Na Breeza

Curandeira dos males e das marés

Por Anita Krepp

Quando um representante da indústria farmacêutica entrou no consultório de Carmen Turini perguntando qual era o protocolo dela para manejo de dor crônica nos animais, ela olhou fundo nos olhos do rapaz e respondeu com uma palavra: cannabis. “O cara já meio que perde o chão ali”, ela conta, rindo.

Carmen é veterinária integrativa em Itamambuca, litoral norte de São Paulo, e há cinco anos conduz uma clínica onde o óleo de cannabis é, nas palavras dela, o melhor plano de saúde que um bichinho com doença crônica pode ter. A agenda segue as tábuas de marés. Se a ondulação tá boa de manhã, a consulta das nove vai para as onze. Os clientes, muitos deles surfistas como ela e o companheiro Adriano, já sabem.

Para entender o que Carmen chegou a construir ali, tem que ir até Pirassununga, interior paulista, onde ela cresceu sendo criada pela avó, uma mulher sem formação clássica, mas que era, de fato, a curandeira do bairro. Todo mundo ia até ela. Criança com dente de leite para arrancar, vizinha com curativo para trocar, mulher entrando em trabalho de parto. Carmen assistia a tudo com muita atenção, foi assim que desde muito pequena ela teve a certeza de que seria médica dos animais.

Formou-se pela UFRJ, passou anos entre cirurgias e emergências, acumulou uma carreira sólida. Até que o esgotamento, um luto do companheiro, e uma mudança de vida a levaram para Ubatuba, onde a medicina convencional, o copia e cola das receitas, o balcão da indústria disfarçado de consulta haviam perdido o sentido. 

E foi então que a história mais pessoal entrou em cena. A mãe de Carmen, epilética e alcoolista, acumulando anticonvulsivante atrás de anticonvulsivante sem resultado. Por amor a ela, Carmen foi parar, pelo caminho mais improvável, numa palestra sobre cannabis medicinal numa paróquia. O padre Ticão, que Deus o tenha, falava da erva dentro de uma igreja católica e a ajudou a compreender que as respostas estão na natureza. “Ele foi um anjo na minha vida, na minha história, mudou minha concepção de mundo pra sempre. Desde então, carrego comigo a missão de levar a medicina canábica a qualquer lugar em que eu esteja, pode ser num terreiro, num velório ou na padaria”, diverte-se.

Ele a direcionou para cursos, abriu acesso ao óleo numa época em que conseguir era caro e complicado. A mãe começou o tratamento e dormiu de verdade pela primeira vez na vida. Ganhou massa muscular. Voltou a sorrir. “Filha, nunca mais eu fico sem isso”, ela ouviu de sua mãe. Da mãe para os bichos foi o passo seguinte. Carmen mergulhou nos estudos, montou a clínica com uma amiga e começou a trabalhar com uma convicção que só cresceu desde então. 

Saúde da família reflete no pet

O sistema endocanabinoide regula tudo, do sono ao apetite, do humor à inflamação, da imunidade ao risco de câncer. Qualquer falha nesse sistema começa a aparecer muito antes da doença se instalar. E a cannabis é a chave que aciona a autorregulação de volta. “A cannabis é o melhor e o maior plano de saúde que a gente pode oferecer para um bichinho com doença crônica.”

Na prática, isso significa que uma consulta com Carmen raramente vai direto ao sintoma. Ela vai à teia que inclui alimentação, ambiente e a rotina da família. Quando chega cachorro epilético, a primeira coisa que ela pergunta é se usam Bravecto, Simparic ou Nexgard. A maioria usa. As bulas alertam para cautela em pacientes epiléticos, mas ninguém lê. “Aquele animal não vai deixar de convulsionar”, ela diz. Com a cannabis ela consegue reduzir a dose dos anticonvulsivantes, às vezes o número deles, e dar ao bicho uma estabilidade que a polifarmácia não alcançava.

Mas são os casos concretos que revelam o que ela faz de diferente. A Calu era uma poodle toy de um casal mais velho em Ubatuba, cardiopata, articulações comprometidas e com um pavor de chuva que beirava o desespero. Em Ubatuba, uma das cidades mais chuvosas do Brasil, isso era uma tragédia cotidiana. Toda vez que o tempo ameaçava mudar, a Calu deixava de comer, se machucava nos vidros, se escondia tremendo. Com o óleo de cannabis, o pânico foi embora. Mas não só isso. A cadela ganhou massa muscular, voltou a pedir passeio e voltou a brincar com brinquedos que havia abandonado. Rejuvenesceu. Viveu com qualidade até os 17 anos.

A Belinha chegou mais recentemente, uma Blue Heeler de 14 anos com questões endócrinas, articulares e muita dor. A consulta foi por videochamada, pois vive em Porto Alegre; duas horas de escuta atenta, olhar tanto para o animal quanto para a família, e dois dias depois do início do tratamento, a cachorra estava passeando na praça. “A família não estava acreditando na Belinha agachando para fazer xixi, coisa que ela não fazia há meses.”

Há uma constante no trabalho de Carmen que ela aprendeu a reconhecer ao longo dos anos: o bicho costuma ser o espelho da família. Quando algo não está bem no sistema familiar, o animal adoece tentando mostrar. Quando alguém finalmente entende o recado, o bicho começa a melhorar antes mesmo de qualquer medicação. É por isso que as conversas sobre cannabis veterinária, na clínica dela, frequentemente chegam para os humanos da casa também. A melhora impressionante do bichinho derruba a resistência de tutores que nunca teriam considerado a planta para si mesmos.

Se não puder curar, pode cuidar

Preconceito ela até enfrenta de vez em quando, mas deixa claro, não vem de quem chega até ela, mas sim dos colegas de profissão. “Os veterinários continuam fazendo aplicação desse tipo de droga, mas não encaminham para fazer um atendimento especializado em cannabis.”

O tema que mais toca Carmen e que ela diz ser o menos discutido na veterinária é o dos cuidados paliativos. Durante anos, ela participou de eutanásias que, olhando para trás, parecem ter sido mais sobre a incapacidade de encarar a própria impotência do que sobre o sofrimento real do animal. “Quem disse que, quando você não pode mais curar, você não pode mais cuidar?”

Carmen acompanha as despedidas com cannabis, florais, homeopatia e, principalmente, presença. Diz que esse caminho, por mais pesado que seja, ressoa de um jeito que fica na família, no espaço vazio que o bicho deixa e em quem esteve junto até o fim.

Em Itamambuca, quando não está atendendo ou no mar, Carmen está atrás dos gatinhos ferais do condomínio. Capturando, castrando, vacinando e encaminhando para adoção. Já foram mais de 1.500 gatinhos nos últimos cinco anos, todos documentados. Montou uma ONG, a Santo Gato, que ainda se estrutura. Faz tudo do próprio bolso, sem reconhecimento institucional, porque simplesmente não consegue não fazer.

“Eu quero gritar para o mundo tudo que descobri nesses quase 20 anos de carreira. A indústria não vai conseguir mais me silenciar, não vai conseguir me corromper.” A avó curandeira de Pirassununga sorriria.