Na Breeza

Uma câmera na mão e um baseado na cabeça

Por Anita Krepp

Vida de jornalista é meio fodida. Recebe-se pouco, trabalha-se muito, inclusive no fim de semana e feriado. Mas tem um espectro interessante que pode ir da cobertura de buraco e chacina à bancada do Jornal Nacional – se o sujeito tiver sorte, claro. Porque são trocentos cobrindo buraco e só dois no JN. Bem, na verdade também tem um jeito de sentir o gostinho do sucesso na profissão sem chegar ao JN. Você vai ganhar menos, mas vai fazer o que gosta. O Matias Maxx é um desses que faz o que gosta. E ele gosta mesmo é de fumar maconha. Ou melhor, de fumar maconha, investigar e contar histórias ligadas a ela.

De Ponta a Ponta, a série documental que ele criou e lançou em parceria com a aLeda, não saiu do papel na primeira tentativa. Antes disso, Matias bateu em várias portas. Propôs um podcast com esse nome para a Agência Pública, mas não rolou financiamento. Depois, uma produtora grande do Rio, que tinha um streaming interessado, queria um apresentador famoso e filmagem em vários países, mas virou uma coisa megalomaníaca e morreu antes de começar. Uma terceira tentativa com outra galera avançou bastante, mas perdeu o lugar para outro projeto no final. Três boas na trave.

A virada veio em 2024, na Expo Cannabis, quando ele reencontrou a galera da aLeda. Uma relação de vinte anos, que remonta aos tempos da La Cucaracha, uma das primeiras head shops do Rio de Janeiro. Matias contou do projeto, e os aLeda Brothers abraçaram sem condição, com liberdade criativa total. A verba não é de streaming, mas é justa. E, Matias, safo que é, pega um limão para fazer três limonadas. “Financiei um projeto autoral, um projeto maconheiro pra caralho, só que do jeito que eu acho que tem que ser, com gente fumando, com planta, com a palavra maconha.” 

Maconha na tela, doa a quem doer

A série parte de um princípio que o nome já entrega. Quem fuma, quem planta, quem colhe, quem compra, quem vende, quem ama maconha. Matias filma sozinho na maior parte do tempo, às vezes com alguém local fazendo segunda câmera, edição com duas pessoas fixas e trilha sonora original assinada por Joe Carioca. Produção enxuta, resultado denso.

O primeiro episódio é sobre cultivo. Um cara com grow indoor de alta tecnologia e outra pessoa com agrofloresta outdoor, sem juízo de valor sobre qual é melhor. O segundo veio de uma urgência. Matias estava no dia seguinte à chacina da Penha, num ato, com câmera na mão, e decidiu que aquilo não podia esperar. Filmou também a reconstituição policial da morte de um menino numa festa junina no Santo Amaro. Os policiais chegaram com marra, roupa camuflada, caveirão, numa comunidade que estava de luto por um vizinho que a polícia acabara de matar.

“A população tava puta porque a polícia acabou de matar um cara lá, um amigo. Os caras chegam cheio de marra, aquela roupa camuflada, com o caveirão. Foi tenso.” O episódio, no entanto, é o menos assistido da série. Mas como todo jornalista é calejado com os altos e baixos, foi só esperar o terceiro episódio sair e constatar que ele caiu nas graças da audiência.

A matéria-prima desse sucesso foi um arquivo do Paraguai, uma viagem que ele fez em 2016 com bolsa do Senado Público, e transformou em vídeo, mostrando pela primeira vez as imagens dos campos de cultivo e do processo de prensagem. A reportagem original tinha saído na Folha, na Agência Pública, na Al-Jazeera em inglês, e virou case. Era de se supor que a versão em vídeo faria sucesso, mas surpreendeu ao ser o episódio com mais visualizações da série até agora – e isso nos dá uma boa pista sobre o que a galera quer ver.

As redações ainda são caretas

Em 2025 voltou ao Paraguai para visitar um mega grow legal, empresa com controle biológico rigoroso e uma escala que ele descreve como a coisa mais impressionante que já viu na vida. Também passeou pelas marchas da maconha no Rio, em São Paulo e em Fortaleza, contando a história do movimento por dentro. Argentina está na fila, mas sobre o que vem depois, não adianta insistir, que ele não dá spoiler.

Jornalista desde 1998, Matias começou no meio musical, na Trip, na B, fotografando, filmando, cobrindo show. O primeiro baseado da vida rolou num show do Chico Sanches no Circo Voador, quando tinha 15 anos. Nas redações em que passou, era o cara que tentava emplacar pauta sobre maconha. Na Rolling Stone Brasil chegou a ter uma matéria diagramada, pronta pra sair, sobre cultivo e debate no STF. O publisher ficou sabendo, mas por conta de patrocinador, não saiu. Tentou de novo no ano seguinte com a mesma redação e adivinha? Caiu de novo.

Em 2012, cansado de levar não, fundou a própria revista. A Sem Semente levou quatro anos entre a ideia e o primeiro número impresso, estreou no declínio das bancas e fez quatro edições. Hoje é peça de colecionador. Foi a matéria sobre o Paraguai, em 2016, que mudou o patamar e fez com que Matias passasse a ser procurado de forma diferente.

“Sei do custo que ter virado ativista da maconha tem na minha carreira de jornalista. Muita gente demorou a me levar a sério. Tive que ir ganhar prêmio, fazer matéria consistente, chegar na Piauí.”

De Ponta a Ponta existe porque tem muita coisa ainda por contar sobre a maconha que não passa pelo lado medicinal. Contar as outras pontas, as que ficam de fora quando a conversa sobre cannabis começa e termina na farmácia, é a sina de Matias, com uma câmera na mão, um baseado aceso e uma obsessão que não coube nas redações por onde passou. Enquanto muita gente ainda tenta chegar ao topo da pirâmide do jornalismo, ele resolveu sair dela para viver a sua verdade.