
Giovanna Nader fala de plantas do mesmo jeito que fala de política, corpo e clima, sem separar uma coisa da outra. Comunicadora e criadora do projeto O Tempo Virou, ela vive há anos no cruzamento entre arte, meio ambiente e ativismo, e é desse lugar que defende o uso consciente da cannabis, das microdoses de psilocibina e das medicinas da floresta.
Nessa conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, Giovanna descreve a cannabis como parte da sua rotina de bem-estar e fala sobre a urgência de tratar o tema com menos medo e mais informação. Questiona o atraso do Brasil diante de uma indústria canábica global, aponta o cânhamo como solução concreta para a moda sustentável e volta a ideia de cura como algo coletivo, não só individual.
Diretamente da COP30, ela vai discutir clima, cultura e ancestralidade. Nada místico demais. Nada técnico demais. Só a tentativa de reconectar as coisas no coração da Amazônia. Afinal, tem lugar melhor?
Gio, como você enxerga as drogas hoje?
Olha, é um tema muito complexo, sobre o qual eu não tenho um entendimento tão profundo, mas posso falar a partir do que me atravessa. Se a maconha fosse legalizada no Brasil, estaríamos em outro estágio da chamada Guerra às Drogas e, inclusive, em um outro cenário econômico. Acho muito importante falar sobre a legalização da cannabis também sob esse aspecto. Imagina, temos 12 horas de sol intenso por dia. O estado da Bahia, por exemplo, seria riquíssimo. A cannabis tem um enorme potencial de regenerar o solo entre uma plantação de soja e outra. Quando se planta soja, é preciso deixar o solo descansar por cerca de quatro meses antes de replantar. Já foi comprovado que uma das maiores fontes de regeneração desse solo é justamente a cannabis. Por isso considero essa proibição uma guerra medíocre, retrógrada, sustentada por um preconceito muito enraizado, especialmente quando vemos países do mundo inteiro legalizando a maconha. Além disso, há a questão do encarceramento em massa. Mães e mulheres são presas por anos apenas por estarem com pequenas quantidades de maconha. É absurdo ver essas mulheres privadas dos filhos por causa disso. Falo especificamente da maconha porque é algo que conheço mais de perto. Sou usuária de cannabis medicinal, e ela me faz muito bem. Consulto um médico canábico, recebo minha receita e compro parte dos meus medicamentos no Brasil, para apoiar as associações, e outra parte importo legalmente com receita da Anvisa. O tratamento reduziu muito minha ansiedade e meus pensamentos persecutórios, eu estava adoecida e fui curada. Tinha duas opções, recorrer a um remédio de tarja preta ou à cannabis medicinal. Escolhi a cannabis, e ela me curou. É importante desmistificar o acesso, porque hoje é simples conseguir uma receita. Muitas pessoas ainda perguntam como fazer, mas já existem diversos médicos canábicos no Brasil. É essencial dar visibilidade a esses profissionais que estudam e tratam seus pacientes com seriedade. Falo como uma pessoa jovem, mas quando olhamos para a terceira idade, o potencial é ainda maior. Idosos podem se beneficiar imensamente de um tratamento com cannabis, ganhando mais qualidade de vida. Mesmo quem não tem nenhuma doença pode usar para melhorar o humor, relaxar e viver melhor. E não estou me referindo ao uso recreativo por inalação, que é outra discussão. Estou falando da cannabis medicinal, que, uma vez legalizada de forma ampla, poderia transformar a vida de muitas pessoas. Há, por exemplo, crianças autistas que substituem diversos medicamentos pelo óleo de CBD, com excelentes resultados. Por isso, considero essa resistência uma luta sem sentido, movida por um pensamento atrasado e preconceituoso. São os mesmos políticos que não legalizam o aborto e tampouco a cannabis, tudo está conectado. Precisamos de uma visão mais progressista, de avançar e acompanhar o que o mundo inteiro já está fazendo, em vez de ficar presos a ideias antigas e cheias de preconceito.
Achei interessante isso de comprar uma parte dos seus remédios nas associações e outra parte via importação. Como você chegou a montar esse pack?
