
Uma artista com uma relação tão refinada com o corpo, como tem a bailarina Flaira Ferro, parece o tipo de pessoa profunda conhecedora de todo tipo de substância: ayahuasca, maconha, microdose, o pacote completo da espiritualidade contemporânea. Mas não é bem assim.
Nessa conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, a multiartista e também cantora, Flaira Ferro, conta como a ayahuasca entrou na sua vida como uma investigação pontual e não como prática contínua, por que decidiu parar de beber álcool e por que nunca fez da maconha um hábito. No lugar disso, construiu uma relação radicalmente atenta com o próprio corpo, onde, segundo ela, a diversão não passa pela autodestruição e em que cada escolha precisa fazer sentido no dia seguinte.
Entre espiritualidade, drama e disciplina, Flaira fala sobre movimento, autoescuta e o desafio de viver sem se anestesiar.
Eu te acompanho há 20 anos e você tem a mesma cara, a mesma energia. Como é isso?
Acho que a dança, o estar em movimento, ajuda muito. Manter a vida criativa ilumina a gente de dentro para fora. Isso me ajuda a não envelhecer no sentido de me manter curiosa, interessada na vida, com vontade de atualizar minhas ideias e minha forma de estar no mundo. Quando eu olho para outras mulheres de 36 anos, às vezes eu digo: “Poxa, eu me sinto jovem nesse sentido de não gostar de me cristalizar numa ideia só”. Essa coisa de estar em movimento rejuvenece a vida mesmo.
Esse movimento agora está te trazendo para a Europa com a sua nova turnê como cantora.
Desde criança eu já circulei por vários países através do frevo, como passista. Entre 13 e 18 anos, viajei para mais de dez países com a dança , Índia, China, Estados Unidos, Europa, América Latina. Mas com a música autoral foi diferente. A primeira turnê para cantar de verdade foi em 2023, ainda no puerpério. Dom tinha dez meses, ainda estava na introdução alimentar, e eu fui com Lucas (marido da Flaira) num formato pocket por seis países. Foi lindo, mas ainda bem pequeno. Aí quando lancei o “Afeto Radical”, a gente foi selecionado para o WOMEX, uma das maiores feiras de música do mundo. Naquele ano a edição foi na Finlândia, e o Brasil foi representado por apenas quatro projetos , e o meu estava entre eles. Teve mobilização da Funarte e da Prefeitura do Recife para viabilizar a ida, porque a logística era cara, e a gente carregava o peso de estar representando o país. A gente fez o show, a repercussão com os curadores europeus foi muito positiva, e saímos de lá com o Fusion Festival, na Alemanha, já contratado. E daí foi rolando a turnê, que já tem quase quinze shows em vários países.
Você sempre acreditou no seu corre?
Sempre. Eu sempre acreditei na força que move o meu desejo de viver. E isso implica em tudo. Acreditar no corre vem desse lugar de que é preciso estar sempre atualizando a nossa fé na vida e naquilo que nos move na direção da humanidade, da humanização. É um trabalho de alinhamento entre o que eu faço, o que eu sinto e o que eu penso. A música é uma consequência desse desejo de viver na sua máxima afetação, na direção da benevolência, da gentileza. Minhas poesias são reflexo disso. Mas isso não tira o fato de que tem horas que a gente desacredita também. Eu atravesso os meus abismos, minhas dúvidas, medos, inseguranças, incertezas. Mas vendo tudo isso como parte da travessia, não como paralisia.
E nesses momentos de dúvida, você só entende que é um momento de dúvida mesmo? Como você lida?
