Saindo da estufa

Nany People: “Se legalizasse a cannabis, tiraria espaço do mercado paralelo, porque usar, muita gente usa”

Aos 60 anos de idade e 50 de carreira, Nany People carrega nas costas uma biografia de artista completa — teatro, TV, rádio, noite, Carnaval —, construindo uma trajetória exemplar. Existir como travesti é um ato político diário, ainda mais para uma artista tão visível, e até comprar pão na padaria exige um ato de coragem.

Desde os 10 anos no teatro amador, aprendeu que o sucesso não vem do aplauso, mas do trabalho nos bastidores: pregar martelo no cenário, varrer o palco, ser produtora, diretora, atriz e roadie ao mesmo tempo. Foi essa “disciplina alemã”, como ela define, que a transformou na profissional respeitada que é hoje, mesmo sem empresário ou agente, sendo sempre dona do próprio nariz.

Hoje, vive uma rotina maluca: faz espetáculo em São Paulo na quinta, pega voo noturno para Belém, dorme duas horas, dá entrevistas, faz teatro, sai direto para o aeroporto. Ufa! No Carnaval, cumpre agenda que faria qualquer pessoa desmaiar. Tudo sem ansiolíticos, sem drogas — nunca fumou nem nunca cheirou, embora reconheça o uso medicinal da cannabis e critique a hipocrisia em torno do álcool, droga que a marcou pela violência do pai alcoólatra. 

Nany faz do palco a sua terapia e, da disciplina, a sua religião. Como nos conta, em entrevista para Anita Krepp, a multiartista aprendeu com Bette Davis que quem tem carreira não pode se dedicar a um amor e, por isso, segue firme, sozinha, com seus seis cachorros e uma agenda que é Parada LGBTQ+ o ano inteiro.

Nany People, você tem uma trajetória de vida e de carreira realmente fora da curva. E sempre foi uma pessoa muito respeitada, mesmo numa época em que o preconceito era muito maior do que é hoje em dia. Ao que você atribui esse destino tão único?

Olha, a primeira coisa tem um fator sorte muito grande, tem sim, mas tem sobretudo o fator das suas posturas, das opções, das escolhas que você faz ou não faz na sua vida. Eu aprendi muito cedo, tive mestres muito poderosos, muito emblemáticos na minha vida, que sempre me ensinaram que eu tinha que trabalhar por uma carreira, não por um sucesso. Eu estudei teatro aos 10 anos de idade em um grupo de teatro amador. Quando você faz teatro de grupo, você aprende a primeira coisa: a trabalhar bem com a vaidade. Por mais que você seja aplaudido, você sai depois do espetáculo, vai tirar a foto, ali está no palco, é a cereja do bolo. Mas o que você aprende antes é o trabalho de equipe, da engrenagem para levantar fundos para a peça acontecer, de pregar martelo no cenário, conseguir subsídio para fazer o figurino, chegar no teatro, varrer o palco, fazer o cenário, montar o cenário, fazer o espetáculo, acabar, receber o público, acabou isso, volta, tira o figurino, vai lá e manda o roadie. Você é produtor, é diretor, é ator e é roadie. Quando você é tudo isso, você aprende: o teatro é uma engrenagem familiar, é um clã. Essa minha doutrina desde criança trabalhando nisso, eu sempre aprendi que a união faz a força. Acho que se deve aos mestres que eu tive, aos professores que eu tive, aos exemplos em casa que eu tive. A gente nunca é, a gente está — e isso pode parecer muito filosófico, poético, mas é o que realmente conta. O que faz você ser chamado para um trabalho ou outro não é só você ser um excelente ator, é como você se comporta nos bastidores. Porque o filme dura no máximo 2 meses, 45 dias, uma novela dura 8 meses, uma peça de teatro pode durar 1 ano com 2 meses de ensaio. O que faz ser lembrado, ser chamado, é como você se comporta na coxia. Acho que é o meu trabalho de coxia, das escolhas, dos programas, dos projetos que eu fiz ou deixei de fazer, que me deram essa coisa chamada credibilidade. De gente talentosa e maravilhosa, o nosso cenário está cheio, mas é impossível de conviver no dia a dia, no cara a cara. Isso dificulta muito. Tem muito ator genial que dificulta seu próprio projeto de vida, seu processo de vida, pelas posturas equivocadas que fazem. Acho que é isso que fez eu deixar a minha condição bem atrás do meu talento.

