Na Breeza

Atuando no cultivo

Por Filipe Vilicic

O que separava Carol Mafra de uma vida dedicada à maconha eram alguns posts fumando uns no Instagram. Atriz de um grupo de teatro, há pouco mais de quatro anos ela compartilhava nas redes sociais mais informações de suas apresentações. “Sempre fui fã da planta e aí comecei com um ou outro story fumando, fui saindo do armário devagarinho”, nos conta.

O perfil dela foi “paulatinamente se transformando em conteúdo canábico”, pois os conteúdos do tema atraíam atenção, curtidas, comentários. Carol experimentou a erva pela primeira vez com 18 anos, em roda com amigos, e já estava se aventurando pelo cultivo desde anos antes, tinha começado em 2019. Porém, guardava esse lado maconheira para os mais íntimos, aquela saída do armário no Instagram seria uma virada de capítulo, tanto que sua página passou a se chamar Atriz Cannabica.

“Foi amor à primeira tragada, né?”, lembra ela, sobre a primeira vez que brisou, com amigas na praia. “Hoje em dia uso tudo de cannabis, inclusive alimento, com semente de cânhamo, que é super proteica, é vegana, é maravilhosa, e creme, pomada, óleo, todo o meu dia a dia é assim, até as roupas são com a planta, que é o que eu acho mais sustentável, o caminho da evolução.” 

Do plantio a ensinar

Carol entrou para o setor canábico ao começar a trabalhar em uma empresa da área, uma que já fechou e que fazia a ponte do paciente com os médicos e todas as autorizações para importar. “Foi um caminho natural eu também fazer para mim, já estava nesse trampo de ajudar as pessoas com tudo para começar o tratamento”, diz. 

Diabética, conta que desde que começou a fumar, sentia que a cannabis mexia com sua enfermidade, só não sabia ao certo como. Com o tempo, foi descobrindo estudos que mostravam esse benefício, particularmente do canabinoide THCV (sobre o qual já falamos, em texto da Breeza no blog da Flora Urbana). “Controla nossos impulsos, equilibra o nosso açúcar do sangue, funciona como um antagonista do THC. E aí a indústria farmacêutica logo pegou e já começou a fazer remédio para emagrecer e coisas assim”, comenta.

Começou o plantio com experimentações próprias, lá por 2019, buscando tanto a brisa do dia a dia, quanto o medicamento para a diabetes. No início, foi um processo de autoexperimentação, com várias tentativas falhas. “Quando fui atrás do meu habeas corpus, fiz o depoimento de como ao plantar genéticas ricas no canabinoide (THCV), comecei a diminuir a quantidade de insulina que tomo diariamente”, diz ela, que teve o primeiro HC liberado para pessoas diabéticas. Carol se especializou no cultivo e, em particular em haxixe, no processo de BHO (sigla em inglês para Butane Hash Oil, ou Óleo de Haxixe de Butano). A técnica, que hoje ela ensina em cursos e eventos, usa gás butano para separar os tricomas da planta.

Após passar por outras experiências no setor, como no cultivo de associações, hoje se dedica à vida de consultora e ensinando o que aprendeu sobre a erva. “Com equipamento certo, no laboratório, máximo de segurança das pessoas, até para desmistificar um pouco esse assunto, porque tem muita gente no meio do haxixe que tem um pouquinho de preconceito com esse tipo de haxixe, mas na verdade tudo é haxixe, né? Tudo é coletar tricomas da melhor maneira que você acha, e para mim funciona muito bem o BHO”, comenta, entrando já na polêmica que por vezes é o método que ela utiliza, por ser mais, digamos assim, “químico” (e certamente arriscado se não feito com muito exímio). 

Empolgada com o chamado da ganja, compartilha que não gostaria de voltar à vida antes dessa conversão canábica. “Passei 13 anos numa companhia de teatro ganhando, sei lá, nada… depois de meses em cartaz. Era uma vida bastante cruel nesse sentido”, compartilha, acrescentando que nisso também a cannabis lhe traz mais. “Agora tenho uma função que não é mais só egocêntrica como era antigamente, me arrisco a dizer. Tô a serviço de algo que é muito maior do que eu, e acho que minhas habilidades me ajudam nesse sentido, sabe?”, conclui, dando o tom de missão para a causa canábica que abraçou.