
Em 2021, o lutador de UFC Warlley Alves viralizou ao desafiar Nate Diaz com uma frase que atravessou o universo das artes marciais. “I don’t like maconha, guys.” Cinco anos depois, quem o ajudou a vencer a insônia, reduzir a ansiedade e melhorar a qualidade do sono foi justamente um derivado da planta que ele criticava. A mudança, porém, não veio por acaso. Veio depois de uma prescrição médica e de uma revisão das próprias convicções, sem que isso significasse abrir mão da fé cristã que orienta sua vida.
Nesta conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, Warlley conta como o preconceito que carregava em relação à cannabis deu lugar ao reconhecimento de seu potencial terapêutico, por que continua rejeitando o uso recreativo e como concilia essa experiência com os princípios do evangelho. A conversa também passa pela responsabilidade de ser ídolo para jovens e pelo momento em que descobriu que o CBD funcionava melhor para ele do que o Rivotril.
Warlley, você ficou muito conhecido há uns anos quando saiu por aí chamando outro lutador bem maconheiro pra briga, e dizendo “I don’t like maconha, guys”. Como foi exatamente?
Eu tenho uma linha de vida muito simples e muito comum. Sou uma pessoa simples, cresci numa família simples, e aprendi desde cedo a sempre procurar, dentro da minha concepção, fazer o que é certo. E entendo que, como atleta, a gente tem uma responsabilidade de ser exemplo para uma geração. E tinha um cara que eu gostaria de lutar, que era o Nate Diaz. Na época, ele era um lutador excelente e tinha o hábito de usar maconha e fumar dentro do próprio evento do UFC. Ele sempre gerava aquele tipo de conteúdo. Um cara que é atleta em nível mundial tem que ter, na minha concepção, o mínimo de noção para entender que tem pessoas te assistindo em realidades diferentes. No Brasil, por exemplo, a maconha é proibida. Um moleque que segue fielmente e acha que, pra ser um lutador brabo igual ao Nick Diaz, que de fato é um cara muito bom, muito duro, tem que fumar maconha, vai começar a usar uma coisa ilegal que pode acarretar problemas. Baseado nessa situação, eu quis fazer o convite e provar ali que vencedores não usam drogas. Eu estava vindo de uma derrota e aí precisava de uma vitória. Fui lutar com um cara, mas ele se machucou. E tinha outro, que na época era o queridinho do UFC, tinha feito duas lutas espetaculares, e todo mundo botava ele como imbatível. Me deram pra lutar com ele, só que senti que foi pra favorecer o nome dele. Cheguei lá e falei, “Ah, meu irmão, eu vou sair na porrada com esse cara, vou bater nele e vai dar tudo certo, em nome de Jesus.” Deus me colocou nessa luta. Foi um evento em Abu Dhabi, um dos melhores que eu já fiz. Fiz uma vitória espetacular, e depois disso, o Nate Diaz estava muito no hype, e a gente queria jogar pra ele, tentar ver se ele mordia a isca e a gente conseguia fechar essa luta. Isso dá um boom, tanto na rede social quanto para o evento. Obviamente, ele não ia aceitar, porque não é bobo. Até porque eu não tinha a relevância necessária, nesse nível do esporte, pra estar ali no top 5. Ele já era top 5, ou top 10, não lembro ao certo. Eu queria pegar ele pra entrar no top 10 e começar a disputar pelo cinturão. Então achei esse gatilho, que foi no que eu acredito, porque tudo que falei é verdade. Acredito que vencedores não usam drogas. Tem vários eventos, várias situações, em que atletas de nome foram pegos usando cocaína, esse tipo de coisa. Isso, pra mim, é danoso pro esporte, porque a gente mexe com paixão, mexe com crianças que vêm seguindo aquilo que a gente fala. Hoje eu tô fora, me aposentei por diversas lesões, mas até hoje vejo crianças que se espelham em mim, na comunidade de onde eu vim, no lugar onde fui inserido. Então tenho responsabilidade pelo que sou pra essas pessoas. Não é que cada um tem a liberdade de fazer o que quiser e as pessoas vão seguir aquilo. É por isso que a gente tem, principalmente no Brasil de hoje, uma sociedade extremamente polarizada: um lado defende uma coisa, o outro defende outra, e cada um defende o que acha melhor pra si. Fazendo isso, eu falei, “Meu irmão, vou arrumar luta com esse cara, vou bater nele, vou entrar no top 10 e ainda vou provar que não preciso usar maconha pra ser brabo.” Era essa a intenção.