O óleo de CBD e o de THC eu compro de associações, mas o meu médico também me receitou uma gummy de THC. É uma goma com uma porcentagem específica de THC que o meu corpo precisa diariamente. É algo que me relaxa, me faz viver melhor e me ajuda a estar mais presente. Tenho um nível de ansiedade muito alto e, embora eu seja grata por trabalhar com internet, é um ambiente que exige muito. Por isso, tenho um horário certo para tomar a gummy, sempre por volta das cinco e meia ou seis da tarde, antes do meu terceiro turno como mãe: preparar o jantar, dar banho, colocar para dormir, contar história. Consigo fazer tudo isso com muito mais presença depois de tomar a gummy de THC. É uma sensação diferente, mais equilibrada e prazerosa do que inalar, e eu gosto muito mais dessa forma de consumo. Essa gummy só existe fora do Brasil, então eu a importo com receita aprovada pela Anvisa. Entro em contato com uma importadora que oferece uma variedade incrível de produtos e escolho o que foi receitado pelo meu médico. Já sigo esse tratamento há mais de dois anos, com acompanhamento regular. Vou às consultas a cada seis meses, e ele faz os ajustes necessários. Durmo muito melhor hoje. Antes eu sofria com crises de insônia, e agora descanso de forma natural. Poderia estar usando remédios de tarja preta, mas prefiro infinitamente dormir com a ajuda do óleo de CBD.
Sua ideia sobre cannabis foi mudando ao longo do tempo ou pra você sempre foi um tema meio que pacificado e entendido?
Olha, para mim isso sempre foi algo pacificado e natural. Cresci em um ambiente em que o tema nunca foi tabu, e nunca critiquei ninguém por usar ou fumar. Mesmo quando eu era adolescente e não fazia uso, nunca reprovaria alguém por isso. Aos poucos, a cannabis foi entrando de forma natural na minha vida. Sei que tenho o privilégio de viver em uma bolha bastante progressista nesse sentido, onde o assunto é tratado com normalidade. E tem também a questão prática: se fosse permitido plantar em casa, o tráfico certamente cairia drasticamente. Se cada pessoa pudesse cultivar sua própria cannabis, haveria menos demanda pelo mercado ilegal.
Você planta?
Eu acho trabalhoso. Não sei se tenho esse dom ou talento, porque tenho muitas plantas em casa, mas todas são fáceis de cuidar. Sei que a cannabis exige outro tipo de dedicação, um cuidado diário, e neste momento acho que não conseguiria manter essa rotina. Além disso, estou muito bem com os meus medicamentos, já encontrei o que funciona para mim. Tenho muitos amigos que cultivam, inclusive um grande amigo de Araguari, em Minas, que abriu uma associação e conseguiu autorização para plantar legalmente até 70 pés por ano. Acompanho tudo de perto e vi todo o processo de legalização da associação. É importante falar sobre isso, porque mostra que é possível. Mesmo com o preconceito que ainda existe, já há caminhos legais para quem quer seguir por essa via. Precisamos olhar para essas oportunidades e entender que não é algo impossível.
Você, inclusive, fez publi para uma marca de cannabis, a Moña…
Na verdade, não chega a ser cannabis. Os produtos ainda precisam ter um aditivo, já que no Brasil o uso direto não é permitido. Agora me fugiu o termo exato, mas existe uma denominação específica para isso, você não pode chamar de cannabis, embora ela esteja presente na composição. Quando olhamos para fora do país, vemos uma realidade completamente diferente. A indústria dos cosméticos, por exemplo, já incorporou a cannabis de diversas formas, cremes anti-rugas, óleos corporais e até supositórios desenvolvidos para aumentar o prazer. É um mercado enorme e em constante expansão, enquanto o Brasil segue ficando para trás. Venho da moda sustentável e, por isso, também tenho uma forte defesa do cânhamo. É uma fibra extremamente sustentável e agradável ao toque, que poderia substituir o algodão, um cultivo que, no Brasil, desmata grandes áreas do cerrado. Poderíamos estar produzindo roupas de cânhamo, incentivando uma cadeia mais consciente. Por isso, também faço parte dessa luta pela legalização do cânhamo, que continua travada por conta do preconceito que ainda cerca o tema.
Me fala sobre as suas experiências com o cânhamo? Eu lembro quando você saiu falando da sua bota feita de cânhamo e super repercutiu. Como tem sido a sua vivência com o cânhamo enquanto tecido e o que você enxerga de potencial nesse material?
