
Henrique Fogaça sempre falou abertamente sobre o uso medicinal da cannabis por causa da Olivia, sua filha que utiliza dessa terapêutica há quase 10 anos. Mas nesta conversa com nossa editora Anita Krepp, ele abre pela primeira vez a porta da sua relação com a cannabis recreativa.
O Master Chef falou sobre o seu hábito diário de vaporizar a erva para relaxar no fim do dia, do jeito como a planta o ajuda a “baixar o fogo” do arianão que é, e de como a maconha cutuca suas ideias, seja para compor, cozinhar ou imaginar negócios.
Além de maconha, Fogaça revelou também ter intimidade com outra planta de poder: a ayahuasca, que define como uma “força bruta e divina”, que vai direto “na ferida”, e admitiu que duas tomadas foram suficientes para ajudá-lo a resolver traumas de infância que vinha carregando ao longo da vida.
E, claro, seguimos falando de medicinal, porque Olivia continua sendo o eixo da luta dele. Mas, nesta entrevista, Fogaça amplia o mapa abordando o uso adulto, destacando o caráter funcional e intuitivo da erva que o ajuda a organizar a mente hiperativa com a mesma disciplina com que organiza uma cozinha.
Você é um cara multitalento, com alguns deles de conhecimento público, como chef de cozinha, apresentador de TV, e outros talvez ocultos pra muita gente, como cantor, compositor e empresário da cannabis… Quais são os rituais que te garantem bem-estar e força pra equilibrar todos esses pratinhos ao mesmo tempo?
Para a gente ter muitos pratinhos, nós precisamos de braços, e graças a essas pessoas, braços direitos que eu tenho, eu dou conta. Agora, eu sou ansioso, hiperativo, caótico, durmo pouco, mas estou arrumando isso, porque o nosso sono é muito importante… Eu tenho trabalhado já há algum tempo com o óleo de CBD e THC para conseguir dormir de uma forma mais profunda, e também estou tomando o juba de leão, que é o cogumelo que eu já estou tomando há uns cinco meses. Tem me ajudado bastante na clareza dos pensamentos, na organização mental, na fadiga mental, enfim, porque o juba é uma medicina ancestral que atinge uma parte do cérebro que a gente não usa muito. Ele traz um benefício muito bom para a clareza mental e organização.
Tem uma galera entrando nessa do Juba de Leão e tem outros cogumelos funcionais rolando…
Sim, sim. É bom saber disso. É bom a pessoa se conhecer, tirar os traumas, a introspecção e aprender a conhecer você, porque muitos de nós não se conhecem muito. Às vezes tem traumas antigos que a gente carrega numa vida e o juba vai esclarecer. Ele vai esclarecendo as coisas, vai trazendo alternativas, na nossa cabeça para resolver esses traumas.
Fogaça, a gente sabe que a sua relação com o uso medicinal da cannabis já vem há bastante tempo, mas como foi o seu primeiro contato com a planta, que eu imagino que deva ter sido lá na adolescência ou no começo da vida adulta?
Foi na adolescência, em Ribeirão Preto. Eu tive o conhecimento da cannabis, mas coisa de adolescente… Tinha o conhecimento de um adolescente de interior. Mas agora, nessa parte, pode-se dizer, medicinal, ela sempre foi medicinal, mas hoje mais em alta, de uns 10 anos para cá, com a minha filha, Olivia, ela tem 19 anos e já está usando o óleo há 9 anos, um bom tempo, e a melhora dela é expressiva. Ela tem as suas limitações, ela não anda, ela não fala, porém, ela tem muito menos, quase nada, de epilepsia refratária, que ela tinha muito. Ela está mais curada, o olhar dela está mais atento às coisas. Antes do óleo, ela tinha aquele olhar vago, sabe? Eu olhava para a Olivia e ela, meu, fraquinha, olhando para o nada, sabe? Um vazio… E depois do óleo, as coisas foram mudando, e hoje é só quem tem em casa, alguém da família, a gente valoriza pequenas mudanças. A cannabis melhorou a vida da Olivia, principalmente como paciente, mas da família toda, de todo mundo, porque só quem convive sabe. A Olivia começou a usar cannabis há 9 anos e a melhora dela é clara. Contra fatos não há argumentos.
Isso do olhar mais centrado muita gente percebe nos filhos quando começa o tratamento com cannabis…
Não é porque ela não consegue se comunicar que ela não sabe o que está acontecendo no mundo. Por mais que ela não fale, ela não está vagando, ela está ali. Brinca com ela, ela olha, ela presta atenção, liga a televisão, ela ouve um barulhinho, está mais atenta às coisas.
