Saindo da estufa

Alceu Valença: “Tomo gotinhas de cannabis para dormir e para ansiedade”

Você vai se surpreender quando descobrir que o ícone da chamada psicodelia nordestina, na verdade, jamais embarcou em uma única trip. A psicodelia de Alceu Valença é totalmente endógena, já que das substâncias todas ele preferiu manter distância quando, na adolescência, ouviu que o surto psicótico de um vizinho teria sido causado por elas. Era mentira, mas o marcou para sempre.

Ao longo de seus 80 anos, Alceu diz nunca ter experimentado sequer um baseado. Ainda assim, há algum tempo passou a usar cannabis com fins terapêuticos, para dormir melhor e aliviar a ansiedade provocada por uma hiperatividade criativa que o mantém produzindo discos, shows, viagens e, em breve, também uma autobiografia à qual vem se dedicando.

Na conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, além de cannabis e psicodélicos, o artista falou também sobre como lida com a ideia da finitude e sobre as escolhas que faz para viver melhor o tempo que tem.

Estamos celebrando os 80 anos de Alceu Valença, que sorte a nossa. Eu sei que seria um papo longo demais, mas conta pra gente das pepitas de ouro que recolheu nessa trajetória.

Eu ainda recolho, viu? Eu acho que a gente não vive só o tempo presente. A gente vive presente, passado, futuro, tudo ao mesmo tempo. Eu tenho uma música que fala da embolada do tempo. Assim vai: “O tempo em si não tem fim, não tem começo. Mesmo pensado ao avesso, não se pode mensurar. Buraco negro, a existência do nada, não se para, nada, nada. Por isso nos causa medo. Tempo é segredo, senhor de rugas e marcas e das horas abstratas quando paro para pensar. Você quer parar o tempo? O tempo não tem parado.”

Como é que você tem sentido o passar do tempo?

Bem, eu tenho saúde, não vejo o tempo passar. Hoje acordei às sete da manhã e já fui caminhando daqui até o Arpoador. Fui a pé, voltei a pé. Eu acho que é muito bom para a saúde, física e mental, caminhar e realizar coisas. Quando entro no palco, é como se fosse o primeiro show da minha vida. Sempre tenho muita alegria de estar ali. Sinto muita energia. Digo que o palco é vitamina A, a vitamina da alegria, e vitamina H, a vitamina da harmonia. Porque aí tenho uma relação de harmonia com o público, com a plateia. E assim a coisa vai.

O documentário Vivo 76, que abre a edição deste ano do Festival É Tudo Verdade, é apresentado como uma viagem lisérgica e documental pelo universo de Alceu Valença. Você se reconhece nessa ideia de psicodelia nordestina?

Quando eu fiz o meu primeiro disco, em 1971, lançado em 72, tinha uma música chamada “Planetário”, que as pessoas chamam de psicodélica. Depois fiz “Molhado de Suor”, e foi aí que começou a surgir a psicodelia em Pernambuco. Mas eu não morava lá. Eu morava no Rio de Janeiro. As pessoas às vezes ficam me colocando como se eu fizesse parte de grupos de lá. Não fazia. Tinha umas bandas bacanas, ótimas, que eu depois vim a conhecer. Mas eu não conhecia ninguém.

Mas você tem mesmo essa atmosfera psicodélica, não?

Olha, você vai procurar a minha música “Planetário”, e vai ver a sonoridade dali. Mas eu não pertencia a grupo nenhum, e já fazia essa coisa que depois virou uma moda, uma marca pernambucana, e eu gosto de falar a verdade. A verdade é que naquela época eu estava morando no Rio de Janeiro. Gravei o primeiro disco em 71, lançado em 72, com Geraldo Azevedo, com músicas que as pessoas viriam a chamar de psicodélicas. Depois fiz “Molhado de Suor” aqui no Rio, com músicos cariocas. As pessoas às vezes ficam pensando que eu estava no Recife, mas não, eu estava muito mais aqui. Fui ao Recife, fiz um filme, era muito louco, esse sim podia ser psicodélico. Um filme chamado “A Noite do Espantalho”. E também Rei de Nova Jerusalém. Passei no máximo uns 20 dias por lá.

O disco Vivo tem uma coisa muito forte desses ambientes. Eu sinto ele talvez como o mais psicodélico seu.

Mas a psicodelia dele é diferente, pelo seguinte: eu usava guitarra elétrica, uma sonoridade a que as pessoas não estavam acostumadas, mas tudo em cima da música nordestina. Eu nunca fiz uma balada, faço toada. Estou lá dentro do Nordeste. “Sol e chuva”, por exemplo, é baião. As pessoas às vezes não conseguem entender. Eu usei os instrumentos elétricos, guitarras, baixo, bateria, para uma música que não usava isso. Que usava sanfona. Luiz Gonzaga foi o cara que mais me definiu a sonoridade. Ele me explicou assim: “A sonoridade que você inventou, a timbragem é outra. Porque se os outros usavam flauta de bambu, duas flautas, você usa flauta transversal e guitarra fazendo dueto.” Aí é uma outra coisa.

E de onde veio isso, Alceu, de alguma inspiração psicodélica, de um LSD, de alguma viagem?

Não, minha neguinha. Presta atenção. Eu nunca, na minha vida… não tenho nada contra. Eu tomo gotinhas para poder dormir hoje. Mas nunca fumei maconha. Nunca cheirei pó. Nunca tomei ácido lisérgico. Absolutamente nada. Sou doido, dizem que sou doido, e sou mesmo. Mas nunca precisei. A minha música era maluca, era diferente. As pessoas pensavam que eu era doido por isso. 

Os psicodélicos nunca te chamaram a atenção?

