Por Anita Krepp

“Sou policial, mas os caras da polícia são os mais ignorantes que eu conheço, muito bitolados. Até hoje os caras não entendem porra nenhuma de sistema endocanabinoide”, constata Álvaro Sombra, que foi inspetor da Polícia Civil do Rio de Janeiro, entre 2007 e 2022, tempo em que pôde vivenciar, em 1ª pessoa, histórias que evidenciaram a imensa ignorância que assola a polícia quando o assunto é maconha.
“Quando encontravam uma trouxinha de maconha e prendiam o cara, eu ficava pensando ‘olha o tempo que perde buscando essas coisas’, uma merda dessa, que vai levar o cara pra delegacia, ele vai ficar lá 5 horas, e o policial junto, perdendo o tempo que ele podia realmente estar prestando à sociedade, buscando crimes de verdade.”
Durante o tempo na polícia, Álvaro engolia a revolta a seco e ficava na dele, não explanava o fato de ser usuário de cannabis há mais de 30 anos. “Se eu dissesse que fumo maconha, no mínimo, eu teria levado um processo administrativo”, conta ele, lembrando uma máxima conhecida entre os agentes: se você é bandido, tem que se preocupar com a polícia, mas se é policial, tem que se preocupar com o bandido e com a polícia.
O tumor e a aposentadoria
Inspetor do COE (Coordenação de Operações Especiais da Polícia Civil), Álvaro fez parte, por muito tempo, do SOC, o Setor de Operações com Cães, na maioria treinados para encontrar armas, dinheiro e drogas. Depois, conseguiu transferência para ser instrutor de defesa pessoal dentro da corporação, já que antes de entrar para a polícia, ele já era faixa-preta e instrutor de Jiu-Jitsu.
Lá, a coisa era menos pior, por assim dizer, e ele pôde levar uma vida com menos chateação do que vinha tendo até ser transferido. Mas um dia, do nada, começou a sentir fortes dores no peito, e foi levado às pressas a um hospital, onde permaneceu 10 dias internado, até que descobriram que a origem daquela dor era um tumor malígno na paratireoide. O tratamento indicado pelos médicos foi a remoção do tumor e acompanhamento periódico – que ele faz até hoje.
“Não tive sequelas, mas fiquei um bom tempo de molho, e pra resolver o problema fora da esfera da Big Farma, fui me tratar com óleo de cannabis”, explica ele, que à época recorreu à Abrace, maior associação de pacientes do Brasil com sede na Paraíba, para acessar a terapêutica. A sua lenta recuperação motivou um processo de aposentadoria de ofício, aberto pela própria corporação, e que, a bem da verdade, veio a calhar, já que Álvaro há muito tempo se revoltava com o que via na instituição.
“O sistema é totalmente feito para acobertar a corrupção dos ricos. Se você não for rico, você tá fodido. Nunca vi polícia meter o pé na porta de algum apartamento da Delfim Moreira”, denuncia, citando a avenida com o metro quadrado mais caro do Brasil, no Leblon, bairro em que viveu a infância e adolescência, e também onde fumou maconha pela 1ª vez na vida, aos 23 anos de idade.
Microdose para se conectar com o sutil
Apesar de não ter se aposentado ganhando salário integral, ele considera o que ganha suficiente para manter um estilo de vida simples e cada vez mais autônomo. “Vim pro meio do mato, no interior do Rio, e hoje a minha água vem do poço que eu construí, e minha energia elétrica vem de placa solar”, orgulha-se ele, que tem tido mais tempo, nesses últimos três anos, de estudar em detalhes o universo da cannabis.
“Fui amador durante muito tempo, mas de uns tempos pra cá, comecei a estudar mais e fazer vários cursos para entrar com habeas corpus para produzir meu próprio remédio e sair do ciclo do tráfico”, abre os planos de voltar a cultivar a plantinha, uma experiência que ele chegou a testar na época em que vivia nos Estados Unidos, de 1996 a 2000, trabalhando como instrutor de artes marciais e segurança particular do ator Steven Seagal.
Além da experiência e do gosto por cultivar, Álvaro vem explorando também o universo psicodélico. “Meu hobby é estudar fungos e plantas, gosto muito de fazer microdose com psilocibina, porque eu gosto de ver o que acontece por trás, enquanto estão brigando por Bolsonaro ou Lula, eu olho pra quem tá patrocinando eles, e são sempre os mesmos patrocinadores.”
A mente aberta, privilégio raro de se ver entre policiais, foi construída nas sessões com a ganja e com outras plantas de poder, como a ayahuasca, que tomou durante uma época que passou no Santo Daime. “O que me afastou do Daime foi a religião, a crendice. Não questiono o valor da planta de poder, eu tenho um lado espiritual, mas não religioso. Sempre tive conexão com o sutil, e as plantas de poder existem pra te dar um auxílio, pra você ter uma percepção maior, mas a indústria farma faz de tudo para proibir essa conexão de você com você mesmo.”