Como foram acontecendo os ajustes de dose ao longo desses quase 10 anos de uso contínuo?
Vai ajustando a dosagem do óleo conforme ela vai crescendo, de acordo com o peso. Ela usou alguns óleos durante esses anos e hoje, inclusive, eu estou testando um outro óleo nela. Ela usava de uma associação, agora estou experimentando com uma outra, porque o céu é o limite. Às vezes, a mãe da Olivia tem um pouco de restrição, tem um pouco de medo das coisas, mas eu posso sonhar com a minha filha falar algum dia, falar “papai” ou alguma coisa… Então, cara, eu vou no extremo, mas com cuidado, porque quero cada vez mais a melhora da Olivia. A gente vai ajustando e vendo como ela está. Um tempo atrás, eu peguei um óleo mais forte, e ela estava ficando com muito sono. Então, fomos ajustando… Cada paciente tem a sua dosagem, o seu ajuste. A gente é igual, mas a gente é diferente, né?
Como foi a resposta do público e das pessoas próximas a você, a partir do momento em que você virou um ativista da causa canábica?
Ah, cara, a gente vai abrindo as portas, quebrando o preconceito que existe em cima da planta, porque ela não tem malefício nenhum. É uma planta que foi demonizada há 100 anos por uma questão racial. Quando a gente estuda, entende que a base disso está no ego do ser humano, em querer controlar o poder de uma planta, e aí criaram essa demonização em cima de algo que só faz o bem. Eu acho que a gente – todo mundo, você que já é ativista faz tempo e muita gente – tem que falar. Porque o grande preconceito que existe hoje sobre a cannabis, sabe o que é? Falta de informação. A pessoa não tem a informação correta. Mas o mundo tá diferente, a verdade vai aparecendo e a gente vai abrindo essas portas, aos poucos, com exemplos, com vivência. Então, o que uma pessoa preconceituosa, que não conhece a cannabis, vai me falar se eu virar e disser: “Olha aqui a minha filha, ela toma cannabis, olha como é que ela tá melhor. E aí, o que você tem pra me falar com o seu preconceito?”. Uma vez, um governador, acho que do Acre, foi lá no Sal, pediu uma foto e me disse: “Eu vejo que você faz essa coisa de cannabis aí, eu sempre fui preconceituoso com isso, nunca gostei disso aí, mas agora a minha mãe tá doente e ela tá usando”. O cara mudou completamente. A falta de informação é o que gera o preconceito. A hora que a informação é esclarecida e passada de forma verdadeira, como é, o que é que tem pra falar contra o óleo? Então é a informação ser cada vez mais passada de forma diferente e não distorcida, porque a mídia tem seus interesses, seus lobbies, a indústria farmacêutica também. A comunicação às vezes vem falha pra nego não entender mesmo e continuar nesse joguinho da Matrix que a gente vive.
Como foi que de ativista pelo uso medicinal por conta da Olivia, você se animou também a virar um empresário do cannabusiness?
Eu sou um instrumento da minha filha para poder ajudar as pessoas. O propósito que eu tenho hoje não começou agora. Há 10 anos eu carrego isso no peito, trago essa causa comigo porque, de certa forma, sou mesmo um instrumento da minha filha para levar a informação a famílias que vivem a mesma situação em casa e não têm acesso a esse tratamento. Meu propósito primordial sempre foi fazer com que as pessoas tenham acesso e consigam melhorar a qualidade de vida em casa. Com o passar dos anos, o mercado foi crescendo, e isso também foi me puxando pra dentro, naturalmente, porque agora a gente tem uma plataforma nas mãos, algo que nos permite ampliar esse alcance de um jeito mais estruturado. Essa plataforma se chama Komunidade. Estamos ajustando alguns pontos: o atendimento, problemas no site, coisas assim. É tudo muito recente, bem novo mesmo. A ideia é ser um ecossistema da cannabis com informação, vídeos, conteúdo, atendimento médico, acolhimento… enfim, trazer essa plataforma do mundo canábico para que as pessoas possam conhecer, entender exatamente o que é a planta, qual é a sua função e para que ela serve, uma planta que apresenta potencial terapêutico para mais de 40 patologias.
E aí, dentro da Komunidade, não é só sobre o uso medicinal, tem autocultivo, sementes, e tal…
Tem o universo todo canábico, porque eu acho que a gente falando de medicinal, que é o propósito fundamental, porém, o Cannabis é uma planta que tem área têxtil, área de construção, gera economia. Então, dá pra fazer muita coisa com essa planta tão maravilhosa.