Já se passaram cinco anos desde aquele episódio. Alguma coisa mudou?
Hoje eu sou usuário de cannabis, porque, por meio da minha médica, a gente fez um trabalho, já que eu tinha problema de insônia. Teve uma época em que eu ia treinar, às 6h30, tinha que estar na academia, e às 5 da manhã ainda estava acordado. Dormia meia hora antes de ir treinar, e, quando voltava, aí sim conseguia dormir. Sempre tive muito essa síndrome do pensamento acelerado, que eu não consigo parar, tenho que resolver um monte de coisa, um monte de problema na cabeça. Sempre tentei descansar, relaxar, mas tinha esse problema. Quando comecei a usar o CBD, minha vida mudou. Às 11 da noite, meia-noite, eu já tô dormindo. Às vezes, quando tô muito cansado, aumento um pouquinho a dose e consigo descansar, acordo bem, disposto. Isso, pra mim, foi um efeito muito positivo. Também tinha um pouco de preconceito, porque, quando a gente fala de maconha, na minha cabeça, de quem foi criado sabendo que maconha é errado… o moleque que crescia com a gente, tinha galera que usava maconha e eram sempre os marginalizados. “Não anda com aquele ali, aquele é marginal.” E, de fato, às vezes, em abstinência, eles roubavam alguma coisa, faziam alguma coisa errada pra conseguir o uso da substância, seja maconha, seja loló, qualquer outro tipo de droga. Eu cresci nesse contexto e tinha esse preconceito com a situação medicinal da coisa. Hoje entendo, pelo pouco que pesquisei — não sou especialista no assunto —, que tem contraindicações em alguns casos, mas em outros é muito benéfico. Disso eu sou super a favor. Quebrei esse preconceito, usei uma gummy, uma jujubinha, pela primeira vez e tive uma noite de sono espetacular. Depois disso, falei, caraca, se eu tivesse descoberto a cannabis na época de atleta, minha vida útil seria muito maior, eu teria rendido muito mais.
O você acha que seria diferente?
O CBD me deixa num ponto que eu não consigo pensar em nada, eu simplesmente relaxo e durmo. Não uso de forma recreativa, não uso pra sair de casa, uso pra dormir. Meu problema é dormir. Chega a noite, eu tô acelerado, preciso relaxar, como uma gummy e relaxo. Assisto um filme, e um tempinho depois, uma hora, uma hora e meia, já não tô mais acordado. É tão bizarro que minha mulher ficou assustada, porque ela dorme comigo, me conhece, e via eu mexendo no celular de madrugada, às vezes até 5 da manhã, sem conseguir dormir. Ultimamente ela tem tirado o fone, porque ela gosta que eu veja televisão com ela no quarto, só que ela dorme. Aí, pra deixar ela dormir, conecto o fone de ouvido na televisão e fico assistindo enquanto ela dorme. Várias vezes ela já acordou e teve que desligar a televisão, porque eu tinha pegado uma jujubinha, ficado relaxando, relaxando, e apagado, comecei a roncar. Aí ela tirava o fone, me virava e me deixava dormir a noite toda. Minha qualidade de sono melhorou, tipo, mil por cento. Pra mim, foi uma coisa muito benéfica. Continuo sendo a favor desse tipo de uso, do uso medicinal, e contra o uso recreativo de formas danosas. Acho que, mesmo que venha a ser liberado, tem que ser com controle, respeitando a individualidade de cada ser humano. Tem gente que vai se dar bem, tem gente que não vai. Tem muito caso de pessoas que geram psicose e outros casos de pessoas que conseguem ficar tranquilas. Então a gente tem que fazer uma parada balanceada. Mas é isso, pra mim, minha vida mudou. Hoje entendo que, se tivesse descoberto isso há dez anos, teria menos lesões, menos situações de cansaço, treinaria menos cansado e conseguiria evoluir, chegar a um patamar bem mais longe.
Por que você acha que demorou tanto para que a medicina da cannabis chegasse até você?
