
Beto Brant, diretor que fez da inquietação o seu método, pisou no freio do set para assumir o sítio da família. Horta, galinhas, pupunha, uva sem semente e a “água sagrada” de poço. De volta ao fazer cinematográfico, ele lança nesta quinta, 2 de outubro, o documentário “A Planta”, que bota pacientes de cannabis e a ciência dos canabinoides como protagonistas de uma revolução nada silenciosa.
Beto reconhece paralelos de ritual e cultura entre cannabis e vinho, mas pontua uma diferença importante: no vinho, a safra pode falhar, na cannabis medicinal, não. Ele relata estufas, protocolos, farmacêuticos, controle de contaminantes e a engrenagem de associações que só crescem até onde conseguem produzir com qualidade. Esbarra, então, no atrito com o status quo médico, que pede estudos clínicos clássicos para uma planta complexa, que deveria ser enquadrada na fitoterapia.
Nesta entrevista com nossa editora Anita Krepp, Beto explica por que focou no medicinal e prefere não falar do uso recreativo. Diz que não planta por questões de segurança, mas que plantaria, se alguém próximo necessitasse, já que, afinal, entre a lavoura e o cinema, Beto quer mesmo é praticar a maior lição que aprendeu com a mãe: tirar as pedras do caminho dos outros.
Beto, nos últimos anos você saiu um pouco do fazer cinematográfico para assumir a lida da terra, plantar coisas no seu sítio, e tal, e por mais que você não tenha parado completamente com o cinema, deu uma diminuída boa, então, alguém que tá acostumado com essa rotina do cinema, e de repente parar, bateu uma ansiedade?
A minha ideia inicial foi produzir o próprio alimento, com o meu primo agrônomo, com a minha companheira, Stella, a gente queria fazer do sítio, que era um sítio de encontros numerosos na época dos meus pais, um lugar de cultivo de alimentos e de encontros. Fiz questão de vir para cá dar essa entrevista para você, nesse lugar sagrado para mim. Tem a horta, tem as galinhas, tem a palmito-pupunha, tem as frutas e tudo mais. E tem a água, a água da vida, que é uma água de um poço profundo, água mineral. Só que aí como é que eu vou financiar essa vida saudável aqui, de acesso a uma comida sã? A gente pensou em várias formas de produzir alguma coisa, pelo desafio, inclusive. E aí a gente começou a plantar uva, uva sem semente, apostando na pesquisa da Embrapa, que hoje aderiu também à pesquisa com a cannabis.
E o que você planta é para o consumo da sua família ou você já está também vendendo excedente?
Vendemos uva para lojas de frutas da região, para sorveterias e com o excedente fazemos suco. A partir do ano que vem começaremos a vinificar. Tenho uma prima que ficou cinco anos trabalhando em vinícolas de mínima intervenção na Espanha e na França, aí ela voltou para o Brasil com a pandemia e quando ela chegou, meu primo e eu ficamos animados, “então vamos plantar uvas viníferas, agora temos enóloga”. Ano que vem, a trinca de primos fará sua primeira vinificação, nossa primeira safra.
Você já chegou a pensar na cultura da cannabis como uma cultura de uva pra vinho? Tem muita gente que enxerga muitas similaridades entre vinho e cannabis, você também?
Olha, rodando esse filme (“A Planta”, que estreia nesta quinta, 2 de outubro), visitei várias associações no Brasil, algumas cultivando um número limitado de plantas e outras já bem desenvolvidas, com estufas profissionais, muitos funcionários, agrônomos, biólogos, farmacêuticos, ou seja, diversos profissionais qualificados envolvidos na fabricação do óleo. Realmente uma produção industrial de cannabis. O STJ, você sabe muito bem, está acompanhando, deu prazo para o governo federal regulamentar a produção do óleo de cannabis. Nós estamos agora lançando o filme em meio a essa grande mobilização para pressionar o governo e o congresso a fazer uma regulamentação responsável, que não destrua o que já vem sendo construído pelas associações com tanta dedicação. Voltando à sua pergunta, o vinho é uma bebida sagrada, biblicamente é uma bebida que tem esse valor ritualístico, também na cultura pagã, na mitologia, na cultura grega, romana, é uma bebida extremamente simbólica. Quando busquei alguma coisa para produzir, busquei várias possibilidades, mas estamos num bairro da colonização italiana, onde desde muito tempo se planta uva Niagara. Então, vou plantar o que a não ser uva? Vou fazer uma uva diferenciada, já que a terra é pequena, tenho que agregar valor. O vinho é uma bebida que inspira as pessoas, que causa o bem-estar, essa euforia, essa vontade de conversar, molhar a palavra, como as pessoas falam. Está sendo para nós um desafio grandioso, envolve muito trabalho da equipe para manter a sanidade e qualidade do vinhedo. Por outro lado, conheci a rotina do produtor de cannabis e o desafio é ainda maior, porque quem está por trás dessas associações são pessoas que precisam obter o óleo de cannabis para cuidar dos seus filhos, dos seus pais, pessoas que estão na militância do cuidado. E quem administra uma associação, a partir do momento em que firmou compromisso de fornecer esse medicamento, tem a responsabilidade de entregar todo mês. Não tem alternativa, tem que entregar. Você não pode dizer “olha, hoje a minha safra não deu, não temos óleo”. Eu já vi associação, inclusive, indo buscar em outra associação para poder manter o fornecimento para seus pacientes associados. Tem associações que têm limite de crescimento, porque elas não podem crescer acima do que podem produzir. É uma responsabilidade muito grande, é uma rotina de atenção, de cuidado, de acolhimento. Tem que cultivar, ter um laboratório para produzir, lógico, com o acompanhamento de um farmacêutico, de alguém técnico, para fazer a extração com o máximo de cuidado, de qualidade, inclusive monitorar o que tem ali, para saber se tem algum contaminante, se não tem, se tem os níveis dos canabinoides adequados. Lógico, eu penso na relação de semelhança entre cannabis e vinho, mas sei que a responsabilidade hoje de quem está produzindo cannabis é muito maior. E é fundamental que quem esteja hoje à frente dessas associações seja quem tem consciência da responsabilidade, quem precisa dessa produção para fornecer a seus parentes, a seus próximos.
