Por Murilo Nicolau

Quando começamos esta coluna a cannabis ainda era tratada como exceção regulatória. Dois anos depois, ela começa finalmente a entrar no debate institucional sério.
Nesse meio tempo foram 61 textos publicados no Observatório da Planta, aqui na Breeza.
Nesses últimos dois anos a cannabis percorreu um caminho curioso. Não se tornou plenamente regulada, tampouco deixou de enfrentar resistências institucionais graves. Porém, deixou de ser invisível; o debate amadureceu e isso, por si só, já representa uma mudança relevante.
A proposta desta coluna sempre foi observar esse processo com algum distanciamento analítico. Nem militância eufórica, nem ceticismo irresignado. Apenas a tentativa de entender como uma planta historicamente criminalizada começa, lentamente, a reencontrar espaço dentro da sociedade brasileira.
E foi exatamente isso que vimos acontecer.
Ao longo dessas publicações, passamos por muitos temas que hoje ajudam a compor o mosaico da cannabis brasileira. A judicialização do cultivo doméstico, a consolidação das associações de pacientes, os limites da regulamentação sanitária atual, o surgimento de novos atores no mercado medicinal e, claro, as constantes tensões entre política criminal e política de saúde.
Entre todos esses temas, talvez nenhum tenha simbolizado melhor essa transição do que o fortalecimento das associações de pacientes. O que começou como iniciativas quase experimentais, muitas vezes sustentadas apenas por decisões judiciais e trabalho voluntário, tornou-se um dos pilares concretos de acesso à cannabis medicinal no país. Hoje, essas organizações não apenas atendem milhares de pacientes, mas também passaram a ocupar um lugar mais visível no debate institucional.
Outro eixo importante foi o crescimento da discussão sobre produção nacional de cannabis. Durante muito tempo, o Brasil construiu um modelo paradoxal: permitia o uso medicinal, mas dependia quase integralmente da importação de produtos. Nos últimos anos, essa contradição começou a ser debatida de forma mais aberta.
Nesse contexto, as discussões conduzidas pela Anvisa talvez representem o sinal mais claro de mudança institucional. O debate sobre a revisão das normas atuais e a possibilidade de estruturar um sistema regulatório mais amplo indica que o tema começa a ser tratado dentro de parâmetros mais técnicos e menos ideológicos.
Isso não significa que o caminho esteja resolvido. Pelo contrário.
O Brasil ainda enfrenta desafios relevantes para construir um modelo regulatório que seja ao mesmo tempo seguro, eficiente e competitivo. A ausência de regras claras para produção nacional, as dificuldades de acesso enfrentadas por muitos pacientes e a fragmentação institucional que ainda cerca o tema mostram que o país ainda engatinha nesse debate.
Mas há uma diferença importante em relação a dois anos atrás, agora a discussão existe. A cannabis deixou de ser apenas objeto de decisões judiciais isoladas ou de debates periféricos, passou a integrar, ainda que de forma incipiente, a agenda de regulação sanitária, de política industrial e de saúde pública.
Se esses dois anos serviram para alguma conclusão, talvez seja esta: a história da cannabis no Brasil raramente avança em linha reta. Ela se move em ciclos de tensão, negociação e adaptação institucional. Às vezes devagar demais e às vezes com inesperados saltos, como ocorreu com o julgamento do cânhamo pelo STJ em 2024 e a regulação do sandbox para as associações em 2026.
O Observatório da Planta nasceu justamente para acompanhar esse movimento. Registrar suas contradições, suas conquistas e também seus limites. Sessenta e um textos depois, fica claro que ainda há muito a ser feito.
O debate regulatório está longe de terminar, o mercado medicinal continua em formação e as instituições brasileiras ainda estão aprendendo a lidar com um tema que durante décadas foi tratado quase exclusivamente pela ótica penal.
Mas se os últimos dois anos servem de indicativo, o futuro da cannabis no Brasil tende a ser cada vez menos clandestino e cada vez mais institucional. E que assim seja.
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