Na Breeza

A lei é contra a natureza?

Por Filipe Vilicic

Eram 6 da manhã quando Rogério Di Girolamo teve uma arma apontada para seu rosto ao abrir a porta de seu apartamento na Vila Madalena, em São Paulo, após acordar ao som de batidas fortes. Tratava-se de uma equipe policial do Denarc com um mandado de busca e apreensão para pegar computadores, seu celular, carros em nome da empresa, reviraram toda a sua residência. E não só, pois ele logo saberia que também haviam entrado no seu centro de distribuição e em seu sítio.

Fundador da Natureza Divina, Girolamo foi acusado de tráfico de drogas por vender cogumelos, dos que podem ser encontrados nos pastos, e de forma totalmente transparente, com Nota Fiscal e pagando os devidos impostos. “Tô sendo investigado porque o cogumelo contém substâncias proscritas, que são a psilocibina e a psilocina. Porém, o cogumelo não está listado pela Anvisa como proibido e, no meu entendimento, assim como do meu corpo jurídico, como a lei não declara que é proibido, ele pode ser vendido in natura, do jeito que vendemos, sem nenhum tipo de extração, sem encapsulamento… é 100% legal”, nos conta ele.

No dia da batida policial, Girolamo foi preso, e ficou na cadeia por dois dias. Na audiência de custódia, conseguiu sair em liberdade provisória, porém foi impedido pela Justiça de comercializar as amostras botânicas de Psilocybe cubensis, ou seja, de vender o cogumelo mágico. “E não posso ficar oito dias longe de minha residência, tenho de assinar uma série de documentos uma vez por mês, além de que, se planejar viajar, preciso avisar a Justiça antes”. Todo o estoque que tinha do fungo foi levado pelas autoridades e, proibido de vender seu principal produto, na semana passada se viu compelido a demitir 20 de seus 28 funcionários.

A investigação contra ele corre em segredo de Justiça e nem seus advogados têm acesso ao inquérito completo. A Folha de S. Paulo se confundiu ao noticiar que a origem do processo teria ocorrido quando uma passageira foi pega com cogumelos em um voo para o Rio de Janeiro no Aeroporto do Guararapes, no Recife, em 28 de novembro de 2024, o que teria desencadeado o processo contra quem teria vendido o produto a ela.

Ocorre que há duas investigações contra a Natureza Divina. Essa que teve raízes no aeroporto é outra, que ainda não avançou muito. “Já a que veio agora pelo Denarc de São Paulo, e que resultou nessa busca e apreensão, partiu de uma amostragem de uma caixa que enviamos pelos Correios”, esclarece o empresário.

É divina, mas o Estado não gosta

Criada em 2006, a Natureza Divina é referência em etnobotânicos, especializada em plantas do poder. Até o ano de 2012, no seu catálogo estava a Salvia divinorum, mas que naquele mesmo ano foi proibida pela Anvisa. Nisso, o site passou a apostar na venda de outro produto, as amostras botânicas de Psilocybe cubensis

Como despertou o interesse de Girolamo pelo assunto e a vontade de vender as plantas mágicas? Essa história, ele prefere não compartilhar neste momento, pois acha que qualquer revelação pessoal de sua vida pode ser interpretada de forma errada pelas autoridades. Nós da Breeza concordamos, pois, como cantam por aí, haters gonna hate, e nos parece que uma parte do Estado é, antes de tudo, hater do que defendemos, ou seja, vão inventar o delírio que for para justificar a repressão.

“Só comecei a vender o cogumelo depois de muita pesquisa sobre a legalidade”, afirma Girolamo. “Meu corpo jurídico achou que eu poderia comercializar, pelo nosso entendimento de que é legal, né? Se uma coisa não tá na lei, como diz o artigo 5º da Constituição, não há crime sem lei anterior que o defina”.

Isso não impediu a polícia de pressioná-lo, tanto a Federal quanto a de SP. Ele já perdeu a conta de quantas vezes foi investigado: “Foram cinco ou seis, nesses anos todos. Já na primeira investigação que teve lá em 2013, a própria Polícia Federal declarou que o cogumelo não é proibido”. Além de tudo, é um absurdo ele ser escrutinado repetidas vezes, pela mesma razão. Afinal, se a Lei já disse que pode, porque agora ela insiste em persegui-lo? 

A nova operação, essa que o pegou de surpresa às 6 da manhã do dia 1º de julho, ocorreu em segredo de Justiça, após 6 meses de investigações da Polícia Civil de SP. Pela primeira vez em todos os casos do tipo, a Natureza Divina foi pega totalmente de sopetão, sem qualquer aviso prévio. 

“É um prejuízo para a sociedade, para as pessoas como um todo, para o mercado, para os trabalhadores, como os que tiveram de ser demitidos na Natureza Divina”, defende o fundador da Natureza Divina. Se nenhuma outra história surgir aí, se a polícia não estiver guardando com ela algo que não sabemos, realmente se trata de mais um exemplo vergonhoso do Estado, que em vez de focar no que deveria, resolve impedir plantas e fungos de crescerem. É a Lei contra a natureza.

“Uma batalha épica”, define Girolamo, com aquela esperança de logo ser inocentado e conseguir voltar ao seu trabalho que no mínimo pode ser tido como ousado e pioneiríssimo. Tudo aquilo que o Estado e o mercado livre deveriam é incentivar.