Saindo da estufa

Marina Lima: “Todas as músicas que compus, desde o começo, foram sob o efeito de cannabis”

Quando chegou a notícia de que o poeta Antonio Cícero havia recorrido à eutanásia, foi impossível não pensar em Marina Lima, sua irmã. Para atravessar a perda do parceiro de vida e de arte — e também uma paradoxal urgência de viver —, a cantora transformou o luto em criação. O resultado é Ópera Grunkie, disco recém-lançado que, de quebra, celebra seus 70 anos. 

Nesta conversa com Anita Krepp, Marina conta que as composições de seu mais novo disco foram feitas sob o efeito de cannabis, assim como toda a sua discografia. Usuária desde a adolescência, foi de maneira equilibrada, conhecendo e respeitando a própria dose, que a artista nutriu com inspiração e criatividade uma das carreiras mais longevas da música brasileira.

O papo também passou pelas lembranças de uma família afetuosa, pela volta por cima de uma depressão que enfrentou nos anos 90 depois de sofrer com a pressão e as inimizades que a fama lhe trouxeram, e pelos planos de chegar aos 80 conservando saúde, lucidez e boas companhias. 

Marina, você está comemorando 70 anos com o lançamento de um disco novo, o Ópera Grunkie. Mas eu também tenho a impressão de que o disco nasceu, talvez, de uma necessidade de processar a morte do Cícero (irmão de Marina que realizou eutanásia em 2024). Faz sentido?

Faz. O show é o Marina e os Setenta, e tem a ver com a celebração de um momento da minha vida, que foi completar 70 anos. O disco é outra coisa. O disco tem a ver com o momento em que eu precisava, urgentemente, conversar profundamente com o mundo. Eu precisava registrar musicalmente o que estava acontecendo comigo, que era a partida do Cícero, e paradoxalmente, uma corrente muito forte me chamando para viver. Eram muitas coisas paradoxais ao mesmo tempo, vontade de viver, vontade de me expressar, a morte do meu irmão. Foi algo tão forte, tão violento, no sentido de vida, de pulsação, que eu só dei conta pela música. Então eu precisei fazer o álbum para expressar a inquietação que se passava comigo.

E o que te chamava para essa vida, para viver tanto nesse momento específico?

O que me chamava era a curiosidade sobre esse novo momento da minha vida. Eu gosto da vida. Vivi todas as décadas assim. Fui criança, fui pré-adolescente, fui adolescente, passei pelos 20, pelos 30, vivi os 40. Vivi tudo isso plenamente, do jeito que eu queria naquele momento. E agora, em vez de ficar desanimada porque envelheci, estou animada porque não conheço essa fatia da vida. As anteriores eu vivi, eu conheci. Mas tem uma nova, a Aurora da Vida. A Aurora da Vida chegou para mim com saúde, eu estou bem, sou motivada, tenho amigos, tenho amor. Então, o que me chamava a viver eram esses 70, eram os 80. É isso. Que é diferente, é uma outra maneira, física e também intelectual, de lidar com isso. Estou interessada nisso agora.

Que ótimo te ouvir sobre isso, Marina, porque eu e acho que todo mundo que acompanhava você e o Cícero, quando soubemos da morte dele, pensamos imediatamente em você.

É claro, eu entendo. A grande perda é do meu irmão. Porque é meu irmão mesmo, desde que eu nasci, ele já existe. Fui criada com ele, e ele foi meu parceiro durante muitos anos também. Mergulhamos em música popular, em letra de música, em melodia juntos. Mas já tinha algum tempo que não estávamos efetivamente compondo mais. Porque ele estava ligado à Academia Brasileira de Letras, e eu tinha descoberto outros parceiros. A irmandade nunca deixou de existir. Mas depois de vários discos, a gente meio que, naturalmente, foi por outros caminhos. Então, para mim, tudo que eu fiz com ele está gravado, está tudo aqui. Isso eu não tenho como lamentar. Agora, a presença dele… meu DNA era o último. A minha família toda já foi. Essa família de origem. Meu pai, minha mãe, meu outro irmão Belto, só restavam o Cícero e eu. Quando o Cícero foi, pois meu Deus, não há mais ninguém. Está tudo na minha mão agora, levar adiante isso tudo. O DNA dessa história é muito positivo. E a minha vida que não tem mais a ver com isso, entendeu? É isso que é o negócio. Mas estou lidando melhor do que isso tudo parece, porque o Cícero é muito presente para mim. Eu guardo muito perto os meus mortos. Que são muito importantes.