Você cresceu no Pânico, um programa que já foi chamado de machista, homofóbico. Como foi essa experiência pra você?

Eu era respeitadíssima no Pânico. Entrei no Pânico num tempo em que eu não tinha nem meu nome social ainda. A minha nota fiscal que eu dava pro Emílio da minha microempresa era de nome de pessoa física. E ele respeitou. O Emílio, o Tutinha, o Goulart de Andrade, o Amaury, viram a minha profissão, meu talento, meu arquétipo, antes da minha condição de pessoa trans ou travesti ou efeminada ou o que seja. A minha condição sexual nunca foi o meu cartão de visitas no meu currículo. O teatro me deu isso.

Eu acho muito interessante você ter trazido isso, porque justamente eu ia te perguntar: o Pânico tinha essa coisa misógina, preconceituosa, como você lidava com isso?

Não era só o Pânico, era a sociedade. A sociedade não era dada a uma pessoa como eu existir. Uma travesti comprar pão… por isso que eu falo: hoje em dia comprar um pão na padaria sendo trans, sendo travesti, é um ato político, é um ato de sobrevivência. Quando eu resolvi fazer a transição… porque o que adiei tanto a minha transição? Eu com 26 anos marquei a minha cirurgia. A minha mãe veio para São Paulo e implorou para que eu não fizesse. Eu não fiz logo de cara desde os 18 porque eu morria de medo de ficar presa ao universo segregativo que era o universo trans. Só poder existir à noite em boates gays, fazendo show. Eu queria fazer teatro. Eu sentia que se eu fizesse aquilo, ia de certa forma boicotar meu processo teatral. Tanto que eu cheguei a fazer teatro infantil durante 10 anos, fiz Chicó (do Auto da Compadecida), fiz infantil, enfaixado o peito para não mostrar o peito que eu já tinha dos hormônios que eu tomava desde os 22 anos de idade. Eu fiquei muito tempo como transformista, porque transformista se montava e virava a Branca de Neve, desmontava e virava o Dunga. Eu tinha medo de virar logo uma trans, de assumir a poção mulher que até então me aguardava e ficar presa ao universo muito segregativo que era na época. Era muito segregativo. Se hoje em dia, veja bem, eu, com toda minha condição, meu know-how, o meu currículo… quando eu faço a peça agora, eu vou contando toda minha história na televisão e falo: o meu currículo e o meu talento são o meu currículo. Pode parecer uma fala meio presunçosa, mas é importante eu falar isso, porque as pessoas têm a indelicadeza e a inoperância de esquecer as nossas conquistas quando as nossas batalhas estão ganhas. É muito fácil um dia chegar na vida de uma pessoa com 60 anos, com duas biografias de sucesso lançadas, e falar: ‘Você viu a Nany People? Do nada’. Não é do nada: devagar é que a vida dá certo. É pedra sobre pedra, uma conquista sobre a outra. É muita luta para conseguir colocar o seu nome social, por exemplo, na frente do seu crachá há 25 anos atrás. Não tinha porque não se pensava sobre isso. Quando assinei um contrato com o SBT em 2001 e veio lá funcional com o nome de batismo, eu falei: ‘Pelo amor de Deus, olha a cara de bonita e o nome de batismo’. ‘Ah, mas não pode, que tem que ser funcional’. O Bradesco na época fez uma coisa impensável, que não existia ainda: a minha conta estava sendo bloqueada todo dia, porque naquele tempo se usava o fone fácil, eu ligava com essa voz feminina que não era compatível com o nome de batismo que tinha lá, eles bloqueavam a conta. Se eu virava e mexia, tinha que ir à agência da Santa Cecília. Até que um dia um gerente falou: ‘Por que a senhora vem tanto aqui?’ Porque você ia usar o cartão de crédito e tinha que usar o cartão e seu RG junto naquele tempo. Há 25 anos você dava o cartão de crédito e seu RG. Vinha aquele nome de batismo no cartão com a cara de bonita e o nome de batismo — achavam que estava falsificando. Um gerente do Bradesco, falou: ‘Não, espera aí’. Subiu, foi na regional, falou: ‘Põe na frente do nome dela: artista, ou transformista, ou alguma coisa’. E nunca mais bloquearam. O Bradesco fez uma coisa que eu achei o máximo: mandou um cartão de crédito com o nome Nany People. Eu chorei. Peguei este cartão, dei na administração do SBT e falei: ‘O Bradesco me deu um cartão com o nome Nany People’. Aí puseram no funcional Nany People. São essas conquistas de áreas, entendeu?

