
Imagina ser apelidado de “Ganjaman” na adolescência em plenos anos 90, quando falar em ganja no aeroporto ainda dava frio na barriga e tapa na cara da polícia era quase rito de passagem de maconheiro. Daniel Ganjaman carrega esse apelido desde os 16 anos, quando dois amigos, inspirados num disco do Lee Perry, batizaram aquele moleque que “tava sempre bolando, dichavando ou fumando” e que hoje é o produtor que assina alguns dos discos mais importantes da música brasileira.
Maconheiro assumido, ativista antiproibicionista e um dos cérebros sonoros do Planet Hemp, Ganjaman viu a cannabis deixar de ser piada criminalizada para virar pauta normalizada, mercado bilionário e medicina contra crise de ansiedade — legalizada para poucos, os que têm dinheiro, claro.
Nessa conversa com Anita Krepp para a Breeza, Ganjaman fala dos corres que fazia na biqueira, dos baseados engolidos para evitar flagrante, de como foi parar de fumar maconha por um ano e critica a “maconha medicinal de prateleira VIP”. No papo, ele ainda aborda a hipocrisia da sociedade, a violência de Estado, a estética canábica e o desafio de continuar produtivo sendo, nas palavras dele, “peão de obra de arte e mestre de obra-prima”.
Daniel Ganjman, como foi passar a vida com esse apelido ervoafetivo? Porque, hoje em dia, “ganja” não assusta ninguém e é até hype. Mas, antigamente, eu imagino que sim, assustava.
Cara, eu tenho esse apelido desde moleque. Desde 16 anos, 17 anos. Quem me deu esse apelido foram dois amigos que a gente andava muito junto, a gente tinha até uma banda junto na época. E a gente ficava muito garimpando disco, indo em loja de disco, olhar e tal. E aí, num disco do Lee Perry, tinha o nome de uma música chamada Daniel. E a música na sequência chamava Ganjaman. E aí, eles leram isso e falaram, ah, Daniel Ganjaman. Eu era já maconheiríssimo, moleque louco. Risos. Aquela coisa de molecada, de fumar todos os baseados possíveis. Então, os caras sempre falavam, pô, toda hora que eu olho pra vocês, você está ou bolando, ou dichavando, ou fumando. Risos. E aí, juntou uma coisa com a outra. Foi muito louco porque foi um apelido mesmo de moleque, e eu acabei assumindo isso porque começaram a me chamar de Ganja, todo mundo, assim, do rolê. E não tinha nem como eu me dissociar desse nome, mas era uma coisa meio maluca. Ao mesmo tempo, no Brasil não tinha muito essa cultura, o nome Ganja não estava tão difundido como hoje em dia, então, passava batido. As pessoas não sabiam muito bem o que era, a gente tá falando dos anos 90. Mas eu lembro de uma parada que me chamava a atenção. Porque eu virei o Ganja, e aí, quando a gente começou a fazer turnê internacional, isso começou a chamar a atenção, foi muito engraçado, eu lembro, no aeroporto os caras gritando, Ganja! Risos. Hoje a gente está vivendo um momento em que falar ganja no aeroporto nem é tudo isso, mas a gente está falando de um momento em que a criminalização da parada ainda estava muito vigente, então, era uma coisa engraçada. Eu acho que esse apelido mais abriu portas do que fechou, porque criava diretamente um lugar de identificação com as pessoas, isso foi fundamental até por conta da cultura carábica como um todo, pensando que o lance da Ganja realmente vai muito além da identificação de fumar um. Quer dizer, isso acaba abrindo um leque de outras identificações da cultura toda que engloba a planta, como a parte musical, a parte política, social. Eu lembro quando a gente foi tocar em Nova Iorque, por exemplo, que eu precisava de um pedal emprestado de um guitarrista de uma banda que ia tocar depois. Eu precisava de um pedal emprestado e aí eu falei com o guitarrista. ´Pô, será que você pode me emprestar?´ Aí ele falou, como é seu nome? Aí eu falei, Ganja. Aí ele, ah, perfeito. Risos.
