Por Filipe Vilicic

Como homenagear Padre Ticão sem falar de catolicismo ou de maconha? Esse foi um dos desafios de Rafael Roque, pintor e artista canábico, ao bolar o mural de 420 metros quadrados com a figura do religioso e pioneiro da educação sobre a cannabis.
A empena fica na área de Padre Ticão, na Zona Leste da cidade de São Paulo, embelezando um paredão da lateral do Centro Educacional Unificado (CEU) de Ermelino Matarazzo. O CEU, que, para quem não está familiarizado, é um complexo municipal dedicado à educação pública, leva também o nome do Padre e foi inaugurado em agosto. O CEU Padre Ticão visa atender todo dia mais de 7 mil pessoas da comunidade, com educação, cultura, esporte e lazer.
Rafael Roque recebeu o convite para pintar sua enorme homenagem quando estava com uma pessoa que trabalha na Secretaria Municipal de Cultura em sua casa e ateliê, no bairro de Vila Formosa, também na ZL paulistana. Quando estava mostrando seu trabalho, Roque destacou dois retratos que havia feito de Padre Ticão.
“Comecei a pintar aos 38 anos de idade, durante a pandemia, e um dos primeiros retratos que fiz foi de Padre Ticão”, recorda o artista e ativista canábico, que em 2020 frequentava o curso gratuito de cultivo e uso terapêutico criado pelo religioso em sua paróquia. Símbolo de luta por causas sociais, especialmente as ligadas à educação, saúde e moradia, em seus últimos anos de vida, Ticão abraçou a causa da cannabis.
O conhecido que trabalhava na prefeitura então deu a ideia da empena a Rafael Roque. Por que não fazer um retrato como um daqueles, mas com 420 metros quadrados e sendo exibido para todo mundo que passar na área? Melhor ainda: no paredão do CEU que homenageia Ticão. O artista topou o desafio, com a ajuda de uma equipe que o ajudou a pintar o mural com mais de 100 litros de tinta.
Nada de maconha ou religião
Roque teve de assinar um documento no qual se comprometeu a não fazer referências diretas a drogas em sua arte, assim como a religiões específicas. “É um documento que qualquer artista ligado à Secretaria deve assinar. A gente tem que pensar aquele espaço como uma escola. Não poderia fazer um cara tomando cerveja ali, sabe?”, comenta ele, que, portanto, compreendeu as exigências. Inclusive em relação à religião, uma limitação que aí vêm da laicidade do Estado.
Isso não impediu o artista de ser criativo e deixar umas piscadelas tanto para os cristãos, quanto para os maconheiros. “Coloquei a erva daninha em substituição da maconha”, comenta. “Uma erva que não está ali só porque as pessoas querem, brota do concreto, é resistência”.
Outra referência à ganja é o fundo verde da pintura. Já o catolicismo está, por exemplo, nas figuras das pombas brancas ao redor do padre.
“Quando comecei a fazer a pintura, achei que seria rechaçado, por causa dessa questão da maconha, e tem uma Igreja Universal em frente”, comenta Roque. Só que foi o contrário. “A comunidade conhece o Padre Ticão pelos feitos, ele era muito atuante”.
O artista comenta que um dos objetivos de sua obra é fazer com que “o pessoal da maconha entenda do que ele fez antes, e o pessoal leigo da maconha entenda das coisas da maconha”.
Padre (não só) da Ganja



Antônio Luiz Marchioni, o Padre Ticão, se tornou pároco da Paróquia São Francisco de Assis, na mesma região do CEU, em 1982 e desde então virou símbolo de luta por causas sociais, especialmente as ligadas à educação, saúde e moradia. Atuou, por exemplo, na articulação para a construção do Hospital de Ermelino Matarazzo, de unidades básicas de saúde, da instalação da USP Leste e de iniciativas que levaram à construção de mais de 35 mil moradias populares.
Em seus últimos anos de vida, Padre Ticão virou não só apoiador, como divulgador do cultivo e dos usos terapêuticos da cannabis, tornando-se rosto associado à nossa diamba. Foi em 2019 que criou, ao lado do professor Elisaldo Carlini, médico e pesquisador pioneiro, o Curso de Extensão sobre o Uso Terapêutico da Cannabis Sativa, parceria da Unifesp com Movimento pela Regulamentação da Cannabis (MovReCam).
“As homenagens mostram o tamanho do legado que ele deixa, principalmente para a Zona Leste”, comenta a comunicadora Gabi Daineze, uma das organizadoras do curso da Unifesp e da MovReCam. “Esse CEU, que demorou para sair, foi fruto da luta dele. Ele é um lutador da área da edução”. As muitas funções de CEU, que é também centro de cultura e esportes, retratam bem a multiplicidade da atuação social do Padre Ticão.
Em seis anos, as aulas que começaram na paróquia da igreja – e não é pouco o impacto de um padre educando sobre a ganja em um local sagrado na periferia da maior metrópole do país –, viraram online na pandemia e passaram a atrair multidões. Desde então, foram cerca de 100 mil inscritos nas aulas.
Padre Ticão é símbolo de como a cannabis é fruto, efeito e por vezes solução para muitas questões sociais, especialmente nas periferias de nosso país.