Eu me permito sentir a dúvida e realmente não saber o próximo passo. Sinto que as coisas, quando aparecem, precisam ser olhadas de frente. Já tive medo de não conseguir ser mãe e artista ao mesmo tempo. Já me perguntei se é possível envelhecer com a arte autoral sem me render aos mecanismos do mercado. Já pensei em largar tudo de palco e trabalhar com crochê, ter uma vida anônima e em paz. São sempre essas perguntas, e, quando elas vêm, não trazem resposta. Então eu vivo a dúvida mesmo. Mas faço terapia há mais de dez anos, e esse constante diálogo vai aperfeiçoando alguma coisa. A linguagem vai se aperfeiçoando. Eu vou caindo menos no drama. A dúvida vem, eu a vivo, mas entendo que nada é fixo, nem mesmo os momentos em que mais tive certeza. Então não dou muita moral para uma crise existencial, porque sei que estou em movimento e ela passa. Eu só não coloco a crise nesse lugar de importância do tipo “meu Deus, ou é a vida ou é a morte”. Amadurecer também tem a ver com isso, e acho que é uma conquista. Não foi sempre assim. Já tive momentos em que estava em dúvida e era tudo ou nada. Eu dizia: “Tenho que fazer isso ou aquilo.” Com o tempo, com o próprio processo de viver e de atravessar as coisas, fui entendendo que não precisa ser ou isso ou aquilo. Pode ser isso e aquilo e aquilo outro. Vai ampliando o arsenal de ambivalências, de contradições, a capacidade de caber mais, como dizia Viviane Mosé: o sofrimento é a alma fazendo caber mais mundo. Tem a ver com isso, da gente fazer caber mais mundo à medida que vai ficando um pouco mais esperta nessas questões das emoções, que é a minha viagem. Eu gosto muito de me relacionar com as emoções, de navegar por esse território emocional. Você vai ficando um pouco mais safo. Quando vem um drama grande, eu digo: “Te conheço.” risos
Enquanto eu te ouço, tenho a impressão de que você é uma pessoa que talvez tenha sido aconselhada por alguma psicodelia. Faz sentido?
Olha, já me disseram isso. Mas eu sou a pessoa mais careta que você deve conhecer na vida. Atualmente nem beber eu bebo, faz uns sete meses. E nunca fui dos alucinógenos de forma contínua. Eu experimentei, sim. Em 2021 e 2022, na pandemia, senti vontade de conhecer a ayahuasca, muito pelo desejo de entender a epistemologia de mundo dos povos originários. No colapso que foi a pandemia, vi a necessidade de outra visão, outra ideia de mundo que pudesse trazer uma compreensão para as questões ambientais, uma visão menos branca. Foi aí que senti que queria conhecer a ayahuasca, estar mais próxima desses povos. Surgiu uma oportunidade num retiro, fui à Aldeia da Vida e experimentei. Fiquei encantada com esse caminho de resolver questões através das plantas, usando o rapé, o tabaco, tudo isso como grandes norteadores da psique. Fiquei com muita vontade de ir mais fundo. Aí fui para a floresta Amazônica, fiz uma dieta, uma imersão de um mês em 2021. Depois senti que não queria ser uma pessoa que consagra o tempo todo, porque também não é da minha cultura originária. Uma coisa é se abrir fazendo um intercâmbio cultural, aprender. Outra é viver e praticar como cotidiano. Eu vivo em cidade, em apartamento. O meu contato com a natureza é muito mais distante do que o de quem está imerso e aldeado. E eu sou uma pessoa que escuta o momento em que é hora de experimentar algo. O que eu senti, eu experimentei. Mas não sou uma pessoa que consagra numa religião, no Santo Daime, por exemplo, porque não é isso o que sinto. E eu já transitei muito pelos campos espiritualistas. Meu avô era espírita, eu ia às palestras com ele. Minha mãe é superecumênica. Então eu transitei por muitas formas de manifestação da fé: Umbanda, Candomblé, igreja evangélica, espiritismo, yoga, budismo. Eu amo. Mas nunca a maconha de forma engajada. Na adolescência experimentei, vi qual era, porque são coisas acessíveis. Mas não sou usuária. O meu caminho sempre foi muito o corpo. Yoga, respiração, meditação, corrida, academia. Virei também essa pessoa que entende a coisa funcional dos músculos, da cadeia muscular.