Dos anos 90 até agora, mais de 30 anos passaram de você como Ganjaman e como um ervoafetivo. Como é que você tem percebido essa evolução da cannabis dentro da sociedade brasileira e pra onde você acha que estamos indo?
É nítido que hoje em dia o olhar da sociedade pra maconha já ocupa um outro lugar. Acho que o Planet Hemp, estando presente agora nesse momento com o Planet e todo o debate no lugar onde ele se encontra, eu acho que é muito legal. A gente vê muito ativista do rolê canábico vindo falar com a gente, falando, cara, vocês não têm muita dimensão do quanto foi importante o Planet Hemp ter colocado esse debate na mesa de jantar. As famílias começaram a questionar se aquilo era justo, não era, se maconha realmente tinha esse papel tão nocivo, comparativamente com o álcool… Eu tenho 47 anos, acho que todo mundo que é maconheiro da geração contemporânea à minha, todo mundo já foi esculachado pela polícia. E isso eu estou falando de um lugar de privilégio, de quem sempre morou em bairros de classe média, sempre teve num lugar distante do alvo principal da força de repressão do Estado, que é a periferia. Mas mesmo pessoas que gozavam desse privilégio como eu e acho que todo mundo da minha geração já apanhou da polícia por causa de maconha. Tomar tapa na cara, diversas vezes. Já botou na minha boca para engolir, para não ter flagrante, para o cara também não ter que fazer nada, enfim. Eu era um moleque que vivia muito na rua. E vivia fumando muito na rua e fui pego inúmeras vezes com maconha, ou indo buscar, fumando… Então, se você for ver, a gente teve um avanço. Claro, a legalização é extremamente seletiva. Eu costumo dizer e penso que, a maconha já está legalizada há um bom tempo para quem ocupa esse lugar de privilégio. E ela dificilmente pode ser considerada descriminalizada para quem não ocupa esse lugar de privilégio, ainda. Embora tenha tido todo aquele debate no STF e tal, a gente sabe que um baseado pode complicar a vida de um moleque preto de periferia para sempre.
Enquanto um playboy que, pô, estiver fumando um, não vai ser preso jamais, entendeu, o cara pode ser pego até com quantidade, a gente sabe como é que isso funciona. Também não quero me complicar aqui, mas a gente sabe como é que as coisas funcionam. Acho que a coisa caminha, infelizmente, para a lógica mais neoliberal da legalização, que é como aconteceu mundo afora, sobretudo nos Estados Unidos. As pessoas perceberam que tinha muita grana envolvida, a possibilidade de uma receita de impostos brutal, porque a cannabis entraria, talvez, no mesmo lugar onde está o cigarro, a bebida, que são substâncias que têm uma alíquota altíssima de imposto. A gente tem o debate da cannabis medicinal, que cumpre o seu papel, mas eu detesto a ideia de cannabis medicinal, acho que dividir… Ninguém usa de forma recreativa. Quem fuma tem um lado espiritual, filosófico, medicinal, artístico, saca? Se a pessoa não fumasse, provavelmente ela iria estar passando por algumas coisas que a maconha ajuda a aliviar. Tem um lado ritualístico e até medicinal mesmo, filantrópico, talvez. Todo mundo que fuma está de alguma forma fazendo um uso que faz bem para a pessoa, a partir desse princípio, não dá para a gente falar que é simplesmente recreativo. Recreativo é jogar videogame.
Você tem usado umas gotinhas além de fumar?