E Beto, a gênese desse filme que você está lançando agora, A Planta, foi um convite da Yael Steiner para vocês investigarem inicialmente o lado recreativo da maconha no Uruguai, e você não topou porque você considerava que esse tipo de filme mais aumentaria o estigma do que, de fato, esclareceria a questão. Desenvolve esse pensamento pra gente?
Não topei por causa da abordagem que ela me propôs. Ela viu a oportunidade de fazer esse filme naquele boom da regulamentação que o presidente José Mujica estabeleceu, que é uma regulamentação feita muito mais para combater o tráfico, para tirar o poder econômico do tráfico, do que realmente comprometeu a ordenar a produção medicinal, o que já vinha acontecendo antes, independentemente da legislação. E olha, digo isso mesmo sendo muito fã do Mujica. Naquele momento do convite da Yael, eu já estava envolvido com a agricultura, estava motivado pela compreensão biológica de como a planta era cultivada e de como os princípios ativos funcionam no nosso corpo. Propus então a ela fazer um documentário de investigação científica e acabamos arrebatados pelas histórias de pacientes e associações. Tem alguns depoimentos ali que são realmente muito tocantes.
Você considera o seu filme uma atualização, 10 anos depois do documentário “Ilegal”, e qual você diria que será o legado de “A Planta”?
Esse movimento da cannabis medicinal atua em várias frentes, inclusive na comunicação, e o filme é um canal de comunicação popular, não está restrito a pessoas do meio, às comissões, aos congressos, às palestras, todas essas formas em que se repercute o uso medicinal da cannabis. O filme vai atingir um público maior, acredito, por conta disso, porque vai estar disponível numa plataforma de streaming, além do cinema. Na discussão dessa regulamentação, o filme pode ajudar a quem tem preconceito ou desconhecimento, vendo o filme, vendo o que está de fato acontecendo com quem está tendo acesso ao óleo, o que pensam médicos prescritores e o que vem sendo estudado por pesquisadores, consiga entender o porquê da regulamentação. Então, acho que a gente vai andar junto com todo o movimento, o filme está vindo numa ótima hora. E como o nosso, tem muitos outros filmes, pode-se dizer que o ILEGAL foi um filme que abriu caminho, importante demais, inspirador. Para A PLANTA visitamos personagens centrais de ILEGAL, quase 10 anos depois. Interessante vê-los depois desses anos todos, saber em que pé está a luta deles.
Você primeiro foi para o Uruguai pesquisar o universo de lá, e foi só depois que vocês mergulharam na cena brasileira. Eu queria que você tentasse voltar para esse momento de descoberta no Brasil e me contasse os pontos que mais te surpreenderam em relação ao momento que a gente está aqui, quais insights que você teve nesse momento de imersão na cena brasileira da cannabis?
No Uruguai, eu esperava encontrar uma cena que acompanhava na imprensa, a gente sabia o que estava sendo promovido pelo governo do Mujica, mas quando chegamos lá, vimos que o processo estava travado, a universidade não conseguia pesquisar, havia um boicote financeiro às farmácias que vendiam cannabis, às indústrias que tentavam produzir, ou seja, amparados pela legislação tudo poderia estar mais organizado.
E no Brasil, quando você chegou aqui, olhar para a cena brasileira te surpreendeu?
O mais arrebatador no Brasil é a história do padre Ticão. Fui lá em Ermelindo Matarazzo, achei que havia um grupo de estudos no subsolo da igreja, pensando que era um grupo de trabalho de uma paróquia, que ia ter umas 15 pessoas. Cheguei lá e era um salão de mil lugares, devia ter 700 pessoas. O padre Ticão, toda terça-feira, chamava pessoas, médicos, pacientes para dar depoimentos. Sete horas da noite começava. Vinha gente de outras cidades, gente da cidade inteira de São Paulo. O professor Waldir, que atuava na equipe do Padre Ticão, dá depoimento no filme.