A sua espiritualidade não parece muito religiosa, mas também não é vazia. O que é espiritualidade para você hoje?
Acho que é qualquer forma de conexão com algo mais. Com essa sensação de além daqui, que não se explica muito. Como a gente se conecta com esse campo sutil, invisível, que a gente sabe que existe. Eu até entendo quem diz que não sente nada. Mas eu não consigo existir sem isso. Não consigo observar o broto de uma planta nascendo, as manifestações da natureza, a chuva, o raio, o vulcão, e achar que isso se finda aqui mesmo. Há algo que rege. Esse campo do mistério. Então eu respeito o não saber das coisas. E por não saber, me atenho a tentar minimamente estar conectada comigo e com o meio em que estou inserida, para me manter presente, em conexão com esse algo mais. Eu não consigo me bastar olhando só para o carro, a cadeira, o celular, o trabalho, o filho, a família. Acho que é uma visão muito mecânica, cientificista, modernista, cartesiana, diria, achar que está tudo aqui ou nessas dualidades. Tem meio mundo de coisa que a gente não sabe. A própria experiência da vida vai trazendo sensações, premonições, intuições. A que você vai atribuir isso? É esse algo mais, é a que você atribui essas coisas que não toca, mas que sente. Quantas vezes eu sonhei coisas que pouco tempo depois aconteceram; são fenômenos. A gente sabe muito pouco dessa nossa capacidade de conexão energética, telepática. A isso eu atribuo a espiritualidade. Esse caminho de estar sempre em conexão com algo mais que não se nomeia ainda e que muitas vezes não se explica de forma racional, mas a gente sente e sabe que existe.
Você é intuitiva? Tem uma pegada viva de sacar o outro lado?
Muito. Quando estou distante dessa presença, quando não estou cuidando da observação das minhas emoções, as coisas começam a desandar. Tudo fica fora do lugar, fico ansiosa, mais triste, com menos energia vital. Fui percebendo que, quando me desconecto das minhas ritualísticas, do estado de vigília, de oração, de presença, de convocar a sabedoria, minha vida vai ficando despotencializada. É como se eu fosse ficando sem energia e as coisas começam a ficar travadas. Percebendo isso, fui entendendo que precisava cuidar disso. De prestar atenção nos sonhos. De fazer terapia para estar organizando e elaborando as coisas que chegam de formas mais abruptas. Me considero muito sensível. Não consigo trabalhar em ambientes de conflito. Tenho muita dificuldade de sustentar a briga. Para mim, é muito importante o diálogo, a conversa, uma boa comunicação. Vou me construindo com pessoas e relações em que isso esteja presente. Fico muito atenta aos ruídos, aos problemas, para que não ganhem um tamanho de que eu não consiga dar conta emocionalmente. Sou muito sensível, muito vulnerável. Uma pessoa muito aberta, esponja, absorvo as coisas. Quando chego num ambiente denso, carregado, cheio de conflito, tóxico, absorvo aquilo logo e fico mal. É como se fosse um aviso do meu próprio sistema dizendo: “Você só vai conseguir executar o que faz se estiver cuidando desse campo relacional, emocional, espiritual. Se não estiver cuidando, as coisas não vão fluir.” Então, na pirâmide das prioridades, sempre vem primeiro essa escuta, essa conexão comigo e com algo mais. A partir disso, eu vou entendendo o que quero fazer, com quem, de que maneira isso vai se manifestar. Depois vem a parte de entender como se materializa um projeto. Falei isso com uma amiga: às vezes vou almoçar e fico pensando o que o meu corpo quer. Lembro de uma vez em que eu estava numa venda, a mulher só tinha pastel de frango ou de queijo. Fechei os olhos e fiquei uns três minutos assim, conversando comigo, porque estava fazendo muita coisa ao mesmo tempo e, naquele momento, eu disse: “Não, deixa eu respirar aqui.” A mulher ficou me olhando um tempão. Aí eu abri os olhos e disse: “Eu vou querer um pastel de frango.” Ela deu uma risada e disse: “Nossa, você faz isso toda vez?” Eu disse não, mas é porque eu preciso fazer isso. Senão, começo a comprar o pastel de queijo sem ser o que eu queria, e aquilo vai me dar um negócio na barriga. Se eu tivesse me escutado, teria evitado esse tipo de conflito.