Porque, na verdade, no Brasil isso é um fato claro, a gente criminaliza muito isso. Ainda mais eu, por ser cristão. A gente sabe que não pode ter nenhum tipo de vício, porque vício, segundo a nossa crença, é pecado. A Bíblia fala que aquilo que te domina é o teu senhor, ou seja, se você é dominado por alguma coisa, você vira escravo dela. A Bíblia, Jesus, ele não é contra o vinho, por exemplo, que é uma situação bem polêmica, porque tem igrejas que proíbem o vinho completamente e tem igrejas que deixam você usar, entendendo que você tem que usar e não ser usado pela situação. Beber não é pecado, o pecado é se embriagar. Baseado nesse princípio… chegou um tempo que comecei a ter muita crise de ansiedade, muito problema na cabeça. Eu usava Rivotril, só conseguia dormir com Rivotril. Entre o Rivotril e o CBD, não tem comparação, o CBD é mil vezes melhor. O Rivotril traz diversos malefícios que a cannabis não traz, e tudo isso com acompanhamento médico, com psiquiatra e tudo mais. Agora, por que demorei tanto pra ter acesso? Porque, no Brasil, é muito criminalizado. A primeira vez que tomei essa balinha foi na casa de um treinador nos Estados Unidos, num período em que eu treinava lá com ele. Ele falou, “Qual é, toma aí, você tem problema de insônia também? Isso aqui resolveu minha insônia, toma aí.” Eu tomei e, na hora, tava até conversando com uma amiga nossa em comum, a Rose, no telefone. Comecei a rir, e ela falou, “O que que tá acontecendo?” Eu falei, “Sei lá, tô relaxadão.” Aí dormi. Foi a primeira noite de sono em que eu pensei, meu Deus, eu quero ter essa noite de sono pelo resto da vida. Depois disso, falei com a minha médica, a gente fez os exames, ela passou a prescrição pra mim. Comprei e uso o CBD pra dormir, já faz um ano que eu uso, e tá sendo maravilhoso.
E você acha que tinha um certo preconceito da sua parte nessa demora?
Sim, sim, sim, sim.
Hoje, conhecendo os benefícios da cannabis e continuando fiel aos princípios do cristianismo, como você falaria sobre essa planta para alguém que ainda tem muito preconceito? E quais são, na sua visão, os limites que não podem ser ignorados?
Acho que o principal ponto de tudo na nossa vida se chama equilíbrio. Acredito que a gente tem que ser equilibrado em todas as áreas, inclusive na sentimental. A única coisa que a gente pode ultrapassar é no relacionamento com Deus, que pra mim não tem limite. Quanto mais você conseguir ter uma vida de busca, de oração, de devoção à sua crença religiosa, no meu caso, sou cristão protestante, melhor. Tirando essa exceção, tudo tem que ter equilíbrio. Na vida de trabalho, na vida com a família, você tem que tirar tempo pra família, tempo pras suas coisas. A gente tenta viver uma vida sistêmica, que rode bem em todas as situações. E é aí que eu vejo essa dificuldade de conexão com o evangelho, com o cristianismo. Tem um ponto que precisa ser bem esclarecido, a gente às vezes tenta preservar o geral. É como na escola, você lembra? Quando um aprontava, todo mundo da sala pagava, porque um aprontou. Então, se faz mal pra uma pessoa, é bom que a gente não faça. A gente tem essa preservação porque sabe que muita gente começa na maconha de uso recreativo, e depois passa pra droga mais pesada. Infelizmente, a gente tem essa situação. Com o álcool também, o álcool, pra mim, é a primeira porta de entrada, porque é o de acesso mais fácil, é onde as pessoas começam. E, pelo fato da ilegalidade, criou-se essa situação. Só que hoje a medicina evoluiu. Por exemplo, hoje, se um casal não consegue ter filhos, faz uma inseminação artificial e gera filhos. Isso é tirar o poder de Deus? Não é tirar o poder de Deus. Deus deu a ciência pro homem se basear nela, dando a inteligência pra vocês conseguirem resolver esses problemas. Conforme a informação for chegando, porque você tem que sempre ver os fatos, a gente não pode acreditar em narrativas, é o que eu acredito. Por exemplo, se isso aqui é bom, se traz benefícios, por que não usar? Se é uma coisa que melhora a vida das pessoas, que trata ansiedade, que faz algo benéfico, é melhor. Porque a gente vê as pessoas recriminando, por exemplo, o uso do CBD em alguns casos, e usando Rivotril, Venvanse, vários remédios que fazem um mal muito maior à saúde. Óbvio, respeitando que eu não sou especialista na área, tô falando como alguém que tem um pouco de sensibilidade pra entender o que é bom e o que é ruim. Não tô aqui como uma autoridade da ciência ou da tecnologia nesse assunto, mas é isso que eu acredito. Acredito que, conforme a gente for desconstruindo essa narrativa, a gente tem que pautar isso. Obviamente, não adianta pra quem não precisa, pra quem não tem problema de insônia, não tem problema de ansiedade, você vai gerar um gasto excessivo pra essa pessoa. Acho que tem essa desconstrução da narrativa por uma questão cultural, mas, com a ciência explicando tudo, acho que isso vai mudar em todos os lugares da sociedade.
