
Jorge Du Peixe nunca esteve interessado em botar a cannabis no centro de sua vida, muito embora ela esteja por perto. Ao longo de décadas de convivência com a planta, viu amigos construírem discursos espirituais, terapêuticos, criativos e políticos em torno dela, mas preferiu manter uma relação mais simples e puramente recreativa. Sem dogmas, sem militância e sem promessas de iluminação.
Nesta conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, o músico fala pela primeira vez sobre os rituais canábicos que dividia com Chico Science nos anos de formação da Nação Zumbi. Entre lembranças de madrugadas pelas ruas de Recife, histórias dos bastidores de Afrociberdelia e reflexões sobre LSD e microdosagem de cogumelos, Jorge revisita uma época em que a psicodelia fazia parte da paisagem cultural do manguebeat muito antes dessas discussões chegarem ao centro do debate público.
Jorge, eu queria começar por uma coisa que acho muito interessante em você: sendo um artista com composições próprias, um trabalho consolidado numa banda autoral, você ainda assim abre espaço para homenagear referências como Luiz Gonzaga e Jorge Ben Jor, respectivamente, no seu disco “Baiano Granfino” e na sua outra banda, o Los Sebos Postizos. Como foi possível essa espécie de dissociação do ego?
Ah, eu tento me esquivar dele 24 horas por dia. Aprender a esquivar das balas assim. Somos meras interfaces. Luiz Gonzaga e Jorge Ben são duas fontes importantíssimas. O baião é um dos alicerces da música do Brasil. O Gonzaga, acho que foi o primeiro popstar brasileiro. E Jorge Ben, uma figura única, um universo muito dele. Muito contemporâneo da bossa nova, mas criou a bossa dele, que é o Samba-Soul-Novo. Uma discografia incrível. Cada disco é um universo diferente. E ele se gaba de não ter feito nenhuma música triste, e é verdade. A gente conseguiu fazer versões. Meu tom é muito baixo, e Jorge Ben vai nos falsetes e tal. Tivemos que cair para um tom mais baixo. As músicas ficaram um tanto mais soltas ali, mas ele curtiu, ele gostou. Acho que o filho do Jorge Ben gravou um show do Los Sebozos no SESC Pompeia, e acho que o nosso técnico disponibilizou e o filho dele baixou e mostrou. E chegou até ele. E o que aconteceu foi que ele gostou dos nossos shows. Depois de um tempo, cheguei a falar com a Domingas, a esposa dele, para pedir autorização para a gente gravar aquele disco. Ela foi muito simpática e, enfim, ele não costumava mais autorizar para muita gente assim. Depois de um tempo, na feitura do disco, a gente cruzava com ele nos aeroportos. Ele dizia: “Cadê o disco?”… Estamos fazendo agora os 50 anos da Tábua de Esmeralda, que completou em 2024. A gente vem fazendo e tem lugares que até então a gente não tinha feito. Fizemos agora em Goiânia encerrando o festival. Engraçado isso — não sendo uma banda autoral, mas a ideia era não fazer cover. São versões.
Pra você nunca foi uma questão do tipo, porra, eu já faço parte da Nação, eu já sou Jorge Du Peixe, vão achar que estou fazendo um cover barato?
Não. Acho que é uma oportunidade de mostrar também o que te influencia, o que você ouve em casa. Luiz Gonzaga e Jorge Ben, eternamente, não vou deixar de ouvir nunca. Não existe um saudosismo em questão. E a cada audição você descobre coisas novas, com o ouvido mais atento. Você começa com a música e se atenta a coisas mais superficiais; com o tempo você lida mais com a feitura dos arranjos, numa perspectiva maior da música. Fica sabendo que o Tábua de Esmeralda foi o último disco em que ele usou guitarra. Não sabia até então que tinha sido gravado ao vivo. E usaram duas baterias. Então tem peculiaridades do disco que você vai esmiuçando. Por isso que a gente vai atrás do vinil, o vinil tem uma ficha técnica ali que mostra quem fez o quê. Hoje em dia quase que não se mostra isso, ninguém sabe quem tocou o quê. E a gente sempre foi curioso para saber, desde a feitura. É interessante, faz parte desse universo musical.
Você tinha me falado que vai ter um lançamento de um álbum inédito depois de 12 anos, se não me engano, da Nação, agora para o segundo semestre de 2026. Me conta um pouco o que a gente pode esperar desse disco.
