
Para Marcelo Adnet, a maconha nunca foi a porta de entrada para drogas mais pesadas. Pelo contrário. É a porta de entrada para um mundo “mais livre e mais leve”, em que adultos possam tomar decisões sobre o próprio corpo sem que o Estado, o mercado ou preconceitos fabricados ditem suas escolhas. Defensor da regulamentação da cannabis, o humorista acredita que a proibição interessa muito mais ao crime organizado e aos interesses econômicos do que à saúde pública.
Neste papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, o humorista também reflete sobre o papel do dinheiro na construção de narrativas – das campanhas antidrogas à explosão das casas de apostas, que hoje dominam o futebol brasileiro. Sem poupar críticas às bets, ele revela que recusou uma proposta para se tornar garoto-propaganda do setor.
A conversa ainda passa pela paternidade, que o ajudou no processo de desconstrução do “boy lixo” criado nos anos 90 e pela decisão de falar publicamente sobre o abuso sexual que sofreu na infância. Um relato doloroso que, segundo ele, abriu espaço para que outras vítimas também encontrassem coragem para romper o silêncio.
Não dá para começar essa conversa sem falar do monotema Copa do Mundo… A gente sabe que você gosta de zoar o Neymar porque ele é realmente muito zoável, mas eu nutro uma antipatia pelo Neymar porque acho que um cara com esse poder de influência não faz nada pela humanidade, não se posiciona politicamente, socialmente, de nenhuma maneira que não seja pela grana. Você concorda que uma pessoa com esse destaque devia levantar bandeiras, ou acha que não, que um jogador de futebol pode seguir sendo apenas um jogador marqueteiro, preocupado com o próprio bolso?
O jogador pode ser obviamente um marqueteiro, ele não precisa ter uma responsabilidade social direta. É uma pessoa que normalmente veio de uma situação social desestruturada e que, portanto, não tem essa obrigação de transformar a sua voz em alguma luta. Mas, por outro lado, quando o Neymar é convocado e ele faz posts de casa de aposta, sem dizer obrigado pela convocação, sem dizer “Viva o Brasil”, sem dizer “Vou lutar pelo país”, sendo que a única mensagem que ele tem para passar é de casa de aposta, eu acho assustador. Mas a minha crítica não é ao Neymar em si, é ao público que o aplaude, que o defende com unhas e dentes, às pessoas que estão aí para dizer que é isso mesmo, que ele tem mais é que fazer propaganda de casa de aposta, que ele tem mais é que botar o Brasil em segundo plano, ele em primeiro, o marketing em primeiro, o futebol em segundo. Isso eu não acho bom. Mas eu acho que, em vez de olhar só para o Neymar, isso é uma culpa nossa, do público, porque nós consagramos, normalizamos esse tipo de comportamento de um ídolo individualista, que não olha para questões coletivas. Não vejo no Neymar uma pessoa com lições importantes para a nação. O negócio dele é chutar a bola, e fora isso ele é uma pessoa que realmente decepciona um pouco. Mas eu não tenho expectativas em relação a ele, e nem o critico por isso, porque ele não tem obrigação de agir da maneira que eu quero. Fico impressionado com a desconexão com o próprio país. E isso é um contexto muito maior, é uma coisa que vem acontecendo. Em 1970 a galera jogava aqui no Brasil, hoje os jogadores jogam na Europa, então já há uma distância maior de tudo. Eu não olho para o Neymar dizendo que a culpa é dele, é um contexto no qual a gente está inserido.
Sendo apaixonado por futebol e ao mesmo tempo enxergando esse problemão das bets, que são basicamente quem mantém os clubes de pé hoje em dia, não dá uma broxada olhar para o futebol e ver que esses caras estão totalmente comprados por um negócio torto?
