Reportagens

As redes sociais são porta de entrada?

Por Filipe Vilicic

Há uma onda de influenciadores que tem promovido os drinking games, desafios nos quais têm de se embebedar ao máximo. E isso não se dá em cantos estranhos da internet, mas no YouTube ou no TikTok. No Instagram, o cigarro e a maconha têm figurado em uma estética contemporânea, brat, messy, como os clipes da Charli XCX ou as fotos sensualizando com um beck na mão. No TikTok, espalhou-se um desafio que sugere que se tome doses cavalares de antialérgico, o que já levou a casos fatais, como o de Jacob Stevens, adolescente que morreu nos EUA após tomar mais de 10 comprimidos em 2023. As redes sociais têm nos levado às drogas?

A pergunta é complexa e exige uma abordagem de múltiplos ângulos. Ver alguém que admiramos fumando um ou entornando copos de tequila pode nos levar a querer imitar. Mas há também formas sutis com que as redes nos levam aos abusos, como numa arquitetura algorítmica que privilegia a busca por validação e que se apoia no sofrimento mental causado pelas telas para fisgar e conquistar pessoas que passam a se viciar no reconhecimento fácil, só que ilusório, que encontramos nas redes.

Uma pesquisa de cientistas das universidades Harvard e Rutgers Health, ambas nos EUA, mostrou como é verdadeira a percepção mais simples de que vamos querer beber se vemos alguém bebendo. A pesquisa avaliou como 2 mil estadunidenses reagiam a conteúdos de influenciadores se embriagando. Enquanto parte dos jovens adultos foram expostos a feeds sem a presença de drogas, a outra parcela assistiu a vídeos com influencers bebendo. O resultado é que quem teve contato com esse estilo de post apresentou uma tendência 73% maior de querer beber após visualizar. No estudo, os autores indicam que esse mesmo efeito pode ocorrer em cenários com outras drogas (como a maconha).

É discutível se é OK influenciar outros a usar drogas. No mundo real, somos apresentados à cervejinha, à ganja, ao cigarro por amigos e familiares, e já faz tempo que as redes sociais passaram a ser uma extensão do mundo real. Porém, há agravantes no cenário das redes.

Aí não é legal

O primeiro ponto é que a pesquisa detectou a influência do uso de bebidas em jovens, muitos deles com menos de 21 anos e, portanto, sem idade legal para poder beber. É comum as pesquisas indicarem que os posts de influenciadores se divertindo em festas enquanto estouram champanhes, ou fumando vapes em cenários paradisíacos, ou queimando a melhor flor numa praia bucólica… levam adolescentes a querem experimentar. E isso sem ter por perto um familiar ou amigo para conversar sobre. E aí está mesmo um limite inaceitável: queremos legalizar inclusive para impedir que a publicidade das drogas chegue a menores de idade (como hoje, na prática, ocorre no mundo criminalizado).

Outro estudo, de 2019 e da Universidade de Stanford, analisou milhares de publicações no Twitter, no Facebook e no Instagram para mostrar como essas redes espalharam o uso de vapes e cigarros eletrônicos entre adolescentes nos EUA. Escreveram os autores do estudo: “A publicidade destacava visualmente sabores doces e frutados. A empresa contratou influenciadores como embaixadores da marca (…) insistiam para que eles não revelassem essa relação comercial”.

“Os dados mostram que os jovens que bebem tendem a beber muito, as consequências para a saúde pública associadas ao consumo e ao abuso de álcool por jovens incluem lesões não intencionais, violência física e sexual, maior risco de suicídio, deterioração das funções cerebrais e mortalidade”, nos diz o pesquisador Jon-Patrick Allem, principal autor da pesquisa das das universidades Harvard e Rutgers Health que indicou como as redes levam as pessoas a querer beber. “É fundamental identificar as influências nas cognições e atitudes favoráveis ao álcool, bem como no consumo persistente entre jovens. E algumas pesquisas e estudos mostram que, para alguns jovens, o uso de cannabis pode substituir o consumo de álcool”, alerta Allem.

No caso dos menores de idade, o pesquisador acredita que as Big Techs devem ser responsabilizadas pela má influência dos conteúdos que circulam pelas redes sociais e chegam a crianças e adolescentes: “Essas empresas deveriam fazer o máximo possível para proteger os jovens de conteúdos que possam prejudicar o seu pleno desenvolvimento, incluindo publicações que sugiram que o uso de qualquer tipo de substância seja algo normal, recompensador e divertido. Os pais devem estar cientes do tipo de conteúdo a que seus filhos podem estar expostos e conversar com eles para ajudar a contextualizar o que estão visualizando”.

