Por Anita Krepp

Era fim de semana no Centro de Ressocialização de Lins. O que, na prática, significava uma coisa simples e perigosa: não tinha enfermeira, e sem enfermeira, não tinha alprazolam, o poderoso antidepressivo e ansiolítico que segurava as pontas de Guilherme Viel, que naquele fim de semana pensou que fosse morrer. Ele passou a noite vendo o próprio corpo falhar em câmera lenta dentro da cela. A voz desapareceu primeiro. Depois os braços começaram a formigar, os pés suavam frio e os calafrios vinham em ondas.
Cinco homens dividiam a cela com ele, mas ninguém ali podia fazer grande coisa além de observar. Guilherme passou dois dias em abstinência pesada de uma medicação tarja preta que começou a tomar na prisão para controlar a ansiedade que bateu forte desde que foi preso sob a acusação de tráfico de drogas quando, na verdade, ele era apenas o diretor de uma associação de pacientes de cannabis que atendia a 9 mil pessoas que dependem dos subprodutos da planta para ter uma melhor qualidade de vida.
Meses antes, ele levava óleo para pacientes no começo da ONG, conversava com mães, idosos, pessoas com dor crônica, epilepsia, autismo. Fazia palestra em Câmara Municipal, organizava curso sobre cannabis, mantinha uma estrutura profissional e laboratório funcionando numa cidade do interior paulista onde todo mundo sabia exatamente o que a Santa Gaia fazia. Até que um vizinho decidiu denunciar o cheiro das plantas. A polícia respondeu atravessando o portão da associação com metralhadoras e coletes à prova de bala, como se tivesse encontrado um bunker do narcotráfico internacional.
“Parecia que o Brasil tinha ganhado a Copa e que eles tinham pegado o Marcola do PCC.” A operação destruiu o cultivo, arrancou centenas de plantas recém-colhidas, apreendeu resina, óleo, computadores e lacrou o laboratório. Guilherme saiu algemado diante de funcionários em choque. No dia seguinte, a prisão temporária virou preventiva e o calvário que duraria 58 dias, quase dois meses, começou.
Injustiça é cega
Na cadeia, ninguém queria saber de associação de pacientes. Ninguém queria saber de liminar, rastreabilidade ou controle farmacêutico. Preso era preso. Vagabundo era vagabundo. Guilherme passou primeiro pelo corró, uma cela minúscula e fedorenta da delegacia. Depois foi enviado para uma penitenciária em Álvaro de Carvalho. No segundo dia de prisão, a advogada apareceu com uma notícia que parecia pertencer à vida de outra pessoa. Carol, sua mulher, estava grávida da segunda filha.
“Naquela hora você não sabe se ri ou se chora. Eu já não sabia nem se ia acompanhar o crescimento do meu filho, então, com dois anos, de repente descubro que minha filha vai nascer talvez enquanto eu ainda estiver preso.”
Durante vinte dias, ele não viu ninguém da família. Até a carteirinha de visita ser aprovada, sobrevivia da comida da prisão e do que outros detentos dividiam com ele. Perdeu cinco quilos. Sem acesso ao óleo de cannabis, proibido pela administração do presídio, voltou para os remédios psiquiátricos em doses brutais. Tomava 6 mg de alprazolam por dia.
À noite, Guilherme ouvia os outros presos calcularem penas como quem comenta placar de futebol. Um rapaz tinha pego três anos por 50 gramas de maconha. Outro, cinco anos por um quilo. Guilherme voltava sozinho para a própria matemática. A polícia tinha apreendido 450 pés de cannabis, resina, óleo, laboratório, estufa. Pela lógica que circulava naquela cela, ele sairia dali velho.
Do lado de fora, o caso crescia. O vídeo da operação viralizou mais pela indignação do que pelo espetáculo que o delegado imaginava produzir. Deputados, ministros e ativistas passaram a defender publicamente a Santa Gaia. O habeas corpus da associação saiu poucos dias após a prisão de Guilherme, reconhecendo o funcionamento da ONG. Ainda assim, Guilherme continuava preso. Os dias começaram a se deformar. Sem livro. Sem trabalho. Sem qualquer noção real do tempo. Apenas o teto, o barulho das celas e o medo constante de que mais alguém da família pudesse ser preso, assim como ele, acusado de um crime que não cometeu.
“Você fica pensando se vão prender seu irmão, sua mulher, sua mãe. E ao mesmo tempo, tentando entender como tudo aquilo que provava a seriedade da associação virou prova contra você”, conta ele, dando a dimensão da loucura que a injustiça pode provocar.
Renascimento
Guilherme tentava entender como tinha ido parar ali. Não era um homem enriquecendo com cannabis. Sua principal fonte de renda nunca foi a Santa Gaia. A associação nasceu mais da obsessão em ampliar o acesso à cannabis medicinal do que de qualquer ambição financeira. Ainda assim, era ele quem agora dormia numa cela, tentando calcular quanto da própria vida perderia preso.
Todos os dias chegavam mensagens de pacientes dizendo que a Santa Gaia tinha mudado suas vidas. Gente agradecendo por conseguir dormir, comer, parar de convulsionar, sentir menos dor. Guilherme deitava olhando para o teto tentando reconciliar duas imagens impossíveis. A do traficante que o Estado tentava provar que existia e a do homem que tinha construído uma associação para atender milhares de pacientes. “De repente você tá sendo penalizado por fazer o bem. Era isso que eu não conseguia processar.”
Os habeas corpus falhavam um atrás do outro e o fim do ano se aproximava. Guilherme começou a se preparar psicologicamente para passar Natal, Ano Novo e talvez mais tempo preso. Até que, numa manhã, o preso responsável por distribuir cartas e recados apareceu na porta da cela. Perguntou o que ele daria em troca da liberdade. Guilherme respondeu que dava qualquer coisa. O homem sorriu e mandou que ele descesse. O alvará de soltura finalmente tinha chegado. “Eu não conseguia acreditar que tava vendo a rua de novo.”
Do lado de fora, a família inteira esperava. Funcionários do CR vieram cumprimentá-lo. A diretora da unidade o abraçou. Pela primeira vez em quase dois meses, Guilherme voltou para casa. Mas sair da prisão física não significou sair da prisão mental que aquela experiência havia criado. Durante semanas, acordava às seis da manhã como se ainda escutasse a sirene do presídio.
“Na cadeia, eu pensei várias vezes em acabar com tudo. Encerrar a Santa Gaia, sumir, voltar pra minha vida antiga. Mas eu saí da prisão e a associação ainda tava de pé, os pacientes continuavam precisando da gente e minha equipe seguia pronta pra luta. Acho que isso também acabou me salvando.”