É uma constatação de que o dinheiro compra tudo. Não importa muito que produto é, se o produto é bom, se eu consumo, se eu recomendo. As pessoas vão e fazem. Só que a gente tem uma epidemia desses jogos de azar no Brasil, e é bom que a gente fale sobre o assunto abertamente. Eu gosto de jogo. Jogo, seja de futebol, de tabuleiro, de cartas ou jogo do bicho. Acho interessante a disputa e as regras. Mas tem uma diferença. Se você aposta com um amigo, cada um coloca R$10 num jogo equilibrado, e quem ganhar leva R$20. Agora, se você faz isso através de uma casa de aposta, um bota R$10 na Alemanha, o outro bota R$10 na França, quem ganhar não vai ganhar R$20, vai ganhar R$17, porque a casa tira uma parte, 10, 15%. Você está jogando um jogo no qual já entra em desvantagem. É como um par ou ímpar que tem mais par do que ímpar (risos). Você entra perdendo. Se fizer uma aposta combinada, a desvantagem vai escalando. Então é um jogo que não vale a pena. Eu imagino quanto dinheiro não circulou no jogo de Espanha e Cabo Verde, com a Espanha ganhando. Esses caras devem ter ganhado bilhão, trilhão. E a experiência do jogo também destrói um pouco a experiência do futebol, porque vamos dizer que eu aposto que o Brasil vai ganhar do Haiti de 3 a 1. O Brasil faz 3 a 0 no primeiro tempo. No segundo tempo, em vez de assistir ao jogo torcendo pelo Brasil, eu vou ficar “vai, Haiti, faz um golzinho, pelo amor de Deus”. Vou torcer contra a minha seleção para que o outro time faça um gol, para que eu ganhe a aposta. Aí eu não sei mais para quem estou torcendo. E a gente vai perdendo a essência do esporte, que é torcer para um time que você escolheu, e não para o que a aposta te apontou.
É um momento em que eu acho que o comediante tem também essa função de tocar em assuntos cabeludos, espinhosos.
Com certeza.
(Minha filha invade a entrevista)
Ai, que amor, tá com quantos anos?
Dois e meio.
Aproveita, porque passa muito rápido.
Você também tem uma filha, né? Com quantos anos ela está?
Está com 5. Nasceu em 2020.
E tá pensando em ter mais?
Olha, como eu não vou ficar grávido, o poder decisório não é meu. Eu acho que é uma decisão muito mais da mulher. Quem vai carregar o bebê é ela, quem vai ter o corpo alterado, quem vai ter a responsabilidade durante 8, 9 meses de carregar, de ter uma alimentação adequada, de não poder beber. Eu, claro, tenho a minha opinião, e eu gostaria de ter mais, mas é uma coisa que não depende de mim e eu respeito muito a opinião de quem vai carregar o bebê. Eu acho que a paternidade é um negócio meio inventado, assim. No nascimento da minha filha fiquei com essa impressão. A mãe se abrindo inteira no momento mais especial da vida de uma mãe, e eu ali do lado com uma bermudinha cargo, uma mascarazinha, segurando a mãozinha. É nada. A gente é um nada. A criança nasce com aquela experiência de já fazer parte da mãe, e o pai tem que se inventar. A gente está ali do lado, tem que criar o seu espaço por insistência no dia a dia. E tenho o maior prazer em fazer isso com a minha filha. Adoro. Mudou muito a minha vida. Eu saí do primeiro lugar para o segundo, e é muito melhor ser um pouquinho coadjuvante. Às vezes, entender que a gente não é protagonista de tudo é um alívio imenso.
Foi aí que você deixou de ser boy lixo?
Não, acho que não. Isso é muito mais profundo. O boy lixo foi construído durante 15, 20 anos, não é uma coisa que o bebê nasceu e agora eu sou um anjo. Mas deu uma boa desconstruída. Eu acho que a gente aprende muito, principalmente tendo uma filha mulher. Eu adoro ser pai de menina. Minha filha é minha companheiraça. Eu aprendo todos os dias, fico sempre ligado nela, sempre um pouquinho ansioso para a hora em que ela vai chegar da escola, para saber que história ela vai contar, com que humor ela vai estar. Ontem ela invadiu o meu escritório e ficou sentada comigo vendo todo o primeiro tempo de Bélgica e Egito. Foi uma graça. Mas acho que essa questão do “ela nasceu e agora eu sou um homem maravilhoso” não é bem por aí. As pessoas carregam traumas muito grandes, histórias do passado que não são só delas. Eu falo que não necessariamente deixei de ser um boy lixo. Não me acho um monstro, mas sou resultado de alguém que foi criado nos anos 80 e 90. Uma pessoa que sofreu injustiças, viu injustiças, sofreu abusos, e a gente não tinha espaço para falar sobre isso. Não era uma coisa falável. Então, às vezes, como eu falei do Neymar, a culpa é do entorno. O entorno faz o Neymar, não é o Neymar o problema. Então também não vou me culpar por ter nascido nos anos 80 e 90, que era um ambiente complicado.
