Por Anita Krepp

O sistema endocanabinoide não é neutro em termos de gênero, e tampouco o sistema serotonérgico, base da ação dos psicodélicos clássicos. Apesar disso, a grande maioria das pesquisas sobre as duas substâncias foi conduzida em organismos masculinos – humanos e animais – e só recentemente a ciência começou a se perguntar sobre os corpos femininos. O resultado é um campo repleto de hipóteses biologicamente plausíveis, mas com pouquíssimas certezas confirmadas em estudos com mulheres.
A médica Mariane Ventura (CRM 35346 e RQE22541), especialista em cannabis medicinal, explica que há diferenças concretas entre os organismos feminino e masculino que interferem diretamente na forma como os canabinoides atuam. “Nas mulheres há uma tendência, claro que não é uma regra, a serem mais sensíveis aos efeitos do THC. Elas precisam de doses menores para ter um efeito terapêutico, mas também podem apresentar mais efeitos adversos.”
A base dessa diferença está nos receptores CB1, os principais receptores do sistema endocanabinoide. Em mulheres, há uma densidade maior desses receptores, o que os torna mais responsivos. Mas o que complexifica e enriquece a questão é o ciclo menstrual. O estrogênio, que atinge seu pico na fase pré-ovulatória, aumenta os níveis de anandamida no organismo ao inibir a enzima FAAH, responsável por degradá-la.
A anandamida é o canabinóide endógeno mais conhecido, produzida pelo próprio corpo. É ela que o THC imita quando entra no organismo. Com mais anandamida circulando, o sistema endocanabinoide fica mais ativo, o que pode ampliar a resposta a canabinóides externos. Uma revisão publicada na Frontiers in Behavioral Neuroscience confirma essa dinâmica ao mostrar que as interações entre o sistema endocanabinoide e o sistema dopaminérgico, ligado ao prazer e à recompensa, são sexualmente dimórficas.
A progesterona também entra nessa conta, mas de forma mais indireta. Ela participa da modulação do humor e interage com os receptores CB1, influenciando a resposta emocional ao tratamento.
Há ainda uma camada metabólica relevante. Os canabinóides são lipofílicos, ou seja, armazenam-se na gordura. Como mulheres tendem a ter mais tecido adiposo que homens, a eliminação desses compostos costuma ser mais lenta, podendo gerar acúmulo ao longo do tempo. O metabolismo hepático das mulheres também segue ritmo diferente. “As mulheres tendem a metabolizar mais lentamente do que os homens”, observa Ventura, o que pode interferir diretamente na duração e na intensidade dos efeitos.
Põe na conta do estrogênio
Na menopausa, a queda do estrogênio provoca uma desregulação do sistema endocanabinoide que se traduz em sintomas como insônia, irritabilidade e dores inespecíficas, justamente as queixas em que o uso terapêutico de cannabis tem mostrado potencial. “A desregulação hormonal impacta diretamente na produção da anandamida, e o uso da cannabis pode ajudar a normalizar esse tônus, esse funcionamento do sistema endocanabinoide”, explica Ventura. A médica Ana Hounie (CRM 94382) complementa que essa oscilação acontece ao longo da vida reprodutiva da mulher, enquanto o organismo masculino opera de forma mais contínua, sem essa ciclicidade.
Para gestantes e lactantes, o cenário exige redobrada cautela. A passagem de canabinóides pela placenta e pelo leite materno é um fato, mas os estudos disponíveis são insuficientes para afirmar segurança, diz Hounie, que aponta uma limitação estrutural a esse debate. “A gente precisaria de estudos na gravidez, mas do ponto de vista ético é impossível fazer esse tipo de estudo.” Os dados existentes vêm, majoritariamente, de mulheres com uso problemático de múltiplas substâncias, o que compromete qualquer conclusão isolada sobre cannabis.
Em termos de produtos, Ventura destaca que os full spectrum, que contêm o espectro completo da planta, incluindo o THC, tendem a funcionar melhor para as principais queixas femininas, como dor pélvica, endometriose, cólicas, ansiedade, insônia e fibromialgia. O mecanismo por trás disso é o que a literatura chama de efeito entourage, a potencialização terapêutica que ocorre quando os canabinóides agem em conjunto. Para mulheres muito sensíveis ao THC, formulações broad spectrum ou isoladas de CBD podem ser mais indicadas, mas são casos específicos.
Se a cannabis tem uma biologia hormonal razoavelmente mapeada em modelos animais, o campo dos psicodélicos está ainda mais atrás. Isabel Wiessner, pesquisadora alemã radicada no Brasil, especializada em psicodélicos clássicos como LSD, DMT, ayahuasca e psilocibina, é direta ao avaliar o estado atual da ciência. “Não estou lembrando de um estudo que destacou isso, nem um dos estudos mais antigos do século passado, nem um dos estudos modernos”, diz sobre pesquisas que investigassem sistematicamente diferenças de sexo nesses compostos.
O mecanismo de ação dos psicodélicos clássicos passa pelo sistema serotonérgico, mais precisamente pelos receptores 5-HT2A. O estrogênio, assim como faz com o sistema endocanabinoide, também modula esse sistema ao afetar a síntese, a liberação e a sensibilidade dos receptores de serotonina. Uma revisão publicada em 2024 na revista Endocrinology aponta que essa interação pode influenciar tanto a intensidade quanto a eficácia terapêutica dos psicodélicos em mulheres, mas que faltam pesquisas específicas para confirmar isso em humanos.
Precisaria de 4x mais mulheres
Um estudo publicado em 2025 no Current Biology mostrou que fêmeas de camundongos apresentaram respostas mais pronunciadas à psilocibina do que machos, especialmente no eixo do estresse. A extrapolação para humanos, no entanto, segue sendo uma incógnita.
Parte do problema tem raízes históricas. Durante décadas, a lógica que prevaleceu na ciência era a de que a ciclicidade hormonal feminina introduzia variáveis demais nos dados, e a solução encontrada foi excluir as mulheres dos estudos. O resultado foram pesquisas desenhadas a partir de corpos masculinos que depois serviram de base para tratamentos aplicados a todos. “A ciência foi uma área bastante masculina, bastante patriarcal”, resume Wiessner.
Segundo ela, para estudar os efeitos dos psicodélicos em mulheres de forma adequada, considerando as diferentes fases do ciclo menstrual, seria necessário incluir proporcionalmente muito mais mulheres do que homens. “Se dividirmos o ciclo em quatro fases, precisaríamos de quatro vezes a quantidade de mulheres do que de homens para dar conta dessas diferentes fases.”
No uso recreativo, além das diferenças biológicas, os riscos para mulheres ganham uma dimensão sociocultural que não pode ser ignorada. Em ambientes públicos como festivais, uma mulher que perde a orientação sob efeito de um psicodélico está exposta a riscos que um homem na mesma situação não enfrenta da mesma maneira. Violência, assédio, abuso. E fisiologicamente, como tende a ter menor peso corporal, pode reagir de forma mais intensa à mesma dose consumida por um parceiro.
O que une cannabis e psicodélicos nesse contexto é exatamente o que ainda falta. “Realmente faltam estudos específicos para a população feminina e também estudos que façam comparativo de gênero”, conclui Ventura. A nova regulamentação brasileira que contempla a área de pesquisa de cannabis pode ser um primeiro passo para mudar esse cenário no país. E quanto aos psicodélicos, bem, o caminho parece ainda mais longo.