Na Breeza

A segunda vida do cânhamo

Por Anita Krepp

Lafayette Giramundo aprendeu marcenaria nos anos 90, época em que a madeira maciça começava a perder espaço para o MDF, placas de celulose prensada que tomariam conta da indústria moveleira nas décadas seguintes. Foi aprendiz, depois oficial, depois foi galgando postos em diferentes oficinas, acumulando o conhecimento que hoje soma 26 anos de ofício. Ao longo desse caminho, uma dor o acompanhava. Quanto mais entendia de madeira, mais desconfiava dela. “Eu sou criador em madeira, mas a madeira não devia nem estar sendo usada há muito tempo”, defende polemicamente.

Ele já vinha pesquisando o bambu havia anos, tentando entender se a fibra poderia substituir a celulose na produção de móveis. O problema era a escala. Mesmo no Brasil, o bambu seguia tratado como material artesanal, sem indústria capaz de sustentar uma produção consistente. A pergunta ficou em aberto até a cannabis entrar na sua vida, primeiro como prática doméstica, depois como projeto.

Foi em Barcelona, onde morou com a companheira e produziu móveis e brinquedos infantis pelo Atelier Giramundo, que Lafayette teve contato direto e cotidiano com o cultivo da planta – que por lá tem o autocultivo liberado para quem quiser. Quando voltaram ao Brasil, há oito anos, encontraram um país que ainda tratava a maconha quase exclusivamente como questão de ilegalidade, fosse para uso terapêutico ou recreativo. A diferença entre os dois lugares ficou marcando o reencontro.

O primeiro movimento foi prático. Lafayette começou a desenhar móveis para cultivo doméstico, armários de grow com cantos arredondados, pensados para quem cultiva em casa de forma mais ritual. Batizou o projeto de marcenaria canábica. Foi nesse processo que a ficha caiu. Se ele já trabalhava com a planta, estava também diante do cânhamo, a fibra que se extrai do caule e da raiz, sem vestígios de THC e usada há séculos em outras partes do mundo como matéria-prima têxtil e industrial.

Parcerias com associações

A pesquisa que tinha parado no bambu encontrou no cânhamo o caminho que faltava. Lafayette foi ao Uruguai, onde passou uma temporada testando fibras ao lado de cultivadores e validando pequenas amostras de compensado. Seguiu para o Paraguai, que já tinha o plantio mais consolidado, e testou de novo. 

Só então voltou ao Brasil, no momento em que associações como a Santa Cannabis começavam a ter plantios próprios e podiam colaborar com as suas pesquisas. “As associações me doam fibras de cânhamo, que sobram dos cultivos, e eu devolvo para elas peças prontas, mobiliário e parcerias de produção. Por um lado, preciso dessa matéria-prima e, por outro, evitamos o desperdício que é incinerar ou triturar para jogar no solo essa fibra incrível.”

A relação com as associações de cultivo funciona como troca. Lafayette evita o rótulo de reciclagem para descrever o trabalho. “Eu não diria que é um projeto de reciclagem, mas sim um projeto de preencher uma lacuna”, diz, em seguida dando seu  argumento técnico. A planta usada para gerar a fibra já nasce com baixíssimo teor de THC e é colhida antes mesmo de florescer, o que a torna, em sua origem, distinta da cannabis cultivada para flor. Por isso, Lafayette prefere falar em processo complementar de utilização da planta, e não em aproveitamento de resíduo. O material que chega até ele não sobrou de nada. Sempre teve esse destino, só faltava alguém disposto a persegui-lo.

Hoje ele segue ampliando contatos com associações de diferentes regiões do país, oferecendo recolher a fibra onde for preciso e resolver a logística sozinho. Em troca, devolve o que sabe fazer. Um banco, uma tábua, um instrumento. Pedaços de uma planta que o Brasil ainda insiste em reduzir à droga, enquanto em outros países já vira piso, parede e violão, com a devida valorização do ofício.

A carga afetiva

Lafayette sabe que não está inventando a roda. A China produz compensado de cânhamo em escala industrial havia anos, e pelo menos uma empresa americana já fazia algo parecido quando ele começou suas pesquisas. No Brasil, ninguém tinha percorrido esse caminho. Coube a ele provar peça por peça como cada parte da planta reage a cada processo, e mostrar aqui o que já era prática em outros lugares.

O processo que ele desenvolveu trabalha duas partes da planta. A fibra curta, retirada do caule, e a fibra longa, extraída da casca, mais resistente, a mesma usada tradicionalmente para tecido e corda. Lafayette aplica a essas fibras a lógica do compensado de madeira, camadas cruzadas que ganham resistência mecânica ao se sobrepor, unidas por resina natural de mamona, ligante de origem brasileira. Do processo saem placas, painéis, tábuas de corte, uma bancada em produção para um cultivador parceiro e, mais recentemente, instrumentos musicais. Um ukulele já está pronto e lá vêm pandeiros a caminho.

Os instrumentos remontam a uma história anterior à cannabis. Jovem, Lafayette quase abandonou a marcenaria por falta de paixão, até ir a um show do grupo Cordel do Fogo Encantado e assistir, antes da banda subir ao palco, a uma apresentação de maracatu. Tinha dezoito anos, dezenove no máximo. Procurou uma senhora que fazia instrumentos de percussão e aprendeu a construir tambores com ela. 

A palavra lutier, explica, originalmente designava quem fabricava arcos de violino, mas hoje abrange qualquer construtor de instrumentos. Foi assim que a marcenaria, que tinha virado apenas sustento, ganhou de volta um componente afetivo. E é assim que o componente afetivo se uniu ao cânhamo e ganhou um viés de criatividade sustentável.