Voltando ao lance das bets. Alguma bet já te procurou, querendo você como garoto propaganda?
Já.
E como foi? Você ficou balançado?
Um pouquinho, porque a família está crescendo, filha, toda estrutura, e tenho algumas questões financeiras para resolver. Eu sou o primeiro cara da família que ganhou algum dinheiro, então tenho que levar todo mundo junto, com o maior prazer, porque eles me levaram até aqui. Então eu preciso de grana, estou gastando muito. Está difícil, estou tendo que fazer um esforço para equilibrar as finanças. Então seria maravilhoso entrar uma grana alta como a de bet. Mas não topei. Prefiro não fazer. Não acho que quem faz é um monstro. Principalmente se a pessoa não tiver muito dinheiro. Um cara que está começando na internet, sem grana, aí vem uma bet e fala “mete aí o meu tigrinho, vou te dar R$50 mil”. A pessoa nunca viu aquela grana. Para ganhar R$50 mil ela tem que trabalhar 3, 4 meses. Então ela vai fazer. Eu não consigo culpar muito essa pessoa. Agora, quem tem muito e faz, acho que não precisava. Mas tem gente que vê como um produto qualquer, como um creme hidratante que você não usa. “Estou vendendo um produto, não preciso gostar do produto.” Tem gente que vê assim, que não considera o outro lado desse produto.
Mas você ficou balançado?
Não, mas teve uma coisa que me ajudou a não balançar, que foi não ouvir o cachê. Não saber qual era o valor (risos). Isso me ajudou a dizer “não, tranquilo” (risos). Eu acho que todos nós temos um preço. Se o cara me dissesse “Marcelo, vou te dar 1 bilhão de reais”, eu falaria “1 bilhão?” Aí ele dissesse “não pensa não, vou te dar 10 bilhões”. Ganhando 10 bilhões, eu poderia doar 5 bilhões para uma instituição de combate ao vício em jogos e ficar com os outros 5 bilhões, nunca mais levantar da cadeira se eu não quisesse e só fazer o que eu quero. Aí eu poderia ficar balançado. A finança diria “claro que sim” e a consciência diria “claro que não”. Cada um tem um momento em que se balança. No meu caso, nunca ouvi a proposta financeira, o que me ajudou. Mas a consciência leve não tem preço.
Você é um cara que joga nas 11, ator, apresentador, compositor, autor de samba-enredo, como é que a coisa tá, como está o mar atualmente?
Eu acho que o mar mudou com a transição para a internet. Tem um lado muito positivo, que é a democratização. O cara que estava lá no fim do mundo hoje pode ser reconhecido pelo talento dele. Isso é muito bom, muito importante. Por outro lado, as grandes marcas e as marcas duvidosas, como as bets, já tomaram esse espaço. É delas. E aí você tem um mercado que domina tudo, inclusive a seleção brasileira. Se a gente for falar de seleção brasileira, ela é sobre futebol, mas é sobre mercado também, merchandising, publicidade, propaganda. Grana é muito importante ali. Então esses espaços democráticos que surgiram foram totalmente cooptados pelas grandes marcas, e as grandes marcas querem pessoas sem opinião, pessoas inseguras, que acreditam piamente que um produto vai te definir. Aí você entra num ciclo vicioso em que ter opinião é algo muito ruim.
Você acha que você entrou nesse lugar de muita opinião e pagou por isso?
