*Reportagem originalmente publicada na edição comemorativa de 50 anos da High Times
Por Anita Krepp

Quem vê a atual repressão da França sobre a cannabis não imagina que, no século 19, Paris foi a capital europeia da maconha, ou, melhor dizendo, do haxixe – que chegava no porto de Marseille e abastecia o país. Desde sempre os franceses são os mais fumetas da Europa e usavam o elixir em reuniões sociais e artísticas. A mais famosa delas era do “O clube dos haxixeiros”, um espaço surgido em 1844, onde intelectuais, escritores, artistas e médicos – gente como Charles Baudelaire, Alexandre Dumas e Victor Hugo – se reuniam em rituais de experimentação da iguaria.
Passam-se os anos e a França continua no topo da lista dos países mais maconheiros da Europa, assim como disse o European Drugs Report 2025, que publicou em junho dados que confirmam que 45% dos franceses já experimentaram a erva alguma vez na vida, a despeito da tremenda repressão que sofrem. Apesar de seguir em 1º no ranking do número de maconheiros, a França já não é mais a capital europeia cultural e econômica da maconha há muito tempo. Mais precisamente, desde a proibição internacional, que este ano completa 100 anos, desde o tratado das Nações Unidas, em Genebra, em 1925, em que a planta foi pela primeira vez alvo de proibições internacionais.
Durante algumas décadas, os países europeus – e o resto do mundo – tiveram de lidar com a ressaca do proibicionismo que se instaurara, e o continente deixou de ter um país destaque na cultura canábica. Até que, nos anos 1960, a Holanda assumiu o destaque. “The first controlled recreational sales to private individuals took place between 1968 and 1970 at Paradiso and Melkweg”, lembra Arjan Roskam, dono de uma das marcas mais famosas do cannabusiness e um dos responsáveis por firmar a Holanda, e mais especificamente Amsterdam, na dianteira da cannabis na Europa – e no mundo.
Os coffeeshops transformaram Amsterdã no grande hub europeu da cannabis, graças a uma política de tolerância pioneira. Ainda assim, o chamado “paradoxo da porta dos fundos” — em que a venda é tolerada, mas o cultivo segue ilegal — manteve o sistema em uma zona cinzenta, de semi-legalidade. Esse impasse, no entanto, não impediu a cidade de permanecer por três décadas como o coração da cultura canábica na Europa. E nada garante que não possa voltar a ocupar esse lugar.
“Com sua longa experiência em tolerância e consumo de cannabis e a expertise incomparável como fornecedor global de flores de corte, como as tulipas, a Holanda tem todas as condições para retomar uma posição de liderança no continente — desde que não tropece politicamente”, avalia Jamie Pearson, especialista internacional e consultora da indústria da cannabis.
Pearson refere-se às recentes diretrizes que, em 2024, passaram a permitir o plantio de cannabis por algumas empresas credenciadas pelo governo, que são autorizadas a vender aos coffeeshops. Até então e durante décadas a fio, com o plantio comercial proibido e o autocultivo de até cinco plantas liberado, muitos cidadãos plantavam a sua cota de cannabis para revender aos clubes, que nunca puderam ter constância na oferta de strains e na qualidade das genéticas.
Espanha deprê
Se até os anos 2000 a Holanda reinava plena, já no começo do novo século a Espanha passou a ser o novo epicentro da cultura canábica no continente europeu. O estabelecimento dos clubes sociais e do autocultivo tolerado, possíveis graças a brechas na lei, foi fundamental no processo de normalização da planta na sociedade, muito embora o governo não tenha feito nada para impulsionar a indústria, que faz da Espanha o principal exportador de cannabis para a Europa, com 36 toneladas ao ano (cerca de 40% do total), sem sequer ter ainda regulado o seu mercado interno.
