Saindo da estufa

Pedro Wagner: “Fumo maconha cotidianamente antes das refeições para ter fome”

Pedro Wagner tem por hábito fumar um baseado antes de comer porque, sem a maconha, não adianta, a fome não vem. Desde criança ele funciona assim, indiferente à fome. Até que aos 27 anos fumou maconha pela primeira vez e entendeu que aquilo resolvia uma coisa que anos de sopa de fígado não tinham conseguido.

Ator pernambucano prestes a entrar no ar na 3ª temporada da série “Os Outros”, da GloboPlay, Pedro queria ser ator desde os 12 anos e guardou esse desejo sem dizer a ninguém, porque na família que variava o feijão de segunda a sábado e reservava a galinha para o domingo, não havia muito espaço para esse tipo de conversa. A arte foi a substância psicoativa da adolescência de Pedro e, antes da erva, vieram o cinema, a literatura e o palco.

Pedro Wagner todos os dias bola um baseado que o acompanha o dia inteiro. Dois tragos aqui e três ali já ajudam a abrir o apetite de comida e de criatividade. Nesse papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, Pedro conta que gosta da palavra maconheiro assim como gosta da palavra viado. As duas foram usadas para diminuí-lo, mas ele preferiu ressignificá-las com orgulho.

Pedro, como é a sua relação com a maconha?

Eu tenho uma relação com a maconha mais pessoal, de forma recreativa e medicinal ao mesmo tempo. Ela entrou tarde na minha vida, comecei a fumar com uns 27 anos. Antes disso, tinha tentado algumas vezes, mas nunca tinha acontecido nada. Achava que simplesmente não funcionava comigo. De repente aconteceu uma brisa e teve uma época em que fumei de forma muito intensa. Hoje ainda fumo cotidianamente, porque uso sempre antes das refeições, já que não sinto fome. Isso foi revolucionário pra mim. Meu psiquiatra me diz “Eu tenho uma série de hábitos seus que precisam ser reorganizados, mas a maconha, no ritmo que você está usando agora, não acho que seja um problema.” Ela viabiliza a minha fome. Não tenho compulsão com comida e não sinto fome. Já cheguei a ficar quase dois dias sem comer, só percebendo que estava sem comer pelo amargor no estômago. Até os quase 30 anos eu pesava 55 kg com 1,81 m de altura. Hoje peso 74 kg.

Você nunca sentiu fome? Sempre foi assim?

Sempre. Acho que tive uma alimentação muito precária na infância. Ficava tomando mingau na mamadeira até muito tarde. Até os 9, 10 anos, o leite era minha principal fonte de alimentação. Quando comecei a ter um quadro de anemia, quase tive leucemia quando criança, a família tentou forçar uma alimentação mais sólida. Foi traumático para todo mundo. Tinha uma época em que eu tomava sopa de fígado toda noite. E suco de beterraba, que amo até hoje. Mas sopa de fígado, pelo amor de Deus, pra uma criança… Acho que desenvolvi algum trauma com comida, e ela nunca foi uma fonte de prazer. Não que eu ache isso necessariamente ruim. Tenho paladar, acho certas coisas gostosas, mas “vamos sair pra comer” ou “vamos a um rodízio” não me diz nada. A maconha antes das refeições abre meu apetite a ponto de eu conseguir comer. Como pouco de uma vez, mas a larica me faz ter uma alimentação melhor. Com isso, hoje peso 74 kg. Era muito, muito abaixo do peso. 

A maconha então é uma aliada para a saúde?