Com certeza. As grandes marcas tendem a se posicionar no centro do espectro político, mas não estão lá de verdade. E não gostam de quem opina, porque bancar uma opinião divide o ouvinte. O ouvinte pode concordar muito ou discordar muito. Como eu fiz em 2018 a imitação dos candidatos e tal, rolou um investimento contra mim, que começa com grana e robô e porrada, e que inflama as pessoas que estão na torcida de certos políticos. Até hoje, eu posto “bom dia” e as pessoas respondem “se foder, seu canalha.” “Você ganha dinheiro da Lei Rouanet, você ganha o dinheiro do imposto do povo”, uma confusão enorme. O cidadão desejado pelas grandes marcas é um cidadão limitado, hipócrita, que não expõe as questões sérias. Porque o cidadão limitado vai precisar do produto para ficar melhor e não tem capacidade de articular uma opinião. Então as marcas promovem pessoas que tendem a ser mais vazias, porque aí você consegue enfiar o conceito da sua marca dentro daquela pessoa. Pede para o Ariano Suassuna vender uma Coca-Cola e vai ser difícil, porque ele está completo de conceito. Agora, uma menina nova, um cara novo que está surgindo no Instagram, esse vai fazer o que você quiser. Vai anunciar crédito para idoso, empréstimo a juros abusivos, tigrinho, qualquer coisa de lavagem de dinheiro. O sistema se retroalimenta e o capital financeiro está no topo de tudo. E o capital é necessário, senão não tem computador para falar com você, não tem ar-condicionado, não tem comida. Então, como é que você equilibra isso? Com muito trabalho bom. Estou trabalhando agora na série Brasil 70, naquele campeonato, fiz outro filme, concluí outros dois longas que vão ainda estrear. Tive a oportunidade de conviver com o Rodrigo Santoro, de conhecer de perto o João Saldanha, um cara que eu admirava, que eu já tinha lido a biografia e achava o máximo. Tive a oportunidade de narrar os jogos do Brasil na Copa de 70, que é a mais especial para a gente. Isso é muito legal. Quando você está na crista da onda, fica viajando para atender o capital, não para fazer arte. É claro que o Wagner Moura e o Lázaro Ramos estão lá no topo e podem escolher o que vão fazer. A gente que não está lá no topão, quando está na crista, fica nas mãos das grandes marcas. Faz o evento comercial, o vídeo interno. Mas, quando você sai um pouco desse circuito, você volta a fazer arte. Porque a arte não paga. O que paga é a marca se associando a quem faz arte. O que paga mais aos jogadores de futebol, a vitória ou o merchandising? É o merchandising. Mas o merchandising só vem com a vitória. Então você tem que ser vencedor para fazer marketing. Fica todo mundo assim, pensando que tem que trabalhar um pouco para fazer marketing, calar a boca para fazer marketing, esconder a opinião para fazer marketing, falar o que não acredita para fazer marketing. As pessoas viraram marcas, viraram empresas. A mercantilização de tudo, inclusive da sua opinião. Hoje você liga na internet, lê notícias no Twitter, no Instagram, essas páginas de fofoca com dezenas de milhões de seguidores. Você vê que tem muita notícia paga. O elogio é pago. “Fulano é muito demais, não merece todos os aplausos? Não merece uma estátua?” Uma coisa tão exagerada, tão hiperbólica, e você fica pensando de onde vem isso. Vem de grana. As pessoas pagam para ser elogiadas. A opinião foi mercantilizada. É difícil nadar nesse mar. A gente faz o nosso trabalho e vai se equilibrando como pode dentro de um cenário desregulado.
Aqui na Breeza a gente gosta muito de falar de cannabis e de psicodélicos também. E eu, como nunca tive oportunidade de te ouvir falar sobre esses assuntos, adoraria saber, mais do que sua opinião, a sua experiência, começando pela cannabis.