Quando você sai do SBT em 2006, como foi?

Todas as emissoras me chamavam para fazer matéria. Naquele tempo, há 20 anos atrás, as matérias eram invasivas. Lembra como foi a matéria que o Pânico fez com a Preta Gil, com o Clodovil? Valia tudo pela audiência. Lembra do Gugu colocar uma mulher pelada ou de sutiã em com comida japonesa em cima dela. Veja, onde está a consciência que nós temos da erotização da mulher? Até a chamada da Globo Beleza agora esse ano foi uma roda de samba familiar. Mudou completamente o panorama, a concepção do uso da imagem, do estereótipo da mulher, da erotização da mulher. Naquele tempo todas as emissoras me chamando, e eu falei: ‘Não, eu fui repórter da primeira banda da TV brasileira. Se tiver que ser repórter de um programa, quero que seja um programa que não vai fazer qualquer matéria’. Porque a minha imagem naquela época já era, vamos dizer, exótica, estranha, bizarra, por si só. Era uma drag, uma arara azul, uma ave rara andando no meio da rua, no meio do povo. Isso é que chocava o povo. Resumindo, eu fiquei 10 anos sem ser repórter de ninguém. Só aceitei depois ser repórter de outra rainha que foi a Xuxa. Até então fiquei no entretenimento, fui ser jurada. Carlos Alberto de Nóbrega me lançou como humorista na Praça é Nossa, que tinha aquela coisa de usar os arquétipos das personas e fazer humor disso. Mas ele nunca usou a minha condição de drag para fazer chacota, pelo contrário. Eu fui fazer a “Mulher Matraca”, fiz “As AMIGAS” com a Rogéria, fiz a personagem que não parava de falar o tempo todo. Sempre fiz personagens em que eu era a dona da situação, nunca era eu um alvo da crítica, da piada. Seu Carlos Alberto me respeitou demais com isso. Aprendi com ele a fazer humor. A ponto de eu chegar a fazer a Praça é Nossa sem ensaiar com ele, direto pro palco, na primeira já gravava. Tinha gente que chegava às 10 horas e ia gravar depois das 17h, eu chegava às 15h, porque a gravação começava a essa hora. E às 15h20 eu já estava na estrada de volta e meu cachê na bolsa. 

