Por Anita Krepp

Quando a revista The Lancet Psychiatry publicou recentemente uma revisão sistemática com metanálise sobre o uso de canabinoides para transtornos mentais, as manchetes ao redor do mundo correram para a mesma conclusão apressada: a cannabis não funciona para ansiedade e depressão. Em poucas horas, o estudo atravessou oceanos na forma de título sem nuance e sem o trabalho, sempre inconveniente, de ler o que os próprios autores escreveram.
É assim que opera a máquina de simplificação da ciência. A ciência não é estática, mas também não entrega verdades prontas. Seus dados revelam padrões que precisam ser interpretados, e a questão central é quem faz essa leitura e quais interesses, repertórios e vieses moldam a ética de quem interpreta.
Naquela revisão, como em praticamente toda divulgação científica sobre cannabis, havia muito mais em jogo do que cabia na manchete. Havia escolhas metodológicas, limitações apontadas pelos próprios autores, décadas de subfinanciamento que moldaram quais estudos existiam para ser revisados e uma disputa política que antecede qualquer resultado.
Entender o que está em jogo em cada publicação sobre a planta é uma tarefa que qualquer pessoa pode assumir, especialmente pacientes que tomam decisões com base no que leem. Melhor ainda seria se esse tipo de leitura crítica circulasse para além dos consultórios e alcançasse as conversas de casa. Cinco pesquisadores brasileiros que estudam cannabis há anos ajudam a apontar esse caminho.
Entre o estigma e o hype
A polarização que organiza o debate sobre cannabis em dois campos aparentemente inconciliáveis, um em que só existe dano e outro em que a planta serve para tudo, tem raízes mais profundas do que o próprio debate científico. Pedro Nicoletti, bioeticista e pesquisador na Universidade de Brasília, resume o problema. “Estigma e hype são dois grandes inimigos. Os dois levam a decisões ruins, só que por razões opostas.”
Esse mecanismo aparece com força no jornalismo, onde o viés de confirmação atua sem pedir licença. Um jornalista cuja avó melhorou com CBD tende a enquadrar uma pesquisa positiva com entusiasmo. Outro, que teve um familiar com problemas relacionados ao abuso de drogas, pode tratar um dado negativo como confirmação de algo em que já acreditava. “O pior é que os jornalistas não se dão conta disso. Eles caem no viés de confirmação tentando mascarar como se fosse uma informação absoluta, e nenhuma informação é, inclusive a científica”, diz Nicoletti.
Por trás da fragilidade das evidências disponíveis sobre cannabis existe uma questão que raramente aparece nas reportagens: construir evidência para uma planta é, estruturalmente, diferente de construir evidência para um fármaco sintético. Renato Filev, biomédico e pesquisador da Unifesp, descreve a armadilha com precisão. “A gente está num círculo vicioso em que a medicina é baseada em evidências, o que não é ruim, mas o problema é a compreensão e a aplicação dessa evidência, até mesmo no meio acadêmico e médico.”
O modelo dos ensaios clínicos randomizados de grande porte, considerado o padrão-ouro da medicina baseada em evidências, foi capturado, na prática, pelo financiamento da indústria farmacêutica, que investe dezenas de milhões em um estudo para registrar um fármaco patenteável. Não se vê o mesmo interesse em financiar pesquisas robustas sobre uma planta que qualquer pessoa pode cultivar no quintal.
A evidência sobre cannabis, assim, acaba sendo construída em fragmentos, por universidades com recursos limitados, em estudos pequenos e muitas vezes difíceis de comparar entre si. “Nada é definitivo na ciência. Existem indícios, hipóteses que podem ser confrontadas. Pensar que nada é definitivo é ter serenidade diante do que se lê”, sugere Filev.
Responsabilidade compartilhada
Andréia Galassi, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília, chama atenção para um ponto anterior à discussão sobre o que os estudos dizem. O caminho que um resultado percorre desde a bancada do laboratório até o leitor que vai tomar uma decisão com base nele é longo, e em cada etapa existe a chance de perder contexto, precisão e sentido.
“De que maneira a gente faz com que esse conhecimento científico chegue na população de uma forma em que a informação seja entendida e compreendida pelas pessoas? Esse é um trabalho que cabe às pessoas que fazem as pesquisas, mas também às que veiculam”, reflete Galassi, apontando a grande mídia como um espaço em que esse cuidado raramente é a regra. Por outro lado, os canais nichados tendem a falar apenas para quem já simpatiza com a cannabis, e a informação circula dentro da bolha sem alcançar o público mais amplo, ainda marcado pelo estigma histórico.