Olha, eu acho que cada ser humano é um universo diferente. A gente tem o macro e o micro. Somos compostos por pequenas partículas, mas, ao mesmo tempo, somos um universo inteiro. A cannabis pode te dar uma experiência de relaxamento, de felicidade, de criatividade. Enquanto em outra pessoa ela pode trazer paranoia, síndrome do pânico. Tinha gente na minha família que fumava. O meu avô, que já morreu, fumava ali no cantinho dele e para ele era maravilhoso, ele adorava, não vivia sem. Um dia um outro tio meu foi experimentar e começou a tossir, passar mal. Então não existe “isso é bom, isso é ruim.” Isso pode ser bom e pode ser ruim, dependendo de cada pessoa. Agora, a cannabis em si, ela fica muito no meio do caminho. Você olha para a cocaína e ela é nitidamente uma droga, um produto feito em laboratório, mesmo que improvisado. Você está consumindo um produto químico. Com cocaína, ecstasy, crack, fentanil, tudo isso, você está consumindo um produto químico muito perigoso. E a cannabis não, você está consumindo uma planta. O fato de ser uma planta não quer dizer que ela é boazinha e não tem problema nenhum, porque tem plantas que podem te matar. Mas existe uma diferença entre olhar para uma planta e olhar para o produto de um processo químico. E você tem a experiência de países como o Uruguai, a Holanda, e agora os Estados Unidos, que regulamentaram a maconha. Eu acho isso muito bom porque o consumo existe. O consumo não vai deixar de existir por causa da proibição. Se o consumo existe, é o tráfico que fica com todo o dinheiro. Por que o estado abre mão disso? É o tráfico que fica com a grana e as crianças da periferia vão para a cadeia, tomam porrada e viram bandidos para vender droga. Controlando um mercado que gera bilhões em impostos, podendo controlar a qualidade do produto, gerando algo sem aditivos, com um mínimo de controle de qualidade, você arrecada imposto, diminui os problemas de saúde da população porque o que está sendo consumido passou por um controle da Anvisa. Atrai novos turistas, diminui a população carcerária. É uma experiência que obviamente é a mais correta a ser feita, a mais razoável, que gera menos dano para a população. Menos gastos com hospital, menos trabalho para a polícia à toa. Ficar correndo atrás de baseado não faz sentido. O Brasil tem um pensamento muitíssimo atrasado sobre isso, que enxerga a maconha como se fosse uma metralhadora, uma granada, uma coisa aterrorizante. E esse pensamento foi construído para defender os grandes traficantes. Não veio de uma igreja, não foi alguém que começou a falar “ai, essa droga é ruim.” Foi um plano político que a gente viu acontecer nos Estados Unidos nas décadas de 20, 30, 50. Tinham aqueles comerciais dizendo que se você fumar maconha, vai matar sua esposa, vai bater nas pessoas, virar comunista. Foi um plano. E quando você tem algo que é proibido, que é rechaçado pela população, o preço sobe. Essa proibição não é sobre moralidade, não é sobre filosofia. É sobre grana. É proibido a alguém lucrar muito mais com o que é proibido. Se for liberado, está em qualquer loja e não vale nada.
Fora que esse traficante que está lucrando está de conchavo com vários figurões do nosso congresso.
Sem dúvida, é um plano político, assim como é o nosso subdesenvolvimento, que não é natural. É programado para ser feito dessa forma. Então acho muito curioso como às vezes a gente acha que é um hábito social, cultural, a opinião da vovó e do vovô, quando na verdade é um plano dos próprios traficantes infiltrados na política e vice-versa, para manter a proibição sobre algo para que esse produto valha muito mais para quem está aliado a eles e vendendo.
Você sempre teve essa clareza sobre a cannabis ou foi uma coisa que você foi construindo nos últimos anos?
Quando a gente é criança não pensa sobre isso, mas desde adulto, sempre que eu pensei sobre o assunto, acho que foi dessa forma. Talvez por ter visto alguém da família ou de amigos fumando e percebido que a pessoa era pacífica, tranquila, não se alterou em nada, não aconteceu nada, era muito legal, muito gente boa. Eu tive problemas vendo pessoas alcoolizadas. O álcool é um negócio que tira o nosso controle e a nossa consciência. Você acaba sem saber o que aconteceu, tem amnésia. Com a maconha, isso não acontece, só se ela estiver associada ao álcool ou a outra coisa. E a gente tem isso sem problema nenhum. Não acho que seja errado. Eu gosto de beber, tudo certo, mas reconheço que é uma droga muito mais potente e muito mais perigosa do que a cannabis. E você tem lá o técnico da seleção brasileira fazendo comercial de bebida alcoólica durante a Copa. Esporte não tem nada a ver com bebida, e o técnico está lá fazendo a propaganda. Eu não acho que ele está errado não. Eu acho que a gente considera beber o máximo, super legal, vamos beber no bar, beber com a filha no colo, mas fumar aquela plantinha não pode. Porque é coisa de vagabundo, de criminoso.