Talvez pelo fato de que, quando tinha uns 14, 15 anos, eu conhecia uma pessoa da minha idade que teve um surto esquizofrênico. E a mãe dele pensou que era porque ele tinha tomado droga. Ela nem sabia que era um surto esquizofrênico. Aquela história ficou na cabeça, e acabei evitando, inconscientemente, por causa disso.

E era de fato por uso de alguma substância? 

Não. Era realmente um surto esquizofrênico, não era por nenhuma substância. Mas aquela história ficou.

Eu realmente achava que você tinha umas inspirações meio de fora do planeta Terra…

O artista que é artista não é um sujeito que faz música por obrigação. Ele tem essas coisas. A minha mulher diz que eu tenho surtos criativos. Quando eu tenho um surto, componho. A maioria das minhas músicas eu fiz na hora, tudo na hora. O que vem na cabeça, eu faço.

No seu disco de estreia, a música Talismã dizia originalmente “Joana me deu um talismã.” E a censura achou que era apologia à maconha. Conta essa história para a gente.

Foi. Eles tinham censurado outras músicas. Essa daí eu dei uma gozação neles. Falei: “Não pode botar Joana, porque diziam que era Maria Joana e viajar dizia viajar.” Aí eu falei: “Eu boto então Diana Caçadora.” Que cara de imbecil. E aí deixaram, eu mudei. Ficou horrível, obviamente. Mas depois voltou ao original. Não tinha nada a ver, nada. 

E vem cá, “da manga rosa eu quero o gosto e o sumo.” É da manga, a fruta, que a gente está falando, ou é a variedade de cannabis manga rosa?

O que eu tô falando é o sabor, o sabor da morena. “Morena tropicana eu quero o teu sabor.” Tinha todos aqueles sabores.

Me conta um pouquinho sobre essas gotinhas de óleo de cannabis. Para dormir? Para ansiedade?

Tomo gotinhas de cannabis para dormir, sim. Tem umas para ansiedade e outras para dormir. Hoje mesmo não tomei para ansiedade. E as gotinhas para dormir funcionam. Hoje não funcionou muito porque acordei às cinco da manhã e fui caminhar.

Como foi que você chegou a isso? Não tinha um receio?

A Anvisa aprovou alguma coisa de cannabis, tirando o THC. Pois bem. Eu estava em Portugal e se vendia nas farmácias. Estive na França, vendia também. Uma médica sugeriu, eu comprei.

Quais são os seus outros hábitos, além, obviamente, de tocar?

Caminhar, ler, escrever. Escrevo demais. Escrevo nas notas do celular. Tenho crônicas, poesias, contos. Já me pediram para publicar, mas quero fazer no momento em que tiver tempo para dar entrevista, falar sobre o livro. Já tenho um livro publicado, lançado pela Editora Chiado em 2015, em Portugal.

E o que tem te inspirado? O que te move a escrever?

Ah, na hora. A coisa vem na hora. Às vezes são lembranças do passado, muito pequenas. Estou escrevendo sobre o meu avô, eu ouvindo música com ele na vitrola. São coisas que a gente vai fazendo. Escrevo muito dentro do avião. Ia ser o nome do livro, “Crônicas Aéreas”. Mas faço terrestre também, pode ser aéreas e terrestres. E tem muita poesia também.

Sabe que eu fico preocupada com isso. Acho que a gente devia conservar o hábito da escrita…

É. O problema hoje é que a internet fez tudo ficar muito pequeno. O texto ficou pequeno. Mas eu faço o meu texto do jeito que quero. Daqui a pouco vai ser a pessoa que faz tudo por você. Mas eu prefiro deixar voar.

Pode vir uma autobiografia por aí?

Estou escrevendo já. Mas não sei se vou fazer em livro. Quero fazer em cinema. Começa na minha terra, São Bento do Una, depois vai para Garanhuns, onde eu morei quando menino. Depois para o Recife, depois para o Rio, onde comecei a fazer música, estudei direito, tudo por ali. É uma biografia poética, na maneira como eu falo.

E aí tem data para a gente esperar?

Não. Nem espere (risos). Estou escrevendo, tô bem. Tenho projetos em audiovisual muito bons. Mas não posso abrir ainda para ninguém.

Desde que fui mãe, penso sobre a morte todos os dias. Antes isso era uma coisa que nem passava pela cabeça. Agora estou muito mais consciente disso. Queria saber como é que você se relaciona com o tema da morte.

De vez em quando ele vem. Igualzinho. Mas isso é normal. Você procure uma psicanalista, são coisas absolutamente naturais, todo mundo passa. Mas se ficar preocupado demais com isso, aí vai fazer sofrer.

Você já chegou a conversar com alguém sobre esse tema?

Faço TCC, terapia comportamental e falo sobre a morte, sim, já falei várias vezes, mas eu já tenho uma noção, sei que isso bate em qualquer ser humano. O problema é não ficar girando nisso o tempo todo.

É uma ideia que te assusta, ou você já está amigado com ela?

Não assusta. Porque eu já entendo tudo isso. Perdi minha mãe, perdi meu pai, amigos bem mais novos do que eu. Mas isso é uma coisa que não tem previsão. Então deixa para lá. Vamos seguindo na estrada.

Você me parece uma pessoa muito alto astral, mas claro que nem sempre é assim, por exemplo, com essas gotinhas para a ansiedade. O que te gera ansiedade?

Todo mundo tem ansiedade. A minha é, por exemplo, quando estou com um projeto na cabeça, escrevendo tanto, tanto, aí dá. A ansiedade pega você pelo pé, fala no seu ouvido, é chato demais. Às vezes, quando passa do limite, não é bacana. Mas é melhor ser ansioso do que ocioso.