Por Anita Krepp

Quando a cannabis apareceu no radar de Luana Lima, ela não estava atrás de uma nova paixão nem de uma causa para defender. Estava apenas trabalhando. Naquela época, atendia atletas de alta performance, triatletas e fisiculturistas que empurravam o corpo até onde mal se aguenta, e foi dentro desse universo de exigência extrema que ela começou a perceber os limites do que sabia fazer até então. A massagem convencional resolvia, mas não o suficiente.
“Eu via que o que eu aprendia não era tão efetivo para um atleta”, conta ela. A solução foi criar o que não existia. A cannabis entrou no seu arsenal de opções para recuperação dos atletas um pouco antes da pandemia, quando ela começou a cruzar informações sobre o sistema endocanabinoide com o que o seu trabalho de terapia manual já ativava, o sistema neural.
Dois universos que, na prática clínica, se encontravam no mesmo ponto. Começou com dois ou três atletas de fisiculturismo, usou óleo sublingual e também azeites de cannabis de uso tópico como parte do protocolo, e os resultados vieram rápido demais para ignorar. Disfunções que levavam meses para responder iam cedendo. O bruxismo melhorava, a qualidade do sono mudava e os atletas queriam saber mais sobre aquela mágica.
“Eu percebi que, com o canabidiol e a terapia inteligente, os resultados são muito rápidos”, explica Luana, que, enquanto acompanhava esses atletas de perto, semana a semana, foi entendendo como trocar dosagem e controlar reações.
Pioneirismo 360
A trajetória de Luana não seguiu nenhum roteiro óbvio. Ela cursava direito e precisou largar no meio do caminho por necessidade. Então, foi para a massoterapia porque precisava de algo rápido que pagasse as contas, e se viu, por pura curiosidade, inventando uma metodologia própria. Faz 10 anos que ela trabalha com terapia manual. O Método MyoTherapy, que ela desenvolveu e ensina para centenas de alunos espalhados pelo Brasil e pela Europa, chega hoje aos bastidores dos maiores campeonatos de fisiculturismo do mundo, incluindo a Muscle Contest, a maior federação do esporte no planeta.
De todas as ferramentas que experimentou profissionalmente ao longo dos anos, a cannabis foi a que mais a impactou. Sobretudo o aspecto medicinal da planta, que é o que mais fascina a massoterapeuta – apesar de não negar também vez ou outra usufruir recreativamente. “De vez em quando também, como falei, acabo fumando, óbvio, mas o que eu vi mesmo foi o diferencial na vida das pessoas em relação ao óleo.”
Fumar, no entanto, não se tornou um hábito, pois se considera muito sensível ao THC, se fumar um pouquinho, já bate legal, e às vezes, até demais. Certa vez, quando misturou uma flor rica em THC com um óleo que também carregava THC, passou dias com crise de ansiedade. O irmão dela, médico que atua com cannabis, foi quem diagnosticou o que tinha acontecido. O acúmulo do canabinoide por uso de diferentes produtos, explicou ele, pode dar ruim.
Massagem e cannabis, feitos um para o outro
Luana não é uma evangelizadora da cannabis. Fala da planta com a mesma objetividade. Nunca teve preconceito, mas também nunca romantizou. O que lhe interessa são os dados que ela própria colheu ao longo de anos de atendimento, e o que esses dados dizem é consistente o suficiente para ter mudado o rumo da sua carreira. “Eu vi pessoas virarem a chavinha. Liberar gatilhos emocionais e mentais.”
Por conta dos resultados que via na maca, ela quem tomou a iniciativa de transformar seu espaço, inicialmente dedicado apenas à massagem, também em uma clínica integrada para atrair médicos prescritores de cannabis. “Eu entendi que a cannabis é uma medicina humanizada, assim como o meu trabalho como massoterapeuta também é. Eu agreguei muito ao meu trabalho trazendo o canabidiol.”
Como não podia prescrever, mas entendia do assunto melhor do que muitos dos médicos que chegavam por lá, acabou sendo ela quem os introduzia ao tema, quem abria o caminho, quem sugeria protocolos a partir do que observava nos seus próprios clientes. Alguns desses médicos são hoje especialistas reconhecidos na área.
A MyoTherapy funciona com unidades em Curitiba, Balneário Camboriú e São Paulo, mas a presença de Luana vai além dos consultórios. Ela dá cursos, forma terapeutas, tem linha de produtos e de roupas. Fala de cannabis em todos os cursos que ministra e nunca encontrou resistência que a fizesse recuar. O preconceito, ela diz, está em quem apresenta o assunto com medo, não em quem escuta. “O preconceito contra a cannabis não está nas pessoas, ele está na gente, vai da forma com que eu me posiciono”, explica.