Na Breeza

Terpenos e outras mágicas

Por Anita Krepp

Numa tarde de verão, Victor Leão atravessou o pasto em frente à casa onde morava, em Recife, carregando uma chave de classificação botânica nas mãos. Tinha 22 anos e procurava algo que não se comprava em lugar nenhum, mas que sabia — ou achava que sabia — como reconhecer. Caminhava devagar entre o capim, agachava, observava, consultava o guia. Cogumelos comuns surgiam pelo caminho, mas nenhum correspondia ao que buscava. Até que apareceu o Psilocybe cubensis. Ainda ali, no meio do pasto, Victor conferiu cada detalhe da identificação antes de misturar com mel e cacau e botar na boca.

O que veio depois, ele descreve como integração total com o universo. Não é uma linguagem muito corriqueira, mas a de quem experimentou na pele a dissolução do ego, algo que a ciência só foi nomear recentemente. “Na minha primeira experiência com cogumelo, me senti próximo da natureza, integrado com o universo e ao mesmo tempo me tornava quase um profundo filósofo, entendendo os mistérios que tudo tem.”

Hoje, Victor Leão é um dos nomes mais sérios da aromaterapia clínica no mundo de língua portuguesa. Tem mais de 3.000 alunos formados em mais de 30 países, curso reconhecido na França, e é autor do primeiro livro do mundo sobre contraindicações de óleos essenciais. Fez atendimentos que viraram caso clínico em congresso. Mas quando conta sua história, começa sempre pelo mesmo lugar: as plantas, a cannabis e os cogumelos. Para ele não existe separação entre essas coisas, e nem nunca existiu.

Desde adolescente andava com dicionário na mão, aprendia o nome científico de tudo que via, ficava indignado quando outras crianças arrancavam plantas do solo. Naturalmente, escolheu biologia porque precisava entender a vida, começando por si mesmo. Aos 17 conheceu a cannabis. Aos 22 foi ao pasto com a chave de classificação e conheceu um pouco mais sobre o mistério da existência.

Abre caminho, patchouli

A aromaterapia entrou na vida de Victor quase por acidente. Pouco depois de se formar, ainda sem saber exatamente o que faria da vida, apareceu num evento no Centro Ecopedagógico Bicho do Mato, em Recife. Em algum momento da tarde, uma senhora começou a circular pela sala pingando gotas de óleo essencial nas mãos das pessoas. Na palma da mão de Victor caiu patchouli. O cheiro era denso, terroso, hipnótico. Absolutamente envolvente. Bastaram algumas gotas para despertar uma obsessão.

Ao começar a investigar outros óleos essenciais, percebeu que havia algo na lavanda que induzia o sono de maneira muito concreta. Perguntava aos aromaterapeutas por que aquilo acontecia e recebia respostas quase sempre místicas: lavanda seria “energia de vó”, “abraço de mãe”, “acolhimento”. Para um biólogo movido pela curiosidade científica, aquilo não bastava. 

Victor queria entender quais moléculas produziam aquele efeito e como elas atuavam no organismo. Mergulhou então na farmacologia dos terpenos, numa época em que quase ninguém no campo da aromaterapia discutia essas substâncias de maneira técnica. “Muitos conhecimentos da aromaterapia são difundidos de forma muito subjetiva. Eu fui para o ponto de vista científico, molecular, farmacológico.”

Não demorou para perceber que existia um enorme vazio de informação qualificada nas redes sociais. Começou a publicar explicações sobre terpenos, mecanismos moleculares e interações farmacológicas, e viu seu perfil, Gota Consciência, crescer rapidamente. Vieram os cursos pelo Brasil, os alunos espalhados por mais de 30 países e, depois, um livro inteiramente dedicado às contraindicações dos óleos essenciais. 

Foram mais de mil artigos científicos analisados, 400 óleos catalogados e cerca de 600 medicamentos cruzados em busca de interações possíveis. Alguns atendimentos acabaram virando casos clínicos marcantes, como o de uma criança de quatro anos internada havia um mês com uma bactéria resistente a antibióticos e que, segundo Victor, apresentou melhora após a fórmula aromática prescrita por ele.

Depois de anos estudando os terpenos da lavanda, do cravo, do eucalipto e da copaíba, chegou o momento em que Victor olhou para a cannabis e reconheceu nela um mapa familiar. O linalol da lavanda estava ali. O eugenol do cravo também. O beta-cariofileno da copaíba, idem. As mesmas moléculas que ele vinha estudando há anos apareciam reunidas numa única planta. Mas a cannabis carregava algo que nenhuma outra possuía: os canabinoides. E foi aí que, para ele, tudo mudou de escala.

A chave de tudo

Os terpenos são as menores moléculas que as plantas produzem. São tão leves que flutuam no ar, e é por isso que basta encostar numa folha para liberar cheiro. Victor explica: as plantas não têm nariz. Produzem essas moléculas para se comunicar entre si, atrair polinizadores, repelir fungos, sobreviver. A melaleuca australiana, por exemplo, vive em regiões úmidas e propensas à proliferação de fungos. Ao longo de milhões de anos, desenvolveu terpenos capazes de perfurar a parede celular desses organismos. Hoje, nós emprestamos essas moléculas da planta para tratar candidíase, fungo de unha, caspa.

“A cannabis não só tem os terpenos que conhecemos na aromaterapia. Ela também tem os canabinoides. E aí o bagulho começa a ficar maluco. O chamado efeito entourage descreve justamente a maneira como os terpenos conduzem e modulam a ação dos fitocanabinoides no organismo. É isso que explica por que duas strains com exatamente os mesmos níveis de THC e CBD podem produzir experiências completamente diferentes.”

A diferença, muitas vezes, não está nos canabinoides, mas nos terpenos. Uma cannabis rica em linalol e beta-cariofileno tende a agir de forma mais ansiolítica, aproximando-se do perfil aromático e terapêutico da lavanda ou da copaíba. Victor está desenvolvendo um método para aplicar os terpenos de maneira estratégica nos tratamentos com cannabis, algo que ele descreve como a próxima grande virada desse campo.

Mas por baixo da química, da farmacologia e da ciência existe uma ideia ainda mais profunda. Victor não acredita que a sociedade precise aprender a lidar com os psicodélicos. Acredita que ela precise se lembrar. Em diferentes épocas e continentes, praticamente todas as culturas humanas desenvolveram relações íntimas com plantas capazes de expandir percepção, produzir cura, transe ou reorganização psíquica. A colonização transformou essas plantas em tabu porque precisava destruir também os sistemas de conhecimento que existiam ao redor delas. O preconceito permaneceu. O contexto desapareceu.

“Não existem dois tipos de indígenas. Existem aqueles que sabem que são indígenas e aqueles que esqueceram que são indígenas.” Para Victor, nascer na Terra já significa pertencer a essa memória ancestral das plantas. Talvez tenha sido isso que ele foi procurar no pasto desde o começo: não uma fuga da modernidade, mas uma forma de voltar para casa.