E como você mantém seus mortos perto?

Sabe como? Faz parte de épocas maravilhosas da minha vida. Foi a grande herança que a minha família me deixou. Não sei se é sorte ou merecimento, mas eu tinha uma família maravilhosa. Meu pai era maravilhoso, um intelectual progressista. Minha mãe, formidável. Meu outro irmão era economista maravilhoso, me ensinou muita coisa. Eu mantenho os meus mortos muito perto porque o que tenho de herança é a memória deles. Fui solta, protegida, acompanhada. Meus irmãos foram grandes amigos, meus pais também. Me incentivaram quando viram que o negócio era música, que não tinha jeito, e me deram força. Era uma família muito carinhosa, com muito afeto. Lembro muito deles porque eles me aquecem até hoje. Ter tido eles foi muito importante. Isso é uma coisa positiva que ficou, porque morrer, todo mundo vai. Agora, as lembranças, guardar uma coisa, uma graça, uma hora do almoço, uma risadaria, todo mundo mexendo com o outro. Era uma maravilha, era muito bom. Eu não esqueço essas coisas.

O fato de o Cícero não ter te avisado que faria eutanásia te revoltou em algum aspecto?

Não, não, não. Imagina, Anita. Essas são questões muito profundas e particulares de cada ser humano. O Cícero, assim como eu, sempre foi ateu. Meu pai era ateu. Eu tenho uma coisa espiritualizada porque conheci a Cabala, fui criada católica, mas nunca liguei muito para isso. A Cabala fez muito sentido para mim. Mas a decisão dele era totalmente o mundo dele, a maneira como ele via a coisa. Ele começou a ter Alzheimer. Para ele, que era intelectual, poeta e filósofo, aquilo foi a morte. Porque ele perdeu o que tinha de mais brilhante: o domínio das faculdades mentais. Ao ver que seria um declínio, para ele não houve conversa. Não fiquei chateada porque ele não me devia nada, assim como eu não devia nada a ele. A gente se amava. Isso é uma coisa muito profunda dele. Ele me ligou de lá. Foi o que ele pôde fazer. Me deixou uma carta linda e me ligou naquela noite para se despedir.

Como foi essa chamada?

Foi muito forte, muito emotiva. Você não tem como tirar ninguém dessa ideia. Ele foi muito esperto, não deu tempo a ninguém. Decidiu sobre a vida dele. Só o marido dele, o Marcelo, sabia. Mais ninguém. Ele foi a Paris, que era o lugar que ele mais amava no mundo. Passou dois dias lá, se despediu da cidade, deixou uma carta para mim. A gente se via de vez em quando, eu não sabia que ele estava com isso na cabeça. E ele me ligou para se despedir. Para mim, eu sabia que era irreversível. E, sinceramente, é mais apaixonante ainda. Ele é muito corajoso.

Você sabe se durante o período em que ele estava com Alzheimer ele chegou a usar cannabis ou alguma coisa assim? Porque hoje há pesquisas interessantes sobre isso, por exemplo, do pessoal da Unila…

Não. O Cícero, mesmo sendo dez anos mais velho do que eu, ele era mais infantil, então ele começou comigo quando eu comecei a experimentar coisas diferentes. Mas eu só fui até a cannabis, na realidade. A cannabis era engraçada para ele, mas não era uma coisa que ele gostasse muito. Nenhum tipo de estímulo, nem cannabis, nem pó… Passou pela experimentação, mas ele não ficou ligado. Ele gostava de beber, gostava de vinho. Era uma outra coisa, um outro tipo de personalidade.

E você, Marina? Como começou?

Eu comecei com cannabis com 16 anos com uma prima muito querida. E aí tive duas experiências logo de cara. A primeira vez que experimentei, tive um acesso de riso junto com a família. A segunda vez foi horrível, bateu uma paranoia. Eu era muito nova. Uma paranoia do jeito que as pessoas descrevem às vezes de LSD. Tudo ficou distorcido. Eu era muito magra, deve ter batido muito, então eu tive quase alucinação. Foi difícil, mas tive um amigo do meu lado e passou. Aí fui aos poucos descobrindo que o que eu realmente gostava era da maconha. Não gostei de cocaína, me deixava tensa, nunca gostei. Bebida, socialmente. Não fumo cigarro. Então nem tenho essa coisa de beber ou fumar. Me encontrei na cannabis desde muito cedo e nunca cheguei a tomar LSD, nada disso. Há pouco tempo me deram MDMA, mas também não gostei.