Sim. Sim, eu faço um tratamento com CBD, com full spectrum, tem THC. Me ajuda muito a desviar da ansiedade, muitas vezes. Às vezes é necessário, eu já tive crise de ansiedade, porque a gente vive numa realidade que é uma pandemia muito séria de depressão, ansiedade e tal, todo mundo acaba ficando um pouco sujeito a isso. Eu sou uma pessoa que questiona muito o momento que a gente está vivendo em termos de quem está ditando os caminhos da humanidade, um papo filosófico mais amplo. Acho que a gente está vivendo um momento muito questionável, a forma com que a gente socializa hoje em dia e o filtro que essas redes digitais acabam impondo, o papel que isso acaba cumprindo na nossa socialização e como a gente está suscetível a umas cartilhas que estão estabelecidas pela programação de pessoas que no final das contas tem um impacto filosófico gigantesco para a humanidade e quem está ditando a regra disso são pessoas que estão cagando para a filosofia. Isso é um negócio que me deixa meio desesperado. E eu acho que poder fazer o uso da cannabis de diversas formas, na base de óleo ou fumando, o acesso que a gente tem hoje também à maconha de bastante qualidade. Na Califórnia, é impressionante quando você chega em uma loja e alguém vai te atender perguntando qual é a demanda que você tem. É um negócio muito civilizado você entrar em uma loja e alguém te atender sabendo de quais são as suas demandas e atendendo essas demandas da forma mais acurada possível. É muito selvagem o que a gente vive aqui no Brasil ainda, acho vergonhoso, acho que boa parte da América do Sul toda já está bem mais avançada do que a gente, mas a gente sabe que esse é um debate que faz parte de algo muito maior que é toda essa violência que a gente está vivendo. A nossa existência se transformou numa afronta para um determinado grupo de pessoas e talvez isso sempre tenha sido dessa forma, mas agora essas pessoas têm muita liberdade. E isso é horrível, é a coisa da liberdade do ir e vir e da liberdade individual que se transformou num dilema, num desafio e, sei lá, eu acho que o papo de proibição aqui no Brasil passa muito por esse lugar.
Nessas crises de ansiedade você chegou a fazer uso de psicodélicos?
Na verdade, eu não fiz uso de psicodélico com esse intuito. Já pesquisei bastante sobre isso, de ler, curioso mesmo, pesquisar no sentido de curiosidade e acho muito interessante, todos os estudos apontam para algo realmente revolucionário, mas tem um lobby da Big Pharma aí muito presente para fazer com que isso não prospere.
É meio nítido que algumas alternativas possíveis não são do interesse de quem está dominando um mercado bilionário e que também acho que é uma ótima forma de exercer um domínio, uma manipulação das pessoas. Não fiz uso com esse propósito, já fiz uso de forma recreativa, quando moleque eu adorava cogumelos, e hoje em dia
não é uma coisa que eu faço uso no meu dia a dia, mas vejo muitos amigos que usam microdose, etc. Acho bem interessante, mas na correria do dia a dia, nunca parei para cogitar isso para o meu uso pessoal.
Alguma sessão com cogumelos foi especialmente simbólica pra você?
Tem uma coisa visual e sensorial que eu acho muito bacana, quando eu era mais novo, eu tinha muito uma curiosidade de provar tudo que aparecia.. Só que isso foi uma época antes de aparecer muitos desses sintéticos que tem hoje em dia, era aquela coisa de moleque no final dos anos 90, que a gente tinha pouco acesso, mas nessas eu experimentei meio que tudo que rolou, tudo que tinha disponível. E foi bom de certa forma, porque eu também, muito cedo, falei, cara, nada disso é para mim e identifiquei os riscos, coloquei também metas na minha vida sobre onde eu queria chegar e o lugar que eu estava ocupando dentro de uma cena que gera riscos de estar trabalhando com música, e se você não tiver disciplina, a gente conhece muitos casos de pessoas que desandaram e tal. Então, para mim, era muito evidente que não era aquele caminho que eu estava querendo trilhar. Foi bom que eu experimentei tudo muito cedo, mas também parei com tudo muito cedo e fiquei só tomando uma cervejinha, um baseadinho e beleza, sacou?
Voltando para esse lance da cultura canábica, hoje em dia tem muito uma rebordosa dessa estética Bob Marley. E aí eu fico pensando quais são as outras culturas ou as outras características culturais que combinam com a maconha e que podem nos levar para além dessa coisa da bandeira do reggae?
