Na Breeza

Uma companheira nas festas

Por Filipe Vilicic

A ideia de chamar sua iniciativa de acolhimento às mulheres e a pessoas LGBTQIA+ de Lady Bud veio de uma conversa com o artista Remela sobre como imaginava a identidade visual de sua marca. Nas trocas de ideias, Eduarda Amorim, a Duda, estava pensando no nome Lady Dry, mas aí Remela desenhou um bud de maconha como uma mulher, passaram a pensar no nome Lady Bud, combinou até como referência à joaninha (ao nome em inglês do inseto, ladybug), e colou. Mas a flor da maconha representa bem mais para Duda e para sua Lady Bud, pois reflete o espírito canábico que tanto a acompanha na vida, quanto está permeado em sua ação.

“As mulheres são julgadas por serem maconheiras. Ah, você já não é uma boa mãe. Ah, você não serve para esse cargo. Com isso, a gente vai entendendo que as duas lutas se atravessam, a do ativismo da cannabis e a do feminismo”, defende ela.

Duda começou a usar ainda jovem, com um grupo de amigos. Filha de uma família mais tradicional nas ideias, estudava em um colégio adventista, onde “não podia pintar a unha, não podia fazer mecha no cabelo, não podia usar anel, não podia usar brinco, não podia…”. Para ela, a maconha era uma forma de se “aproximar mais de quem eu queria ser”, pois sentia que a família queria a moldar de um jeito que não era o dela. “Foi algo que me abriu portas, abriu meus olhos, mostrou que não preciso ser quem o sistema quer me moldar para ser”, compartilha.

A concepção da Lady Bug lhe veio em 2019, quando tinha 20 anos e sofreu um caso de importunação sexual em um festival. Ela notou que estava sendo perseguida por um homem, mas, quando alertou a equipe de segurança, foi invalidada: “Falaram que devia ser coisa da minha cabeça e acabei até deixando pra lá”. Isso no 1º dia de festa, pois no 2º, a cena se repetiu e um amigo dela perguntou: “Conhece aquele cara, pois ele não para de te seguir?”.

Quando ficou muito óbvio que o agressor a seguia, o mesmo amigo abordou a pessoa, que tentou fugir da situação. E quando ela foi acompanhada de seu amigo para falar novamente com a equipe de segurança, finalmente foi levada a sério. “Se eu não tivesse alguém ali comigo, que era um colega, né?, um homem especialmente, eu não teria sido validada, eu teria sofrido mais invalidação”. 

Quando a mulher faz a denúncia, Duda sente que o primeiro pensamento que vem é de que será julgada. Por isso, a Lady Bud nasceu do princípio de ser um lugar onde “seja validada, seja ouvida, realmente acolhida, que se chegar para fazer uma denúncia, o primeiro pensamento não vai ser o de que vão lhe apontando o dedo: ‘Ah, mas por que você tava sozinha, usou essa roupa?'”.

A flor que acolhe

A primeira atuação da Lady Bud se deu em 2022, em uma festa de tecno em São José dos Campos, no interior de SP. Era uma balada mais underground e ela descreve como uma “experiência incrível, mas assustadora”. Apavorava pois estava ali pela primeira vez na linha de frente, atuando em parceria com o ambulatório, com a equipe de segurança, com os bombeiros, e recebendo mulheres e o público LGBTQIA+, que reclamavam de homens assediadores, assim como aquelas que tinham usado alguma droga e se sentiam vulneráveis. 

Nos últimos quatro anos, é claro que Duda ganhou confiança no negócio e agora é contratada por grandes festivais, como a última Head Grow em agosto, para fazer o acolhimento de públicos com dezenas de milhares de mulheres, sendo que neste ano de 2026, já esteve em 17 eventos. No último ano da faculdade de psicologia, tem estudado o atendimento delas, assim como pautas de redução de danos. A administração da Lady Bud, conduz sozinha, mas com o apoio de uma equipe de colaboradoras que a auxiliam em cada ação, dividida em três braços: corpo jurídico, psicólogas e time de diversidade. Em alguns eventos há também parcerias para ações de redutores de danos.

O espaço da Lady Bud oferece um lounge de descanso, onde elas podem tanto tomar água e comer algo quando encaram uma bad trip, quanto conseguem se sentir seguras com a equipe do projeto, como para compartilhar assédios que tenham sofrido. Há protocolos que vão de como reagir em casos de estupro (elas recolhem provas, chamam a polícia, disponibilizam advogada e mais), o que nunca ocorreu nos eventos em que estiveram, assim como a brigas de casais ou pessoas que exageram no uso de alguma substância.

“Cada situação é uma demanda, cada situação é um protocolo”, comenta Duda. “Mas o que é igual em todos os casos é que o agressor precisa ser penalizado, nem que seja com a retirada do lugar, e a vítima tem de ser ouvida e a ela ser dado poder de escolha”. 

“Já teve assédios, agressão, briga de casal, com e sem agressão, caso de violação de medida protetiva”, lembra a criadora da Lady Bud. “Temos as ferramentas para lidar com cada caso”. Na última Head Grow, fizeram atendimentos de assédio, como um que ocorreu dentro de um estande, com uma mulher que trabalhava no local. “Foi um caso complexo porque a vítima se sentiu acuada”, comenta. “Ela não quis fazer a denúncia lá na hora pra gente, o que é muito normal, tanto que o nosso canal de denúncia anônima ficará aberto por 15 dias após o evento”. 

E se alguém chegar na bad?

“Nosso acolhimento no uso de substâncias é mais de cuidado, de respeito, de calma”, diz Duda. Geralmente há uma equipe de redutores de danos focada em atender esses casos, oferecendo espaço seguros, com puffs, águas e frutas, e escuta.

Quando envolvem agressões por conta de abuso de substâncias, é outra história. Os agressores são sempre isolados, normalmente sendo primeiro conduzidos para o ambulatório pela equipe de segurança, e as vítimas são acolhidas no espaço da Lady Bud.

Casos de problemas por uso de ganja são raríssimos, e até agora se restringiram a pessoas que estavam desidratadas e precisavam descansar e tomar uma água, ou tinham de sentar para lidar com uma crise de ansiedade. “A maconha é um medicamento para muitas pessoas, mas, se não souber dosar, inclusive com limites de práticas de redução de danos, ou então misturar com outras substâncias, como tabaco, pode dar pressão baixa, desidratação, o teto preto”, alerta.

Ter a flor da cannabis no logo do projeto, todavia, nem sempre é bem-visto por produtores que contratam seu trabalho. “Há aqueles que apoiam muito, que são desse universo, só que ao mesmo tempo tem aqueles que julgam que perguntam se o logo não poderia ser outro”. Há ainda muito tabu, assim como ela compartilha que existem alguns que acham que a questão das drogas não pode coexistir no mesmo ambiente que o acolhimento às vítimas de violência de gênero. “Claro que pode coexistir, porque essas duas missões têm o mesmo objetivo, sabe? Que é criar identidade, segurança, autonomia”.