Por que você não gostou do MDMA? É a minha preferida.

Então, o MDMA para mim não bateu. Eu estava numa festa e não senti nada. Não bateu nem como o lado interessante da cannabis numa festa já poderia bater. Ficou uma coisa muito apagada. Aquele outro também, o haxixe, eu também não gosto.

Você gosta da flor?

Gosto da flor. A flor é a minha coisa predileta, porque me ajuda muito em todos os sentidos. Para música, para organizar as coisas do jeito que eu gosto. Só não fumo antes de fazer show, porque teve uma época em que eu fumava e tinha mania de parar a música e começar de novo (risos). Perfeccionismo demais. Em shows que requeriam um pouco mais de cerimônia, achei melhor não. Para dormir também não preciso. A cannabis passa pela minha vida inteira assim, regular, pelos meus hábitos e tal, passa pela cannabis há muitos anos.

Como é a sua rotina com ela?

Eu gosto de rotina. Sou virginiana. Acordo de manhã, rezo, faço um exercício da Cabala que gosto, me exercito, vocalizo a voz, toco violão. Um cigarro de cannabis para mim dura um dia inteiro. Doso, faço as coisas, e é maravilhoso, me deixa exatamente como eu quero estar para realizar todas as tarefas. Se eu for mergulhar fundo em alguma questão, por exemplo uma música, escrever um texto, uma coisa que eu tenha que criar muito, se eu sentir que meio que estagnei, eu talvez fume um pouco mais de cannabis. Aí depois vejo que chega, entende? Eu sei a minha dose. Eu nunca achei que a cannabis fosse uma droga, é uma planta. Bebida, sim, faz muito mais mal. Então encontrei o meu equilíbrio nisso. Antes eu fumava até para dirigir, não tinha problema nenhum. Hoje em dia não dirijo mais. São Paulo é o pior lugar para dirigir. Então ficou mais fácil.

E quando você está travada na escrita?

Depende do momento. Se for uma coisa que estiver fluindo muito bem, eu adorando, cada vez uma descoberta, sou capaz de arriscar. Se for uma coisa que não está vindo, eu deixo, tenho paciência, espero, eu doso. 

Então durante um dia você vai dar uma puff?

Talvez eu não fume nenhum cigarro naquele dia, talvez só meio. Me sinto alimentada e bem nutrida com uma boa cannabis, quatro tapas tá bom para mim. Dali a duas horas, mais quatro. Muito dosado, então um baseado dura. Agora, por exemplo, tive uma questão afetiva que não estava muito bem, estava chateada e precisava ser firme em algumas posições que eu tava tomando. Fiquei quatro dias sem fumar para poder ficar muito ligada, entendendo bem aquilo que era um problema, como se estivesse matematicamente equacionando o problema, para não cair na casca da banana. Porque a maconha te deixa mais easy, mais fluida. Então, se estiver tendo que ver alguma coisa muito desgastante, é melhor deixar a minha personalidade sem nada aparecer, ver até onde dou conta, para depois poder ficar mais relaxada. Depende do tamanho do problema (risos).

E falando da sua obra, tem alguma composição que você se lembra de ter surgido de um flash que a cannabis ajudou criativamente?

Anita, todas as músicas que compus, desde o começo, foi sob o efeito de maconha. Tudo. O único período em que fumei menos foi quando fui para os Estados Unidos estudar música. Comecei a compor com 16 anos, com o Cícero. Quando fui morar lá, por volta dos 16, 17 anos, eu fui fazer um curso de música. Ele estava estudando também. E lá, a gente não conhecia ninguém. Nos descobrimos e ficamos compondo juntos. Mas não tínhamos quem nos desse nada. No máximo tomávamos um whisky. Quando assinei contrato no Brasil com 17 anos e o Cícero voltou para os Estados Unidos, desde o primeiro disco profissional a gente compôs sempre com um pretexto de criar histórias e músicas para mandar recado para o mundo. E se divertir. A gente ria muito. Cada um era muito diferente do outro, mas havia um humor e uma intimidade enormes. Era divertido ganhar dinheiro fazendo aquilo. Ele com o talento de poeta, eu com o meu talento musical. Depois de um tempo, eu vi que a cannabis me ajudava a soltar a mente musicalmente. Mas para ele, era mais um whisky. Para ele era mais um outro tipo de personalidade. A cannabis como companhia diária não era muito a dele.

Como é que você tem visto o desenvolvimento desse tema, a aceitação da cannabis na sociedade, nos últimos tempos?