E não só minha. Nos últimos cinco anos, minha avó paterna, a única avó que ainda tenho viva, está sendo tratada com canabidiol. Ela tem um quadro de Alzheimer há quase onze anos. Nesses últimos quatro ou cinco anos com o CBD, ela não perdeu a oralidade, que era o que estava por vir. Tem Alzheimer muito avançado, mas conversa, responde quando você pergunta, anda, vai ao banheiro sozinha. Toda essa autonomia ela havia perdido, inclusive já estava no processo de perder a fala. O canabidiol fez uma revolução na vida dela. Meu irmão é o cuidador da minha avó. Ele foi criado por ela e é quem acabou assumindo esse papel, não os filhos. Com muita luta para fazer todo mundo entender que ninguém estava querendo fazer da minha avó uma maconheira. Hoje toda a minha família entende a força disso e a revolução que representa na qualidade de vida dela, que está com quase 90 anos e já vive há uma década com Alzheimer. É mais um depoimento pessoal sobre benefícios reais, concretos, que sinto que traz para mim e para as pessoas perto de mim.

E essa coisa da alimentação na infância tinha a ver com questão financeira ou com falta de informação mesmo?

Um pouco das duas coisas. Nenhuma das mulheres da minha família amamentou, não existia cultura de amamentação naquela geração. Elas tiravam o leite e jogavam fora, só para aliviar a dor no seio. Os mingaus eram feitos com produtos industrializados, aquelas fórmulas. Eu via o desespero da minha avó quando alguém questionava que não deveria colocar açúcar no mingauzinho do bebê de um mês. Era outra lógica. Eu não fui apresentado a leguminosas porque minha própria mãe não gostava delas. Como ela ia me passar algo que achava ruim? Há um lugar de incompreensão da comida como algo além de calar a fome. E isso vem de um lugar de privilégio.

“Você precisa ter muito privilégio para poder refletir sobre o que come”

Não diria que passei necessidade na infância, mas havia muita restrição financeira e, consequentemente, alimentar. E é óbvio que, nesse contexto, o Jornal Nacional, a novela das seis, o pastor ou o padre vão dizer ali na televisão enquanto elas cozinham, e isso vai ser a verdade que elas vão levar pra vida. Não precisava nem ser maconheiro ou viado. Bastava usar preto e gostar de rock que você já virava o rockeiro da cidade, e os pais orientavam os filhos a não andarem com você. As famílias pobres de classe média baixa vivem em feudos e não têm espaço para discutir política, feminismo, homofobia ou racismo, porque estão na manutenção da própria existência. Cada tia minha teve no mínimo três filhos. Hoje vejo alguns primos conseguindo se descolar um pouco dessa realidade, mas não são todos. E vejo alguns filhos dos meus primos dentro de estruturas que me preocupam. 

E como é a sua alimentação hoje?

É melhor, mas não é maravilhosa. Por muito tempo eu comia o que tivesse. Hoje como mais raízes, evito leite, tento ter mais qualidade à noite. Não tomo café da manhã nem almoço. Mesmo fumando, a maconha só me dá fome depois das três da tarde. Aí começo a introduzir aos poucos primeiro uma maçã, depois vou comendo de pouquinho em pouquinho. Já cheguei a ter problema de colesterol mesmo sendo muito magro, porque comia muita manteiga. Fui dando uma controlada, mas sem rigidez. Abrindo menos, descascando mais.

Você falou que até os 27 não sentia nada da maconha. Que maconha era essa?

Era a famosa Manga Rosa, uma maconha natural da região que todo mundo conhecia. Aquilo foi depois da faculdade, já tentando terminar o curso. Fiz novos amigos e aí, finalmente, magicamente, consegui dar uma baforada de verdade, consegui fazer a ginástica. Entendi o que era aquilo. A princípio foi muito pela coisa recreativa, pela brisa. Hoje é diferente, ela controla minha ansiedade, sou muito acelerado. Meu psiquiatra diz “Em vários casos, fumar maconha geraria a ansiedade que a maconha tira de você.” É uma mágica. Eu tenho mais dificuldade com os medicamentos químicos, apesar de fazer uso deles de forma acompanhada. Mas fico tentando encontrar esse lugar mais natural. A maconha funciona dentro do meu trabalho, dentro da lógica da criatividade. Tenho muitos amigos que não conseguem criar ou trabalhar se tiverem fumado. Para mim é o contrário, às vezes só consigo focar com a energia mais calma se der alguns tragos. Ela é uma ferramenta, um recurso, uma possibilidade. Sinto que dialogo com ela. Às vezes entro num momento mais compulsivo, fumo cigarro e tenho tendências à compulsão com qualquer coisa que eu me relacione, inclusive com pessoas, preciso estar alerta. Bebo pouco, outras drogas já usei de forma recreativa, mas elas não bateram muito na minha vibe. A maconha é diferente, ela faz parte do meu meio, dos meus amigos, dos meus irmãos.