E quando você não se escuta e chega nessa tristezinha, nessa mini-depre, como você sai?
Chorando. Eu me permito sentir. Entro mesmo na dor, sinto as coisas. Mas o que me ajuda a sair é a minha fé. Quando não sei mais o que fazer de mim, com aquelas dores que estão me atravessando, eu digo: “Tá bom, não sei. Universo, revela-te. Me mostra o caminho. Qual o lugar que eu ainda não estou enxergando que pode me ajudar a sair daqui?” É uma conversa que eu faço com a vida. Às vezes chamo a força de Jesus Cristo. Se for pela via do amor incondicional, me libera desse entendimento em que estou presa. Às vezes estou andando num parque, mal e angustiada, olho para uma árvore e pergunto para ela: “Você que tem raízes profundas, que está aí há muito mais tempo do que eu, como eu posso acessar outro entendimento dessa angústia que estou vivendo?” No momento em que abro essa pergunta, para onde posso ir? Que outro lugar pode existir que eu não estou vendo? Sinto que a química do corpo começa a mudar. É como se fosse uma decisão de sair daquele lugar que está me aprisionando e se abrir para que deve existir alguma outra forma de atravessar isso. Eu me ponho em dúvida. Como saio da crise, eu questiono até ela. Convoco forças da espiritualidade, das plantas, dos bichos, dos orixás. Cada momento requer um tipo diferente de cuidado, é como se fossem cirurgias diárias. Tem dia que estou mais para a Deusa Kali. Tem dia que estou mais para um banho de ervas. Tem dia que estou mais para uma massagista. Tem dia que preciso ficar só. Tem dia que preciso ligar para a amiga de infância. Esse refinamento de o que o meu corpo hoje precisa, qual o tipo de cuidado que ele está pedindo e me mostrando. Já tive uma crise de ansiedade forte ano passado, antes de ir para o WOMEX. A gente tinha pouco tempo para conseguir o patrocínio, era uma oportunidade única. Taquicardia, dor no peito. Fiquei tão mal que disse: “Não estou sabendo resolver.” Falei com minha mãe, que é médica de medicina tradicional, e ela disse: “Minha filha, você vai tomar um calmante.” Naquele dia eu tomei. Era aquilo que eu precisava. Mesmo não sendo adepta da medicalização, naquele momento foi o que me salvou.
Fico imaginando como foi você na ayahuasca, o tanto de informação que desce, que vem, que chega, você sendo você, que aproveita essas informações. Conta um pouco como foi. Porque, se você ficou um mês lá, deve ter sido importante. Para mim foi um antes e um depois. Dá para dizer que é na sua vida também?
