
Céu não fuma antes de subir ao palco. Na verdade, usa pouquíssimo THC, porque maconha, para ela, abre canais demais. Por isso, sua relação com a cannabis sempre foi marcada por um respeito quase ritualístico. Precisa de natureza, silêncio, de preferência longe de qualquer obrigação. Com outros psicodélicos é parecido, só fazem sentido no mato. Já as drogas capitalistas, como ela mesma chama as de laboratório, estimulantes que servem ao poder e à produtividade, nunca a interessaram.
Portanto, a brisa que eu tenho certeza de que você também sente na música dela não tem muito a ver com as drogas e vem, na real, de um lugar mais profundo, de um jeito de compor que começa pela atmosfera antes de qualquer acorde.
Nesse papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, a mais atmosférica das cantoras falou também sobre os 20 anos de uma carreira construída à base de autenticidade, do arrependimento de nunca ter ido ao sofá da Hebe, do algoritmo como novo ditador da cultura e que detesta puxa-saco.
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Estamos conversando num momento em que o Brasil está em festa celebrando o Wagner Moura. O brasileiro é engraçado: sente como se tivesse ganhado ele mesmo os prêmios. E eu queria saber de você, artista premiada internacionalmente, ganhadora de vários Grammys, o mais recente em 2020, como é do lado da pessoa premiada? Dá para sentir o valor do reconhecimento para além do seu ser artista individual, como um prêmio para o Brasil também?
Penso muito sobre isso. Especialmente quando a gente dimensiona o que os países poderosos fazem com a América Latina. A gente está vendo uma situação muito drástica, que expõe claramente o pensamento do poder, da dominação. Como latino-americanos, como brasileiros, falando português num continente amplamente mais espanhol e depois inglês lá em cima, tudo é muito diferente. O brasileiro sente a pressão de tudo isso, e isso dá uma carga emocional muito forte para uma cultura que já tem um drama imbuído de sua estrutura. Para a gente, tudo é muito intenso. Dá para entender essa comemoração, porque, mesmo sendo um prêmio deles, direcionado ao mercado deles, a gente toma como um passo nosso: “espera aí, isso aqui é nosso, e a gente está conseguindo mostrar para os poderosos”. Tem esse drama mesmo e acho bonito. Como premiada, para mim foi muita responsabilidade. Imagino que o Wagner deve estar maluquinho.
Lá se vão 20 anos desde o lançamento do seu primeiro disco, que de cara já te levou à primeira indicação ao Grammy. Você carregou um peso enorme da expectativa que colocamos sobre você como a nova grande cantora brasileira. Hoje, onde fica essa pressão? Ela se esfumaçou ou ainda está sobre você?
Tive uma trajetória muito independente. A pressão existe no sentido de que só quem faz música independente no Brasil sabe como é difícil se manter nesse lugar, persistir com as próprias escolhas, ter voz num mercado que tem um lado opressor da arte. Existe uma pressão muito minha, comigo mesma, de me manter, porque é o que eu amo fazer, de verdade. Como me manter sendo uma mulher de 45 anos, mãe, que quer fazer arte no Brasil, que quer existir, que quer viver disso? Sim, existe uma pressão. Mas existe também uma coisa muito bonita nesses 20 anos, que é o entendimento do que foi criado. Acho que começo a sentir isso de verdade agora. Porque há alguns anos eu ia só vivendo, dançando. Mas agora consigo enxergar que há uma solidez, tem gente que acompanha, que está junto. Sinto que é uma carreira substanciosa, que fiz uma trajetória muito peculiar e particular, e que fui responsável por abrir caminhos para muitas meninas artistas, compositoras, artistas de maneira geral. Essa mescla de música urbana com outras linguagens. Estou muito feliz com esses 20 anos.
Quando você fala de peculiar, está falando das escolhas de como gerenciar a carreira ou musicalmente também? Porque eu também vejo uma peculiaridade com o que você deixa que o público saiba da Céu…
É tudo muito particular mesmo. Todos esses pontos foram sempre feitos de uma forma diferente, meio única. Tenho lugares que prefiro hoje, depois de ser mais dona da minha história. Abri meu selo, sou proprietária da Coral Music, que é responsável por todo o meu autoral, e pretendo seguir assim. Quem sabe até comece a pensar em outros artistas, ou seja, entrei num lugar mais empresarial. Mas há pontos da minha carreira em que acho que poderia ter soltado mais. Foi um pouco de imaturidade, de ir fazendo tudo de maneira independente e, nesse caminho, negar algumas coisas que não deveria ter negado.