Um jogo de cintura que só o teatro dá…

Eu tenho usado o teatro como meu grande portfólio, minha tábua de salvação. No texto novo, eu falo: o teatro foi meu divã, foi minha tábua de salvação, foi meu amante, o teatro me ajudou a sair de muita coisa. O teatro tem sido minha profissão de fé. A minha condição de trans que eu só assumo depois mais tarde, quando fui colocar as próteses e andar de mulher o tempo todo, foi quando eu já estava literalmente numa situação em que não tinha mais como fugir. Eu já tinha conquistado credibilidade como Nany People, não tinha conquistado apenas como ator de teatro. E mesmo na noite dos anos 90, eu saio do circuito LGBT e chego no Resumo da Ópera, uma casa heterossexual do Victor Oliva no Shopping Eldorado, em frente ao Paládio, o Show Days, que depois virou o Resumo. Naquele tempo o movimento LGBT não era tão democrático. Quando você se tornava estrela de uma casa LGBT em São Paulo, você era a “Dona Bicha”, um show montado com balé, nome, figurino, tudo. Quando inventaram o bate-cabelo, isso banalizou um pouco, porque qualquer trans, qualquer drag podia subir no palco com figurino nem tão esmerado e bater cabelo. Banalizou um pouco a arte. E a gente era muito bem paga. Tem um produtor que me viu no show da Gentes, uma boate LGBT ao lado da igreja de Moema, e falou: ‘Nossa, ela é diferente das outras, fala muito bem’. Me chamaram para fazer um correio elegante de uma festa junina no Resumo da Ópera. Entrei de Chanelzinho, 20 e poucos aninhos, peitinho na bandeja de hormônio — aquela coisa de ser jovem. A gente se sentia Luma de Oliveira. Faltou o apresentador da noite e ele me falou: ‘Você consegue fazer a interação da noite?’ Eu fiz. Quando peguei o microfone, fiz a diferença. Fui contratada para fazer todos os sábados uma interação com todos os aniversariantes. Além de interagir no palco, sorteava-se uma passagem de fim de semana para Búzios na pousada Viamar. O Resumo foi minha grande vitrine. Fui chamada para fazer evento de final de ano de Jacques Janine, de empresas, de Bolsa de Valores, de BM&F, porque me viam no Resumo da Ópera. Eu fazia abertura da pista aos sábados, descendo no escorregador no meio da pista dublando de Frenéticas a Chicotinho e Salto Alto.

Nany, você já fez de tudo nessa vida, rádio, TV, novela, reality, jurada de programa, enfim, realmente de tudo. O que ainda te falta realizar? Tem alguma coisa que ainda está por se realizar no seu coração, que você quer transformar em realidade?

Eu queria fazer uma personagem, uma vilã na novela. Sempre fui chamada para fazer a histriônica, a engraçada. Mas eu gostaria de fazer uma vilã, sabe? Uma vilã meio Dercy Gonçalves, pela qual todo mundo vai torcer. Quando você faz uma vilã carismática, você mexe com o brio da sociedade. Você bate a carteira e o pessoal olha e fala: ‘Ela é desgraçada, mas ela é gostosa’. Você mexe com esse lado dúbio das pessoas de se autoanalisar, se autocriticar, de se manter no propósito, até de ser honesto. Porque o difícil da vida é você se manter no propósito. Chega um momento aos 60 anos, sobretudo com todas as perdas que a vida te dá, com a metade da ampulheta tendo caído — porque a vida é assim, vai cair a areia de uma ampulheta. Se é 60, mais da metade já foi embora. Vêm as perdas, as baixas. Cinquenta ou 60 é a idade das maiores baixas que a vida te dá. Você perde amigos, muitos amigos, o seu álbum de figurinhas fica incompleto. Você perde colágeno, aposenta, encerra ciclos, separa. O que eu tenho de amiga separada até de segundo casamento! Você tem que se encontrar com você mesma e ser muito honesta consigo para ter esse pedal de altruísmo, para não se deixar abater. Porque o tempo não te tira só tudo isso, o tempo tira a capacidade de sonhar. Tem que se policiar.

E como você faz? Como você está fazendo para não perder essa capacidade?