Olha, desde que me entendo por gente, a partir dos 14, 15 anos, nunca esteve tão discutido e tão perto de ser cada vez mais legalizado em alguns países, porque já tem alguns que legalizaram. Isso não se podia imaginar antes. Era quase que como o Candomblé, sabe? Uma coisa assim, de algum tipo de margem no Brasil. Até isso virar uma questão de tráfico. Isso começou a ficar mais pesado, eu acho, nos anos 80, quando fui entender que havia toda uma infraestrutura por trás. E cada vez mais. Mas eu vejo hoje um desejo crescente de se criar leis, de se regularizar e discutir isso. Como quando legalizaram o álcool. Começaram a proibir e havia pessoas ganhando com o álcool, bandidos, Al Capones. Tinha toda essa coisa de álcool proibido, e a sociedade foi vendo a necessidade de legalizar porque as pessoas gostavam e não queriam ser presas. E eu acho que chegou a vez da maconha mesmo. Graças a Deus, está chegando cada vez mais.

Você chegou a cultivar a sua própria maconha?

Não, eu sou péssima nisso. Não conheço esse lado. Não sou boa disso. Estou começando a cuidar de plantas agora, plantas mesmo, porque moro em São Paulo e sempre fui ligada ao mar. Achava planta linda, cheirava, mordia o capim, mas não tinha uma relação assim com plantas, tinha com o mar mesmo. Agora, em São Paulo, desenvolvi isso porque tenho uma varandinha. Mas conheço algumas pessoas que plantam muito bem. E é uma coisa com cultivo cada vez mais próximo, com cada vez mais leis, ONGs e espaços. Muita gente com remédio, com óleo para tratamentos de doença. A coisa ganhou outro tamanho, realmente.

Você também usa nesse formato de óleo?

Não, porque como uso no formato de planta há muito tempo, já me equilibrei. Estou muito bem há muito tempo. Minha mente é perfeita. Se começo, num período em que estou criando muito, a fumar mais e esquecer mais, paro uns dias e a memória volta toda. É uma coisa que se regenera, pelo menos para mim, a maconha é saber dosar que é remédio. Estou com 70 anos e, há mais ou menos 55, eu fumo maconha, então eu acho que eu tô indo bem. Não tenho nenhuma doença, estou bem de saúde, sou fisicamente com uma saúde danada. E a maconha sempre foi dosada em doses que eu sentia que meu organismo absorvia para o que eu precisava. Não era para ficar louca. Para ficar louca era muito raro, não era isso. Era para ficar conectada com alguma coisa que eu precisava. Até hoje é assim. Não é um alucinógeno para mim. Ao contrário, é como uma coisa que me dá uma estabilidade. Sempre foi isso.

E nunca mais teve uma bad, como aquela segunda experiência sua?

Foi a primeira e única. Porque eu não sabia a dosagem, era muito nova e, na primeira vez, fumei como a minha prima… A segunda vez fumei sozinha, devo ter fumado demais. Hoje em dia sei a dosagem. E há também tipos diferentes. Tenho as minhas preferidas. Não gosto de maconha que me deixa chapada com sono. Não tenho problema de sono. Gosto de maconha que me deixa perfeitamente capaz de raciocinar, que melhora o meu humor, em que tudo parece mais simples, menos difícil e complicado. Uma coisa que mexe com o meu humor. E às vezes tem algumas que me levam a querer criar.

Como você sabe qual está acessando?

Hoje em dia há muitos lugares que vendem diferente. Você tem um menu de cannabis. 

Quais são as suas preferidas?

No momento é a 24k, que me deixa no meu normal. Normal, falando numa entrevista para você, assim. E em homenagem à música e tudo mais que inventaram no Brasil é a Fullgás, que se escreve igual ao meu álbum. 

Ao longo desses mais de 50 anos de maconheira, você nunca chegou a parar por um tempo mais longo, uns meses, um ano?

Nunca precisei, porque é uma coisa da minha personalidade e temperamento. Não sou addicted. Não sou viciada em cigarro, não sou viciada em nada. Eu queimo meu fumo e bebo socialmente. Se acho que está demais, paro mesmo. Mas nunca precisei parar um ano. Parei um ano quando estava nos Estados Unidos estudando música e não havia cannabis. E também não senti falta. Ficava compondo, ia ao cinema, tomava um whisky. Não é uma coisa que me domina. Hoje em dia, quando não tenho, sinto falta, mas acho que é mais psicológica ou emocionalmente do que fisicamente.