Como você acha que isso vai mudar? Porque é aquela história, o dinheiro ganha toda a parada.
Eu acho que o dinheiro vai ganhar. Inclusive, um amigo meu me falou outro dia que alguns políticos de criação política de extrema-direita têm licença de produção de óleo de maconha, ou lutam pela regulamentação. E essa defesa não vem da ideologia. Não vem porque o PL decidiu que a maconha é legal. Ela vem porque dá dinheiro. Dá dinheiro, dá voto, então dá influência. E a grana vai vencer. Vai chegar uma hora que alguém vai defender que é preciso tirar isso das mãos dos traficantes e dividir. Eles vão ficar lá com o negócio deles ainda, porque não vai acabar. Mas a gente vai ter o nosso aqui para controlar. E aí alguém vai perguntar como a gente justifica estar a favor agora. Vamos gastar 5 minutos pensando no que vamos dizer e pronto, a gente conseguiu provar que é bom para o tratamento do câncer, então agora é algo bom. A verdade vem depois do fato. Primeiro tem o fato e as pessoas criam a verdade depois. A verdade vai se curvando à vontade dos discursos. O que vai mudar esse panorama é o dinheiro. Não é o convencimento de que isso vai melhorar a saúde, vai diminuir o número de presídios, vai aumentar a arrecadação. As pessoas não se convencem por teoria, por filosofia. Tem que ter um lucro. E os grandes países, os próprios Estados Unidos, que não são uma nação progressista necessariamente, viram que isso é grana.
E você? Você gosta de apertar um baseadinho e ver uma partida de futebol?
Eu não me sinto muito à vontade para falar da minha experiência, porque eu acho que é uma dimensão ainda íntima. No nosso país, sendo uma pessoa pública como eu, uma pessoa que fala “bom dia” e as pessoas respondem “vai morrer, canalha, ladrão”, eu preservo tudo o que eu posso preservar da minha intimidade, da minha vida pessoal. Acho uma pena a gente não poder falar mais livremente sobre isso. Mas é um assunto que eu gosto muito, que me interessa bastante. E eu acho o nosso esquema hoje um grande retrocesso, porque ele não só tem problemas na saúde, na segurança pública, no sistema penitenciário e na arrecadação, mas as pessoas ainda consideram isso um assunto altamente íntimo e altamente grave. Se você disser que fumou uma pontinha, “você apoiou o tráfico, você comprou fuzis para o Comando Vermelho.” Esse é o pensamento que as pessoas fazem. Então você obviamente vira vidraça quando abre qualquer coisa da sua intimidade. Eu outro dia falei algo que foi muito mais importante para mim do que dizer se eu bebo ou se eu fumo. Que foi dizer que eu fui abusado quando criança. E fui agredido por isso também. “Ah, agora eu entendo por que você é assim.” “O caseiro tinha que ter te comido mais.” Então quando eu abro a minha casinha, falando com você, que é uma pessoa muito bacana, com uma revista que provavelmente tem um público muito legal, as pessoas vão tirar isso, replicar, e aí isso vai respingar em mim de uma maneira que eu não posso controlar. Em mim e na minha filha. As pessoas estão sempre querendo roubar um pouquinho da sua intimidade para jogar contra você.
Mas é uma coisa da qual você se arrepende de ter aberto, de ter falado publicamente sobre o abuso?