“A desobediência da população e a permissividade que houve depois da ditadura na Espanha fez com que esse universo evoluísse muito na desregulação”, explica Rubén Valenzuela, diretor do Cannabis Hub e do Mestrado com a Universidade de Barcelona, que acredita que a legalização alemã deve provocar um “efeito dominó” em toda a Europa – mas vai tardar mais onde o lobby das farmacêuticas for forte. “Uma vez eu estava vendo a possibilidade de juntar distintas empresas de cannabis que pagariam, em total, US$ 5 milhões para fazer ações de advocacy, e os lobistas com quem me reuni disseram que o dinheiro das farmas era 500 vezes mais.”
Nos últimos anos, a cultura canábica na Espanha sofreu duros reveses: a repressão ao cânhamo, marcada por abusos e prisões indevidas de empresários; a longa espera por uma lei de cannabis medicinal que, quando finalmente saiu, trouxe pouco de novo; e, para completar, as batidas policiais e o fechamento de clubes, especialmente em Barcelona, onde estimativas extraoficiais chegaram a apontar mais de 500 espaços em funcionamento. O resultado foi um freio pesado em uma cena que já tinha se consolidado como uma das mais vibrantes da Europa.
Em meio ao desânimo generalizado que tomou conta da Espanha canábica, um novo país surgiu com planos de legalização. Em abril deste ano, a primeira parte da regulamentação da cannabis de uso adulto entrou em vigor na Alemanha. “A Alemanha hoje lidera o impulso regulatório, a Holanda está reprofissionalizando a cadeia de fornecimento e a Espanha permanece culturalmente relevante, mas legalmente frágil. Assim, é inegável que a Alemanha se tornou o novo centro gravitacional da política de cannabis na UE, com um mercado de dimensões impressionantes”, prevê Pearson.
Eventos são catalisadores da cena
De fato, o otimismo tomou conta da Alemanha – e, assim como ocorre em outros países, concentrado em uma cidade, neste caso, Berlim –, onde os preparativos para a abertura de clubes de consumo parecidos ao modelo espanhol estão a todo vapor. Renan Martins, que viaja por toda a Europa e América Latina como International Commercial Representative de uma marca de sementes e visita, em média, 10 eventos por ano, sentiu o movimento começar a se consolidar no ano passado.
“A Spannabis sempre foi considerada o principal evento canábico da Europa, mas, como já vem de vários anos e já se consolidou, virou uma coisa previsível. Já a Mary Jane vem surpreendendo desde o ano passado, por ser um mercado inicial e fresco. Tá todo mundo entusiasmado, com muita expectativa por tudo o que virá” compartilha Martins as suas impressões sobre o principal evento canábico da Alemanha, que em 2026 deve se tornar também o mais relevante da Europa.
Eventos canábicos são, ao mesmo tempo, indicadores de que a cena de um país está evoluindo e catalisadores para unir pessoas e ideias em torno da planta – o que, naturalmente, fomenta o crescimento da indústria e o engajamento da sociedade no tema. Assim como acontece agora na Alemanha, com a Mary Jane, aconteceu na Espanha, com a Spannabis, e também na Holanda, com a Cannabis Cup, evento realizado pela High Times entre os anos de 1988 e 2014.
Não dá para dizer exatamente qual país será o próximo centro de cultura canábica da Europa, mas dá para afirmar que, qualquer que seja o país, ele precisará de pelo menos duas coisas: clubes (ou coffee shops) que deem acesso à erva e eventos canábicos que se tornem ponto de encontro de muitas outras nações canábicas. Tampouco se sabe qual será o próximo país a ocupar o lugar em que a Alemanha acaba de se aconchegar.
Se a gente for olhar para “as dinastias” de Holanda e Espanha, apostaríamos em no mínimo duas décadas, mas Pearson acha que não. “Os ciclos de reforma estão se encurtando. Os retrocessos judiciais na Espanha, os testes-piloto na Suíça e Holanda e o modelo escalonado alemão indicam atualizações regulatórias a cada 3–7 anos, não mais em blocos de décadas.”
Palpites para o futuro
Apesar do acesso à erva de forma relativamente fácil e segura em alguns países ainda não legalizados da Europa, regulamentação, de fato, só existe em Malta, Luxemburgo e, agora, Alemanha. E, como você há de imaginar, o impacto da legalização na Alemanha tem um outro peso na política canábica do bloco, além de servir de inspiração para quem estava receoso de botar os dois pés nesse rio. A partir de 1º de janeiro de 2026, entrou em vigor na República Tcheca uma reforma que legalizou o cultivo e a posse de pequenas quantidades de cannabis para uso pessoal por maiores de 21 anos.
