Na Breeza

Maconha não, até precisar

Por Anita Krepp

Imagine viver do celular, produzindo conteúdo todos os dias, e de repente não conseguir segurá-lo por mais de 15 minutos por causa de uma dor insuportável. Foi isso que aconteceu com a influenciadora Caroline Gamma, diagnosticada com fibromialgia, a mesma condição que atravessa gerações na sua família, no auge da carreira. Quando nada mais parecia dar conta das crises, Caroline recorreu à cannabis, uma planta que até então carregava estigmas para ela, mas que, para sua própria surpresa, passou a fazer o que nenhum outro recurso vinha conseguindo fazer: aliviar a dor. 

Carol tem 28 anos, nasceu em 1997 e se encaixa nas primeiras fileiras da geração Z. Cria designs, vídeos e histórias no Instagram e faz questão de chamar esse trabalho de arte. O conteúdo digital é o jeito que ela encontrou de fazer as pessoas se sentirem acolhidas, e tudo ia bastante bem. Até que chegou a fibromialgia.

E não foi do nada. A avó materna tem diagnóstico e a mãe também. O quadro nas três é considerado leve, mas ainda assim complicam a vida. Quando Carol começou a sentir dores nos antebraços em 2024, atribuiu ao excesso de celular e notebook. O diagnóstico verdadeiro demorou a aparecer, e o caminho até ele passou por ortopedista, ciclos de anti-inflamatórios e corticoide injetável, até chegar a uma reumatologista que entendeu o que estava acontecendo.

Nas crises, que chegavam de dois em dois meses e duravam duas semanas, Carol ficava sem saída. A cada 3 horas de repouso absoluto das mãos, ela tinha de 10 a 15 minutos de uso. E como desgraça pouca é bobagem, as crises chegaram junto com um momento pesado na vida em família. A mãe encerrou um casamento de quase 25 anos com seu padrasto e as duas voltaram para a casa da avó. Um término de relacionamento traumático completou o gatilho que a fibromialgia precisava para se instalar de vez.

E não é que maconha é remédio?

Pouco antes de tudo isso, Carol era uma das últimas pessoas que você esperaria ver com um baseado na mão. Na adolescência, brigava com namorados que fumavam, mesmo que o fizessem esporadicamente. Ficava muito brava nos rolês sociais que aconteciam em volta de um baseado e não admitia de jeito nenhum que tantos amigos gostassem tanto de fumar maconha. Essa convicção durou quase dez anos.

Exausta de sentir dor e sem ver resultado nos remédios, porém, Carol se abriu à possibilidade de fumar um beck pra testar o que ela tinha ouvido falar por aí sobre os efeitos terapêuticos da erva. Estava decidido, ela ia se dar a chance de experimentar. A flor chegou rápido por meio de um conhecido que planta e colhe in natura. Então ela resolveu testar só nos fins de semana e, pela primeira vez, a dor cedeu de verdade. “Desde que eu inseri a maconha na minha rotina, eu nunca mais tive dor igual eu tinha antes. A dor vem de vez em quando, mas não é algo que me impede de viver igual me impedia antes”, conta.

Quando foi morar com o namorado, Nathan, a cannabis entrou de vez no seu dia a dia. Toda noite, é batata, rolam um ou dois baseados divididos entre o casal. Nathan conhece bem a planta e faz a triagem do que entra na rotina dela, priorizando sempre os perfis genéticos que trabalhem na dor. No mesmo período, Carol começou a frequentar um terreiro de umbanda e encontrou no espiritualismo outro eixo de cura. “Os dois pilares de saúde mental e de encerramento de dor na minha vida foram o espiritual e o da cannabis”, resume.

Onde termina o uso medicinal e começa o recreativo?

A distinção que Carol faz entre uso medicinal e recreativo é pessoal e intransferível. Medicinal é o mínimo necessário para não sentir dor, a dose de manutenção. Recreativo é fumar no caminho para uma cachoeira, é o baseado compartilhado com amigos de confiança numa tarde em casa. “A partir do momento que eu extrapolo o que seria ideal apenas para tirar minha dor, eu já considero um uso recreativo. Uso medicinal pra mim é o uso de manutenção que eu preciso para não ter dor”, define.

Depois que a cannabis entrou na rotina, ela tirou por conta própria um remédio alopático clássico e, boa notícia, as dores não voltaram. Além disso, o relaxante muscular que ela tomava todo dia passou a ser tomado em dias alternados. Mas apesar de todos os benefícios que a erva trouxe, Caroline pretende parar de fumar quando for se preparar para engravidar. Afinal, como diz ela, a cannabis entrou em sua vida como remédio, não como identidade.

Para uma geração que cresceu ouvindo que maconheiro é viciado, Carol é ela própria o argumento mais direto contra o estigma. Era uma das mais céticas da turma. Precisou de uma longa rodagem de dor para chegar lá. “Foi uma grande lição de vida pra mim, uma pessoa que sempre foi super cética, precisar usar para não ter dor”, conclui ela, já bem mais compreensiva com os maconheiros.