçada. Porque a gente sempre tem algum lugar em que está sendo injustiçado, ou se sente injustiçado, mas tem que superar isso. Digo isso porque eu preciso sempre ter uma terapeuta comigo, porque toda semana pode acontecer alguma coisa. Então, para mim, a resposta é que as pessoas precisam cuidar da sua saúde mental. Uma pessoa que tem acompanhamento e faz um uso de cannabis em que não está sendo prejudicada nas atividades concretas da vida, em que não está negligenciando a saúde, o trabalho, os estudos, em que as coisas estão indo bem, e fuma o beck dela, ótimo. Mas a pessoa que está com um sofrimento psíquico, não sei se ela está assim por causa do abuso. Às vezes o abuso acontece por causa do sofrimento psíquico, entendeu? Para mim, a medida é essa. A gente tem que olhar para as coisas com esse cuidado. Porque de fato é uma parada para quem pode. Nem todo mundo pode fumar. Eu não posso beber álcool. Tem gente que pode tomar uma taça de vinho todo dia e vai ficar de boa. Eu não posso. Eu não tenho uma gota de álcool na minha casa. Se eu tiver uma gota de álcool na minha casa, eu vou beber e vou ficar bêbada. 

Quais outras ferramentas além da maconha te levam para esse lugar solar?

Eu acesso esse lugar com a rotina. Hoje em dia sou uma pessoa que tem uma rotina de muito exercício físico. Tenho quatro bichos em casa, um cachorro e três gatas, e os meus bichos me trazem essa coisa de estar presente com o mundo da luz do dia, da natureza, da vida. A presença deles me aterra, porque a gente vive nesse mundo das artes, e existe uma cobrança interior muito forte para tudo. Eu acho isso muito cafona. Gosto muito da vida real, gosto de estar nas minhas coisas. Eu viajo muito, então quando estou em casa, esse momento para mim é sagrado. Preciso fazer a minha comida, lavar as minhas coisas, arrumar a minha rotina, fincar os pés na terra. Não suporto viver numa festa forever. Não consigo.