Como você gosta de usar no trabalho? Quando está ensaiando, entendendo o personagem, ou antes de gravar?

Depende da circunstância. Durante a criação é um ambiente mais livre. Quando ainda estamos no processo de criação, ensaiando cenas, sempre dá um jeito. Como fumo com a intenção de abrir o apetite, ela já está de alguma forma no meu cotidiano. Faço um baseado que me acompanha ao longo do dia. Dou dois tragos, paro, depois mais três, ele vai me acompanhando. Para o meu trabalho virou uma coisa inerente de limpar a energia, de encontrar um foco. Um pequeno ritual. Já aconteceu de fumar numa externa antes de gravar, mas não é frequente. É mais durante a criação mesmo, nesse momento de tentar entender, de abrir os auspícios, de me colocar num lugar mais sensível para acessar as coisas.

Sua experiência fica num eixo entre medicinal e recreativo, e essa é uma discussão muito presente hoje. Como você considera o seu uso?

Passa pelas duas coisas. Fica muito visível quando é recreativo quando estou com amigos numa roda, tomando vinho, e alguém passa um baseado. Quando está diluído perto da alimentação ou quando me sinto mais ansioso, já não me parece recreativo. Mas tudo gera um bem-estar de alguma forma. E acho que é possível ter um bem-estar independente de a atividade ser recreativa ou não. O que importa é a noção de si. Sinto que sempre tive tendência à compulsão, então tenho que estar atento. Estou fazendo isso demais? Vamos parar um pouco, ver como é sem? Até para manter a relação saudável se o organismo acostuma demais, nenhum efeito, medicinal ou recreativo, acontece mais. É uma questão de entender os lugares onde você está, as permissões possíveis e os acordos que a gente faz consigo mesmo.

Pedro, você foi essa criança viada. A maconha te ajudou nesse período mais jovem? Ou você chegou a usar alguma outra substância pra encontrar esse lugar?

Saí de Garanhuns com 17 para 18 anos para vir para o Recife fazer faculdade, morar com minha tia. Vim cheio de medos. No Centro de Artes e Comunicação da UFPE, o CAC, tinha muita liberdade e também um cheiro de maconha em vários lugares. E eu ficava apavorado. Lembro que um amigo me disse “Que cheiro de maconha.” E eu entendi que aquele cheiro que eu sentia com frequência era maconha. Virou uma coisa assombrosa. Eu ia a shows, como o do Tom Zé, e se eu visse alguém fumando, eu queria ir embora. Toda a questão relativa à minha sexualidade, ao fato de eu ser viado, foi resolvida muito antes. Aos 27 anos já estava praticamente tudo equacionado em relação a mim. As pessoas ao meu redor já sabiam, já estava viado e era isso. A maconha eu nem sei se teria feito bem mais jovem. Acho que ela entrou na minha vida no momento certo. Entrou num momento de ruptura eu ia ser jubilado da faculdade, não sabia o que fazer. Voltei para Garanhuns, passei seis meses lá, até que voltei para o Recife, comecei a fazer teatro e não parei mais. Uma coisa não esteve necessariamente ligada à outra. Mas depois elas se ligam, porque no fundo são estigmas. Eu gosto da palavra maconheiro. Me considero maconheiro. Assim como gosto da palavra viado me considero viado, sou viado. Gosto dessas palavras que são marginalizadas na boca de algumas pessoas, inclusive já foram marginalizadas até na minha boca. Gosto de ressignificá-las com uma experiência de vida que considero digna, respeitosa, bem colocada. E acho bom ter essas características junto com a característica maconheira e viada.