Olha, eu acho que talvez a bandeira do reggae é a coisa que mais me agrada dentro de toda essa estética canábica, porque eu vou confessar que eu tenho uma certa resistência à estética que tentam implementar dentro dessa coisa da cannabis. Muitas vezes eu entro nas lojas, eu olho e parece um trem fantasma, um negócio meio de Halloween, não é muito a minha onda. E eu acho que a cannabis tem uma coisa estética que é muito legal. A folha é linda, a planta é linda, tem toda uma possibilidade de explorar isso de uma forma que eu acho incrível. No reggae é onde pra mim tem um lado afetivo muito forte, muito intenso, mas claro, é muito fácil de você também criar estereótipos em cima disso, que é um negócio que joga contra, aquele maconheiro estereotipado, padrão, que ouve reggae, que fuma maconha, que é chapado… Mas, como eu sou um fã de reggae maluco, não tem como você dissociar a cultura do reggae da ganja por conta de todo o histórico e todo o uso cerimonial que os grandes nomes do reggae fizeram.
Hoje em dia como é que é a sua sesh preferida? Você tem esses aparatos tecnológicos, puffs e tal, ou você gosta mesmo é de enrolar um baseado com um filtro de papel?
Eu gosto mesmo é de enrolar um baseado com filtro de papel. É o que eu gosto de fazer. Não gosto muito desses concentrados… Eu fumo um baseado hoje em dia com mais responsabilidade do que eu já fiz em outros momentos da minha vida que eu fumava o tempo inteiro. Acordava e fumava um, eu meio que fumava pra dar larica e fumava um depois pra digestivo… Hoje em dia pra mim ocupa um outro lugar, eu sei os momentos que que não é legal eu estar chapado, eu trabalho com uma parada que é muito técnica, mixagem, por exemplo, é um negócio muito técnico. Com um baseado pra mixar, até pode ter um lance no ouvido que é interessante, mas a parte técnica é terrível, você fica confuso, aí você liga um negócio que não era pra ligar, e aí às vezes você perdeu o tempo. Pra mim não funciona, eu prefiro, terminou, aí eu vou lá, dou uns pega no meu baseadinho, escuto, tal, dou uma volta no quarteirão ouvindo num fone, esse pra mim é o meu ritual hoje em dia, não é uma coisa de eu acordar e fumar um, eu entendo muito melhor quais são os momentos que isso vai me fazer bem e quais são os momentos que isso vai me atrapalhar, eu acho que tem uma coisa do maconheiro, de levantar uma bandeira de que maconha faz bem pra gripe, às vezes eu vejo um pouco isso e me incomoda. Se você for me perguntar o cirurgião que vai fazer uma cirurgia em mim, se eu quero que ele fume um baseado antes de fazer essa cirurgia, eu vou dizer que não, risos. Realmente me incomoda um pouco essa coisa da maconha como uma panacea. Eu sei que comecei a fumar muito cedo, e não recomendo ninguém fumar com 14, 15 anos de idade, não é legal, não faz bem, atrapalha muito na sua produtividade, fora as questões mais médicas e científicas, que são comprovadas, que, pô, você tá ali em formação, isso vai te atrapalhar na tua vida, cognitivamente isso vai te trazer questões mais adiante, então eu super desestimulo a molecada a fumar muito jovem, acho péssimo. Até por conta do debate estar mais evoluído, isso tudo tá mais na mesa.
Como rolou essa mudança de percepção a respeito do seu uso e modificar os hábitos?
Quando eu tive crises de ansiedade há um bom tempo atrás, 12, 13 anos atrás, eu percebi que a maconha era um gatilho grande pra isso, que me despertava uma ansiedade muito forte. E isso é muito comum, principalmente com quem fuma há bastante tempo. É comum as pessoas terem crises de ansiedade depois de um tempo fumando. Não vai acontecer com todo mundo, mas acontece. E eu, ao perceber isso, fiquei mais de um ano sem fumar maconha. E eu lembro que foi engraçado, porque, porra, eu era o Daniel Ganjaman e as pessoas falaram, caralho, você parou de fumar, como assim? E a maioria dos meus amigos ficavam meio tirando sarro, brincando, e eu lembro que algumas poucas pessoas falaram pra mim, cara, você vai ver como isso vai te fazer bem, como você vai olhar as coisas com uma outra perspectiva, você vai entender melhor a sua produtividade. E foi, de fato, o que aconteceu. Depois que eu fui voltando a fumar aos poucos, eu percebi que ava muito escravo da parada. Tinha uma coisa que me chamava a atenção, que era o fato da gente fazer turnês na Europa numa época em que a a descriminalização e regulação não tão avançada, e aí fazer turnê na Europa é ficar dois dias em cada país, então, de um país pro outro, você não pode levar um baseado. A gente chegava na Europa, a primeira coisa que a gente falava: onde a gente vai arrumar um baseado? Aí, na cidade que a gente estava, a gente arrumava um baseado e tinha que fumar todo aquele baseado pra poder ir pro próximo país. Aí, chegava nesse país, onde a gente vai arrumar um baseado? E isso era um negócio muito… Era uma missão, era um puta saco, no final das contas. Hoje em dia é muito mais tranquilo, porque todo lugar a que você vai, esse rolê civilizatório já tá um pouco mais difundido, então mesmo os lugares que não são plenamente regulados e legalizados, é muito mais tranquilo de você conseguir, mas eu lembro
de 20 anos atrás ficar um mês na Europa e ficar um mês correndo atrás de maconha, e isso não é uma coisa agradável pra ninguém, um negócio que ocupava um tempo que a gente não precisava estar gastando com isso.
