Na Breeza

O mestre das laricas

Por Anita Krepp

Tem receitas que o Tadeu de Marco só cria chapado, e não por acidente, mas porque aprendeu que juntar TDAH com larica produz combinações que uma cabeça sóbria não alcança. Leite em pó no pepperoni. Maionese com Nutella. Coisas que parecem loucura e funcionam – ele garante. Coisas que ele testa com a seriedade técnica de quem passou anos estudando e se preparando para se tornar especialista em sabores especialíssimos. O Mestre dos Molhos, como ficou conhecido, fuma maconha há 30 anos e considera o uso tão parte do processo quanto a faca boa ou o termômetro de sonda.

Tadeu veio da música, passou pela reitoria da PUC São Paulo cuidando de cultura e relações comunitárias, e em 2013 começou a postar receitas no YouTube sem pretensão definida. A coisa cresceu rápido. Na pandemia, com meio Brasil tentando fritar hambúrguer em casa, ele já tinha uma linguagem formada que misturava técnica com criatividade de um jeito que o churrasqueiro convencional não praticava. Virou referência e, de referência, criou sua nova profissão: Mestre dos Molhos – claro, porque o hambúrguer pode ser muito bom, mas sem um molho de respeito ele não vale de muito.

O baseado sagrado de Tadeu entra num momento específico do dia. Para desacelerar, dar um passo para trás e olhar mais calmamente para o que está acontecendo. O Mestre dos Molhos gosta do termo terapêutico, enquanto rejeita a divisão entre medicinal e recreativo, e defende que toda forma de relaxar tem valor clínico. O efeito colateral, a larica, é aliada de seu processo criativo, e, quando junta TDAH com baseado bom, o paladar fica mais aguçado, os sabores mais perceptíveis, e a criatividade vai para um lugar que ele assume sem pudor ser o estereótipo do maconheiro.

Maionese com Nutella

“Agora eu vou misturar maionese com Nutella, eu sou esse cara. Só que eu faço isso de forma técnica, mesmo chapado. Eu sei que aquilo vai funcionar e eu aposto nisso”, conta. E não é que funciona mesmo? Isso porque Tadeu passou anos estudando a estrutura dos sabores e texturas antes de confiar na intuição da brisa. A receita que parece loucura já tem uma lógica que ele identificou antes, e a larica é só a inspiração que faltava.

No seu Instagram, onde tem mais de 200 mil seguidores, a maconha não aparece. Patrocínios, alcance e todo aquele cuidado de quem levou anos construindo credibilidade não permitem ativismo digital. Ser usuário é uma característica que reserva à sua vida pessoal, que só abre para quem já o conhece pessoalmente, em aula ou palestra, e aí abre o jogo com uma pergunta retórica. “Vocês gostam de mim? Vocês estão me vendo bem-sucedido dentro desse nicho? Pois bem, eu sou um maconheiro.”

O retorno, às vezes, chega em forma de presente. Literalmente. Em Vitória da Conquista, um homem que nunca tinha fumado maconha ouviu Tadeu falar sobre a planta durante uma aula e resolveu passar por Itacaré para comprar o que lhe indicaram como a melhor da região. Levou de presente. Tadeu conta essa história com um sorriso discreto. Enxerga nela um tipo de normalização que não depende de campanha nem de militância. Acontece quando alguém atravessa um preconceito por conta própria.

Os dois lados da moeda

Nova York virou a Disneylândia de Tadeu desde a legalização. Todos os anos ele vai pra lá pesquisar hambúrguer, churrasco, sabores, e inclui no roteiro os dispensários. “Saio de lá e espero para acender um baseado na frente da polícia, quase que como um protesto, mas muito mais como diversão, de ter a sensação de que não tem nada de errado nisso que está acontecendo.” 

Calibrar seu uso, no entanto, levou tempo. Com TDAH mais severo e ansiedade que não dá folga, Tadeu foi aprendendo na prática que a maconha potencializa o que já está lá, para o bem e para o mal. Quando está ansioso ou tenso demais, a erva pode levar para uma brisa errada, então Tadeu espera passar esse estado mental para acender seu cigarro de maconha. A consciência disso veio com os anos e virou parte da rotina, tanto quanto entender qual cepa combina com qual momento.

Hoje ele faz acompanhamento terapêutico para o TDAH, e a maconha entra nas sessões, claro. O terapeuta aponta os riscos, fala de memória, de conexão, de tudo aquilo que o TDAH já compromete. Tadeu ouve, pondera e segue fumando. “Porque ainda assim o saldo é positivo”, diz, o mestre de si mesmo.