Em alguma medida, sim. Mas sinto que a ayahuasca foi a continuação de buscas que vieram muito antes. Antes de chegar nela, já tinha ido para palestras espíritas, tive uma fase muito de yoga e veganismo, pela questão da consciência ambiental, depois a igreja. A ayahuasca foi mais um dos lugares onde me vi convocada ao autoconhecimento. Eu diria o autodesconhecimento. Foi chegando nisso, mas também foi um ciclo que não permaneceu assim, pode até ser que volte. Eu me sentia muito mais como uma pesquisadora, uma buscadora. Teve uma época que eu estava pirando no sincronário Maia, na ideia da lei do tempo, dos ciclos lunares. São ciclos, cada fase da vida tem algo que está gritando mais e pedindo atenção. E na ayahuasca, foi foda. A primeira vez que eu tomei, tive muitas visões, a visão da jiboia aparecendo para mim com os dois olhos brilhantes, mudando de cor. Minha primeira experiência foi através da Aldeia da Vida, com os próprios indígenas, junto com Léo e Isa, um casal que recebe indígenas do Brasil todo, principalmente os Fulniô e os Yawanawás. Eu fui com muito respeito, chegando lá, pisando devagar naquela medicina. Senti a intuição de que precisaria entrar e conhecer aquilo. Fui com essa conexão de que algo me trouxe ali. Eu escuto muito o que o meu coração está dizendo, mesmo que só vá entender ou elaborar depois. E esse sentimento me dava a sensação de que eu estava no caminho certo. Quando fui consagrar, rezei a medicina no meu pensamento: “Estou a serviço. Revela-te aqui em mim o que for para eu aprender. Me coloco aqui humildemente para aprender com você.” Conversei com a ayahuasca assim. E bebi com muito respeito a tudo que estava ali e a todas as orientações que recebemos de quem estava servindo a medicina. A primeira vez foi linda, muito profunda, mágica. Tive essa visão, tive confirmações de que estava no caminho certo. Mas, diferente do que já ouvi de outras pessoas, e talvez diferente do que você trouxe, não tive aquela peia que desestrutura por completo. Pelo contrário, senti que alinhou coisas que eu já percebia que aconteciam comigo. Foi muito mais uma confirmação do que uma ruptura. E sinto que a ayahuasca cuidou de mim. Naquele período ela cuidou mesmo, dizendo: “Continua ouvindo tua espiritualidade. Continua aqui, ouvindo as forças que estão chegando, os recados que estamos entregando. Vai seguindo, que está certo.” Foi isso que me fez ir também para a floresta, para estar com os Yawanawás. Porque senti: tenho ainda que fazer esse passeio com eles. Vai ser importante para desenvolver outras escutas, humildade, tolerância, a capacidade de se conectar de outra forma com as coisas. Era um povo que tinha muito a me ensinar, e tem. Então foi nesse período que eles entraram até no disco que fiz com Clara, o “ÁUA, um convite para nascer outra vez”. Tem uma faixa chamada “Nossa Canção” com os cantos dos Yawanawás. Gravei quando estava lá, pedi autorização para que eles estivessem no disco. Meu encontro com a ayahuasca foi uma bênção, foi mais um portal. Depois veio a gravidez. Depois que o Dom nasceu, eu ainda tomei, mas aí fui sendo convocada a atuar de outras formas. E aí fui indo para outras pesquisas. Mas está aí, foi vivido.
Você se diz careta, mas nem cogumelo, nem microdose, nada disso?
Nunca. Uma amiga me deu um cogumelo uma vez, eu estava super curiosa porque todo mundo estava falando de cogumelo. Eu pensei: quando eu sentir, se for para experimentar, eu vou viver isso. Mas tenho muito respeito às coisas, tanto ao meu sentir quanto a essas medicinas. Não consigo simplesmente decidir: “Vou comer uma microdose agora.” Para mim ficou guardado. Só que ficou mofado, ficou um ano na minha gaveta. Cara, que louco, o cogumelo mofou porque eu não senti que precisava. Mas se eu quisesse, se eu tivesse sentido, ele estava ali à disposição. É a mesma coisa com tudo, bebida alcoólica, refrigerante. Se eu não sentir, não vai.
Você falou que parou de beber álcool faz sete meses. O que aconteceu?