Eu acabo tendo acesso a produtos de cânhamo quando estou fora do Brasil, porque lá é comum encontrar mochilas e roupas feitas desse material. Essa bota, por exemplo, é uma das minhas preferidas. Além de ser linda, tem um design incrível e é feita com borracha e cânhamo. Sempre que alguém elogia, digo que é de cânhamo, e as pessoas ficam surpresas. Já vi também camisetas feitas com a fibra, que exigem um processo cuidadoso de entrelaçamento. O mais impressionante é que o Brasil tem tecnologia de sobra para desenvolver isso. Semana passada, visitei a fábrica da Riachuelo, no sertão do Rio Grande do Norte, e fiquei impressionada com o nível de inovação e estrutura. A moda brasileira é muito forte, emprega milhares de pessoas, principalmente mulheres, e segue resistindo, mesmo com desafios como a isenção de impostos para marcas estrangeiras, como a Shein. As marcas nacionais continuam lutando, através de entidades como a ABVTEX, para manter o setor vivo e competitivo. Fico pensando em como seria se o cânhamo fosse legalizado. Tenho certeza de que essas marcas entrariam com tudo nessa nova indústria, com vontade real de fazer a diferença. Somos um dos maiores exportadores de algodão do mundo e temos uma enorme capacidade produtiva na moda. E nem estou falando apenas da estética brasileira, que já é reconhecida globalmente. Imagine uma Havaianas feita de cânhamo, seria algo inovador e sustentável. No fim das contas, o país perde muitas oportunidades por manter essa proibição.
Voltando para essa história da Moña, que, pode não ter cannabis, mas se posiciona como uma marca canábica, você está aberta para outras marcas de cannabis que queiram fazer parceria com você?
Super. Super. Eu estou super aberta, sempre que for para abrir a cabeça das pessoas de uma maneira acolhedora, simples e dizendo: ei, use. Gostaria muito de ver isso acontecendo. A Monan é uma marca muito pequena, que está fazendo um trabalho muito bonito, mas eu adoraria ver também grandes marcas brasileiras usando o mesmo ingrediente e ampliando essa percepção. Porque, imagina, se uma grande marca passa a usar um ingrediente canábico, isso seria revolucionário.
Você já pensou em abrir algum tipo de negócio canábico?
Olha, eu confesso que já. Esse meu amigo que tem uma associação me falou ´vamos fazer uns óleos, porque ainda não existe isso no Brasil´. Óleos de beleza, antifrizz, antirrugas… Eu acredito muito no poder da cannabis. Em todos os sentidos, acho que é uma planta mágica, que traz inúmeros benefícios. Mas é um projeto de vida, e eu não sei se hoje conseguiria abrir espaço para isso, já que quero focar no meu lado artístico. Por isso, me coloco muito como parceira de todos esses empreendimentos.
Você tem alguma relação com os psicodélicos?
Super. Já fiz tratamento de microdose de psilocibina. Foi ótimo também. Isso aconteceu em um momento em que eu estava em um processo artístico muito intenso, e me ajudou bastante na criatividade. Adoro fazer microdose em contato com a natureza, para mim, é sempre uma forma de expandir a consciência. A gente nunca volta para o mesmo lugar, é realmente uma expansão. Sou super adepta, mas sempre com muito cuidado e responsabilidade. Hoje já entendo o que funciona para mim e o que não funciona. Não gosto de tomar em meio à multidão, no caos ou em festas como o carnaval. Tudo bem para quem se sente à vontade, mas, para mim, é algo mais introspectivo, que prefiro viver na natureza ou em um dia mais tranquilo. Durante o tratamento de microdose, era tudo muito simples. Eu tomava um bom café da manhã, fazia minha microdose e seguia com o dia normalmente, levava minhas filhas na natação, por exemplo. As pessoas acham que você vai ficar fora de si, mas não é assim, você continua totalmente presente, apenas com uma percepção diferente do mundo. O dia ganha outra qualidade. Recentemente, recebi uma marca muito legal chamada Bam, que envia uma caixinha linda com as cápsulas organizadas. A dosagem é mínima e o efeito é imperceptível. É só um leve brilho, uma sensação sutil no corpo, que te deixa mais desperta e conectada.
Esse Bam é nacional?
É, e muito legal. Eles têm chocolates e também pílulas prontas. Existem outras marcas conhecidas, mas essa BAM eu achei especialmente fofa. Ela mandou uma cartinha que me tocou muito. Dizia: “O que importa é que, no final do dia, você deite na cama com a consciência de que teve um dia bom.” E é sobre isso. Porque você passa a encarar seus problemas de outra forma. Seu cérebro faz conexões que talvez não acontecessem sem esse estímulo. Quando a gente estuda a fundo, entende que não é algo superficial. Há um processo químico e mental acontecendo no corpo. Claro que cada pessoa é diferente e deve se respeitar. É um processo de autoconhecimento, entender o que serve ou não para você. Há quem use outros tipos de medicamento e, nesses casos, não pode de forma alguma. Por isso o acompanhamento médico é tão importante. Essa microdose de psilocibina veio do meu médico canábico. Foi algo que surgiu naturalmente dentro do tratamento, porque eu estava aberta a experimentar. Fizemos o teste e funcionou muito bem para mim. Quando existe acompanhamento de um profissional de confiança, não tem erro. Tenho explorado isso há pouco tempo. Já havia experimentado antes, mas as experiências não foram boas. Agora encontrei um espaço muito positivo, com os indígenas, nas minhas vivências com ayahuasca. Tem sido uma experiência muito forte, no melhor sentido. Acho que as epifanias espirituais que eu vivo vêm mais dessas experiências com a ayahuasca, onde realmente me sinto aberta e disposta.