Como você sente o universo da cannabis, com toda a sua diversidade de propostas e pessoas envolvidas?
O universo está crescendo cada vez mais. A gente até se encontrou rapidamente na ExpoCannabis, e você viu ali o tanto de estandes e o tanto de gente envolvida e lutando pela mesma causa. É um universo novo no Brasil, especialmente de 15 anos pra cá. Em outros países mais avançados, essa medicina já existe há 20, 30 anos. Então eu enxergo a cannabis como um benefício para a humanidade, porque a medicina é colectiva, ela é pra todo mundo. Existe a parte recreativa também e isso mostra justamente a diversidade da planta e das propostas. Só que quando o assunto é patologia, muita gente fala do CBD como suplemento alimentar. Mas para funcionar em condições médicas, precisa ter a presença de CBD e THC juntos, né? Porque senão o CBD isolado, em concentrações muito baixas, acaba ficando só no campo do suplemento e não no do tratamento. Então o que falta para quebrar o preconceito de verdade é informação correta, feiras acontecendo, vivência e conversa, porque a planta tem diversidade, mas o benefício, no fim, é humano e tem que ser acessível pra todo mundo. Eu tenho certeza que é algo muito bom para o mundo, que nós estamos trabalhando em conjunto, cada um no seu cantinho, mas todos pela mesma causa, as pessoas terem acesso, informação, e principalmente uma coisa que eu bato, questão de política. A gente paga muito imposto, eu que empreendo aqui, então, muita coisa. A gente não tem saúde, não tem segurança, não tem educação, então eu acho que a saúde é uma fatia que o governo devia prover. Eu vi o governador de São Paulo falando que o Instituto Butantan vai começar a fazer o óleo, e é isso que tem que ser feito, as pessoas têm que ter esse apoio dessa parte pública, aí trazendo saúde, a gente paga por isso, né, na verdade o sistema trabalha pra gente, né, porque a gente faz a roda girar, trabalhando, fazendo as coisas, enfim, então tem várias frentes aí, pra gente poder ajudar muita gente e trazer o conhecimento.
Fogaça, eu nunca te vi falando sobre a sua história com o uso adulto da maconha, e como aqui na Breeza a gente gosta de entender os hábitos lúdicos dos nossos entrevistados, eu também adoraria conhecer a sua história de uso recreativo.
Sim, como adolescente eu usei durante alguns anos, depois parei de usar, ia pra escola, faculdade, e agora, de uns anos pra cá, eu uso. Eu voltei com óleo, e tô fazendo o uso inalável, com vaporizador. O efeito da planta, seja inalado, ou tomado como óleo, é o mesmo, entendeu? Então, às vezes a pessoa fala, nossa, o cara fumando maconha, mas você sabe, na planta tem o CBD e o THC, que pode ser inalado ou usado como óleo… É esse tipo de informação que ainda é aquela coisa demonizada da cannabis e que aos poucos vamos passando a informação.
O que você gosta de fazer quando você vaporiza? Como e quando é esse seu momento?
No final do dia, depois que eu trabalho, volto pra casa. Aí continuo trabalhando, porque hoje a gente trabalha muito por WhatsApp, né? Mas, no momento, se eu for comer alguma coisa, eu levo o quarto pra dormir pra ficar tranquilo. Quando a gente vai acabar aqui, eu vou sair, vou fazer várias coisas. Vou voltar umas sete, oito horas pra casa. Nesse horário, eu faço meu relaxamento, depois a gente janta, depois assiste uma televisão, conversa e descansa. É mais ou menos assim a minha rotina.
E você é bem arianão, que chega até a dar pra sentir em você um fogo queimando. Você sente que a cannabis te ajuda a controlar esse fogo?
Ajuda bastante a trazer um equilíbrio. Mas vou te falar que o Juba, eu acho que ele é o grande protagonista dessa organização. A cannabis também me traz uma… é que depende também do nível de THC e CBD, porque tem algumas cannabis que me deixam um pouquinho mais eufórico, e outras plantas que me deixam mais tranquilo e tal. Como todo ser humano tem uma função aí, é ajustar, né? A função, a dosagem ideal, pode-se dizer, pra viver tranquilo.
Interessante que o fogo, esse elemento de transformação que tá muito presente, inclusive, no seu dia a dia da cozinha. Então, eu imagino que você deve ter uma intimidade com a transmutação de traumas e reset de hábitos, é assim?