Você tem planos de negócios nessa indústria?
Não, não tenho planos, não. Eu acho muito importante a comunicação. Acho que o trabalho de comunicação sobre o universo da cannabis é fundamental, quanto mais a gente puder trazer esse debate vai ser muito saudável. Tem algo que é muito importante, que é a questão de violência urbana e violência pública, a violência do Estado, que é muito direcionada à farsa da guerra às drogas, algo que tá muito calcado numa estrutura racista. Então, acho que, pra mim, esse é o lugar que preocupa, que é algo que a gente precisa olhar sempre com muito cuidado. Eu não quero que legalize porque eu quero fumar um. Eu já fumo, isso pra mim não é um problema. Mas eu acho que o fato disso ser um problema pra milhares de famílias no Brasil todo é algo que a gente tem que olhar com muito cuidado. A raiz disso tudo me incomoda profundamente, é surreal que isso não incomode as pessoas nesse mesmo lugar, porque é de uma hipocrisia gigantesca. E quando eu penso nessa coisa do mercado em torno disso, eu sempre olho com um certo receio. O debate da maconha medicinal, pra mim, tem esses dois lados, porque acaba meio que colocando num véu de normalidade essa coisa do uso medicinal, sendo que, na verdade, pra mim é tudo a mesma coisa. E, basicamente, você tá colocando dentro de uma prateleira de privilégio muito bem definida, porque maconha medicinal é cara pra cacete, e você continua criminalizando as pessoas que sempre foram criminalizadas e sempre sofreram com a violência em torno disso. Não só a violência do Estado, mas a violência do crime como um todo. Quando era moleque, eu tinha que subir a biqueira pra pegar maconha, não tinha outro motivo pra eu estar ali, e numa dessas, vários amigos meus morreram por ter um convívio num ambiente que não necessariamente eles teriam que ter. E isso, tô falando mais uma vez, nesse lugar de privilégio, agora tem gente que nasceu dentro de uma realidade onde você não tem escolha, você não tem escapatória. O debate sobre legalização, regulação e comercialização da maconha como um bem de consumo, commodity, o que quer que seja, isso tem que passar por esse lugar, porque continua acontecendo um genocídio nas quebradas do Brasil. É tudo em nome dessa guerra às drogas que não existe, criam um subterfúgio pra chegar lá atirando, é racismo estatizado. (A entrevista aconteceu antes da chacina de 28 de outubro no Morro do Alemão).
Imagino que você já deva ter recebido convites de marcas canábicas…
Algumas coisas já rolaram e, bom, eu faço parte do Planet Hemp, é óbvio que a gente levanta essa bandeira. Acho que o Planet pavimentou muito desse debate que tá ocorrendo agora, mas é também uma banda, a gente faz show, tem público, cobra bilheteria, quer dizer, isso também faz parte um pouco desse lugar. Eu não vou ser hipócrita aqui de dizer que a gente também não ocupa esse lugar. O Planet tem parcerias com marcas, tem desenho meu em seda por conta do Planet, então, de certa forma, já faço parte dessa indústria. Mas eu fico um pouco nesse lugar de um certo conflito interno, porque eu acho que é muito importante que isso esteja acontecendo, que o mercado canábico esteja gerando frutos para as pessoas, mas eu queria muito que gerasse frutos pras pessoas certas, queria muito que as pessoas que sofreram a vida inteira com essa proibição pudessem ter acesso a esse bônus, e não ficassem só com um ônus, que no final das contas é muito isso que acontece, muita gente que está envolvida no mercado é a parcela mais privilegiada que usava maconha a vida toda. Eu fico muito feliz quando eu vejo que iniciativas desse mercado partem da galera mais periférica, que teve algum envolvimento com isso em algum momento da vida e que agora está podendo desfrutar também desse ambiente mais civilizado.