O que você teria feito diferente?
Eu não fui ao sofá da Hebe, menina! Um absurdo. A Hebe me chamou, ela me amava, e eu deixei de dar aquele beijo dela. Triste, porque ela era maravilhosa. O programa dela era ao vivo, todos os shows eram com playback, e eu era marrentona: “Não faço playback.” Acho até massa a minha postura, mas por outro lado perdi um outro lado também, olhando de uma maneira mais ampla. Mas voltando ao legado, acho que deixo a marca de uma artista que acredita nas suas pisadas, na sua caminhada, que acredita na liberdade da arte, em desafiar um pouco o que o mercado diz que é o correto. Fui uma artista que foi experimentar e, ao mesmo tempo, entrou na linguagem do mercado. Isso é um legado muito massa para a nova geração.
“Deixo a marca de uma artista que acredita na liberdade da arte, em desafiar um pouco o que o mercado diz que é o correto.”
E você lida com o que perdeu de maneira tranquila ou fica remoendo?
Eu sou Ariana, né? Explosiva, impetuosa, poucas ideias e, quando decido, vou. Sou muito fiel ao que acredito dentro de um universo verdadeiro e honesto para mim. Não sei mentir. Isso vai estar escrito na minha testa. Então, tudo o que fiz estava muito dentro desse lugar. O que não aceitei foi porque não sentia que ia contribuir. Tem uma mistura de imaturidade também naquela época. Eu era muito verde e fui testando no escuro. De fato, algumas coisas errei e, sim, várias vezes fico remoendo. Mas de maneira geral, quando decido, decido: é isso. Quando decidi fazer música, tinha 14 anos. Nunca mais voltei atrás, nunca tive um fio de dúvida. Sou muito decidida.
O que te segura na vida?
Sou profunda, gosto de mergulhar nas conversas com as minhas amigas próximas. O que me centra é um aquietamento meu. Às vezes é meditação, às vezes é malhar intensamente, às vezes é ficar sozinha, parada, escrevendo. Sou mãe de dois, então silêncio é uma coisa bem luxuosa. Mas também curto sair com amiga, falar merda, dançar. Acho que é isso que me segura. Mas quando o sucesso chegou, vi amigos mudando o jeito comigo, e não estava preparada para isso. Com a sensibilidade absurda que tenho, para uma menina tímida fazendo as coisas por si só, me assustou. Então, no primeiro disco, dei uma de: “Vocês estão achando que eu sou isso, mas eu sou múltipla, vou mostrar agora.” Aí lancei logo em seguida um disco super experimental, em seguida. Sempre fui meio desafiadora.
E como os amigos mudaram com você? Eles começaram a babar ovo seu?
Pois que é, menina, eu odeio que puxem meu saco. Quando você sabe que a pessoa tá fazendo uma coisa num lugar de te agradar por um outro motivo…. Isso é uma coisa que realmente me tira muito do eixo. E aí eu comecei a sentir que o sucesso, você tem que estar preparada, sabe? Ele é interessantíssimo. Acho que as pessoas falam muito mais do fracasso do que do sucesso… Sabe, o famoso don’t believe the hype? E você vai lá e acredita no hype. Risos.
No primeiro disco você trouxe uma versão de ‘Concrete Jungle’, a única referência internacional do álbum de estreia. Imagino que você estava completamente absorta no universo de Bob Marley e do reggae, que automaticamente nos transporta também para o universo da maconha. Como essa planta entrou na sua vida?
Entrou na adolescência, nas experimentações, mas com comedimento, porque era muito impactante para mim. Minha família tem, do lado da minha mãe, uma energia de sensibilidade muito forte. Minha bisavó teve 14 filhos, 11 mulheres, todas muito mediúnicas. Então a planta abria o meu sensor demais. O Bob e o reggae e a Jamaica entraram na mesma época, uns 12, 13 anos, mas me aprofundei mesmo na questão musical com 17, 18. E a planta: tive um namorado que era muito maconheiro e fui entrando um pouquinho, mas era comedida mesmo porque abre tudo em mim. Tenho que ter muito respeito com a planta. Tem que ser pura, e eu tenho que estar no lugar certo, não em função de mãe, de jeito nenhum. Prefiro estar no meio do mato com amigos, ou quieta. Aí sim. Para mim ela bate num lugar muito profundo. Todas as experiências que tive comendo foram péssimas. Risos.