Não, eu tive durante muitos anos resistências, mas quando a gente começa a abrir nossa mente, outra coisa que eu vou falar pra você, tá? Além do Juba de Leão, tem a ayahuasca, tá? Eu tomei algumas vezes a ayahuasca, e é algo bruto. Uma força bruta, uma força divina que tem que respeitar, só que ela traz informação pra você. Às vezes a pessoa ouvindo aqui acha que, nossa, papo de louco, né? Mas não é. A ayahuasca é uma medicina ancestral que vai direto na ferida. Então, por exemplo, eu tomei algumas vezes. Em duas vezes que eu tomei, eu consegui resolver traumas da minha infância. Você acredita, que coisa louca? Veio aquela informação pra mim, eu digeri, entendi, perdoei a situação. E depois teve uma outra coisa, uma outra vivência também, que eu resolvi uma outra questão. Então é poderosa a medicina, a nossa mãe Gaia, que é a nossa floresta, é poderosa demais. Quando o mundo foi criado, quando o nosso criador criou isso que a gente vive, já deu com tudo, tem a floresta, aqui tem abundância, a medicina, tem tudo.
Pra você que também é compositor, como a cannabis te ajuda criativamente?
Para criar, às vezes, compor música também, ter ideias de prato de comida… Eu tenho muitas coisas, né? Vou lançar uma marca de roupa agora que se chama Do It Yourself. Eu tenho há nove anos essa marca registrada. Agora, eu vou lançá-la na hora certa, com pessoas certas.
Tem cânhamo nessa linha de roupa?
Tem, da BW2, que é o pessoal da Bem Bolado. São pochettes, camisetas de cânhamo, que vêm da planta e vão ter na Komunidade também.
Então desperta a criatividade pra pensar nos pratos? Você já cozinhou com maconha?
Uma vez eu fiz um omelete com a folha.
Ah, com a folha, não é que você reduziu a manteiga?
Não, eu usei a folha. Foi meio in natura uma folha. Só pra testar ali.
Mas nem bateu nada, né?
Não, não, não. Mas, por exemplo, uma vez eu fui pra Amsterdã com o meu pai, ele tava com 80 anos, há três anos atrás. E aí nós comemos um cookie lá. E meu pai aquela coisa, ah, esse negócio não acontece nada. Falei, vamos comer um cookie. Nossa, a hora que eu vi ele tava andando de bicicleta, e ele rindo na bicicleta, pedalando. Eu falei, ô, louco, o que tá acontecendo? Ele, ah, não sei, não sei, e pedalando (risos). Mas a Komunidade, a ideia agora é mais à frente, ter uns quadros de gastronomia, eu cozinhando com cannabis, dando ideias de receitas.
Você tem um projeto, Marmita do Bem, que distribui marmitas pra pessoas em situação de rua. E a gente sabe que grande parte das pessoas que vivem nas ruas também desenvolvem questões com adição a substâncias, então eu queria que você contasse um pouco sobre como a sua visão sobre as drogas mudou a partir do contato com essas histórias?
Sim, sim. Vamos lá. A gente fez bastante disso na pandemia, porque os restaurantes fechando, muita gente passando fome na rua. Antes de toda essa história de pandemia, eu sempre levava comida na Cracolândia, levava sopa. Então eu conheço muita gente. Tem amigos meus que foram, morreram. Tem gente que tá presa, que eu conheço. Muitas pessoas que estão na Cracolândia vão lá por opção, tá? Que começa a dar uma cachimbada, não para, abandona a família e vira indigente lá dentro. Mas tem muita gente que, por decepção amorosa, por alguma coisa, vai pra rua, começa a beber, começa com a droga e fica num ciclo sem fim. É um fundo de poço. As pessoas que acabam deixando tudo pra trás por um vício. Isso tem que ser tratado, tem que ser cuidado, não tem a ver com o cannabis. Isso são outras drogas que…
É, na verdade, a cannabis pode entrar como mais um elemento no tratamento dessa pessoa.
Sim, a cannabis funciona muito bem, sim. Tem o Pastor Rica, que atua na Cracolândia com um projeto chamado A Pedra Pra Rocha. Eu ajudo ele. Ele tem uma clínica em Ribeirão Pires, onde quem decide se tratar sai da Cracolândia e vai pra lá. A pessoa fica ali três, quatro ou cinco meses e segue o tratamento que também inclui a cannabis, justamente para reduzir a compulsividade e aquela compulsão que a pessoa carrega, pra tirar essa necessidade constante. Então o propósito é esse: tirar a compulsividade, ajudar a organizar o cuidado e dar um suporte a mais no processo de recuperação.