E de quanto em quanto você faz?
Eu faço a cada 4 meses, não tem muita regra, não. Mas eu dou um belo espaçamento. Até porque eu não consigo… Porque, enfim… A medicina fica dentro de você um tempo, né? É uma energia muito boa. O que eu gosto muito do ayahuasca é que te dá uma sensação muito boa de pertencimento. Você sente isso?
Um calorzinho no corpo, um amor que eu nunca tinha sentido.
O amor. Exato. E assim, também, gente. Repito, tudo que vem dos indígenas é uma evolução tão grande de conhecimento e de sabedoria, espiritualmente falando. Acho que cada vez mais a gente tem que confiar nessa sabedoria ancestral dos nossos povos originários. Mais uma vez, se for fazer, faça em um lugar sério. Um lugar onde você se sinta segura. Não é em qualquer lugar. Eu já tive uma experiência que não gostei, porque não foi num lugar bacana, nem com uma pessoa bacana, tanto que eu fiquei 8 anos sem fazer. E agora eu achei esse lugar onde eu me sinto segura, onde eu me sinto confiante. E tem sido bom pra mim. Eu acho que não tem regra, você tem que entender os seus limites, o seu momento. É uma experiência muito individual porque faz parte do seu autoconhecimento, faz parte de você querer procurar a sua própria cura. É uma cura espiritual. Tudo que a gente tá falando aqui é uma cura espiritual, né?
E tudo a ver com a COP, né? Eu acho que não vai ter na agenda oficial nenhuma discussão sobre as medicinas da floresta, mas eu acho que devia, até pra puxar a consciência do que a gente tá precisando falar.
Aqueles líderes tinham que tomar um copão de ayahuasca na COP antes de fazer as negociações. Mesmo que não tenha, eu acredito muito na energia da floresta para favorecer bons acordos. Acho que esta será uma COP histórica. A presidência da conferência tem conduzido tudo com muita seriedade e vem sendo bastante elogiada por quem participa desses encontros internacionais. Estamos com uma narrativa equivocada no Sudeste sobre hospedagens e logística, e isso tem tomado proporções maiores do que a própria COP. Sou totalmente contra essa visão, que felizmente vem diminuindo, inclusive, os preços dos Airbnbs já caíram bastante. Acredito que nós, como brasileiros, devemos defender essa COP. Temos uma oportunidade única de fazer história e de realizar uma conferência que deixe um legado verdadeiro. O que o Brasil pode entregar ao mundo é o conhecimento da natureza, a bioeconomia, a simbiose entre economia, povos da floresta e saberes ancestrais. E apenas uma COP realizada dentro da Amazônia pode proporcionar isso.
Gio, você que conhece bem a medicina das plantas, você tá levando isso com você de alguma maneira? Você vai querer puxar conversa?
Nessas entrevistas que vou fazer na COP, não há muito espaço para esse tipo de tema. Mas é algo que está dentro de mim, faz parte de quem eu sou. É uma coragem, uma força que permanece comigo e, de alguma forma, me acompanha. Nessas pautas, especialmente nas conversas com a Janja e a Margareth, que são pessoas muito acessíveis, mas também figuras com papéis institucionais e políticos, talvez o tom seja outro. Ainda não sei exatamente como será, vou deixar minha energia fluir, mas acredito que esse assunto não se encaixa tanto nesse momento. Infelizmente é assim, mas teremos outros espaços para isso. O Tempo Virou vai voltar com força total em 2026. Conseguimos organizar nossa estrutura, estamos com uma equipe formada e planejando muitas entrevistas para o próximo ano com pessoas incríveis. Com certeza vamos falar mais sobre esse lado espiritual, até porque é uma extensão de mim. Tudo que me toca, eu acabo levando para O Tempo Virou.
Ah sim, vi que você vai entrevistar a Janja e a Ministra Margareth Menezes, chiquérrima. O que mais você vai fazer por lá?