Eu miro e me espelho nos meus amigos que se perderam, que se tornaram obsoletos, reclamões, custosos. Não ser uma pessoa custosa, chata, reclamona. Saio para viajar de manhã, de tarde, de noite, eu vou, levo minha mala, pego. Vejo o povo que joga a toalha, sabe? Que faz: ‘Ah, não, vai chover, ai, lá está lotado’. Não faço isso. Procuro sempre aprender uma coisa. Por isso convivo sempre com gente jovem. Tem que tomar cuidado para o tempo não te tornar isso. Chega um tempo na vida que você aprende a não bater boca. Estou num tempo que não bato mais boca, você não discute mais, você fecha a conta. É o final da minha peça, falo isso. É preciso ter coragem para fechar a conta. É preciso ter coragem de levantar a cabeça e dizer: isso não é para mim. Se estou no churrasco e todo mundo enchendo a cara, sai assunto de política, sexualidade, religião, eu mando servir a linguiça e vou chupar o chapeiro. Vou bater boca num lugar desse? Você está louca? Não vou perder meu tempo. Amor, opinião cada um tem a sua. Não adianta tentar influenciar o outro, você não influencia quem já pensa aquilo. Wagner Moura disse uma coisa muito maravilhosa: ‘Como é que você vai falar sobre Lei Rouanet num país onde o povo até hoje não entendeu a Lei Áurea?’ A Lei Rouanet, eu falo isso, é como você casar e ser feliz. A Lei Rouanet é o seguinte: o pessoal acha que estou há 50 anos no palco e meus projetos tiveram Lei Rouanet. Nunca tive Lei Rouanet aprovada. Eu faço financiamento do banco e assim pré-lancei minhas peças. A Lei Rouanet é uma coisa necessária, muito boa e maravilhosa, só que assim: uma coisa é você cadastrar a lei, outra coisa é você conseguir captar. Cadastrar é você casar, agora captar é ser feliz. Cadastrar é você morrer, captar é entrar no reino do céu. São dois pesos, duas medidas.

Como é que você faz para ter essa vida louca, ser artista, ser feliz consigo mesma? 

É ser uma boa companhia para mim. Não ficar presa no passado. Eu fiz uma história brilhante na TV, eu tenho um currículo imbatível, eu sei que eu tenho, porque eu trabalho para isso o tempo todo. Estou fazendo essa peça agora, mas já estou pensando no projeto de uma peça que vai estrear em julho. Aprendi que não adianta ter empresário que resolve para mim. Não tem empresário, não tem agente, não tem gestor de carreira. Eu tenho produtores. Porque quem resolve tudo sou eu. Quem vai dar a cara no brilho sou eu. Quem vai invocar essa poção do pirlim pirlimpimpim, encantar as pessoas com a minha fala, com o meu jeito, essa sou eu. Não é um agente, não é nada, é você por você mesmo. Isso tem a ver com religiosidade, tem a ver com formação familiar, tem a ver você não ficar presa no arquétipo que as pessoas te colocam o tempo todo. As pessoas têm essa necessidade de colocar você em rótulo, em caixinha. A Fafá de Belém disse uma vez para mim: ‘Você mete o pé na porta e joga a chave fora, você é muito além do que a expectativa que o outro vê´. E a gente é assim com a gente mesmo. Você não sabe que você é capaz até você precisar se provar. Você é a porta da sua própria essência. Quando você procura embaixo, você tem muito mais potencial do que imagina. O fato de eu sair do interior com 20 anos de idade e viver de uma profissão que na minha região não existe. Se eu tivesse ficado no interior, eu seria apontada na rua como aquela esquisita que quer ser famosa. Posso até ser esquisita, mas estou conhecida.

Nany, eu olho para você, eu penso em Carnaval. Eu olho pro Carnaval, penso em você. Então quero saber os seus planos para esse Carnaval de 2026.

Eu sempre falo que não vou fazer nada, mas chega na hora me dá um fogo na ventoinha, minha filha, que eu acabo fechando tudo. Na sexta vou sair na escola Colorado do Brás, e no sábado vou no camarote da Brahma. Domingo Camarote São Paulo SP, segunda tenho aniversário de uma amiga em Vinhedo e na terça-feira de Carnaval, meio-dia estou no bloco da Salete, quebrando as canelas na Augusta, querida.

De onde você tira essa energia, Nany?

E no meio do caminho a gente ainda faz uns atendimentos, risos. Tem que ter, tem que fazer uns acústicos. Você engata a ré com tração nas quatro rodas traseiras, você faz tudo isso no Carnaval, meu bem. É isso aí. Se não for assim nem quero, nem vou.

