Na Breeza

O hábito mais difícil de abandonar

Durante anos, Marcela Cruz acreditou que havia um baseado para cada momento do dia. Um antes de assistir a um filme. Outro antes de limpar a casa. Um terceiro antes de sair para jantar. A cannabis não ocupava apenas um espaço no fim da rotina. Ela era a rotina, o intervalo entre o trabalho e o descanso, entre a ansiedade e o silêncio.

Hoje, enquanto milhares de pessoas acompanham sua transformação em direção ao corpo que ela batizou de “gostosa padrão”, Marcela documenta a construção de novos hábitos. Alguns nasceram com o projeto. Outros começaram muito antes, longe das câmeras.

A relação com a maconha é um deles. Havia alguns anos ela já tentava reorganizar um hábito que deixara de ser apenas recreativo e passara a ocupar um lugar maior do que gostaria. O Projeto Padrão não deu início a essa mudança, mas tornou mais evidente que abandonar o baseado de todo dia era, de longe, o desafio mais difícil daquela transformação.

Quem chega agora ao Projeto Padrão encontra uma mulher que pesa alimentos, mede percentual de gordura, contabiliza horas de treino e publica planilhas detalhando cada centavo investido na construção de um corpo que domina as redes sociais. A estética foi escolhida de propósito, pela certeza de que poucas coisas despertam tanto interesse quanto a promessa de beleza. O corpo virou a isca, e o resto veio escondido dentro dele.

Um seguidor comparou o Projeto Padrão a um Cavalo de Troia. A beleza atrai o público, depois vêm as conversas sobre dinheiro, saúde mental, política e desigualdade. Marcela gostou tanto da definição que passou a adotá-la para explicar o próprio trabalho.

Formada em física, Marcela passou sete anos no mercado financeiro até perceber que a carreira cobrava um preço alto demais. A mudança de área dentro do banco não resolveu a exaustão. Veio o burnout, uma licença médica e, semanas depois, uma demissão. Com a reserva financeira que havia construído, decidiu comprar um ano de liberdade. Viraria influenciadora se desse certo ou reabriria o LinkedIn se não desse. O maior experimento daquele ano acabou sendo sobre hábitos.

Droga não é regulador emocional

Os hábitos alimentares mudaram. A musculação ganhou disciplina. Vieram a nutricionista, as canetinhas emagrecedoras, o déficit calórico, os procedimentos estéticos. Tudo isso aparece nas redes porque faz parte do contrato de transparência que ela estabeleceu com sua audiência. O que ninguém via era outro tipo de disciplina, bem menos fotogênica, de reaprender a existir sem acender um baseado antes de qualquer prazer cotidiano.

“Para mim era impossível eu pensar em ver um filme e não fumar um baseado antes ou pensar em sair para comer e não fumar um baseado antes ou fazer uma faxina em casa e não fumar um antes”, ela lembra.

Marcela começou a fumar no início da vida adulta. Durante a pandemia, o consumo encontrou o ambiente perfeito para crescer. Isolamento, medo, excesso de trabalho e uma ansiedade que já existia desde a infância criaram terreno fértil para transformar um hábito ocasional em companhia diária. Isso não durou muito. Fumada todo dia, a maconha deixou de desacelerar a mente barulhenta e passou a alimentar uma sessão interminável de autocrítica. Ela revivia conversas, reuniões, frases ditas horas antes, procurando erros invisíveis, voltando pra dentro da própria cabeça quando tudo que queria era sair dela.

A planta, que começara como uma escolha recreativa, virou um regulador emocional. “Qualquer substância que entra na nossa vida num lugar de regulação emocional, num lugar de escape, tem o potencial de se tornar um relacionamento danoso. E quando chega nesse ponto, fica muito mais difícil rever a relação que a gente tem com ela, seja com a maconha, com o álcool ou com qualquer outra coisa”, diz.

Ela passou meses discutindo o assunto na terapia e com o psiquiatra. A meta inicial foi modesta, uma pausa de um mês. Parecia pouco, mas foi enorme. A fissura apareceu logo nos primeiros dias, acompanhada da estranha sensação de conhecer de novo o próprio cérebro. “Eu conseguia transitar pelo mundo mais lúcida, mais consciente, isso era muito legal, mas ao mesmo tempo sentia muita falta das sensações físicas que a maconha proporcionava”, lembra.

Se divertir sem chapação é possível?

O curioso é que ela nunca descreve esse processo como libertação. Fala em redescoberta, uma versão de si mesma que passou anos anestesiada pelo próprio costume. Em nenhum momento ela sugere que a cannabis seja incompatível com uma vida saudável, mas questiona o lugar que qualquer substância passa a ocupar quando deixa de ampliar uma experiência e passa a sustentá-la.

“Foi muito difícil perceber que eu jamais seria a pessoa desencanada com a maconha, porque uma pessoa que é desencanada com a maconha não precisa se esforçar para não ter um problema com ela”, conta, comparando ao álcool. “Tem garrafa de bebida fazendo aniversário na minha geladeira, e eu não preciso me esforçar para não usar porque nem lembro que ela existe.”

Marcela evita transformar sua experiência em um manifesto. Ela mesma reconhece que a maconha pode ser prazerosa e fazer parte da vida de muita gente de forma saudável. O problema nunca foi a planta, mas o lugar que ela passou a ocupar na sua rotina. “Eu não queria que essa entrevista passasse um tom de que a maconha é a pior coisa da face da terra, que ninguém deveria usá-la e ela deveria ser proibida, porque eu não acredito nisso”, afirma.

Em vez de respostas prontas, foi a partir dessa inquietação que começou a rever a própria relação com a cannabis. No processo, descobriu algo que durante anos lhe pareceu impossível. Era perfeitamente possível assistir a um filme inteiro, sóbria, e perceber que a experiência continuava sendo boa.

“Eu acho que dá pra gente usar e curtir e se divertir, mas também dá para a gente repensar e falar: “Putz, será que eu preciso fumar tanto quanto estou fumando agora? Será que eu não consigo me divertir hoje sem fumar? E a resposta é sim, a gente pode se divertir sem estar chapado.”