Não dá nem para falar muito sobre ele ainda, porque ainda falta terminar uma letra. É um corredor assim que se faz e eu tô até na ala final, pode-se dizer. O produtor é Fábio Pinz, daqui de São Paulo, que produziu o “Baiano Granfino” comigo. O mote maior, desde o Chico Science na Nação Zumbi até hoje, é não se repetir. Você percebe que de um disco para outro existe uma diferença enorme. E por mais que se tentasse fazer algo parecido, a gente não consegue, e a intenção nunca foi essa. Sempre trazer um frescor a cada disco. É uma fase nova, outra formação, trazendo uma coisa que é muito da Nação Zumbi: mais percussão também. Tá diferente, e essa diferença é importante para a gente. A gente não criou uma fórmula musical; muito pelo contrário. A ideia é derrubar monolitos. Não existe uma batida única. E de um disco para outro você acaba conhecendo pessoas, outros discos, assistindo outros filmes, lendo outros livros, tudo isso acaba se imprimindo em cada disco.
Tem alguma discussão, um conceito definido?
Acho que hoje em dia, diante desse mercado, de como se lida com música, de como se enxerga a música, tem até robôs tentando fazer música, que é um negócio complicado. Acho que a música deve se enxergar como uma resistência acima de qualquer coisa, de se manter viva em meio às máquinas tentando tomar conta, o que é uma coisa meio surreal. Ferramenta interessante para alguns, outros relutam. Mas eu gosto do feeling humano realmente. Música é uma coisa de muito sentimento, de muita dedicação, de trabalho artístico, e esse disco tem muito disso. Contei com a participação de alguns maestros de Recife. Henrique Albino, que é um jovem maestro entusiasta do frevo, fez alguns arranjos para a gente, depois de conversas sobre influências que a gente tem, passando por Ennio Morricone e outras coisas, Brasil 70, que me fascina muito. Os arranjos da música brasileira dos anos 70 eram outra coisa, outra maneira de se enxergar a composição em si. E esse disco tá bem trabalhado. Existia um trabalho artístico em cima de uma arte, realmente. Não simplesmente fazer um disco porque há 12 anos a gente não faz um. Acho que foi o momento certo. E de um tempo aqui no palco passando pelas músicas, vem um tema, sugere uma ideia, você vai se aproximando do disco. Você tem uma gama de músicas ali e para, e vai dizendo: essa vai, essa não vai, essa sugere letra, essa não. Toda uma preparação antes de ir para o estúdio. E depois um trampo de pós-produção, de edição. Foi um disco bem trabalhado. Fazia tempo que a gente não tinha tempo para trabalhar um disco dessa maneira. Até porque quando você tá na feitura de um disco, tem um tempo que você locou o estúdio, tem aquele prazo ali. E tem todo o processo da parte gráfica, quem vai mixar, quem vai masterizar, é um trampo muito grande. E depois ainda tem a divulgação, o lançamento, e depois você cai na estrada para andar com esse disco. É o disco que praticamente sustenta o artista hoje em dia, porque, se for depender de plataformas ali, os atravessadores te deixam com uma quantia ínfima, é muito escroto isso. Mas também tem os shows.
Vocês agora estão celebrando os 30 anos do “Afrociberdelia”, que se tornou um dos discos que mais se conectam com o público, um dos principais discos, se a gente for pensar na história musical do Brasil. Você tem alguma teoria do porquê esse disco se tornou assim tão especial?