Para Olivia Ewenike, uma advogada alemã especializada em direito regulatório de cannabis e farmacêutico, que já orientou e acompanhou mais de cem clubes no processo de solicitação de licenças de cultivo, embora a República Tcheca já tenha definido um cronograma firme de reforma, Portugal parece ser o próximo candidato lógico para ganhar lugar no ranking. “Portugal tem a política de descriminalização mais abrangente da Europa desde 2001, criando uma ampla aceitação social do consumo de cannabis. Além disso, nos últimos anos, vários partidos políticos apresentaram projetos de lei para estabelecer um mercado recreativo regulado e, embora nenhum tenha sido aprovado ainda, o debate público está ativo e em andamento por lá.”
A expert prevê, ainda, que não apenas para a Alemanha, mas para toda a Europa, o desenvolvimento de uma indústria canábica totalmente comercial – comparável ao tabaco ou ao álcool, e talvez um dia rivalizando com eles em participação de mercado, como já acontece em jurisdições como Canadá e partes dos Estados Unidos, onde a cannabis regulada começou a desafiar os mercados tradicionais de álcool e tabaco tanto em receita quanto em preferência do consumidor.
Entre os desafios ainda não mapeados nas regulações europeias, Ewenike acredita que ganharão destaque questões relacionadas à propriedade intelectual. “Os direitos de variedades vegetais e patentes de strains estão prestes a se tornar um campo de batalha significativo na próxima década”, adianta. Enquanto isso, ela confia que a descriminalização chegará em breve para a maioria do continente.
Que tal unir novamente o cânhamo e a maconha?
No entanto, é possível que em breve os países da União Europeia percam sua autonomia para decidir individualmente sobre a cannabis – e também outras drogas. “A União está tomando para si a competência que sempre foi dos países membros, e tá fazendo de uma forma não muito honesta. E isso é provavelmente a coisa mais importante que está acontecendo na Europa, os países estão perdendo a soberania para regular a cannabis”, adverte Kenzi Riboulet-Zemouli, pesquisador referência em política de drogas na Europa, que destaca a mudança de nome e de escopo do Observatório Europeu de Drogas para Agência de Drogas da União Europeia, gesto significativo.
E a Hungria tem grande parte nisso. Em 2020, quando a UE delimitou que todos os países do bloco votassem a favor da desclassificação da cannabis na Comissão de Drogas da ONU, a Hungria foi o único dos sete votantes a contrariar o bloco. “Então a UE decidiu remeter a Hungria ao Tribunal de Justiça da União Europeia”, conta Riboulet-Zemouli.
E por descumprimento das obrigações que lhe incumbem nos termos da decisão do Conselho e por violação da competência externa exclusiva da União, bem como do princípio da cooperação leal, segundo a própria Comissão Europeia. “Essa atitude desviante e pouco estratégica da Hungria, seguramente fará com que o Tribunal convalide que a competência de política de drogas seja de fato da UE, e os países que quiserem ir além terão que enfrentar um monstro jurídico”, teme o especialista, que também acredita que a regulação alemã possa estar em risco no futuro por ter passado mais por acordos políticos que jurídicos.
Nada que impeça a consolidação do país como centro cultural canábico dos próximos anos. Coisa que toda a Europa poderia também aspirar. “A Europa é canábica desde o Neolítico, e há 100 anos a cannabis era considerada fármaco nas farmacopeias de 95% dos países europeus”, diz Riboulet-Zemouli, citando um dado de uma pesquisa sua. E completa. “Para que voltemos a ter uma Europa canábica, é preciso reconectar com esse passado que sempre foi de cânhamo e maconha na mesma planta, ao mesmo tempo, e os humanos sabiam diferenciar e saber o que fazer com cada parte. Isso é sabedoria popular, história, tradição, e devia nortear o futuro.”