Agora, Nany, com essa agenda, correria, loucura, vai, volta… Excesso de gente, excesso de calor, excesso de álcool, excesso de muitas coisas. Carnaval é uma festa de excessos. Mas o que são os excessos dos outros? Para você não. Quais são as suas técnicas de redução de danos para o Carnaval?

Eu procuro não beber alucinadamente, porque quando você bebe alucinadamente, você perde o controle. E perder o controle não dá. Eu sei da agenda, eu sei do dia seguinte. Se eu sei que vou ter que sair para pegar voo domingo de manhã e tenho que desfilar e ser a última escola a sair da avenida, é chegar em casa cronometrado: chegar, tomar banho, sair. Ou vou tomar banho no Rio. Isso o teatro me deu. Essa disciplina alemã, o teatro me deu. É uma disciplina de balé. A perna não pode estar meia aqui, a perna tem que estar aqui. É isso. Eu sou disciplinada. Tenho uma agenda durante o ano todo que é pior que Carnaval. Faço espetáculo na quinta-feira em São Paulo, venho dormir, levanto de madrugada, pego o voo noturno, vou direto para Belém fazer imprensa. Durmo 2 horas, saio do hotel já maquiada, vou pro teatro, faço espetáculo, atendo o público, saio do teatro, vou direto pro aeroporto, pego o voo noturno para São Luís do Maranhão. Chego lá, vou fazer imprensa direto sem dormir, volto, durmo 2 ou 3 horas no hotel, vou pro teatro maquiada, saio direto, vou pro aeroporto, pego voo noturno, vou pra Imperatriz. Então, o meu Carnaval, meu amor, é o ano inteiro. A minha Parada LGBT é o ano inteiro. É disciplina. Aí chega segunda-feira em casa, eu faço camisola´s day. Estou pros meus cachorros, estou comigo mesma, silêncio, não ligo nem a Alexa. Nada. Eu ouço muita música. Eu ouço muito Fafá de Belém. Eu ouço tanto Fafá que os vizinhos acham que ela mora comigo, divide apartamento. Quando ela me liga, ela ri de lá e eu rio de cá, deve parecer que divide apartamento: esse apartamento é da Fafá e da Nany. Mas assim, você é pá pá pá pá pá e quando chega em casa, dá aquela descansada. Eu tenho uma secretária, a Zenaide, que era minha diarista desde 2007. Vai fazer daqui a pouco 20 anos que ela está comigo. Até então ela era diarista. Ela foi resolver um problema familiar uma época lá em Dourados e deixou as duas filhas trabalhando comigo. Eu insisti para ela ficar comigo. Faço assim: quando eu chego em casa, eu estou no aeroporto, no avião, mando mensagem: pode ir embora, vai para sua casa que eu vou chegar. Aí eu faço tudo, eu que levanto de manhã, eu que passeio com os cachorros, eu que passo o pano na casa todo dia, eu que passo vassoura. Agora tem aspirador, antes era no vassoural mesmo. Aprendi com a minha cunhada, em Poços de Caldas, a usar o aspirador de pó, aspirador potente. Então a Zenaide só vem quando eu vou viajar. Eu cheguei domingo de manhã, mandei mensagem no avião: ‘Zenaide, pode ir embora, vai almoçar na sua casa que eu estou chegando’. A Zenaide só vai voltar agora sábado que vem que vou pra Porto Alegre. Quando estamos com peça aqui, eu que faço tudo. Eu quero andar pelada, sabe? Sem produção. Porque se eu sair do meu quarto sem produção, meu cachorro me avança. Vou passar o cachorro com protetor solar e batom. Não maquiei o olho hoje, estava com olho meio cansado, não vou pintar o olho hoje não. Um delineador tem que ter. Mas põe um óculos escuro, vou passar o cachorro de manhã e de tarde. Ver agenda, ver contador, ver show, ver quem pagou, quem não pagou. Agora pode estar me ligando de Belém para já fazer agenda de setembro. É isso. Como diz Nelson Rodrigues: “A vida é trânsito, é dia útil, não é domingo”. Ontem eu vi uma entrevista do Antônio Fagundes no Fantástico sobre os 60 anos de carreira dizendo que nesses 60 anos ele nunca trabalhou na vida, só se divertiu. Quando você trabalha no que você gosta, você se diverte, seu trabalho é sua diversão. Tudo bem que tenho um superesforço nisso tudo. Já abri mão de vida pessoal em função da carreira, que é o mais fácil. Já terminei relacionamento em função disso. Adotei seis cachorros. Ajudei um quilos de gente pelo caminho e sempre me passaram a perna, mas faz parte do ser humano. Como diz na Bíblia: cada um dá o que tem. Fiz transição de gênero num país que é o que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. E mesmo sem ter empresário ou agente, fiz um nome e construí a minha reputação, que hoje é a minha marca. Tenho consciência disso, de não ser uma galinha a mais no poleiro de empresário. Não sou uma galinha a mais, eu sou a dona do galinheiro, do meu galinheiro. Eu tenho meu quintal, risos.