Mas teve um momento nos anos 90 em que você passou por uma depressão bastante pesada, não foi? Como estava a maconha nesse contexto?

A maconha não tinha muito a ver com isso, mas foi o seguinte. No começo da minha carreira, eu conheci e namorei com algumas pessoas ligadas à música. Eu não estourei feito uma bomba, fui acontecendo gradualmente. E estourei mesmo, não foi nem no disco Fullgás, foi no Todas ao Vivo. Meu sétimo disco. Tinha alguns anos de carreira. Então, quando estourei, já estava mais acostumada com tudo isso. Passei alguns anos muito bombada. Era a cantora pop, tudo me chamavam. Trilha sonora de novela, Marina aqui, Marina ali. E eu não sou uma pessoa que topa tudo. Mas a minha fama me fazia ter que fazer coisas que eu não queria, e isso gerava mais sucesso e me fazia ganhar inimigos. Os homens não entendiam as mulheres, até hoje às vezes é difícil. Naquela época não entendiam mesmo. E as mulheres não eram amigas entre si como são hoje, eram rivais. Então, quando estourei, eram tantos problemas, tanta energia ruim de gente com raiva, eu fui ficando horrorizada, porque eu só estava fazendo o meu trabalho. Não estava atrás do trabalho de ninguém. Chegou uma hora que fiquei triste, e a tristeza virou depressão. Como me explicou o médico maravilhoso que me tirou da depressão, o Dr. Arnaldo Goldenberg, meu ídolo, que ainda está vivo, ele me disse: Marina, você ficou muito decepcionada com o mundo do sucesso. Ficou muito decepcionada e com muita raiva. Porque se sentia injustiçada. Não entendia por que incomodou tanta gente que você não queria incomodar. E, em vez de brigar por isso, você pegou a faca e se feriu. Você ficou triste, com depressão, e se machucou com aquilo tudo. Então foi isso. A maconha nunca foi o highlight da minha vida. A maconha era uma coisa que eu gostava, mas quando tudo isso aconteceu, a maconha ficou lá, não era importante. O importante era que eu estava ficando triste, triste, triste. Não tinha nada a ver com maconha, tinha a ver comigo. Eu tinha que achar a solução. Então, a maconha nem estava presente. Quando isso passou, e passou devagar, eu fiquei de olho até passar. Demorou muito tempo e eventualmente a maconha voltou. O problema não era maconha. Era eu me perdoar e gostar de cantar de novo. Demorou tudo isso. Quando voltou, voltou tudo certo.

E o que você acha que fez com que as mulheres mudassem desse tipo de comportamento dessa época para as companheiras que somos, ou pelo menos um pouco mais companheiras, hoje?

Anita, eu acho que todo mundo começou a não aguentar mais. Começou com os gays, com os pretos, com os índios. Começa com o que é mais reprimido, com os pobres, com a desigualdade social, com o problema racial no Brasil, um país em que a maioria é preta. Os travestis, os gays. Olha o nome: gay é uma coisa que remete à felicidade, e sendo perseguido? Todo mundo não aguentou mais. Como teve a revolta dos pretos. Ninguém aguenta ser massacrado assim. As minorias que não eram minorias começaram a se revoltar e exigir justiça, lei, saúde. E chegou à cannabis. Chegou ao aborto, em alguns lugares. No Brasil, um país laico onde a religião sobe em cima de todas as mesas e domina as pessoas pela ignorância. Mas as pessoas estão começando a ficar mais cientes disso. Uma coisa puxa a outra. E acho que está melhorando.

O que você espera, o que pretende, o que deseja para as suas próximas décadas?

Olha, fiz 70 e estou começando a me preparar para os 80. Eu sempre me preparei dez anos antes. E sempre quis ser mais velha, porque era caçula da minha família. Então, durante anos ouvi dos meus irmãos mais velhos: ‘Ah, você nem tinha nascido. Ah, você não sabe.’ A vida inteira puxavam meu tapete dizendo que eu não era nem nascida. Eu tinha um ódio disso porque era verdade (risos). Então sempre quis ser mais velha. Agora estou me preparando para os 80. Uma grande amiga minha, Fernanda Montenegro, tem 96 anos. O que eu não sei, pergunto a ela. O que eu não sei, leio sobre a Jane Fonda. E por aí vou indo. Então, agora a grande questão são os 80. Como chegar bem esperta, curtindo os 80. Saúde é importante. Gostar da vida é importante. Curiosidade é importante. As pessoas certas, as relações certas, o trabalho certo. Estou agora ligada nisso.