Na Breeza

Psicodelia criativa

Por Anita Krepp

No começo deste ano, Lúcio Maia passou dez dias trancado dentro de casa tomando cogumelo e tocando guitarra por oito horas seguidas. Lá fora, a cidade continuava funcionando normalmente. Gente atravessando avenida de chinelo, moto subindo na calçada, evangélico gritando no semáforo. Dentro do apartamento, porém, o tempo obedecia a outra ordem.

As músicas que vieram a compor seu mais novo disco começaram a aparecer desse jeito. Não exatamente como composições acabadas, mas como atmosferas compostas de frases flutuantes e imagens sem sequência linear, uma coisa bem… cogumélica.

Um riff que parecia puxar outro de dentro dele mesmo. Em alguns momentos, Lúcio perdia completamente o foco. Em outros, sentia que estava acessando um lugar que passara a vida inteira tentando alcançar. “Ver o que todo mundo tá vendo às vezes não é muito inspirador. Quando você vê uma coisa que ninguém tá vendo, isso é uma epifania”, diz ele.

Aos 55 anos, depois de décadas sendo reconhecido como um dos guitarristas mais inventivos do Brasil e um dos fundadores da Nação Zumbi, o músico, que também foi peça central da sonoridade que ajudou a transformar o manguebeat numa linguagem própria, ainda fala sobre criação como alguém tentando entender o fenômeno pela primeira vez, sem um método fixo, mas com muita obstinação.

Para entender essa relação, é preciso lembrar onde Lúcio cresceu musicalmente. O Recife dos anos 90 não era um lugar de respostas prontas. O manguebeat era uma recusa, uma destilação de contradições, barro e fibra ótica, maracatu e distorção. Crescer fazendo música nesse ambiente significou aprender desde cedo que a ruptura não era um mero gesto estético.

Já vem da época da Nação

Faz sentido que ele, quando fala sobre drogas, raramente use o vocabulário espiritualizado que passou a dominar parte das conversas contemporâneas sobre expansão da consciência. Cura e iluminação até podem haver, mas a ele interessa abrir as portas da percepção. “A psicodelia é uma dissidência do surrealismo, e o surrealismo já era a ruptura do cotidiano, do tradicional, do normal.”

Desde o começo da Nação Zumbi, havia alguma coisa de permanentemente instável na sonoridade da banda que Lúcio ajudou a construir com riffs para muito além da condução melódica. Eram estruturas de tensão. Ritmos repetidos até começarem a produzir um leve estado hipnótico. Distorções que pareciam empurrar as músicas para fora do eixo. Mesmo hoje, quando tenta explicar sua forma de tocar, é mais sobre técnica, repetição e insistência, do que sobre virtuosismo. É a beleza da ideia girando em torno dela mesma até que ela comece lentamente a se deformar.

“Eu me vejo muito mais como um guitarrista rítmico do que um guitarrista de escala. Até quando eu tô solando, eu tenho um compromisso com o ritmo.” Talvez por isso o uso de psilocibina durante a criação do disco pareça a continuação natural de uma lógica que sempre esteve presente no seu trabalho. A alteração de consciência como amplificação de algo que já estava lá. Uma tentativa de acessar estados perceptivos capazes de reorganizar o modo como as músicas apareciam.

Durante os dez dias em casa, houve dispersão, ansiedade e momentos completamente improdutivos. Em alguns deles, Lúcio inclusive sentia que não tinha chegado a lugar nenhum. Em outros, uma frase ou um riff parecia abrir sozinho uma sequência inteira de imagens mentais. Ele fala sobre essas ideias como “frases flutuantes”, pequenos fragmentos capturados no meio do cotidiano que acabam crescendo até virar música. Uma palavra lida num livro. Um comentário ouvido na rua. Uma sensação difícil de localizar exatamente de onde veio. “Às vezes você tá de bobeira e escuta uma frase que fica martelando na cabeça. Depois aquilo vira outra coisa”, explica.

Mudar o ângulo de visão

O uso de cogumelos durante a criação do disco foi a primeira vez que decidiu alterar a consciência deliberadamente para trabalhar. “Pra curtir o ambiente, me distanciar um pouco do realismo”, conta. Nas outras vezes, as experiências pertenciam ao campo da recreação. Mesmo assim, algumas ideias musicais surgiam no meio da brisa e precisavam ser anotadas antes de evaporar junto com o resto.

Quando fala sobre substâncias, Lúcio alterna naturalmente entre referências ao surrealismo e imagens muito mais mundanas. Em vez de tratar os psicotrópicos como experiência transcendental, ele parece interessado na possibilidade de escapar, ainda que momentaneamente, da percepção automática das coisas. “Tem gente que já nasce com essa visão sem precisar de substância nenhuma, e disso eu tenho inveja. Porque quando você faz uso de psicotrópico, entende que o mundo é diferente daquele padrão todo pré-determinado pela sociedade.”

Em certo momento da conversa, menciona um biólogo famoso, cujo nome prefere não revelar, que descreve determinadas substâncias como mecanismos capazes de ampliar a percepção sobre coisas escondidas dentro da realidade. Ele gosta dessa definição pois ela se aproxima da forma como descreve o próprio processo criativo. “Tem gente que usa droga e entra em paranoia. Outras pessoas conseguem transformar aquilo numa percepção diferente das coisas.” E criar um disco foda como o novo de Lúcio Maia.