A revisão por pares continua sendo o critério mais confiável de validação disponível dentro do processo científico. Quando um estudo passa pelo escrutínio de uma revista de qualidade, ele atravessou um filtro que nenhuma postagem em rede social ou manchete de jornal é capaz de substituir. “A melhor chancela é a apreciação dos pares feita pelas revistas de qualidade, e esse é o método científico do jeito que ele opera, gostemos ou não gostemos”, explica Galassi.
Francisney Nascimento, professor e pesquisador da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, aponta que o problema começa já na formação dos profissionais de saúde, marcada por uma compreensão insuficiente sobre como interpretar estudos científicos. Médicos, farmacêuticos e enfermeiros saem da graduação sabendo que, para determinado sintoma, existe determinado medicamento, mas raramente aprendem a questionar como aquele conhecimento foi produzido.
“Na graduação de saúde não tem senso crítico de como os estudos são construídos e de como se pode interpretar isso. Há pouquíssima formação para identificar vieses, metodologia, desenho experimental”, lamenta Nascimento. Se quem fala sobre o tema no consultório ou na televisão não tem esse repertório, o problema de interpretação se multiplica entre os leigos.
Sem arrego
Nascimento aponta ainda uma questão de base que complica a recepção de qualquer resultado sobre cannabis. A planta carrega milênios de uso documentado em diferentes culturas, e esse histórico produz expectativas desproporcionais tanto em quem quer confirmar seus benefícios quanto em quem quer descartá-los de uma vez. Para o pesquisador, esse peso cultural torna o rigor metodológico ainda mais urgente. “Todo conhecimento ancestral importa e importa muito”, defende Nascimento. “A gente precisa vestir a estratégia da ciência clássica. A cannabis não precisa de arrego, não.”
Essa exigência de rigor tem uma razão que vai além da metodologia. A incerteza científica carrega história e, historicamente, é um terreno fértil para interesses que vão muito além da saúde pública. Clarice Madruga, pesquisadora do Instituto Nacional de Políticas do Álcool e outras Drogas da Unifesp, descreve essa dinâmica com clareza. “Quando tem lacuna, vários interesses se formam, tanto de minimizar o potencial terapêutico e só enxergar como uma droga que causa mal, quanto para o outro lado. A resposta para isso é ampliar a capacidade da população de entender como esses estudos funcionam e que não há resposta simples.”
Ela lembra que esse mecanismo tem precedentes bem documentados. As indústrias do tabaco e do álcool financiaram pseudocientistas para semear dúvida sobre achados consolidados. No caso do vinho, estudos financiados pela indústria do Napa Valley, conduzidos em parceria com Harvard, enfatizaram os benefícios dos flavonoides enquanto omitiam sistematicamente os danos do álcool.
O campo da cannabis não está imune a esse tipo de distorção, e não seria inteligente ignorar isso por simpatia à planta. “A gente tem uma baita indústria, e é preocupante o quanto que uma camada ainda está ingênua de enxergar que tem sim uma indústria com seus interesses”, observa Madruga. A declaração de conflito de interesses em um estudo existe justamente para tornar esse contexto visível. Quem a faz está sendo transparente sobre de onde vem e a serviço de que contexto aquela pesquisa foi produzida. Quem não declara não é necessariamente isento, apenas menos transparente.
Manual prático
Para quem não tem formação técnica e precisa navegar esse território com alguma autonomia, existem perguntas simples que ajudam a organizar a leitura. Que substância foi testada, CBD, THC, extrato completo ou composto sintético? Em que dose, por quanto tempo e em qual população? Havia grupo de controle? O estudo comparava o efeito com placebo, com tratamento padrão ou com nada?
Qualquer texto jornalístico ou científico que trate cannabis como uma coisa só, sem distinguir compostos, doses e indicações, já aponta para uma simplificação que merece cautela. Afirmações definitivas, em ciência, são sempre motivo de alerta. Relações causais simples para fenômenos multicausais, como ansiedade, depressão ou dependência, exigem desconfiança imediata.
A guerra de narrativas em torno da cannabis vai continuar existindo enquanto ela for tema político antes de ser tema científico. E, muito provavelmente, continuará sendo as duas coisas por um bom tempo. O que muda, quando alguém aprende a fazer as perguntas certas, é a capacidade de não depender de manchetes para entender o que a pesquisa realmente diz e de perceber com mais clareza quem se beneficia de cada versão da história.