“Eu gosto da palavra maconheiro. Assim como gosto da palavra viado. São palavras que foram marginalizadas até na minha boca. Gosto de ressignificá-las”

Mas por que esse assombro com a maconha em Garanhuns?

Minha família sempre teve pavor de tudo que era fora da norma, como a maioria das famílias. Qualquer coisa que foge um pouco à ideia de norma, porque às vezes nem está fora, mas é dito que está, pela religião, pelo Estado. E a minha família compra. É muito fácil para as pessoas comprarem, porque toda reflexão vem de um lugar de privilégio. Como o Édouard Louis e toda a sua escrita sobre rotas de fuga eu fui uma pista do interior de uma família pobre que precisou viabilizar uma rota de fuga para existir. Para isso, tive que fazer uma reflexão que minha família não estava apta a fazer, porque estava ocupada botando comida dentro de casa. A gente vivia uma vida onde comíamos uma proteína animal, uma galinha guisada, só no fim de semana. Durante toda a semana, as mulheres desesperadas variando o feijão… feijão com arroz, feijão com farinha, feijão com arroz de novo. Apareceu uma mortadela? Uma alegria. Um ovo? Uma festa. No domingo, tinha uma galinha. Como é que essa pessoa vai refletir sobre qualquer coisa, achatada pela lógica da sobrevivência? Chega a ser imoral, às vezes. Pra mim é imoral um termo como “comida lixo”. Sou idiota nisso, mas não consigo me descolar de onde eu vim.

Nessa rota de fuga na adolescência, você não usou cannabis, nem outras substâncias psicodélicas? Na sua região tem, por exemplo, a jurema sagrada.

Diria poeticamente que as substâncias que encontrei na minha vida foram as linguagens artísticas. Foi a arte. Sem o teatro, sem a literatura, sem o cinema antes de tudo. A primeira coisa que me pegou foi o cinema. Só que era impossível, aos 12 anos, olhar para um filme e dizer que queria ser ator. Como ia dizer isso na minha família? E mais vivia num período pós-detonação do cinema pelo Collor. O cinema brasileiro estava totalmente destruído. Então se tornou um segredo tanto quanto a minha sexualidade. Mas era um segredo leve de carregar. Ser viado era pesado. Querer ser ator, não. Comecei a fazer teatro na escola e foi revolucionário. No primeiro ensaio em cima de um palco entendi que ali seria minha casa. A arte foi realmente a minha substância psicoativa. Ficava seis horas numa sala discutindo questões subjetivas, poéticas. Lembro da gente lendo os monólogos do Hamlet. Não entendia nada, mas aquilo me fazia tremer. Eu tinha 13, 14 anos.

“A arte foi a minha substância psicoativa. Sem o teatro, sem a literatura, sem o cinema, não sei onde eu estaria”

Jurema, ayahuasca nunca tomei, nunca tive curiosidade. Acho que passa por um lugar espiritual, religioso, e eu não tenho isso. Sou bem ateu cínico. Me considero oco por dentro, como um santo barroco bonito por fora, rococó, mas completamente vazio. Sou muito das pessoas alocadas no presente. LSD, nunca. Mas MD, ecstasy, sim, raramente. A maconha é o que funciona pra mim. Sou um maconheiro bem maconheirinho.

Você conseguiu essa salvação pela arte. Mas nem todo mundo tem essa força. Como você vê a arte penetrando esses lugares de não privilégio?

