Por Anita Krepp

Na primeira vez que tomou cogumelos, numa pracinha de Botafogo, de madrugada, Knap falou por horas seguidas. O amigo Ricardo, que a acompanhava, não tentou interromper. Apenas ria e dizia para que ela continuasse. O curioso é que ela não falava sobre visões, revelações ou qualquer experiência mística. Falava sobre fungos. Sobre a história dos enteógenos. Sobre livros difíceis de encontrar. Sobre artigos espalhados pela internet. Sobre a falta de um lugar onde alguém completamente leigo pudesse começar. Era como se a experiência não estivesse produzindo um discurso novo, mas organizando um conhecimento que já vinha se formando havia semanas. Na manhã seguinte, nasceu o Cogu Rio. “Eu falava tudo que eu tinha estudado. Tudo. Mas era como se não fosse eu falando, porque era como se eu também estivesse me escutando”, lembra.
Hoje, o perfil reúne milhares de pessoas interessadas em cogumelos, mas reduzir o trabalho de Knap à divulgação de enteógenos seria perder justamente o que há de mais singular nele. Ela fala de cogumelos, sim. Mas fala principalmente de estudo, leitura, catalogação e pesquisa. Enquanto boa parte do conteúdo produzido nas redes sociais transforma qualquer assunto em consumo rápido, ela parece determinada a fazer o movimento inverso. Prefere organizar, contextualizar, indicar bibliografia, reunir PDFs, e explicar pacientemente o que quase ninguém teve disposição para explicar antes.
Knap tem 24 anos, estudou artes cênicas, cursa medicina naturopática, mora no Rio de Janeiro com a namorada astróloga e costuma dizer que a gratidão vem antes de qualquer definição sobre si mesma. Cresceu na Região dos Lagos, foi expulsa de casa aos 18 anos por ser uma pessoa trans não binária e precisou reconstruir a vida praticamente do zero. Essa travessia ajuda a entender quem ela é, mas não explica o que faz. O centro da história está em outro lugar. Está na maneira como passou a enxergar o conhecimento como uma forma de cuidado.
Surto de organização
Quando decidiu experimentar cogumelos, fez exatamente o que costuma fazer diante de qualquer assunto desconhecido. Primeiro pesquisou, leu, assistiu a vídeos e encheu um caderno de anotações, e só depois aceitou o convite do amigo Ricardo, vizinho de infância, que durante anos colheu cogumelos diante dela sem despertar qualquer curiosidade. O interesse não nasceu no pasto onde os dois passavam as tardes adolescentes, mas muito tempo depois, quando ela percebeu que sabia pouco demais para tomar qualquer decisão.
Descobriu também que aprender exigia garimpar. Livros importados, textos em inglês, PDFs espalhados pela internet. A biblioteca surgiu menos como um projeto do que como uma consequência natural daquele percurso. “O conhecimento só é bom quando é compartilhado. Não faria sentido guardar aquilo só para mim”, remonta à gênesis de Cogu Rio.
Foi durante essa busca que ela encontrou um problema recorrente. Quem procurava bibliografia sobre fungos e enteógenos em português esbarrava em um vazio. Livros importados. Textos em inglês. PDFs espalhados. Uma desorganização só. Por impulso organizacional, criou um Drive e passou a reunir ali tudo o que encontrava gratuitamente. Separou por temas e compartilhou os links. O que começou como um arquivo pessoal virou uma biblioteca alimentada coletivamente. Hoje, leitores compram livros, digitalizam capítulos e enviam material para ampliar o acervo, o que transformou a curadoria individual em uma rede.
É difícil imaginar um gesto menos compatível com a lógica das redes sociais. Enquanto plataformas premiam velocidade, opinião e novidade, Knap dedica horas a organizar referências que nem levam sua assinatura. Não existe protagonismo em um índice remissivo, mas muita utilidade. Ela acredita que isso muda também a forma como as pessoas se aproximam dos cogumelos. “Quanto mais você busca, quanto mais você estuda, mais você consegue respeitar aquilo. Você vê a história, quem passou por aquilo, e entende o processo.”
A biblioteca dos cogumelos
Essa ideia aparece repetidas vezes quando fala sobre identificação de espécies. Não basta entrar num pasto esperando encontrar um cogumelo. É preciso entender o clima, o solo, a época do ano, a família daquele fungo. Há dias em que ela volta para casa sem encontrar absolutamente nada e, ainda assim, considera que a saída valeu a pena, afinal, observar também faz parte do aprendizado. O conhecimento, nesse caso, não está necessariamente em levar alguma coisa para casa, mas em aprender a voltar de mãos vazias.
Por isso ela desconfia quando percebe que toda conversa sobre cogumelos termina no conceito de “ficar mucho loco”. Não porque rejeite a experiência subjetiva – a primeira dela foi decisiva –, mas porque acredita que a experiência isolada produz muito menos do que o estudo. A transformação, para ela, começa antes da consagração e continua muito depois dela. “Eu acho que o cogumelo sempre tem disso, quando a gente tenta ir pelo lado recreativo, a gente leva uma lição.”
Essa posição acabou moldando também a forma como passou a usar a internet. Antes do Cogu Rio, ficou cerca de quatro anos sem publicar praticamente nada. Não encontrava sentido em alimentar uma presença digital que servisse apenas para acumular atenção. Quando voltou, decidiu que o perfil seria um diário de aprendizado. No começo, predominavam explicações técnicas sobre micologia. Aos poucos, o conteúdo ganhou outra dimensão. Continuou falando de fungos, mas passou a registrar também as mudanças provocadas por eles. Nada de testemunho espiritual, tem mais a ver com um processo contínuo de integração.
A biblioteca continua crescendo. O perfil também. Mas é provável que a maior contribuição de Knap não esteja na quantidade de livros reunidos nem no alcance das publicações. Está, sim, na insistência em defender que o conhecimento exige tempo, presença e repetição, justamente três coisas que a internet parece ter desaprendido. No fim das contas, o episódio mais importante daquela madrugada em Botafogo não foi a primeira experiência com cogumelos, mas sim perceber que existia uma biblioteca inteira tentando nascer enquanto ela falava.