Como foram as suas fases com a cannabis ao longo da vida? Você fez uma turnê apresentando o ‘Catch a Fire’, e fico imaginando que durante essa turnê talvez você tivesse mais maconheira, foi assim?
Minha fase mais usuária foi pré-primeiro disco. Dos 2000 até o lançamento, em 2005, a gente ia pro mato, tinha um monte de músico, a gente fazia imersões e entrou mais em contato. Essa é a minha fase mais usuária. Depois, no período do Marley, eu já tinha percebido que batia às vezes em mim num lugar ruim. Uma vez no palco, fui fazer um show e tinha fumado maconha antes, e não foi bom. Deu uma mini-crise de pânico: “Gente, por que esse povo tá me olhando?” E a pessoa cantando. Risos. Percebi que para mim tem que ser com muito comedimento. Mas sempre convivi com muita gente, sempre amei o cheiro, sempre amei estar perto de pessoas usuárias. Consigo identificar as flores pelo cheiro porque sempre fui muito próxima da comunidade. Risos. Sabe aquela que não é a mais perigosa da turma, mas sempre anda com a galera do fundão? Sou eu, risos.
E hoje, entra numa coisa de óleo, de outras formas de consumo?
CBD muito, isso sim. Inclusive arrumei para o meu pai, que começou a ter um problema ósseo na pandemia. Fui atrás para ajudar medicinalmente, por causa das dores e do sono. Entrei em contato com o clube, porque conseguir canabidiol era uma dificuldade enorme. Trazia da Bahia, de não sei onde. Mas agora as coisas estão mudando com a regulamentação.
E THC, de vez em quando?
Bem de vez em nunca. Bem pouquinho mesmo. Adoro fumar só o CBD. Quando toco em Paris tem muito.
Isso é engraçado, porque me arrisco a dizer que talvez a mais notável das características da sua música seja uma certa brisa. Uma cadência, uma malemolência gostosa. De onde vem isso?
Acho que sou meio atmosférica… Meu nome já diz: Maria do Céu. Risos. Gosto de fazer as pessoas sentirem uma coisa através da minha música. E para isso, muitas vezes não é só sobre a letra. É sobre um conjunto que dá essa atmosfera musical junto com as letras e com a musicalidade. Então, acho que eu trago um pacotão que faz as pessoas serem transportadas para o lugar que estou tentando propor. Isso você está chamando de brisa, e eu concordo.
De onde vem essa brisa?
É difícil explicar, mas vou tentar. Acho que um dos motivos é que a minha música se inicia a partir de uma vibe, não necessariamente de um acorde com a letra em cima. Começo a semente da minha música através de um conjunto de sons… Eu quero aquela vibe, aí começo a construir a vibe, e a partir dela vou juntando todos os textos e melodias que tenho jogados em zilhões de caderninhos e gravadores que eu tenho. Eu acho que eu componho uma vibe, é meio complexo mesmo de explicar. Risos.
“Começo a semente da minha música através de um conjunto de sons. Componho uma vibe.”
Em uma entrevista de 2010, você já se posicionava favorável à legalização de todas as drogas, num momento em que esse posicionamento não era tão tranquilo quanto é hoje. Como foi evoluindo a sua percepção sobre o tema ao longo dos últimos 15 anos?
Hoje eu reduziria. Não sei se falaria com essa amplitude sobre todas as drogas. Talvez houvesse uma certa imaturidade da minha parte no entendimento 360 dessa frase, no que se refere a como a sociedade está organizada para isso. Sou a favor, sim, especialmente da cannabis e da regulamentação acima de tudo. Uma regulamentação feita com rigor. Não dá para falar: “Vamos liberar e deixar solto”, porque as coisas no Brasil são muito sem contorno, muito corrompidas. Precisa ter muito ajuste. Precisa regularizar para ter qualidade no produto, para fins medicinais, para ajudar as pequenas cooperativas a serem beneficiadas com estrutura. Porque estão fazendo sem estrutura, e quando se regulariza, chegam as grandes corporações e empurram esse povo que já faz um trabalho sério há séculos. A regulamentação fala sobre tudo isso. São muitos pontos a serem observados com cautela, com organização. É isso que defendo.
Atmosférica… mas também psicodélica? Me conta um pouco das suas incursões pela psicodelia.
