Por Murilo Nicolau

Em janeiro de 2027, um telão vai se erguer no Jardim Suspenso do Valongo, no coração da Zona Portuária do Rio, para exibir filmes sobre cannabis ao ar livre. A poucos metros dali fica o Cais do Valongo, maior porto de desembarque de pessoas escravizadas das Américas, tombado pela Unesco.
Foi ali, na região hoje chamada de Pequena África, que a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou, em 4 de outubro de 1830, a primeira lei de proibição da cannabis do mundo ocidental. A chamada Lei do Pito do Pango previa multa de 20 mil réis para o boticário que vendesse a planta e três dias de cadeia para o escravizado que a consumisse.
Quase 200 anos depois, a planta volta ao mesmo bairro, mas dessa vez como estrela de cinema.
O Festival Internacional de Cinema Canábico (FICC) chega à sua segunda edição no Rio entre os dias 19 e 23 de janeiro de 2027, com entrada gratuita. A sede principal fica num casarão na Rua Camerino, com exposição de arte, espaço literário e oficinas, enquanto o jardim suspenso ao lado recebe as exibições, os debates e as atrações musicais ao ar livre.
O festival desde 2019 já soma catorze edições entre Montevidéu, Buenos Aires e Santiago, e o Rio entrou nesse circuito latino-americano em 2025, na sua primeira edição brasileira.
Os números da estreia carioca ajudam a explicar por que há uma segunda edição. Foram 49 filmes selecionados de 15 países, entre curtas, longas, documentários e videoclipes e cerca de 2 mil pessoas no público presencial.
Para 2027, a mostra competitiva mantém cinco categorias: melhor longa de ficção, melhor longa documentário, melhor curta, melhor curtinha ou videoclipe e melhor filme por voto popular, isso sem falar na seção “Outras viagens”, dedicada a obras que retratam outras substâncias psicoativas.
As inscrições estão abertas até 21 de agosto de 2026 e são elegíveis filmes concluídos a partir de 1º de janeiro de 2022, de qualquer duração ou formato, desde que o realizador detenha todos os direitos sobre imagem e trilha sonora.
Na tela, a cannabis pode ser tudo: tema de filme, de ficção, de documentário, de videoclipe, uma protagonista sem pudor e sem tarja. Porém fora da tela, para poder circular, ela ainda depende de habeas corpus, interpretação de Tribunal e um pouco de sorte para não ser encontrada por um agente público que desconhece a legislação medicinal.
Enquanto a arte do cinema autoriza qualquer enredo, a vida real segue vivenciando decisões que restringem seu uso, mesmo que medicinal, como mostrou o caso que comentamos no texto passado.
Não se trata de dizer que um festival de cinema resolve dois séculos de proibicionismo. É evidente que curadoria de um júri internacional não substitui política de Estado, e a liberdade de tela não é liberdade de rua.
Mas há algo simbolicamente potente em erguer um telão de cannabis livre a poucos metros de onde ela foi proibida pela primeira vez no nosso país, sob uma lei feita para criminalizar corpos negros e escravizados.
Se a cannabis já pode ser protagonista de filme sem pedir licença a ninguém, quando ela vai poder ser, na vida real, apenas mais um remédio no bolso de quem precisa?
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