Comecei a ver que não valia a pena o dia seguinte. Ficava tão cansada, tão sem energia, que comecei a questionar: por que socialmente isso é tão aceito, mas desvitaliza tanto o corpo? E a maternidade me deixou muito seletiva com onde eu ponho minha energia. O tempo é tão contado, tem tanta rotina para fazer uma vida existir com saúde. Eu olho para o Dom, três anos, brincando, correndo, e digo: toda minha energia vital está em função dessa criatura. Se eu não estiver dormindo bem, me alimentando bem, se estiver de ressaca, a coisa desanda mesmo. Fui parando, e o desejo foi atrofiando. Hoje eu olho para uma cerveja e não tenho vontade. Às vezes estou na praia, num calorão, e penso em tomar uma cerveja, mas aí tomo uma água com gás, uma água de coco, e aquilo já me refresca. Fui substituindo. E isso também faz parte de uma pesquisa que faço de questionar a cultura que a gente vive, a cultura do álcool, a cultura da fuga. A cultura do cigarro também, são fuga, velho. Eu entendo que a gente vive num mundo tão opressor que, tudo bem, não venham com um discurso moralista criticando quem fuma, quem toma seu gorozinho, tá tudo certo, cada um faz o que quiser. Mas na minha própria pesquisa fui entendendo: não faz sentido achar que minha forma de diversão precisa ser autodestrutiva. Como é possível encontrar um caminho de divertimento, de alegria, de energia, em que eu não me esgote em alguma medida? E isso é um estudo para a vida toda, um estudo fino. Pode ser que amanhã minha grande medicina seja tomar um litrão sozinha. Mas, nesse momento da vida, cuidando de uma criança, cuidando da minha energia, precisando focar no trabalho, na música autoral, sem precisar me adaptar e fazer cover de quem eu não gosto só para ganhar dinheiro, tudo isso me fez entender que beber agora não é bem-vindo. Ou qualquer forma que vá me esgotar energeticamente.
Você também sente que a gente vive numa época de hiperconsciência, mas de pouco corpo, de pouco ouvir o que o corpo pede?
Tive a sorte de estar em contato com a dança desde a primeira infância. Minha experiência com as práticas culturais, dançantes, brincantes, estruturou em mim alguns lugares importantes para a vida. O primeiro é essa noção de ritualizar a vida. Aqui em Recife, os ciclos festivos são muito vividos. Tem o carnaval, com toda a preparação, as prévias, os blocos, os clubes , começa em setembro, todo um trabalho de preparar a vida e o corpo em função daquela festa. O carnaval é muito vivo. Depois vem o São João, as festas dos Pastoris. Recife, Pernambuco, o Nordeste, são culturalmente muito ricos. E eu tive a sorte de vir de uma família que gosta disso, que gosta de brincar. Meu pai é super folião. Minha mãe é carioca, mas mora em Recife há mais de quarenta anos, e ela desfilou em escola de samba. Minha família sempre foi muito festiva. Meu primeiro carnaval foi com seis anos, e eu nasci em 20 de fevereiro, no período carnavalesco. O frevo foi a minha primeira linguagem artística. Comecei como dançarina, estudando na Escola Municipal de Frevo do Recife com Mestre Nascimento do Passo, meu grande mestre, fundador e precursor da escola. Foram oito anos ali. A galera da dança sabe explicar bem a função do movimento. Mas eu sentia que estar dançando era sempre estar transformando a energia. Às vezes eu estava muito cansada e dizia: “Hoje não quero ir para a aula.” Ia mesmo assim, porque minha mãe mandava. E chegava lá e saía muito bem. Muito cedo fui entendendo a importância de estar em movimento como algo que ajuda a reorganizar as emoções, a reestruturar o discernimento sobre as coisas. Eu sempre entendi assim: não estou bem, se eu dançar, alguma coisa vai se revelar, porque vou botar meu corpo ali para mover. Não adianta de uma hora para outra querer dançar algo que nunca dancei. Eu sinto que meu corpo foi sendo construído por essa escola. A escola do corpo, do movimento, do estar em movimento, do ouvir a diferença de um corpo cansado e de como aquele corpo fica depois de