Você toma cannabis pra dormir, e tem gente que fuma um baseadinho à noite justamente pra combater a insônia. Onde está, na sua opinião, a diferença entre o uso recreativo e o uso medicinal?
Eu acredito que toda individualidade tem responsabilidade. Acho que, quando eu te prejudico, não posso fazer aquilo que te prejudica, e você não pode fazer o que me prejudica.
Como assim?
Você usa pra dormir, e no seu caso, beleza, você tá usando dentro de casa. Diferente do moleque que tá usando maconha na praça, com um monte de criança andando, que fica doidão, às vezes junta um grupinho que a gente sabe que tá ali fumando maconha, mexendo com mulher dos outros, arrumando confusão, não consegue pensar direito porque relaxa demais. Eu acho que todo remédio tem um ambiente pra ser usado. Se você tá usando dentro de casa, se tem acompanhamento médico, se planta sua plantinha, tudo bem. Eu nunca gostei de fumar, nunca foi uma opção pra mim, mas tem gente que se sente melhor fumando, que gosta, que o efeito vai batendo aos poucos e a pessoa vai relaxando. Nos Estados Unidos é super liberado, eu não vejo problema na pessoa usar. Meu problema é quando a sua liberdade ofende a minha liberdade. Hoje a maconha é proibida, então um moleque que usa maconha no meio da rua tá comprando de um fornecedor duvidoso, tá comprando de tráfico de drogas. No momento em que tiver acompanhamento médico e a liberação pra comprar as coisas dele, tudo bem, porque a gente sabe que cada um tem sua individualidade. Acredito que a diferença entre o certo e o errado é quando fere a liberdade do outro. Se você faz dentro de casa, se tá usando e não tá incomodando ninguém, é igual o som alto. Eu não gosto de escutar som alto, mas tem gente que gosta. Só que, quando dá 10 horas da noite, tem que parar o som alto. Você tem que respeitar a individualidade da pessoa. Não é porque eu gosto que eu posso fazer o que eu quiser, a gente vive em comunidade. Quem não consegue viver em comunidade fica à margem da sociedade. É por isso que a gente chama de marginal, que vive à margem daquilo que a gente quer como sociedade.
Desde que a cannabis chegou na sua vida, dá pra dizer que você é uma pessoa mais feliz e mais equilibrada?
Cara, eu acho que o fato de eu ser feliz e mais equilibrado vem de Jesus, porque é nele que eu deposito toda minha confiança. Mas posso te falar que, depois que a cannabis entrou na minha vida, tenho dormido muito melhor. Risos.
E, pra fechar aqui o nosso papo, eu queria saber, o que você diria hoje pra uma pessoa que tá totalmente fechada pra essa planta? Qual o conselho que você daria, especialmente se essa pessoa for um lutador ou um esportista?
Eu acho que, na vida, como a gente tem falado aqui na nossa conversa, a gente tem que sempre entender o que é bom pra gente. Se aquilo te faz bem e não vai de encontro aos seus princípios… Por exemplo, não adianta uma coisa me fazer bem e ser contra os ensinamentos de Jesus. Isso, pra mim, não funciona. Pra mim, só é bom o que Jesus fala, essa é minha meta de vida. O que eu tenho pra aconselhar é o seguinte, se você tem problema de insônia ou alguma coisa do tipo, converse com um médico especializado, faça exames, porque, às vezes, muita gente (que não era o meu caso) não dorme por causa de um desajuste hormonal, alguma coisa que pode ser ajustada. Mas tem gente que realmente precisa do uso da cannabis. Acho que você tem que fazer aquilo que é certo, que tá dentro dos seus padrões de vida, não importa de onde vem. Eu acredito que, se você tem algum tipo de problema que precisa resolver, precisa lutar contra isso, e a cannabis é a solução, ela é aquilo que Deus permitiu que a ciência chegasse a esse nível pra curar talvez uma ansiedade ou uma insônia, acho super justo, super válido. Acho que é esse o conselho que tenho pra passar pra galera, parem de cair em narrativas. O grande problema de hoje são as narrativas. A gente tá se segregando, porque existe uma teoria política que é a ordem através do caos, a gente cria o caos, depois implanta a ordem. Ou seja, a gente não pode cair em narrativas, tem que ver o que de fato é benéfico e o que de fato é prejudicial. Esse é o pensamento que eu tenho.