São momentos distintos. “Da Lama ao Caos” já foi tido como um dos discos mais importantes dos últimos 50 anos, isso por uma banca de jornalistas que se reuniram e falaram sobre vários discos. “Da Lama ao Caos” estava lá. O “Afrociberdelia” é o segundo disco, que é a grande prova das bandas, o segundo disco, depois do primeiro disco aclamado, é diferente. Ele é mais poético, tem coisas mais faladas, mais non-sense, o Zumbi. Tem muito mais texturas, é mais futurista, embora “Da Lama ao Caos” não deixe de ser, sendo mais orgânico. Mas os dois contêm afrofuturismo, brasilidade, música do mundo. As pessoas às vezes resumem num regionalismo, que até hoje eu não entendo o que é regionalismo. Poderia falar a música da região Sudeste, da região Sul… Percebo isso de maneira pejorativa, você limita aquilo. A música é feita para todo lugar, para todo mundo. E os dois discos vão para vários lugares. Não existe uma coisa de ficar só num gênero — a gente foi pro dub, afro funk, pro afro rock, pro coco, pro maracatu, pra ciranda. São coisas que hoje em dia não têm mais fronteira depois da rede. As coisas se expandem de uma maneira muito rápida e prática. Talvez porque tem algumas músicas que marcam, como “Mar Catatônico”. Virou uma versão muito bem aceita. Você vê que hoje em dia o próprio Jorge Mautner já faz de uma maneira diferente da maneira que o Chico cantava. Gilberto Gil também fez uma versão. A música é de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Gil fez uma versão, a gente fez essa outra, e é bom que ambos gostaram. E emplacou. Essa versão é muito boa realmente. No palco a resposta é absurda. Não tem quem fique parado.
E tem essa dimensão psicodélica…
É exatamente isso. Uma psicodelia não saudosa, mas uma psicodelia futura, com camadas diferentes ali. Tem essa dimensão da diáspora africana, das tecnologias… A gente sempre se amarrou muito em ficção científica, em alteradores de consciência, tudo em prol de sair um pouco, ir para outras galáxias sem sair do chão. Tá tudo isso ali de certa forma atrelado ao afrociberdélico.
Na feitura desse disco, como era o ambiente? Era um ambiente psicodélico ou era mais uma fantasia de psicodelia?
Não, a ideia é de imprimir isso no disco. “Da Lama ao Caos” foi gravado nas nuances do Rio de Janeiro, num estúdio lá. O “Afrociberdelia” foi produzido por Eduardo Bid Lovski, daqui de São Paulo. Conhecemos ele na estrada, não sei se foi Ribeirão Preto, não lembro exatamente. Ele fazia parte de uma banda chamada Professor Antena. É aficionado por Soul Music, Reggae, um tanto de psicodelia também. Voltando para São Paulo, a gente foi até a casa dele, ele tinha uma coleção extensa em vinil e a gente começou a trocar ideia. Bateu tanto ali que o Chico chegou uma hora e falou: “Quem vai produzir esse disco? É o Bide com a gente”. E foi a primeira produção dele. Uma coragem acima de qualquer coisa, uma aventura conjunta ali. E foi nesse estúdio, então, com prazo a cumprir, mão na massa.
Eu te sinto uma pessoa bem aberta a experimentações, assim como acho que a Nação como um todo. Eu queria saber se você também é uma pessoa, um ser livre e curioso para experimentação de substâncias.
Já fui mais (risos). Ácido da época boa. Hoje em dia eu tenho um certo receio. A galera tá muito colada em MD, outras coisas, mas eu fico só na maconha mesmo. Maconha para mim não é nenhuma chave para nada. Meramente recreativa mesmo. Às vezes você fuma um para escrever, e às vezes fumar um para escrever atrapalha. Mas não é uma ferramenta de trabalho, nunca foi nesse sentido.
Justamente, a gente pergunta se pode ser uma ferramenta criativa, se tem um ritual.
Não. Existe droga mais espontânea e sociável do que a maconha? Enquanto as outras você acaba mocosando e não compartilhando, a maconha é uma coisa muito de compartilhar. Dentro de um estúdio, às vezes antes de uma sessão ou depois de uma sessão, “não, vou fumar depois” e tal. Tem dessas, mas é muito de momento de cada um. Mas claro, o fumacê era intenso, isso eu lhe garanto.
Quem era o Roger, era o cara que trazia a maconha?
Roger é um ativista cultural de Recife. Era dono da lendária Soparia, um cara que às vezes a gente dava rolê no Rio no fim de tarde, por baixo das pontes, pelo Rio Capibaribe em Recife e tal. O Chico tem essa amizade com ele. A gente fez essa letra “Macô” foi uma encomenda do Bid, ele queria fazer umas letras em português. Eu lembro que eu fiz a primeira parte, o “Zé Mané”; o Chico fez a segunda; a terceira demorou a sair, porque a gente tava num restaurante português ali na Rua 48 em Recife, na mesa, e o Chico de repente falou: “Eu acho que eu terminei a terceira parte: cadê Roger? E ficou. E parece que “cadê Roger” você tá procurando alguma coisa… Chico costumava dizer que Macô era um moleque com um tabuleiro ali vendendo expansores de consciência. Não exatamente maconha, mas vendendo alteradores de estado de consciência na calçadinha, e que não deixa de ser uma pequena história distópica, de ficção científica ali. Ele é mais ou menos nessa, bem magnético. Você ouvindo de um ângulo. Esse imaginário é indefinido e é de cada um.
