Por Anita Krepp

Cid Torquato conhece bem a pergunta. Ao longo dos anos, ouviu diferentes versões dela em entrevistas, eventos e conversas de corredor. A pergunta muda de roupa, mas raramente de intenção. Você fuma maconha? Ele gosta de observar as respostas que personagens públicos inventam para escapar do assunto. Tim Maia dizia que não fumava, não bebia e não cheirava, só mentia um pouco. Bill Clinton admitiu ter fumado, mas não tragado. Fernando Gabeira desenvolveu uma elegante técnica diplomática segundo a qual, quando visitava países onde o uso era permitido, eventualmente podia apreciar ou não a cannabis. Sei, sei.
Cid também encontrou a sua fórmula. Politicamente e publicamente, defende a legalização do uso medicinal e recreativo, acompanhada de mais pesquisa científica e regras claras. Sobre o próprio consumo, costuma dizer que se trata de uma questão de foro íntimo e essa resposta ganha outros contornos quando sai da boca de um homem que construiu a carreira dentro de instituições de alta patente.
Advogado formado pela USP, executivo do mercado de tecnologia, assessor de governo na gestão Fernando Henrique Cardoso, secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, comentarista de rádio, pesquisador e coordenador do Núcleo de Inovação em Acessibilidade do InovaUSP. Durante boa parte da vida, Cid habitou ambientes que costumam enxergar a cannabis como um problema ou, no mínimo, com um certo desdém. Hoje, é justamente a cannabis que ajuda a resolver um dos problemas mais difíceis de sua rotina.
“A única forma de minimizar os espasmos é consumindo principalmente em flor. Não tem medicação que segure a onda. Todo tetra que eu conheço faz uso de cannabis”, conta ele, cuja história com a planta começa muito antes da lesão. Cid fuma desde os 18 anos e durante décadas, a maconha ocupou um lugar relativamente banal em sua vida, parte da paisagem de uma geração urbana que experimentou a planta muito antes de ela se tornar assunto de consultórios, fundos de investimento ou audiências públicas.
Novos velhos hábitos
Em 2007, aos 39 anos, ele quebrou o pescoço. A lesão o deixou tetraplégico e inaugurou uma segunda vida. Vieram a reabilitação, a adaptação, os novos limites físicos e uma rotina marcada por espasmos musculares intensos. Como acontece com milhares de pessoas que vivem com lesões medulares, a espasticidade passou a fazer parte dos dias, numa rotina em que seus músculos contraem sem aviso.
Seis meses após a lesão, Cid já trabalhava na Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, que estava sendo criada naquele momento. Se reabilitava e atuava dentro do tema que passaria a definir sua vida pública. Quando assumiu a Secretaria Municipal, conta que algo mudou de vez nos hábitos, na motivação e na maneira de ocupar o espaço. Seus hábitos de uso da maconha continuaram, apenas ganharam um peso diferente.
“O que era um hábito continuou existindo, só que agora com um significado muito maior.” O que surpreendeu Cid não foi descobrir que a cannabis ajudava, isso ele já sabia há tempos, mas foi perceber a distância entre o bem-estar que ele observava no próprio corpo e o que o debate público repetia sobre uma suposta periculosidade da “droga”.
Durante décadas, a planta esteve presa a uma caricatura, e Cid parece desconfortável com as simplificações dos dois lados. Prefere falar de evidências. Foi assim que se aproximou das discussões sobre cannabis medicinal e passou a acompanhar pesquisas, associações de pacientes e mudanças regulatórias. O tema deixou de ser apenas pessoal para tornar-se também uma questão de cidadania. “Precisamos pacificar a legislação e criar jurisprudência competente para acabar com as arbitrariedades que ainda são muito frequentes”, defende.
Revertendo a lógica
Enquanto boa parte do país ainda associa a cannabis a uma figura marginalizada, Cid ocupa espaços reservados à respeitabilidade institucional. Dá entrevistas, escreve colunas, participa de debates acadêmicos. Não corresponde ao personagem que muitos imaginam quando pensam no clássico defensor da legalização.
No InovaUSP, onde coordena o núcleo de inovação em acessibilidade, costuma dizer que a deficiência não deveria ocupar o lugar do coitadismo, nem o fim da fila. Essa mesma lógica se repete quando fala da planta. Em ambos os casos, o que o interessa é autonomia, participação e liberdade de escolha.
Essa sua defesa é mais calcada em coerência que na rebeldia. A mesma pessoa que passou anos lutando para ampliar direitos de grupos historicamente excluídos questiona por que pacientes continuam encontrando barreiras para acessar um tratamento que melhora sua qualidade de vida. “Defendo o uso terapêutico e recreativo, com regras claras. E reforço que se trata do único remédio capaz de minimizar a espasticidade, comum aos tetraplégicos e tetraparéticos como eu.”
Hoje, aos olhos do Estado, Cid continua sendo advogado, pesquisador, ex-secretário, especialista em inclusão. Aos olhos do próprio corpo, continua sendo também paciente. Resta saber se, aos olhos da sociedade, algum dia será possível enxergar sem preconceitos a figura do maconheiro medicinal, cada vez mais comum no Brasil e, ainda assim, tão difícil de compreender.