Destaco também que, para a surpresa da nossa equipe, encontramos no Brasil uma cena pungente das associações e diversos pesquisadores atuando em universidades mesmo com toda a limitação imposta hoje para a pesquisa.
As associações de pacientes são um fenômeno muito forte no Brasil e até onde eu sei tal qual acontece no Brasil é um modelo também único no mundo. Mas apesar disso muito pouco celebrado e até desautorizado pelos legisladores e pela Anvisa. Além do lobby das farmacêuticas, você descobriu na sua pesquisa para o documentário alguma outra coisa que pode estar travando o caminho das associações?
Percebo que o que trava bastante o encaminhamento da regulamentação são os conselhos de medicina. Eles demandam estudos com método científico clássico, randomizado, duplo-cego, que são feitos a partir de moléculas isoladas. As evidências clínicas atestam que esses medicamentos importados de alto custo, feitos com moléculas isoladas e sintetizadas, não têm a mesma eficácia. A cannabis devia ser pensada como um fitoterápico, cuja extração é composta por muitas moléculas que existem na planta e atuam conjuntamente. Médicos prescritores e pesquisadores falam em medicina endocanabinóide, sendo fitocanabinoide os compostos da planta e endocanabinóides, os que existem no corpo humano. Esse conceito dá um nó na cabeça da medicina clássica. Médicos que não têm esse conhecimento e não estudaram em suas faculdades se sentem ameaçados perante a ciência. De repente surge uma nova forma de encarar a medicina, com esse corpo completo, esse sistema endocanabinoide que está no corpo inteiro, um conjunto de moléculas que pode produzir benefícios em diversos órgãos do corpo, com uma substância que pode ser produzida em casa, sem custo, com custo de jardineiro. A cannabis desafia o status quo da medicina, de alguma maneira ameaça protocolos conservadores da medicina. Então, acho que essa discussão tem de ser feita, porque todo mundo está a par do que se fala quando se fala de cannabis medicinal. Ninguém está prometendo a cura, mas o alívio dos sintomas. E isso é muito para quem está em estado de sofrimento. As histórias dos pacientes precisam, de alguma maneira, tocar a classe médica. Eles têm que saber que isso está funcionando. E se eles não estão sabendo, tem que estudar, porque se o paciente pedir e o médico disser que não prescreve, ele vai procurar um médico que sim, prescreva. Esse movimento na classe médica é o grande desafio.
Você faz uso de cannabis?
Não tenho receita, não tenho diagnóstico para o uso. Sou claramente favorável ao uso da cannabis medicinal, mas procuro ter responsabilidade de não ficar indicando para as pessoas. Consulte o médico, tem que ser através do médico. Se é uma patologia grave, precisa dessa interface com o médico. Fundamental. Antigamente diziam que usar cannabis medicinal só no último caso, só se falharem todas as outras medicações alopáticas. Será? Não seria melhor ser a primeira?
E você faz ou fez uso recreativo?
Olha, Anita, eu prefiro não falar sobre esse assunto porque o meu foco agora é o filme, e o que ele representa, que é o universo medicinal e científico. Estamos em plena discussão da regulamentação do uso medicinal. O objetivo primeiro é garantir esse acesso a quem necessita de tratamento.
Mas você já chegou a plantar?
Nunca e nem plantarei. Quando eu fui ao Uruguai, eu vi que quem tem planta legalizada, põe arame, tem cachorro bravo, temerosos de serem assaltados. Se um dia eu tiver um problema de saúde, que eu espero que não tenha, eu plantaria. Se fosse para cuidar de mim ou de um irmão meu, eu plantaria. Quem tem plantio, mesmo as associações, por lei, são obrigadas a ter circuito de câmeras, tem que ter vários protocolos de segurança, para não cair em mãos erradas. Então, aqui no sítio, não quero esse tipo de estresse, viver com essa preocupação extraordinária de segurança.
Beto, você acaba de completar 61 anos e eu gosto muito de conversar com gente dessa faixa etária porque eu sempre aprendo muito. Então eu queria saber o que você, no auge da sua maturidade, cultiva de bom na vida?
Amigos, amizades, pessoas, relações saudáveis e escuta. Uma frase que aprendi com a minha mãe, que virou para mim um mantra, escutei num Natal distante aqui no sítio. Ela estava descendo por ali na minha frente e fui fazer uma pergunta levando uma câmera VHS, perguntei o que era a vida, ela me disse teatralmente que a vida é tirar a pedra do caminho dos outros. Acho isso incrível, simples assim, bem mais simples que a do Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Ela vai lá e tira a pedra da frente do caminho dos outros. Essa é a frase preciosa que eu herdei da minha mãe, que está aí, viva, praticando sua arte de viver.