Eu tinha escutado também que vocês tinham pensado em colocar maconha na “Praieira”, que aí ficaram meio assim por conta do Planet Hemp que tava sofrendo perseguição…
Não, cara, não tinha isso de botar ou tirar nada não. Não lembro disso. Na época, para ele era falar da revolução e tal, essa é a alusão que ele faz. E a ideia é que a gente nasceu ali no litoral, na Maré, sal e sol, e ele quis ressaltar isso. Mas eu não lembro dessa história. Eu lembro de a gente sentar ali, eu passei um tempo na casa da irmã do Chico, eu passava alguns dias lá… De sentar com um caderno na mão, depois fumar uma bombinha ou não, e de mostrar para ele o refrão. Aquela canetada clássica ali. A gente passou a usar gravadorzinho na época, mas papel e caneta sempre presentes, bloquinho no bolso. A gente era muito fissurado nos Beats, no Kerouac e na turma toda. O caderno era uma coisa que nos acompanhava para os lugares; a gente estava no bar, de vez em quando vinham algumas ideias, algumas linhas, e tinha que anotar senão ia para o espaço. Mas não lembro em algum momento o Chico comentar que tinha essa menção.
Agora, queria saber se tem alguma memória íntima de você e o Chico fumando um em algum lugar especial, no estúdio ou por aí.
O Chico, depois que gravou a música de “Da Lama ao Caos”, deu um pulo em Los Angeles, acho que com o Bid lá. Pirou nos Lowriders, voltou e comprou um Landau. Então a gente dava rolê em Recife naquela banheira gigante do Landau, e o Hermano Viana, irmão do Herbert dos Paralamas, gravava umas fitas K7 para a gente com músicas do mundo… Eu lembro que eu e Chico Science colocávamos aquelas fitas K7 no Landau e ia dar um rolê pelo centro e a fumaça fazia presente. Rolava solta.
Dá para dizer que a maconha fazia parte dos rituais de vocês do dia a dia?
É, das horas, do dia a dia. Não é exatamente um ritual, mas claro, às vezes depois de alguns trampos feitos, missões cumpridas diárias, a gente contemplava esse momento, depois uma cerveja.
Como é que foi mudando a sua relação com a cannabis ao longo do tempo? Da adolescência, da juventude.
Você vai administrando de uma maneira melhor. Mais cedo você acordava e já fumava um. Hoje em dia acho que acordo para a vida, para abrir os olhos antes, depois é que vou fumar. Passei um tempo acordando e o bom dia Brasil, puf, era estourar um. Hoje já tem um cuidado maior. Porque tem situações, você mais novo, que você fuma tanto que já não bate mais, já não faz efeito. E você vai vendo isso, até onde essas coisas vão se ajustando.
E qual foi o ponto dessa sua mudança?
Você faz algumas viagens para o exterior que nem sempre você vai encontrar quem consiga para você ou coisa do tipo. Então você aprende a passar um tempo maior sem. Você tem essa dinâmica, esse autocontrole, que é importante para caramba. E tem uma molecada que tem uma fissura e tal, tem que saber que às vezes não tem, não tem. Essa consciência é importante. Eu não lembro exatamente quando, mas acho que essas viagens acabam trazendo isso: ó, não tem, não tem. É isso. Às vezes a gente passar os dias sem também, não tem problema. Faz bem também dar um tempo e chapar com doses de realidade.
E o lance da cannabis medicinal, gotinha e tal, você também faz uso?
Já usei um tempo atrás. E acabei comentando com algumas pessoas que não sabem que epilepsia, glaucoma e outras coisas têm sido tratadas com isso, apesar dessa briga com os laboratórios. Toda uma gama de médicos ainda reluta, e a gente sabe. Mas é totalmente válido. Tem projetos, tem grupos que são importantes para caramba nisso. É bom mostrar para algumas pessoas o caminho, tenho visto para algumas questões. E tem pessoas que têm problema em comentar isso com os pais, por conta do preconceito ainda. Para administrar esse tipo de coisa. Ainda existe um preconceito muito grande, mas bem menos do que havia 10, 15 anos atrás.