Sim. A gente está com “O Tempo Virou” há cinco anos, nessa jornada sobre o clima, e pensamos: na COP, precisamos levar informação de qualidade, já que temos caminhado tanto tempo nessa pauta. Desde o início do ano, estamos trabalhando intensamente, firmando parcerias e conexões, e hoje chegamos a um cenário muito especial. Vamos estar em parceria com o Climate Life, o maior pavilhão de cultura da COP30, localizado na Zona Azul, onde realizaremos duas entrevistas ao vivo. Nossos convidados serão Janja e Margareth Menezes, duas mulheres que atuam dentro da política e da luta social. A Janja tem uma forte atuação com mulheres e biomas, enquanto Margareth une cultura e clima de forma inspiradora. Nosso objetivo é alcançar mais pessoas por diferentes caminhos. Poderíamos entrevistar especialistas que dedicam a vida inteira à pauta climática, mas optamos por conversar com duas mulheres de grande relevância e que se conectam conosco de maneira mais próxima. São mulheres reais, que vivem suas lutas diárias e trazem a pauta do clima de forma transversal. Essas entrevistas serão abertas ao público, acontecerão às 10h da manhã, na terça e na quinta. Além disso, teremos uma cobertura completa com influenciadores e jornalistas relevantes dentro da pauta climática, que vão acompanhar tudo o que estiver acontecendo. A marcha da justiça climática, as negociações, tudo terá cobertura. Nossa ideia é levar a COP para quem não pode estar na COP. Sabemos que realizar o evento na Amazônia traz inúmeros desafios como logística, deslocamento e estrutura. A Amazônia é o lugar mais rico do mundo, mas ainda não é vista como tal e enfrenta muita pobreza e dificuldades, por isso, entendemos que nem todos conseguem estar presentes. O que queremos com “O Tempo Virou” é justamente pulverizar essa informação, mostrar o que está acontecendo lá e ampliar o alcance desse debate. Além disso, farei uma entrevista com o coletivo de Belém chamado Letras que Flutuam, formado por moradores ribeirinhos que utilizam aquela tipografia tradicional dos barcos. É uma forma de unir clima e arte, algo que está muito no foco do “Tempo Virou”. Como artista, eu, Giovana, também estou resgatando esse meu lado criativo, que ficou adormecido desde a maternidade. Por muito tempo estive mais voltada à comunicação, mas agora sinto uma vontade grande de reconectar arte, cultura e clima, e é exatamente esse o espaço que “O Tempo Virou” representa. Por fim, vamos realizar uma mesa no dia 20, no Pavilhão Brasil, do Ministério do Meio Ambiente, na Zona Verde. A mesa contará com Úrsula Vidal, secretária de Cultura do Pará, Dononete, Beto, o Margin do Rio, artista manauara, e Marcelo Oliveira, jovem campeão climático, que também atua fortemente na interseção entre clima e cultura. Será um encontro para unir essas pautas e fortalecer essa conversa entre diferentes vozes e territórios.
Interessante vocês levarem Janja e Margareth, que apesar de não ser especialistas, são mulheres que furam a bolha. O que você acha que hoje ajuda realmente a falar com outros públicos que não os convertidos?
Acho que é sobre criatividade na linguagem. Acredito muito nisso. A forma como a gente se comunica é essencial. Já passamos por um período no Brasil em que tudo estava extremamente polarizado, e era quase impossível dialogar com quem pensava diferente. Sinto que agora as coisas estão um pouco diferentes. Claro, ainda acontecem situações difíceis, como essa recente chacina no Rio. É complicado conversar com quem acredita que “bandido bom é bandido morto”. Mas existem pautas, especialmente a climática, que são de todos. Estamos todos no mesmo barco, mesmo que em níveis diferentes, já que algumas pessoas são mais impactadas do que outras, dependendo do seu grau de privilégio. No fim das contas, estamos falando sobre o futuro do planeta, e isso diz respeito a todos. As únicas pessoas com quem realmente não consigo dialogar são os negacionistas, aqueles que se recusam a reconhecer a realidade. Fora isso, acredito que é possível conversar com qualquer um que entenda a importância de reduzir o desmatamento e proteger as florestas, independentemente do campo político em que esteja. Tenho mudado muito a minha forma de me comunicar. Acredito que nossa linguagem precisa ser mais acolhedora, de aproximação. É sobre pegar na mão e dizer: “Vem cá, deixa eu te contar. Está tudo bem se essa informação ainda não chegou até você.” Acho que é assim que conseguimos avançar. Por isso estamos abraçando tanto a pauta da cultura e da arte. Podemos transmitir essas mensagens por meio do audiovisual, do teatro, das histórias que contamos. O Tempo Virou tem essa missão desde o início: amplificar vozes que foram invisibilizadas. Quando compartilhamos as histórias dos povos dos territórios, do cerrado, dos indígenas, criamos pontes e aproximamos as pessoas.