Por Anita Krepp

Há poucos dias, foram anunciados os projetos selecionados por um edital de emendas parlamentares dos deputados Caio França e Eduardo Suplicy no valor de R$ 1,5 milhão para projetos de pesquisa e investigação da cannabis, e o projeto de destaque, que levou o maior valor, de mais de R$ 330 mil, foi inscrito por Edimar Bocchi, cardiologista e pesquisador do InCor, onde a pesquisa será conduzida com desenho clínico robusto, placebo, grupo controle e acompanhamento funcional criterioso para aferir se a planta, afinal, tem o potencial de atuar nos cuidados paliativos de pacientes com insuficiência cardíaca.
Intitulada “Efeito da Cannabis Medicinal em Pacientes com Insuficiência Cardíaca necessitando de Cuidados Paliativos”, é uma pesquisa clínica inédita proposta por nada mais nada menos que um dos cientistas mais respeitados do mundo, e quem diz isso é a Universidade de Stanford, que em 2025 afirmou que Bocchi está entre os 2% de cientistas mais influentes no mundo.
“A insuficiência cardíaca é a fase final de todas as doenças do coração. Cerca de 2-3% da população tem a insuficiência cardíaca com mortalidade acima do câncer, maior causa de hospitalização cardiovascular, e os pacientes têm grande sofrimento quando em cuidado paliativo, ou seja, quando não existe medicação mais efetiva. A eficácia da cannabis será testada nesta população de pacientes quanto ao potencial de eficácia, podendo beneficiar milhões de pacientes no Brasil e no mundo.”
Veneno de cobra salvando vidas
Bocchi explica que o interesse pela cannabis não surgiu por acaso. Ele chegou ao tema pela porta da ciência, onde passa boa parte das últimas décadas. Na prática clínica, vê diariamente pacientes que enfrentam os limites dos tratamentos disponíveis e carregam sintomas difíceis de controlar. Desde então, a pergunta que o acompanha é se existe algo mais que possa aliviar esse percurso. Para ele, a resposta pode estar dentro do próprio corpo. “O sistema endocanabinoide tem funções fisiológicas importantes no ser humano. A utilização de medicações com ação neste sistema poderia ter grande potencial no tratamento das cardiopatias.”
A escolha do projeto no edital, segundo ele, representa mais que um financiamento. É a oportunidade de testar, de maneira estruturada, uma hipótese que a literatura internacional já indica como promissora. “Ter sido escolhido no edital permitirá testar a eficácia da cannabis medicinal em uma doença muito comum no Brasil e no mundo, que é a insuficiência cardíaca. Sendo eficaz, beneficiará milhões de doentes em todo o mundo. A escolha também demonstra a qualidade da pesquisa desenvolvida por nós.”
Bocchi defende que o papel da medicina é explorar possibilidades terapêuticas com rigor, sem preconceito ou entusiasmo desmedido. E lembra que grande parte da farmacologia moderna nasceu exatamente de substâncias antes vistas com desconfiança. “Médicos e pesquisadores não podem ter previamente qualquer preconceito contra medicações ou drogas potencialmente úteis para o ser humano. Inúmeros medicamentos surgiram de drogas que pareciam inicialmente prejudiciais ao organismo”, diz, citando o caso emblemático do captopril, derivado do veneno da jararaca e hoje fundamental no tratamento da hipertensão.
Desde que passou a pesquisar o tema, o cardiologista se tornou um observador próximo da terapêutica canabinoide. Reconhece seu potencial, com algumas ressalvas. “Para aqueles que querem pesquisar os efeitos derivados da planta que o façam utilizando uma metodologia cientificamente reconhecida e com segurança.” Ele sabe, pela experiência acumulada, que a cannabis desperta expectativas e receios, mas insiste que o único caminho confiável para separar mito de evidência é o desenho científico adequado.
Ciência que dá gosto
O primeiro estudo que o aproximou da cannabis foi internacional, em parceria com pesquisadores de vários países, para investigar os efeitos do CBD em pacientes com miocardite – uma inflamação do músculo cardíaco – que pode evoluir para fraqueza do coração e insuficiência. “Terminamos um estudo internacional com vários pesquisadores ao redor do mundo em miocardite, e chegamos à conclusão de que o CBD reduziu efeito na espessura do coração”, relata. O grupo também observou tendência de melhora funcional em casos mais graves.
Outro estudo conduzido por ele no InCor está em fase final e busca medir a eficácia da cannabis na qualidade de vida de pacientes com insuficiência cardíaca. Avalia sono, fadiga, tolerância ao exercício e segurança. É o tipo de estudo que, embora menos visível ao público, pode alterar condutas clínicas, já que incide diretamente na experiência diária de quem convive com a doença. A partir desse trabalho, surgiu a motivação para o novo projeto voltado aos cuidados paliativos, fase em que sintomas como dispneia, insônia e ansiedade ganham intensidade e provocam sofrimento constante.
Bocchi reconhece que a cannabis ainda enfrenta resistência dentro da medicina, mas acredita que isso tende a mudar conforme novos resultados forem publicados. Para ele, o debate não deve ser moral, mas técnico. A cannabis medicinal, insiste, precisa ser avaliada como qualquer outra medicação: pela evidência, pela dose, pelo efeito e pelo risco. O impacto que esse novo estudo pode ter, se os resultados forem positivos, é enorme e objetivo na oferta de alívio real a uma população que convive com a etapa mais dura das doenças do coração.