Tem uma coisa muito feia. A burguesia, para se destacar, cooptou a arte. Roubou das massas a arte. O teatro grego, o teatro de Shakespeare, que hoje é tido como clássico e elitista as pessoas assistiam no meio de uma feira, gritando, enquanto a peça acontecia. O Shakespeare criou todos aqueles efeitos absurdos, aqueles monólogos imensos, para tentar segurar a atenção de um público que estava fazendo outras coisas ao mesmo tempo. Os gregos iam ao teatro para ver como Eurípides ou Sófocles iam contar uma história que eles já conheciam de cor. A burguesia foi cooptando todas as linguagens e fazendo da arte o que é hoje. A música tem uma beleza especial você pode se relacionar com ela enquanto trabalha, enquanto transa, enquanto faz cooper. Claro que certas obras pedem que você se sente e escute. Eu fiz isso com o disco novo da Rosalía, chorava horrores ouvindo do início ao fim, como se fosse uma audição. Mas não precisa disso pra se relacionar com a música. A arte é para todos, a arte é de todos. Ela educa enquanto arte, não enquanto arte educativa. O problema às vezes está em usar a arte para tentar educar o tema fica mais importante que a forma, e a forma fica vazia. Eu só sou a pessoa que sou por causa do teatro na escola, com 16 anos entrei numa peça. Antes disso, ficava lendo, comecei com os livros que tinham em casa, aquelas coleções de romance, Júlia, Sabrina. Depois, Paulo Coelho, um upgrade, olha que upgrade (risos). Mas a solidão da criança viada me fez um grande leitor. Todo mundo tinha vergonha de estar comigo, eu percebia. Quem eram meus amigos? Meus livros. E eu fui o menino que roubava livros. Roubei de livraria, roubei de biblioteca. Tenho carinho por esses livros até hoje. Não está certo roubar, eu sei. Mas era o único jeito. A biblioteca ficava dentro de um parque onde eu sofria bullying para chegar. Ia no horário do almoço, quando as crianças estavam almoçando. Ficava o máximo que dava, às vezes saía com um livro. Alguns cheguei a devolver. Devolver era mais difícil do que roubar. Fui lendo Machado de Assis, Jane Austen, as irmãs Brontë, Dostoiévski. Coisas que eu não entendia, mas lia do começo ao fim. E justamente as coisas que eu não entendia ficavam em mim. Não romantizo isso foi estratégia de sobrevivência. Tinha muita solidão. Em Garanhuns, no terceiro ano do ensino médio, eu usava o banheiro dos professores para não precisar ir no dos alunos. No recreio, tinha pavor. Ficava na biblioteca, cheguei a ter cópia da chave. Uma professora de religião me ajudava muito, mas esse apoio não chegava à direção. Parecia que eu tinha que passar por aquilo. E na época eu até achava que tinha. Fui salvo por mim mesmo, pelos livros e pela arte. Mas o processo de salvamento teve muita solidão. Hoje, sempre que podemos, oferecemos cursos de formação, oficinas. Mas acho muito importante o lugar da arte na escola. Existem políticas para que as escolas públicas levem alunos a assistir a peças Em São Paulo acontece um pouco ainda, mas no Brasil como um todo não acontece mais. Houve um virar de costas total. A arte, que pra mim é qualquer coisa menos supérflua, foi empurrada para o lugar de supérfluo, de coisa dos privilegiados. Quem puxa uma sociedade pra frente é a arte. Não é a religião. Saúde, educação, tudo é basilar. Mas quem empurra é a arte, porque é ela que está friccionando a humanidade, botando o dedo no status quo e dizendo que ele é o câncer, que ele é a metástase. Nelson Rodrigues dizia “Uma obra de arte tem que ser um câncer.” Mas hoje a gente está fazendo muita obra de arte para ser um suéter que abraça. Fica parecendo que existe o lado certo e o lado errado da história. Não é tudo uma grande lambança. Todo mundo está melado de sangue, mesmo o lado certo. Todo mundo sucumbiu ao capitalismo, todo mundo é opressor de alguma forma. Todo mundo quer uma fatia do bolo. A gente tinha que estar destruindo o bolo e construindo outra coisa. Não sei o que é. Uma grande árvore, um pé de caju. Mas todo mundo quer o bolo.

