Por Anita Krepp

Pai de gêmeos de 4 anos de idade, Fábio Manzoli é divorciado, tem guarda compartilhada dos filhos e está solteiro há cerca de dois anos. Hoje trabalha como palestrante, consultor, terapeuta e facilitador, sempre em torno do tema masculinidade saudável. Mas pra chegar até aqui, ele precisou atravessar um processo pesado de instabilidade emocional, ideação suicida por vários anos, uma tentativa que “bateu na trave” há 25 anos, muita explosividade verbal, autoestima lá embaixo e 20 anos de consumo de pornografia.
O caminho da transformação de Fábio passou, necessariamente, pelas plantas de poder. “Eu tive primeiro um processo com o MDMA que eu tomei em 2001, e pra mim foi de muita abertura sexual”, conta Fábio. Em 2009, num trabalho de respiração na Arte de Viver – seu primeiro curso de autoconhecimento –, ele teve uma experiência idêntica à do MDMA, mas sem substâncias. “Só com respiração, e os dois foram exatamente iguais, e foi uma benção, realmente, difícil até colocar em palavras.”
Fábio utiliza o termo Samadhi, do sânscrito, pra descrever o que viveu. “É tipo dar uma espiadinha na verdade, sair por um momento dessa realidade dual que a gente vive, onde tudo é preto ou branco, certo ou errado, e perceber o que existe por trás disso tudo.” Pra ele, foi uma experiência de conexão com algo maior, uma energia universal. “Essa é minha visão espiritual, que a gente é uma alma, um espírito, um pedacinho de Deus, essa energia cósmica maravilhosa, universal, amorosa.”
Na época, ele não entendeu muito a dimensão daquela experiência. “Eu sabia que estava usando uma droga, então pra mim tinha sido o efeito de uma droga, só uma descarga interna.” Mas em 2009, ao sentir exatamente a mesma coisa no trabalho de respiração, ele lembrou do primeiro MDMA e refletiu sobre a potência espiritual da experiência anterior.
“Ao mesmo tempo, eu senti uma coisa que foi muito única. Eu tomei muitos MDMA depois e nunca mais tive aquela sensação. Então, pra mim é muito marcante. Hoje, 24 anos depois, eu considero que essa experiência com MDMA foi realmente uma abertura total pra mim de espiritualidade. Não percebi na hora, mas hoje coloco realmente nesse lugar.”
Sete anos de retiros e plantas de poder
Depois daquele primeiro contato com o despertar espiritual em 2009, Fábio passou sete anos fazendo diversos tipos de retiros. “Fiz os mais fortes que eu conheci, as coisas mais longas e processos mais desafiadores, como silêncio e jejum.” Durante esse período, ele também experimentou ayahuasca. “O que me afastou do daime foi a religião, a crendice. Não questiono o valor da planta de poder, eu tenho um lado espiritual, mas não religioso. Sempre tive conexão com o sutil, e as plantas de poder existem pra te dar um auxílio, pra você ter uma percepção maior, não para bitolar.”
Foi em 2016, num retiro de silêncio de 3 dias, que tudo clicou de vez. “Quando terminou, eu falei pra minha então namorada que eu ia trabalhar pro resto da vida com vulnerabilidade, e eu sabia que não ia ser só pra homens, mas que ia ter uma coisa muito especial pra homens.” Ele, que tinha saído do mundo corporativo em 2014, começou a trabalhar com a masculinidade saudável.
Alguns anos depois, quando se tornou pai de gêmeos, enfrentou o desafio mais difícil da vida: a paternidade, que gerou um processo de instabilidade gigante, com o qual conseguiu lidar graças à cannabis. “O óleo canábico me ajudou e me ajuda profundamente, por isso também decidi fazer um festival e espalhar essa mensagem.”
O evento que Fábio pretende fazer ainda este ano nasce diretamente do seu processo com a cannabis e da vontade de levar os benefícios do óleo canábico pra mais pessoas. A ideia é usar a visibilidade que ele construiu no Instagram pra normalizar a planta, trazer as melhores profissionais de todas as áreas e falar de forma séria sobre o assunto.
Zilhões de planos com a cannabis
Além do evento, Fábio está abrindo uma startup com alguns sócios, entre eles um cientista de dados que desenvolveu uma tecnologia para estufas hidropônicas automatizadas, com hardware e software. A ideia é que eles mesmos possam fazer a gestão da estufa na casa do cliente.
O plano inclui um streaming 24 horas por dia mostrando a própria estufa sendo montada e, depois, a cannabis crescendo dentro dela. “A ideia é desmistificar o cultivo e mostrar na prática como a tecnologia pode facilitar o acesso, além de evidenciar que a produtividade na hidroponia é bem mais alta do que na terra.” O negócio vai além das estufas. Vão vender sementes numa empresa que será aberta na Europa e, quando a legislação permitir, provavelmente abrirão uma associação pra vender óleo e flor.
São muitos planos, e o principal deles é desconstruir a cultura que adoece os homens, a do “engole o choro” que ele viveu de forma violenta na infância com o pai. Uma cultura que proíbe aos homens tudo que é considerado feminino: as emoções (menos a raiva), a sensibilidade, o afeto, o cuidado. “Tudo aquilo que se entende como feminino na nossa cultura binária dual, aos homens é proibido porque diminui a virilidade.”
Foi o MDMA que abriu a primeira porta espiritual, a ayahuasca que expandiu a percepção, e a cannabis que o sustentou pra não pirar. Agora, Fábio quer usar a visibilidade que construiu falando sobre masculinidade saudável para normalizar essas substâncias e mostrar que existe outro caminho possível. Um caminho onde os homens podem voltar a sentir e onde a cannabis pode ser aliada na cura.