Na Breeza

Que tal fabricar a sua própria droga?

Na noite de Halloween de 2024, um homem de boné e máscara apareceu diante dos 2.500 assinantes pagantes do seu Patreon para apresentar aquele que ele mesmo classificou de vídeo mais importante da sua vida. Durante três dias, mostraria o passo a passo da produção do que chamou de “LSD 100% puro”, num tutorial que anunciou como o primeiro do mundo. O boné dizia Mycelium Familia, a barba escapava por baixo da máscara e o rosto, como sempre, ficou de fora do enquadramento.

O homem atende por William “Willy” Myco, apelido que abrevia micologista, o cientista que estuda fungos. O sobrenome verdadeiro ele não revela nem para a WIRED, que publicou em agosto um perfilaço assinado pelo jornalista Mattha Busby contando a história desse professor de química que os psiconautas do mundo inteiro conhecem e que agora chega aos leitores da Breeza. Aos 38 anos, nascido em Boston e morando em Porto Rico, terra natal dos pais, Myco soma mais de 120 vídeos na última década, ensinando desde o cultivo de cogumelos de psilocibina até a extração de mescalina de cactos e a preparação de cartuchos de vape de DMT.

A relação dele com as substâncias começou bem antes das câmeras. Em 2002, seguindo um método de extração publicado em literatura científica, ele conta que produziu o próprio DMT em plena depressão, depois da separação dos pais e da morte de um tio. Na viagem, afirma ter conversado com o tio morto, que lhe garantiu que estava tudo bem. “A partir dali, eu sabia que queria fazer parte da história dos psicodélicos”, disse à revista americana.

Formado em microbiologia, Myco passou pelos fóruns clássicos da cultura, Shroomery, Mycotopia e Nexus, a partir de 2009, e saiu de lá com a bronca que fundaria seu projeto de vida. Aquelas comunidades, guardiãs do saber psicodélico na internet, funcionavam feito clubinho fechado. “Eles tratavam os novos cultivadores e químicos feito lixo”, resume. Foi trabalhar numa farmacêutica em Boston, ganhando mais dinheiro do que já tinha visto, mas em 2014 gravou, de máscara de gás, seu primeiro vídeo sobre cultivo de cogumelos. Meses depois, ao logar de novo na conta, encontrou milhares de inscritos esperando por ele. Pediu demissão, abriu um Patreon e batizou os apoiadores de Trip Team family.

A internet como laboratório

O que começou como tutorial virou operação. No auge, o Patreon somava mais de 14.500 assinantes, e Myco ainda vende genética de cogumelos, consultoria para cultivadores e merchandising, incluindo o moletom com o lema “Love My Country But Fuck The Government”, que ele mesmo vestiu no vídeo do LSD. Documentos de faturamento compartilhados com a WIRED indicam uma renda anual que passa com folga das seis cifras em dólar. Porque o que sustenta essa economia toda, no fim das contas, é o pertencimento. 

Todo ano, Myco organiza viagens em grupo com mais de 30 seguidores, já levou a turma à Disney e prepara para outubro o “Tripaween” em Sedona, no Arizona, com direito a cerimônia de São Pedro guiada por xamãs navajos no deserto. “Eles não são minha família biológica, mas são a família que eu escolhi, e eu daria minha vida por eles”, declara.

Em meados de 2023, o professor decidiu encarar o projeto mais ambicioso da carreira e levar para a tela as rotas de síntese de LSD estabelecidas há décadas por Albert Hofmann e Sasha Shulgin. “Um químico pode pegar um esquema de síntese e sintetizar LSD, mas para o cidadão comum aquilo parece hieróglifo.” Para se proteger, afirma ter encontrado em 2024 um laboratório universitário no Paquistão com autorização governamental para produzir psicodélicos com fins científicos, onde gravou também um vídeo de síntese de MDMA e, em março de 2026, outro de 2C-B, substância apelidada de tripstasy. 

O próximo alvo é o 7-OH, composto derivado do kratom que a agência antidrogas americana está prestes a proibir e que, segundo Myco, tem tirado muita gente do vício em opiáceos. A Breeza, vale dizer, não vai reproduzir nenhum detalhe operacional dessas receitas. A graça da história está em outro lugar.

Quem confere a pureza

No fim do vídeo do LSD de que falamos no abre deste perfil, o colaborador químico de Myco ergue um frasco de líquido azul-esverdeado, e nenhum teste é feito diante das câmeras para confirmar o que há ali dentro, fato que não passou batido por Hamilton Morris, referência em química psicodélica e criador do Hamilton’s Pharmacopeia, que afirmou “com certeza absoluta” que aquilo não era LSD 100% puro, a começar pela cor, que ele nunca tinha visto na substância. 

Myco admitiu erros menores na apresentação, defendeu a rota de síntese e sugeriu que o crítico estaria incomodado com o pioneirismo alheio. A briga entre os dois deixa no ar a pergunta que ninguém no universo Myco sabe responder. Se o conhecimento agora é de todo mundo, quem valida o que está sendo ensinado?

Os incomodados se multiplicam. Produtores de drogas mandaram recados ameaçadores antes do lançamento do vídeo do LSD, avisando que a publicação atrapalharia muitos negócios, e hoje Myco anda armado por Porto Rico. O YouTube derrubou seu canal de 96 mil inscritos depois que a WIRED procurou a plataforma, e o Patreon veio abaixo na sequência, sob a justificativa de que instruções para fabricar substâncias controladas violam as regras da casa. “Sei que sou um renegado, mas não promovo o uso. É tudo científico, é tudo educação, na esperança de promover redução de danos”, defende-se ele, que pretende recorrer da decisão e, enquanto isso, segue pelo Discord e pelo site próprio.

Num momento em que os psicodélicos entram nas clínicas, nos protocolos e nos comitês de ética, Myco aposta na autossuficiência radical dos quintais e das cozinhas. Os fãs o tratam de Robin Hood, os críticos apontam que a confiança dele corre na frente da ciência que consegue demonstrar, e ele, inimigo declarado dos gatekeepers, segue construindo a própria marca, a própria assinatura mensal e a própria autoridade dentro da cultura que jurou libertar. “Os gatekeepers queriam manter o conhecimento mistificado para sempre. Eu quero que as pessoas vejam que podem fazer isso sozinhas em casa, por uma fração do preço”, repete o professor. Namastê, Willy.