No Brasil, foi um avanço aprovar, em março deste ano, o ECA Digital, também conhecido como Lei Felca, apelido em referência ao criador de conteúdo Felca, que em 2024 publicou um vídeo no qual denunciou a adultização de menores de idade em conteúdos produzidos para a internet. A nova legislação impõe regras mais rigorosas para a moderação do tipo de conteúdo que chega até as crianças e os adolescentes, limitando o uso de redes sociais por menores de 16 anos, como ao obrigar a ampliação de mecanismos de controle parental e a adoção de novas ferramentas de validação de idade. Pode também levar à penalização de Big Techs que deixarem os conteúdos impróprios, como os de uso de drogas, chegar aos adolescentes.

Porém, não é uma lei que vai mudar a realidade. É incontornável que as novas gerações vão nascer já ultraconectadas, em um mundo de redes sociais, smartphones, fóruns online. Mesmo que as redes sociais mais populares criem filtros e formas de moderação que sejam eficientes, sempre haverá cantos escuros da internet no qual se poderá achar todos os tipos de perigos. Nesse novo contexto, é preciso que diversos atores atuem para minimizar danos. O Estado e as leis, sim, mas também frentes como a escola, os núcleos familiares, a saúde pública.

E para 18+?

Assim como os conteúdos online influenciam os jovens, eles chegam aos adultos. Todavia, aí a questão é bem diferente. Assim como no mundo real, adultos deveriam estar munidos de ferramentas e de educação para conseguir filtrar e editar o que leem e veem. O problema nesse ponto é que não parece que, como sociedade, estamos aptos e prontos para enfrentar esse desafio com toda plenitude.

Parte de se informar sobre o que consumimos nas redes é compreender que existe um algoritmo, digamos que uma robô invisível, capaz de ditar o que vemos e como reagimos. Tenhamos o exemplo do uso de drogas: se você uma vez curtir um meme sobre maconha, ou uma imagem sensual de alguém dando uns pegas, vai se criar uma bolha canábica em sua timeline, sendo que posts do mesmo estilo vão começar a aparecer, mesmo que não siga os perfis de onde eles vieram. 

Um estudo publicado neste mês de junho mostrou como se forma essa bolha de fumaça – ou de álcool, de tabaco e tais. Realizado por pesquisadores da universidade UC San Francisco, dos EUA, com mais de 7 mil pessoas, o trabalho constatou que quem é expostos frequentemente a conteúdos digitais que retratam o uso de substâncias de forma positiva tende a experimentar álcool e drogas muito mais cedo e com frequência do que os que ficam fora dessas bolhas algorítmicas. Escreveu o pediatra Jason Nagata, principal autor do trabalho: “Trajetórias crescentes de uso de redes sociais foram associadas a maiores chances de experimentação de álcool, cannabis e nicotina, sendo que a trajetória de uso de início precoce e crescimento rápido apresentou a maior magnitude de associações (…) Essas descobertas reforçam a necessidade de estratégias de saúde pública que apoiem hábitos digitais mais saudáveis”.

Há outros agravantes do ambiente virtual. Sabe-se que o uso excessivo das redes sociais causa ansiedade, depressão e distorção de imagem devido à comparação social constante. Para dar conta desse vazio e da frustração de não ter a “vida perfeita do Instagram”, alguns recorrem a substâncias (álcool, cannabis, ansiolíticos…) como rota de fuga rápida. O último relatório anual da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), órgão da ONU, concluiu que redes sociais não são apenas vitrines, mas os principais facilitadores do comércio local de drogas. O que ocorre na superfície das redes, como no Instagram e no YouTube, ainda pode ser porta de entrada para links que levam a fóruns de ambientes bem mais perigosos da deeb web.

No caso dos maiores de 18 anos, é um tanto como no mundo real. Nós, adultos, temos de nos ajudar para buscar soluções de saúde mental e segurança para o ambiente digital. No fim do dia, contudo, temos também de ser aptos para escolher como e pelo o que somos influenciados – e se quisermos experimentar algo novo porque vimos nas redes, é uma escolha própria de um adulto… ou seja, e daí?