Ganja, eu sei que você já fumou pra subir no palco, fumou no palco e tal, mas é uma coisa que você não faz mais. Conta uma história dessa época de acender um baseado em cima do palco?
Putz, foram muitas vezes. Eu lembro uma vez que quando a flor não era muito difundida ainda e a gente fumava majoritariamente prensado, vindo do Paraguai e tal, e aí eu lembro que a gente fumou isso foi com o Planet, a gente fumou um bazeadão antes de subir no palco e eu lembro que eu entrei completamente chapado e na terceira música, eu me dei conta que eu tava no palco e tava tocando e eu falei, caralho, tipo, deu um reset, a parada bateu de um jeito muito agressivo, risos. Mas hoje em dia uma coisa que eu faço, eu não costumo fumar antes de tocar, mas eu levo sempre um baseadinho pro palco, aí quando eu vejo que tá tudo sob controle, que tá tudo acontecendo, eu fumo meu baseado tranquilo, é minha zona de conforto, sei que tá tudo funcionando, porque meu equipamento é muita coisa, então eu preciso, não quero subir chapado e falar, ih, fudeu, o que eu tenho que fazer aqui? Risos. Eu preciso estar com tudo muito organizado, tudo controladinho.
Tem uma lenda urbana, de que maconheiro é tudo lesado, preguiçoso, mas tá aí você pra provar o contrário. A maconha nunca te colocou nesse lugar de preguiça ou chegou a rolar e você teve que desenvolver uma técnica pra, ao mesmo tempo, poder continuar sendo maconheiro e produtivo?
Eu posso afirmar com bastante segurança e tranquilidade que a maconha nunca me colocou nesse lugar de preguiçoso. A maconha, pelo contrário, eu acho que me desafiava a sempre ser mais produtivo, mas, de certa forma, acho importante ressaltar que o trabalho que eu exerço, muitas vezes, em boa parte do trabalho, ele é um exercício de criatividade, de socialização, de compreensão das pessoas ao redor, de
compreensão do que tá na cabeça do artista. Então, eu não posso afirmar que isso vai servir como regra pra um engenheiro civil, por exemplo. Talvez não, mas talvez sim também. Acho que cada um precisa entender como o uso impacta tanto positivamente quanto negativamente, porque você tem esses dois impactos e é importante você administrar isso de forma responsável. Mas nunca me bateu preguiça. Preguiça é uma palavra que pra mim é meio distante do vocabulário. Eu tenho preguiça de coisas, preguiça de…
De pessoas…
Isso eu tenho bastante, risos. Mas pra trabalho, pra botar a mão na massa, eu trabalho com algo que é um privilégio muito grande. Porque o trabalho que eu faço, o fato de eu ter conseguido me estabelecer dentro de algo que pra mim é tão importante, acho que música tem um papel tão fundamental, tem um poder de transformação enorme, e estar trabalhando com isso me faz sempre querer estar sempre produzindo em todos os sentidos.
Você é um cara que padece de falta de tempo crônica. Como é que você aprendeu a equilibrar o seu bem-estar? Hoje em dia, o seu bem-estar, ele se compõe de quais elementos?
