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Cannabis no autismo: cabe na receita?

Por Filipe Vilicic

Frasco de óleo com conta-gotas ao lado de folhas de cannabis e peças coloridas de quebra-cabeça em fundo verde.

Crianças que não falavam, começaram a se comunicar. Um jovem que desenvolveu incômodo grave com a areia, controlou sua irritabilidade e voltou a ir à praia. Melhora na qualidade do sono, diminuição da agressividade, maior sociabilidade. Médicos e pacientes têm relatado o quanto a cannabis parece fazer bem a pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista).

“Melhora um conjunto de fatores, como a agitação psicomotora, o grau de atenção, ajuda na sociabilidade, ou mesmo na dinâmica da família”, avalia o médico Alysson Madruga de Liz. Especialista no tema, é dele um estudo já referência no meio, no qual acompanhou o uso de óleo de canabidiol (CBD, com pouquíssimo THC) por 30 pacientes com TEA, com idades entre 2 e 15 anos. Liz conta que alguns dos voluntários chegaram a substituir os medicamentos psicotrópicos aos quais recorriam pelo CBD.

Os resultados dos tratamentos estão sendo promissores. Por exemplo, em uma pesquisa que virou um marco, de 2012, cientistas israelenses realizaram ensaios observacionais com 150 crianças e adolescentes com TEA, com idades entre 5 e 12 anos, para notar os benefícios do uso. Os pacientes foram separados em grupos que receberam placebos ou óleo de cannabis. Cerca de metade dos que pegaram o medicamento tiveram melhoras em sintomas do autismo, uma porcentagem significativa já que, como o estudo israelense destaca, “não há tratamento farmacológico estabelecido para os sintomas centrais do transtorno do espectro autista”. A eficácia também tem se provado maior do que por meio de métodos tradicionais.

A mãe de um dos participantes da pesquisa de Alysson Madruga de Liz deu seu relato: “Antes nosso filho não olhava no nosso rosto. O CBD o ajudou a visualizar melhor, a ter mais estímulos sociais, a conversar”. Na experiência clínica, é comum casos de autistas que voltaram a ir para a escola e a participar de atividades sociais.

O que a ciência diz

Apesar de a observação empírica, de médicos e familiares de pacientes, indicar o quão bem faz a cannabis para pessoas com TEA, é preciso acender alguns sinais de atenção. O primeiro deles é que se trata de um transtorno em um espectro e, portanto, pacientes com mesmos diagnósticos apresentam características muito distintas entre si, e a resposta ao medicamento de canabidiol é também diversa.

“Os testes clínicos têm mostrado consistentemente que o uso de cannabis no TEA não é uma panaceia, ou seja, não funciona para todos”, pontua o neurocientista Alysson Muotri, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos. Ele lidera um laboratório em que realizam testes com minicérebros, que são recriações minúsculas de nossos cérebros, e uma das linhas de trabalho que se destaca em seu time é a da cannabis e autismo. 

“Como o cérebro humano é muito complexo e bem diferente do de animais, optamos por estudar num modelo reducionista, que são os minicérebros, criados a partir de células reprogramadas dos próprios autistas”, explica Muotri. “Estamos descobrindo como o CBD e THC atuam em neurônios humanos do ponto de vista molecular, celular e de network neural. Tudo isso irá ajudar a entender qual o provável mecanismo de ação dessas moléculas, além de desvendar porque alguns respondem mais ao tratamento e, outros, menos”.

Na pesquisa realizada por Alysson Madruga de Liz com colegas da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), 16 dos 30 pacientes chegaram a até parar com o uso de outros fármacos, como risperidone, substituindo-os pelo óleo. Ou seja, as vantagens são evidentes. Contudo, houve relatos de algumas consequências adversas leves, como aumento no apetite e, em alguns casos, no nervosismo. É preciso ainda destacar que são poucos os estudos científicos do tema e, por isso, não se sabe ao certo quais efeitos adversos podem ocorrer.

O primeiro passo para saber se o tratamento é apropriado é consultar um médico especialista. A orientação profissional é o passo mais importante, mesmo (ou talvez ainda mais) quando ainda não há um protocolo único e já consagrado a ser seguido.

“O mais prudente é olhar quais sintomas são mais importantes de tratar e se o paciente já utilizou outras medicações, e se estas falharam”, opina Liz. “Já foram testados medicamentos, outras medidas, terapias?”. Para ele, o melhor seria o óleo de CBD entrar como um recurso após esses passos anteriores.

Com a discussão científica muito em aberto, todavia, seria de esperar que houvesse discordâncias entre os médicos. Para o neurologista Lucas Cury, especializado em tratamento endocanabinoide, a cannabis não precisa ser última alternativa, pelo contrário, pode ser a primeira: “Quanto mais cedo iniciarmos a terapia com canabinoides – sempre associados a outros métodos de terapia –, melhor será nosso ganho na neuroplasticidade, podendo ser observado em suas potencialidades em cognição, no filtro social, no refreamento de impulsividade e na diminuição da inflamação sistêmica comum em pacientes autistas”.

Cury diz que, assim que começa o atendimento de um paciente, vê “a cannabis como a primeira opção ao autista nesse jogo de quebra-cabeças, encaixando-se com as terapias multidisciplinares”. Um dos obstáculos, entretanto, é o acesso ao medicamento, que normalmente sai caro. Por isso o médico ecoa o que defende muitos de seus colegas: “Vejo como extrema necessidade criarmos clínicas especializadas pelo SUS, distribuídas em todo território nacional; além de invertemos a cultura de cannabis medicinal como última opção, quando muitas vezes pode ser a primeira”.

O último mês foi de Abril Azul, quando ocorre a campanha mundial de conscientização sobre o autismo, estabelecida pela ONU em 2007. O acesso a terapias que podem melhorar a vida dos pacientes está no centro desse esforço.

Cury compara o cenário a como foi com o tratamento para epilepsia: “Começamos a prescrever canabidiol para epilepsia pois havia ali uma lacuna de resposta terapêutica com pacientes refratários a métodos alopáticos. No autismo, seguimos a mesma métrica. Com o tempo fomos descobrindo que o paciente autista já nasce com um sistema endocanabinoide desequilibrado de base, desestruturado. Ao calibrar a batuta desse grande maestro chamado sistema endocanabinoide, estamos entregando à sociedade um paciente mais funcional e calmo, sem necessariamente estar sedado”.