Você falou que bebe menos. Como é a sua relação com outras substâncias, como a maconha?

O Brasil tem essa ideia equivocada sobre o arquétipo da maconha, de que maconheiro é tudo isso, tudo aquilo. Quando fui fazer o “LOL” lá no Uruguai, fui apresentada a duas amigas que são donas de clube de cannabis em Punta del Este. Fiz a Unicamp em 87, 88, 89. Na verdade, eu nunca fumei. Eu não sei nem fumar. Trabalhei na noite 22 anos. Nunca fiz uso de nada, nunca cheirei. E não é porque eu sou a certinha, é porque eu nunca tive vontade. E, detalhe, curiosamente, todas as minhas amigas que eram colegas de bancada nunca sequer usaram na minha frente ou me ofereceram. Quando entrei na noite em 91, lembro que uma noite na boate Rave, eu e Cacá de Lima — que até hoje é meu padrinho na noite — vi um pessoal na porta do camarim e perguntei: ‘Quem são essas pessoas?’ E o cara falou: ‘Estão esperando as meninas’. Falei: ‘Do quê?’ ‘Pegar o cachê das meninas’. ‘Cachê de quê?’ ‘O cachê do barato delas’. ‘Que que é barato?’ ‘A droga’. Eu não sabia o que era. Não é que eu seja a santinha, é que eu nunca usei.

E o álcool, por que diminuiu?

Com álcool eu tenho uma relação muito traumática. Meu pai era alcoólatra. Passei muito mal nas mãos do meu pai, o que por si também não justifica, porque meu irmão mais velho passou mais do que eu e gosta do alcoolzinho. Bebe socialmente, ele gosta de beber. O João gosta, toma sua cervejinha diariamente, torce por uma caipirinha. Lá em Minas Gerais se bebe muita pinga, muita cachaça. Meu irmão do meio trabalha à noite, é guarda metropolitano, ele vai almoçar, tem que ter o aperitivo para dormir. Eu não suporto, eu não bebo. Tenho um apartamento em Poços de Caldas que meu irmão mora. Quando eu vou para lá, ele vai para o outro apartamento. Cheguei lá no dia 22 de dezembro, e lá pelo dia 28, eu falei: ‘Caraca, todo dia tem que beber essa porra? Não pode tomar uma água, uma Coca-Cola? Todo dia tem essa merda na mesa?’. E aí ele não tomou mais. Porque alguma coisa dentro de mim ainda me incomoda muito. Tinha um namorado que me perguntava: ‘Vamos tomar alguma coisa pra transar?’ ‘Não, espera aí, hoje não vai beber não. Não vai tomar duas taças de vinho, vai me pegar bêbado? Não, não. Você vai ficar com sono, vai tomar é agua´, risos. É alguma coisa que eu tenho que remete a essa situação do meu pai.

Mas já fumou maconha?