“Uma obra de arte tem que ser um câncer, como dizia Nelson Rodrigues. A gente está fazendo muita obra de arte para ser um suéter que abraça”

A arte é importante também no lugar da apreciação, não só da criação. Precisamos que crianças e adolescentes sentem a bunda e apreciem algo. Como dizia Adriana Calcanhotto numa música funk da quarentena: “Senta a bunda.” Senta a bunda e lê. Vai a museus. Porque tudo no tempo contemporâneo é para ganhar tempo, e ganhar tempo é para devolver ao capitalismo. Eu vejo pessoas assistindo série em velocidade aumentada, lendo resumo de ChatGPT. Fico com um misto de fascínio e horror. A contemporaneidade me enche de questões.

Quais são as suas reflexões preferidas neste momento da vida?

Sempre fui apaixonado pelo tema da família, esse pequeno microcosmo onde se encerra toda a lógica social. Um lugar meio santo, meio Estado. “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”, todo esse lugar onde a origem de todas as violências está guardada. Para mim, cada núcleo familiar se comporta como a Gênesis, o único livro da Bíblia que acho realmente interessante. Fico chocado com ele. E olho pra cada família e vejo a mesma coisa. Nesse momento estou lendo o primeiro livro do Édouard Louis, “Quem Matou Meu Pai”, que foi relançado agora. Todos os livros dele são sobre essa discussão do privado, ele fala da família, fala de todas as violências, e isso se torna um grande macrocosmo do mundo. Tem um capítulo em que ele nomeia os verdadeiros assassinos do pai: Macron, Sarkozy, uma página inteira de nomes. Isso causou um rebuliço na França, que é arrogante, que acha que não tem pobreza. E veio esse moleque do norte da França, pobre e viado, dizendo que quem matou o pai foi o Estado. Esse lugar de estudar a família e perceber o grande macrocosmo é o que me fascina. Eu mesmo não fiz família, não quero ter filhos, não quero configurar meu feudo. É uma decisão que tenho desde muito cedo. Tenho um namorado, mas não sou casado no papel, não quero. Tenho talvez um compromisso com a continuidade da reflexão, com responsabilidades sobre o mundo, mas não com a continuidade dos meus genes. Me sinto responsável pelos meus sobrinhos, pelos meus afilhados. E vejo meus irmãos e colegas de teatro, os pais dos meus afilhados, criando seus filhos de um jeito que acho bastante revolucionário. Uma paternidade real, concreta, presente. Que não deve ser elogiada porque é obrigação. Mas é nova, e a gente sabe disso. Eles estão fazendo uma coisa que não foram criados para fazer. Olho e vejo que é possível reconfigurar a própria humanidade. Tenho me fascinado por entender de onde vem quem nos oprime. A gente não pode olhar para quem nos oprime e dizer “é um macho escroto, ponto final”. Tenho que procurar o ovo dessa serpente. É o que o Édouard faz. O irmão dele, quando ele lançou o primeiro livro, saiu do norte da França com um taco de beisebol para matá-lo. Mas ele fez um livro inteiro sobre esse irmão. Poderia ter simplesmente esquecido. Em vez disso, foi procurar a origem, de onde vem tudo aquilo. E é social. No caso dele, no caso da minha família, é completamente social. Meu pai, com 5, 6 anos, tinha que catar caranguejo para os irmãos comerem. Se não trouxesse o caranguejo, era farinha com água. E ele era uma criança. Como é que esse homem vai chegar adulto achando que pode ser de outro jeito? Eu lembro de discussões que já tive com ele em que ele gritava “Eu vendi banana para te alimentar.” Eu dizia “Mas era sua obrigação.” Eu era uma criança e tinha razão, mas também não tinha. Porque vinha do lugar social dele, de uma dor profunda. Ele saía com um carro de banana para vender, se voltasse com metade sem ter vendido, teria que pagar pela banana que não vendeu. Uma lógica absurda. Entendi muito recentemente que as violências que meu pai passou são muito maiores do que as que eu passei. Ele me protegeu minimamente, mesmo reproduzindo uma série de violências dentro de casa. Me protegeu mais do que ele foi protegido. Quais níveis de abuso meu pai não passou, que ele nem consegue botar para fora?