Tive poucas incursões. Nunca precisei muito de psicodélicos. Sou bem louquinha por si só, tenho uma coisa meio aberta. Mas fiz algumas incursões de ácido. Tomei algumas vezes, sempre procurando a natureza. Na natureza é perfeito, maravilhoso. As poucas vezes que experimentei fora, não gostei. Tenho esse eixo com a terra, de estar conectada, de entender para onde posso chegar quando estou na natureza. Quando não estou, bate muito errado. Das drogas capitalistas, feitas em laboratório, as estimuladoras, cocaína, essas coisas todas, nunca tive atração. Sempre quis ficar longe, por achar que estão ligadas ao capital, ao poder, à produtividade. Isso nunca me interessou. Agora, tudo que tem viés da natureza, daime, essas coisas, sempre estudei, sempre tive interesse. Li vários livros do Carlos Castaneda. Esse é o meu lugar. Mas percebo que tenho uma percepção já muito sensível. A minha grande loucura é tentar passar essa vida de cara. E eu acho difícil, risos.
A incursão pelo daime foi pontual ou você chegou a fazer parte de um grupo?
Na verdade, nunca cheguei a fazer a experimentação do chá. Fui numa celebração, mas não me senti preparada. Acabei não emergindo. Vi de perto, me interessei, estudei, mas não fui adiante.
Como tem sido guiar a adolescência da sua filha, Rosa Morena, quando o tema é droga?
Meus pais foram muito rígidos com a questão da droga quando eu fui ficando adolescente, especialmente minha mãe. A liberdade regia a nossa vida, a gente era muito livre, mas falar em droga era quase um tabu absoluto. Não pareciam pais que viveram os anos 70 intensamente. E eu, muito livre que era, fui o contrário. Mas muito cedo percebi que não poderia me meter seriamente com isso, porque ia mexer com a minha sensibilidade, ia me fazer mal. Hoje, olhando a Rosa, minha tática é trazer ela para perto de mim. Lógico, tem a privacidade do adolescente, que é deles mesmo. Mas prefiro que ela use comigo do que na rua. Prefiro saber o que está fazendo. Conversamos sobre o que é cada coisa, o que está circulando por aí. Não é fácil, porque hoje tem uma diversidade enorme de drogas, inclusive químicas bem complexas que eu nem conheço, então tenho que ficar me atualizando. Mas procuro trazer para perto. Essa é a minha tática.
“Prefiro que ela use comigo do que na rua. Prefiro saber o que está fazendo.”
Nessa série de comemorações dos seus 20 anos de carreira, você foi convidada pelo Tiny Desk Brasil. Na sua época, tinha MTV, tinha o Ensaio da TV Cultura. Você tem a percepção de que hoje é mais difícil encontrar espaços interessados na apresentação do artista?
Acredito no espiral do tempo. A gente está num momento muito complexo para a música e para a cultura de maneira geral, e isso tem a ver com toda a transformação digital e bastante com a questão da IA, que é uma coisa polêmica. Por um lado, é como a Revolução Industrial: são mudanças que o homem sempre navegou. Mas o algoritmo achata a percepção musical. Ele é um ditadorzinho. Não deixa passar certas músicas, certos arranjos, certas letras. Vai limitando de acordo com a bolha, tirando as arestas e deixando redondo para cada um. Isso é extremamente perigoso, porque vai deixando as pessoas embolhadas em universos únicos, pouco criativas, com pouco desejo de furar. O meu algoritmo, bem treinadinho para mim, está arrasando. Manda um monte de coisa incrível que me entretém e me deixa babando na tela por horas. E o que isso está fazendo com a cultura, com os programas de música? Está eliminando. Porque esses programas tinham compromisso com a diversidade, com a diversidade de postura. Esse achatamento de “vamos todos obedecer à lei que o algoritmo propõe” amassa bastante a cultura. A gente tem que estar muito alerta. É preciso estar atento e forte para não bestializar.
Isso te assusta, ou você tem uma fé lá no fundo de que o pêndulo vai voltar?
É o que te falei: o espiral, o negócio é quanto tempo vai levar. Sendo Ariana otimista, meu otimismo chega a ser irritante, talvez a gente fique numa situação meio drástica culturalmente por um tempo, talvez fique ali comodamente na frente de um grande balde de pipoca com refrigerante gigante, sem força para sair da cama. Já viram WALL-E? É mais ou menos isso. Mas sempre vêm os punks que destroem tudo, os subversivos, a força contrária. Essa é a alegria da nossa cultura, da evolução humana, que a gente é capaz de fazer.