Não, de forma nenhuma. Até porque uma criança de 7, 8 anos que é estuprada não tomou nenhuma decisão. E é uma questão de pandemia de abuso, você percebe que todo mundo foi afetado. Só que só uma minoria fala, lembra, se relaciona com isso. A maioria apagou. Deixou guardado. Eu disse que não, que isso tem que ser dito, a gente tem que falar sobre isso. E foi muito legal, porque recebi muitas mensagens de gente relatando coisas parecidas. Caramba, toquei na ferida de muita gente. E ninguém me disse “você trouxe uma lembrança horrorosa.” Não, as pessoas disseram que choraram, que lembraram de uma coisa, que tomaram coragem e vão falar com a mãe. Porque você se cura quando você bota o negócio para fora, quando você olha para o que aconteceu e percebe que está fora de você já. Você consegue ficar olhando para a caveira de longe. Não é a minha caveira, não. Estou olhando ela aqui. Você a tira de dentro de si. É um assunto muito importante, e um dos meus principais objetivos é que meus filhos não passem por isso.
Isso é a minha paranoia, eu vou no colégio da minha filha pra conhecer as pessoas que trabalham ali e tenho preferência pelos que não tenham homem trabalhando, muito embora eu saiba que mulheres também podem praticar abusos…
E aí eu como homem fico com as duas pontas da paranoia. Uma é proteger a minha filha e a outra é que quando a amiguinha vem aqui e senta no meu colo, eu já fico “opa, espera aí, desce.” Porque realmente não tem maldade nenhuma, essa amiguinha estar no meu colo e eu estou dizendo “ei, meu amorzinho, dá um abraço.” A maldade é zero, mas eu estou hiperalerta. Eu quero deixar a mãe da criança segura, porque eu também ficaria inseguro se fosse ao contrário. Então a gente ainda é atrasado porque não pode falar sobre coisas que deveria falar. Esse esquema em que a gente fica calado, sorrindo e promovendo discursos de quem nos paga, é muito ruim para uma nação, para uma sociedade. É por isso que o abuso contra as mulheres, que é uma epidemia, os estupros, os assédios e abusos de toda ordem, física e verbal, passavam desapercebidos. Porque a mulher não tinha direito de falar. Quando a mulher dizia “eu fui estuprada”, ela era tachada de piranha. E o cara que diz “eu fumei um baseado” apoiou o Comando Vermelho, comprou drogas para bandidos. O que é uma total mentira. O usuário não tem a ver com isso. E cada vez mais surgem pessoas cultivando os próprios pés, clubes para pessoas cultivarem, tendo maconha fora da mão do tráfico. A maconha que nasce no vaso. Eu lembro na época da faculdade, daquele cheiro de maconha com amônia (risos) e hoje está cada vez mais raro. Agora é um cheiro muito mais verde, muito mais natural. O Brasil cresceu nesse sentido, nessa qualidade. Está ficando cada vez mais comum, uma coisa corriqueira, que não define mais tanto as pessoas. Tem gente de extrema-direita que fuma. Um maconheiro não é uma pessoa que fuma por algum motivo estranho. Numa época em que todo mundo está maluco, todo mundo tomando Rivotril, a maconha vai perdendo esse rótulo de droga perigosa e de porta de entrada para outras drogas. Porta de entrada para outras drogas se compra na farmácia. É um antidepressivo, é um Ozempic, é uma caneta de emagrecimento que você não sabe o que tem dentro. Então a gente ainda vive isso. Isso me dá uma preguiça imensa, ter várias pautas sequestradas, caladas, censuradas. Mas esse é o país em que a gente vive. Eu tenho uma opinião clara sobre a questão da cannabis. Acho que a gente tem muito o que avançar, e que quando cai um preconceito, vários outros podem cair também. A maconha é a porta de entrada para um mundo mais livre, mais leve, em que as pessoas tenham poder decisório. Ninguém que não gosta de maconha vai ser obrigado a fumar. Pessoas que têm ansiedade ou sei lá o quê vão fumar, e não para cometer crimes, mas porque faz bem a elas. A gente conhece vários músicos e artistas em que a maconha está associada à arte também, pela criatividade, pelo relaxamento, pela diminuição da ansiedade. É um assunto que cada vez mais fica leve, acessível, e as novas gerações chegam com outra visão. Isso ainda é uma visão muito da nossa geração, da galera dos anos 80 e 90, que nasceu num mundo tão repressivo, tão sem voz, e ainda meio assustado pela coisa do mundo analógico.