O fato de eu trabalhar com algo que eu gosto, com algo que pra mim é extremamente satisfatório, ele ocupa um pouco esse lugar de conhecer pessoas. Tem uma coisa no meu trabalho que é muito interessante, o fato de eu ter que ficar muito imerso num projeto durante um período pré-determinado, de dois, três meses, e é sempre com um grupo muito específico de pessoas. Então, quando eu tô ali, de cabeça nisso, aquelas pessoas são as pessoas do meu convívio do dia a dia. E quando termina aquele trabalho, eu vou pra um outro trabalho, e aí é um outro grupo de pessoas, é um outro projeto, é uma outra mentalidade, eu tenho que virar uma chave, muitas vezes, do que que tá acontecendo pra poder dar vazão às necessidades daquele projeto, porque cada um tem uma necessidade diferente. Nesse momento, tô num quarto de hotel em Goiânia, amanhã vou estar em Brasília, semana que vem vou estar em Fortaleza, quer dizer, a minha vida também tem esse lado que eu acho que é bastante bacana de poder estar com pessoas, conhecer culturas, eu gosto muito de entender qual é o rolê de cada lugar, e isso passa pela gastronomia, passa pelo sotaque, passa pelas gírias, passa pelo jeito que as pessoas se vestem, a temperatura de cada lugar, obviamente a sonoridade, que muitas vezes tá conectada com tudo isso, isso é o que pra mim é interessante e é o que também compõe um pouco do meu repertório pra poder levar um pouco de cada tempero desse pra um outro próximo trabalho que eu vou realizar.
Mas óbvio, a coisa de tirar férias é um problema mesmo, porque sempre vai aparecendo trabalho legal, sempre vai aparecendo coisa legal pra fazer, e eu acabo emendando uma coisa na outra, é um negócio que é um pouco exaustivo, mas ao mesmo tempo também é bem compensatório.
Você tá em plena turnê de despedida do Planet, como é que tem sido?
Tem sido bem legal, tem uma coisa impactante, o Planet Hemp é uma parada muito impactante ao vivo, porque o Planet não traz só a sonoridade, mas o fato de carregar todo esse discurso e todo esse legado que vai permanecer. Uma coisa que é muito legal no rap é o fato dos MCs estarem muito conectados com o que tá acontecendo naquele momento, e não ficarem tão presos assim ao que já aconteceu e… Algo que, por exemplo, no rock, que reverencia muito o passado, e o rap olha muito pra frente, olha muito pro futuro. No Planet, todo mundo tem os seus projetos, seja uma carreira solo, seja um projeto com um trabalho que já desenvolve, e de certa forma é fácil, depois de 30 anos, o discurso ficar um pouco repetitivo. Você precisa ter uma renovação pra que aquilo não esbarre em algo que vire só uma autorreverência, e antes disso acontecer, a gente decidiu acabar. É muito louco, muita gente também comenta, pô, vocês estão num momento ótimo, ganhou o Grammy, ganhou o Prêmio da Música, o último disco é incrível, super criativo, vocês vão acabar nesse momento que parece o auge da banda, mas é legal também ter essa sabedoria, saber a hora de parar, até porque a gente vai continuar trabalhando junto, vai continuar fazendo música junto, vai continuar frequentando os ambientes um do outro, a gente é amigo.
E Ganja, então, dá uma palhinha pra gente, assim, dos seus projetos pra 2026, tem alguma coisa que você vai, que você já pode contar?
Eu trabalho muito sob demanda, tem algumas coisas que já tão rolando, projetos que eu tô já fechando pra produzir, mas no geral não muda muito do trabalho que eu venho desenvolvendo há muitos anos, que é produzir artísticas, produzir banda, produzir shows, e eu também tô querendo criar as minhas demandas próprias, e queria muito ter tempo pra isso, pra poder fazer um projeto meu, só que eu fico um pouco de vergonha, porque eu falo isso há tanto tempo, já falo isso há anos e nunca dá tempo, sempre tem coisa legal pra caramba aparecendo, eu falo, pô, eu não posso parar pra fazer o meu projeto agora, sendo que tem esse puta projeto legal aqui que eu preciso fazer. Iinfelizmente eu não tenho ainda a segurança financeira de poder parar e falar esse ano eu vou focar no meu trabalho, saca? Se eu fizer isso, os boletos vão continuar chegando e eu não vou ter como pagar, então eu fico nesse lugar também, de, como diz o Black Alien, peão de obra de arte, mestre de obra-prima.
