Na Breeza

A personificação da maconha

Por Anita Krepp

Se a cannabis tivesse que ter uma cara, teria a cara – e principalmente a vibe – da Luna Stower, uma ativista da cannabis que, por acaso, foi nascer nos Estados Unidos, mas que na verdade é uma cidadã do mundo, e que por ele viaja levando informação, graça, beleza e simpatia, mostrando que essa planta não é assim um bicho de sete-cabeças e demonstrando, na prática, como o ativismo pode se misturar com a indústria de forma ética e visionária.

Luna tem quase 40 anos de idade e dedicou mais da metade do seu tempo de vida a espalhar a palavra da cannabis e ajudar a criar um ambiente mais amigável e menos tóxico dentro desse nicho. Menos tóxico para as mulheres que nele trabalharam, menos tóxico entre os concorrentes que, óbvio, podem sentir inveja, e dessa inveja, se inspirar a melhorar seus negócios com produtos e serviços mais interessantes, criativos e também mais comprometidos com a comunidade e a cultura canábicas.

É, parece mesmo que o ecossistema brasileiro da maconha tem muito o que aprender com a Luna. E a verdade é que isso já acontece em algumas oportunidades todos os anos, geralmente durante os eventos mais importantes do setor, quando ela desembarca em Terra Brasilis com toda a sua enorme bagagem – e eu não tô falando da de roupas – para trocar ideias e experiências com aquele brilho nos olhos que só os apaixonados têm.

Admiração à primeira vista é o que costuma acometer quem cruza com essa ativista, que também é relações-públicas e se tornou, para além de tudo isso, uma observadora privilegiada dos processos culturais e econômicos que acompanham o avanço da cannabis nos Estados Unidos e no mundo. Luna é, ao mesmo tempo, testemunha e agente da história que a planta vem escrevendo em muitos países, com especial intensidade na última década. 

Uma semana por mês em casa

Essa bagagem cresce em ritmo acelerado. Luna já passou por mais de 40 países e calcula ficar em casa, em Oakland, na Califórnia, uma média de uma semana por mês. Tem temporadas em que ela desfaz uma mala apenas para arrumar a seguinte, numa rotina que exige muito mais suor do que sugerem os feeds dessa vida de aeroporto. 

“Definitivamente não é tão glamouroso quanto o Instagram faz parecer. É muito responder e-mail de aeroporto, atender ligação de quarto de hotel, trocar de roupa em banheiro, comer em horários bizarros, arrastar mala por paralelepípedos, acordar sem saber em que fuso horário estou.”

Se cansa o corpo, a estrada também virou a maior escola dessa verdadeira embaixadora da erva. “Ninguém entende o movimento canábico global lendo relatório de mercado ou frequentando conferência. É preciso sentar com as pessoas que vivem sob aquelas leis, cultivam aquelas plantas e constroem aquelas comunidades”, explica Luna.

Entre tantas milhas acumuladas, uma viagem ganhou o posto de experiência mais surreal da vida, quando a agência chilena En Vola reuniu vinte e tantas pessoas de diferentes cantos da comunidade canábica global e levou todo mundo até Ushuaia, para fumar uns, literalmente, no fim do mundo.

Os momentos favoritos dela, no entanto, costumam acontecer longe dos grandes palcos. É nas visitas a fazendas, nas fumadas com growers, nas refeições divididas com ativistas que ela descobre que alguém do outro lado do planeta conhece as mesmas genéticas e as mesmas histórias com que ela cresceu. Porque sim, a história dela com a planta começou muito antes de qualquer crachá. Luna foi criada no Emerald Triangle, a lendária região produtora do norte da Califórnia, e aprendeu a cultivar com os growers raiz que preservavam genéticas, remédios e cultura numa época em que se ia preso por isso.

Filha do Triângulo Esmeralda

Dessa infância entre os pés de maconha nasceu a certeza de que a relação com a cannabis seria sempre maior do que uma carreira, uma questão de soberania corporal, autonomia médica e justiça social. É também de lá que vem a régua que ela usa para se diferenciar numa cena de relações públicas infestada de palavras da moda, promessas ridículas e credibilidade fabricada. 

“Você não consegue fingir vivência com a cannabis. Estou em volta dessa planta há mais de 30 anos. Eu cultivei, vendi, construí empresas em torno dela, eduquei sobre ela, fiz lobby por ela, fui juíza de copas, usei como remédio e viajei o mundo por causa dela.”

O currículo que ela construiu a partir dessa vivência daria inveja em muito executivo do setor. Luna foi a funcionária número 1 da Jetty Extracts, uma das primeiras marcas de vape da Califórnia, que ajudou a erguer nos primeiros anos da legalização no seu estado natal, e depois passou cinco anos na Ispire, onde chegou ao cargo de Chief Impact Officer, trabalhando internacionalmente com tecnologia, padrões de qualidade, redução de danos e políticas públicas. No caminho, ainda virou Ganjier certificada, jurada da Emerald Cup, a primeira premiação estadual de cannabis do mundo, e fez lobby pela descriminalização dos enteógenos na sua cidade.

Hoje, depois de anos ajudando a construir as empresas dos outros, Luna toca a própria agência de consultoria e escolhe com cuidado o que constrói e com quem. O trabalho atravessa estratégia, parcerias, educação, comunicação e advocacy, sempre costurando cultura de legado, negócios, ciência e justiça, os fios que na visão dela precisam permanecer juntos para que a planta avance sem trair as próprias origens. “Legalização sozinha nunca foi o ponto final. Podemos criar uma indústria global enorme e ainda assim falhar completamente com as pessoas e as comunidades que carregaram essa planta através da proibição.”

Terra Brasilis no coração

Nessas idas e vindas, o Brasil foi ganhando um lugar especial no mapa afetivo de Luna, que cita nominalmente o trabalho de Thabata Neder e do clube Nagual quando quer explicar o que a encanta por aqui. Enquanto em boa parte dos Estados Unidos a legalização virou rapidamente comercialização e corporativização, ela enxerga no ecossistema brasileiro uma força que aqueles mercados perderam pelo caminho, a conexão viva entre pacientes, famílias, cultivadores, associações, pesquisadores e gente brigando por acesso. 

“No Brasil, existe uma urgência por trás, porque as pessoas ainda precisam empurrar contra a proibição e o estigma de formas muito reais. E, ao mesmo tempo, o conhecimento, a sofisticação e a paixão que encontrei aqui são incríveis”, conta ela.

A torcida de Luna é para que o país siga desinteressado em copiar o modelo americano, aproveitando as muitas lições da Califórnia e de outros mercados legais sobre o que evitar. O que mais a anima é a possibilidade de o Brasil construir algo que proteja pacientes, cultivo comunitário, justiça social e as pessoas que de fato lutaram pela planta, em vez de esperar a legalização chegar para entregar tudo a quem tiver mais dinheiro.

Enquanto esse futuro amadurece, Luna segue cruzando fusos com a bagagem cada vez mais cheia. Os títulos e os países mudam o tempo todo, ela avisa, mas a missão continua a mesma desde sempre. Que a gente aprenda direitinho a lição, Luna.