Cannabis, por exemplo, tem amigos que usam. Aliás, tenho amigos que para poder criar usam direto. Tive um namorado que usava maconha para comer, usava para tudo, de manhã até tarde e à noite. Eu, pessoalmente, nunca cheirei, nunca fumei, nunca tomei nenhuma dessas drogas sintéticas que hoje estão muito na moda. Nunca usei, nunca me ofereceram. E tenho grandes amigos, talentosíssimos, que perderam o fio da meada por isso. Tive uma amiga da noite que morreu a paulada por dívida de crack. Por isso que eu falo: o difícil não é você estar, é você se manter no propósito, se manter no galope. Assim como tive exemplo de pessoas de como agir na vida, tive exemplo de como não agir. E tenho o tempo todo. Acabei de ter agora um exemplo de um amigo muito querido, muito presente na minha vida, que perdeu o fio da meada, perdeu a caixa preta. O povo agora não quer nem ajudar ele mais, porque perdeu a credibilidade. Sei que a cannabis tem esse uso terapêutico, tem uso medicinal, tem uso clínico. Sei que tem. Tenho gente que precisa realmente, amigas minhas que têm filho que tem convulsões e fazem uso disso. Acho importante. Acredito que, se legalizasse a cannabis, tiraria essa coisa do mercado paralelo no Brasil. ‘Ai, a Nany está fazendo apologia’. Não estou fazendo apologia. Toda a questão é de você entender para qual fim é. Porque usar, muita gente usa. Você quer droga pior que o álcool? Que todo mundo toma e mete os pés pelas mãos? A ponto de matar o povo no trânsito, matar o outro com briga besta. Porque o álcool dá esse falso poder. A droga deixa a pessoa num tom de se achar Super-Homem ou Mulher Maravilha. Mas eu tenho essa consciência de que a cannabis tem essa coisa terapêutica, medicinal e clínica. Acredito que se liberasse um pouco, tiraria essa coisa do mercado paralelo.

Você nunca chegou a usar nem medicinalmente?

Não. Eu sou tão sensível à medicação, se eu tomo Dorflex, eu já chapo. Quando fiz o LOL em 2021, minha endocrino falou: ‘Dona Nany, a senhora precisa ser estudada’. Porque eu estou com 60 anos e sou a única pessoa do meu núcleo de amigos que não toma nenhum medicamento para dormir, para acalmar, para nada. De ansiolítico, nada disso. Nada. Eu rezo para dormir, rezo sentada. Porque se eu encostar, no Pai Nosso eu estou no céu. Eu durmo. Meu dentista falou: ‘Você tem que ser estudada´, eu só sei que eu desligo a chave, e durmo. A única coisa que tomo é remédio para tireoide, também tomo para colesterol e diabetes, que descobri no ano passado. Não tomo para pressão, não tomo para nada. Esse negócio de ansiolítico, nunca tomei. Dos meus amigos sou a única que não toma. A minha terapia é o palco, eu me analiso no teatro. Acho que é isso. Eu não pago terapeuta, eu pago produção teatral, risos. O palco acaba sendo meu grande divã. Ponho no teatro todas minhas neuroses, noias, pensamentos e ideias. Sou uma pessoa que aprendi a ter um compromisso comigo mesma. Eu ocupo muito meu tempo, ocupo demais. Se estou em casa, eu já levanto, e tenho coisa para fazer, tenho uma coisa para ler, tenho uma produção, tenho um filme, um vídeo para poder mandar para tal produção, para tal cidade. É isso. E essa coisa da ansiedade, até a minha relação com o lado emocional de ter alguém na vida, aprendi muito cedo que se eu colocasse alguém dentro de casa, ia complicar, porque divide atenção. Tentei fazer uma vez, fiquei 7 anos casada, mas é complicado. Estou dando essa entrevista agora, e se tivesse uma vida conjugal, não poderia, porque estaria tomando café junto. Aprendi com Bette Davis ´Quem tem uma carreira não pode se dedicar a um amor´. A um amor só, o só é por minha conta, risos.