Qual é o elemento principal pra essa sua mão de Midas?
Já ouvi isso de bastante gente, óbvio que é algo que me deixa bastante lisonjado e envaidecido também, mas eu acho que uma coisa vai abrindo espaço pra outra, os rumos que a gente dá pra nossa vida, as pessoas que a gente vai conhecendo, uma pessoa que te apresenta outra pessoa, que te apresentam um olhar, que te apresenta uma sonoridade, isso eu acho que é fundamental pra você conseguir estabelecer uma trajetória que vá fazendo sentido sem seguir um roteiro, uma cartilha, ou até um planejamento tão a longo prazo. Eu sou muito de entender o que tá acontecendo naquele momento e ir tentando absorver aquilo de forma a dar sentido olhando ao redor, pro panorama atual, porque eu acho que música tem muito isso. Disco é um recorte daquele momento do artista. Gosto muito de olhar pras coisas considerando sempre o que tá acontecendo no mundo, no nosso momento. Isso ajuda muito a olhar pro que tá acontecendo de mais legal. E tem a puta sorte dessas pessoas também olharem pro trabalho que eu faço e verem um ponto de conexão. Vários artistas que eu admiro há muito tempo já vieram conversar comigo pra trabalhar, e vários deles eu acabei não trabalhando porque eu entendi que, pra mim, o ponto que é muito importante, que é crucial, que é fundamental pra eu entrar num trabalho, premissa básica mesmo, é o quanto eu vou poder colaborar com o resultado daquilo, e muitas vezes eu olho pra um artista que é fenomenal, fantástico, mas se eu não vejo qualquer possibilidade de eu colaborar com o resultado final, eu prefiro produzir um artista que eu não sou nem tão fã, mas que eu sei que o resultado vai ter um impacto grande praquele artista. Eu sei que aquilo vai ser importante, eu sei que aquilo vai ajudar, que a junção do meu trabalho com o daquele artista vai, de fato, gerar frutos, o mais importante é isso. Tem uma pergunta comum que me fazem em entrevistas, quais são os discos que você gostaria de ter produzido? Se eu escolher um disco que eu acho maravilhoso, se eu tivesse produzido, ele não seria aquele disco, ele seria outra coisa. O In the Key of Life, do Steve Wonder, pelo amor de Deus! O bagulho é uma obra-prima, se eu tivesse metido a mão ali, provavelmente teria estragado. Gosto muito quando as pessoas ouvem e falam, cara, pô, ouvi esse disco e aí não sabia que você tinha produzido. E quando eu vi que você produziu, eu falei, puta, pode crer, tem um pouco da sonoridade que você costuma implementar. Isso é uma coisa que é legal, de colocar uma identidade e que não seja algo do produtor entubando algo que ele acha que é importante pro artista. O papel do produtor é fazer com que o artista chegue onde ele quer chegar. Eu não gosto da ideia de produtor que dá cara pra artista, o papel do produtor é tirar dali todo o potencial.
Mas isso deve ser difícil, porque você já tem um tamanho…
Não vou mentir que em alguns casos isso aconteceu, mas eu acho que isso é uma coisa de leitura também do que é canção. Acho que o mais importante é respeitar a canção. Com o Criolo aconteceu bastante isso, tinha músicas que ele tinha só a melodia e ele nem imaginava o que iria virar aquilo como resultado. Mas quando você ouve Bogotá, você fala, pô, essa música tá do jeito que ela tinha que ser, ela não deveria ser outra coisa a não ser isso. Por mais que tenha sido, obviamente, um olhar meu e do Marcelo Cabral de colocar ali uma sonoridade que a gente achou que tinha a ver com a canção, isso foi sendo desenvolvido muito em comum acordo e foi tomando forma de um jeito… O caminho pra chegar nisso foi muito orgânico. Muitas vezes você vê papo de produtor que molda artista, que pega um artista que era uma coisa e vira outra. Isso eu sou totalmente contra, acho que não é por aí. Quando o artista tem demandas que são diferenciadas do que ele costumava fazer, é uma coisa. Agora, quando um produtor fala, hum, acho que isso aqui, você tinha que cantar isso. Pô, aí não. Não é o que eu acredito.