uma aula. De perceber que, mesmo atravessando términos de relações, questões da adolescência, a dança era quase um guia. Eu passava pelas coisas que meus amigos adolescentes passavam, mas tinha um lugar para liberar e canalizar, nas apresentações, nas aulas, no encontro com os outros da dança. Isso me ajudava a direcionar, porque o que é a vida se não um constante atravessamento de coisas? A gente vive simultaneamente sobre muitas forças, muitas informações, desde o núcleo familiar de que a gente vem. A dança era um eixo norteador. Me deu estruturas para reconhecer quando algo em mim não está bem. Se eu me permitir ouvir esse corpo e dançar a partir do que estou vivendo, eu vou colocar em movimento essa dor e ela vai se revelar de outros jeitos. E preciso mencionar os mestres que me ensinaram isso. Não descobri sozinha. Foi Nascimento do Passo, Fátima Freitas, Isabel Marques, Soraia Jorge no movimento autêntico, todos os mestres da cultura popular com quem tive contato , Antônio Nóbrega, Rosângela Almeida. Vendo e observando essas pessoas em suas criações, em seus processos de reeducação e transformação de si, me vi inspirada a entender que isso é um caminho de saúde. Hoje me sinto mais do que artista. Me sinto um agente de saúde. Gosto de andar na direção da saúde. Há certos tipos de arte que eu vejo que, se eu der vazão neles em mim, vão me levar para um caminho que não gera saúde. Não é toda arte que gera saúde. Percebi que funciona para mim a arte que me leva a ter potência de vida. Como dizia Espinosa: a alegria é uma emoção que faz crescer o desejo de persistir. Venho do universo da cultura popular, dos brincantes, da galera que tira leite de pedra. Da galera que vem dos canaviais, do trabalho pesado, e ainda assim encontra o motivo para ver beleza na vida. Me inspiro nessas forças, nessas pessoas, nesses doutrinadores da cultura popular. Lia de Itamaracá, meu Deus do céu, o que é essa mulher? De onde ela vem? Essa coisa dela persistir na ciranda, na força coletiva, no dançar em roda como algo de ordem fundamental para que a existência aconteça. Eu me inspiro em gente assim, que atravessa a dureza da vida, mas não perdeu a capacidade de ver o encanto e a beleza. Entendo que essas pessoas, por verem essa beleza e esse encanto, são as que continuam persistindo e acreditando em novas formas de existência. E isso nos ajuda a não ficar presos no aquário que se chama capitalismo, no aquário que se chama patriarcado, machismo, na lógica da produtividade e da performance. São aquários que diminuem a existência. Então eu fico olhando para quem está fora desses aquários. Quem está feliz? Cadê os felizes? E os felizes que eu digo não são os que estão o tempo todo sorrindo. São as pessoas que ainda veem beleza na vida, que atravessam a dureza sem serem manipuladas por ela. Porque há um projeto político e econômico de desestabilizar nossa capacidade de ter esperança. É um projeto do capitalismo, um projeto do patriarcado. Porque corpos tristes e desmotivados reagem menos, não questionam, não se movimentam, não se opõem, não têm força, não têm vitalidade. Então essa busca pela vitalidade espinoziana, pelo afeto radical, que é isso que eu trago no meu último disco, a dança e a arte na direção da saúde são mecanismos de sustentação da vida. Como dizia Krenak no “Ideias para adiar o fim do mundo”: sempre vai ter uma constelação de seres humanos que ainda dançam, que ainda cantam e que ainda celebram. E esse povo é o que tem histórias para adiar o fim do mundo. Porque essa ideia de apocalipse nada mais é do que também um projeto para a gente desacreditar da vida. E ele funciona , você vê a quantidade de gente triste, com depressão, o número de suicídios. É algo de ordem mundial. A Organização Mundial da Saúde já declarou a depressão uma epidemia mundial. Sinto que a arte é uma forma de me manter, de proteger o sonho, a saúde, a vida. E de cuidar para que a gente não acredite nesse projeto político de desacreditar no mundo.