E na época que você usou as gotinhas, era para o quê exatamente?
Ansiedade, acho. Eu fui bem mais ansioso, me preocupava com o show um mês antes. Hoje em dia, só me preocupo no dia.
E esse negócio de subir no palco chapado, já aconteceu?
Já subi muito chapado. Mas hoje em dia nem fumo antes. Não dá, você esquece a letra, é complicado isso.
Dessas vezes que você chegava a subir chapado, tem alguma história que você lembra?
Talvez um momento em que a gente subiu, acho que foi num Campeonato de Surf, em Maracaípe. Foi um show louco. Lembro que a galera invadiu o tablado que cercava a praia. E a gente tinha fumado, e o Chico tinha tomado ácido. Então você imagina a velocidade de ambas as partes, a gente estava muito acelerado e ele estava lento. Quando ele chegou nos tambores, foi um “pô, vocês queriam me foder” (risos). Mas depois de um tempo, a gente ajustou. São janelas distintas.
Eu fico imaginando que a psicodelia deve ter feito muito parte mesmo, não só maconha. Qual era a sua, o LSD?
É, o MD era mais acidental — às vezes alguém me dava um gole numa garrafa de água suspeita ali: “Pô, você nem avisou”. Uma grande sacanagem isso. Mas era mais o ácido quando usava, bons anos 90, a gente tinha boas fontes. Tudo muito misturado hoje em dia, muito alterado. Alguns ecstasy também que consegui. Mas de um tempo para cá não tinha usado mais nada sintético.
Nem um cogumelinho, nada de natureza?
O cogumelo sim, em microdose. Microdose é uma maravilha, cara. É legal, bom para foco, muito absurdo. Uso de vez em quando, não o tempo todo, mas é legal. Muito suave. Microdose sim. Às vezes tomo uma microdose para discotecar, acho legal para dar foco. Até certo ponto dá um desespero, porque é uma responsabilidade grande estar tocando em vinil, escolher a faixa, trocar o disco, sem apertar botão como no CD ou no computador. Mas a microdose não tira o foco. Para mim entra tranquilo.
Como é que chegou essa ideia de microdose pra você?
Entre os amigos. Você quer saber o que é, e é microdose. Cogumelo, com as suas procedências e tal, você conhece os amigos que fornecem ali. Mas já foi mais frequente. De um tempo para cá, estou tomando bem menos também. Vai para uma festa à noite, chega, toma uma.
Sobre os shows da Nação, que muitas vezes parecem mais um ritual coletivo do que um show, necessariamente. Você sente isso no palco?
A gente tem que dar, tem que virar uno ali no palco, numa frequência só. E se olhar. A gente tem que estar nessa comunhão, nessa liga para poder funcionar. É uma imersão mesmo, total.
Você diria que a Nação faz música para dançar, para pensar ou para alterar estados de consciência?
Para pensar, para dançar, para voar, para contemplar, tudo esse tipo de coisa. Naquela história que a gente fala, quando se faz um disco com as pessoas, eu nunca entendi essa unidade. Se você pode ir para vários lugares, você não vai para um só. A intenção é todas essas aí. Cada um tem a sua perspectiva, a sua lente, o seu ouvido para as músicas. Cada um vai gostar daquela faixa, tem determinada música que alguém não gosta, isso é natural.
Teve um tempo em que botar a maconha na música era uma maneira de contracultura. Você acha que hoje em dia ainda tem esse apelo? Tem vontade de trazer o tema da cannabis nas suas composições, ou depois de a maconha ter gerado um pouco de mercado isso já meio que não faz muito sentido?
Faz sim, porque você vai estar sempre lembrando de uma certa descriminalização, de uma suposta legalização, assim como outras drogas. O álcool é o maior indutor de violência do planeta, é socialmente liberado e autorizado. São escrotices da sociedade, enfim. Mas tem gente que faz por conta da causa, e tem gente que faz de maneira ilustrativa também. É de cada um, não dá para generalizar. E o público percebe. Não subestime o público, que o público sabe quem tá fazendo o quê e o porquê das coisas também.