Por Anita Krepp

As sessões de ayahuasca no grupo Rosa de Luz, que fica ali pertinho de Mogi das Cruzes, a 2 horas da capital paulista, normalmente, reuniam umas 50 pessoas. Esse número quadruplicava quando se anunciava que o mestre-dirigente da sessão seria o Wilsão, apelido carinhoso dado a Wilson Gonzaga, médico psiquiatra de uma simpatia que quase não cabe no seus mais de 1,90m de altura, e que, de tempos em tempos, aparecia pra guiar uma sessão no grupo dissidente da União do Vegetal que ele mesmo fundara, mas do qual se afastou por uma questão geográfica.
Em 2011, Wilsão empreendeu mais uma viagem para a Amazônia, só que desta vez, de mala e cuia. Ao lado da companheira e fiel escudeira, Nísia Carvalho – que merece um perfil só pra ela, e vem vindo aí – o objetivo era iniciar um trabalho de apoio à saúde mental de povos ribeirinhos em Manicoré, cuja viagem em barco, desde Manaus, leva 13 horas. “Eu estava numa burracheira quando a força me falou pra ir pra lá, que meu trabalho agora era na Amazônia”, contou ele, numa sessão em fevereiro de 2012, explicando o motivo da partida, que havia deixado muita gente saudosa.
Com uma presença inspiradora e um humor afiado, Wilsão fazia todo mundo cair na gargalhada quando identificava padrões de comportamento comuns a todos nós e que, expostos ali, sob a luz da ayahuasca, podiam ser vistos como ridículos que eram, mas com astúcia, não julgamento. Muitas eurekas, coletivas e individuais, nasciam das sessões com Wilsão, médico respeitado no meio científico e acadêmico há 40 anos, e que, há 35, conheceu a ayahuasca, chegando inclusive a participar do processo de legalização da planta em uso ritualístico no Brasil.
Psicodélicos para tratamento na Cracolândia
Psiquiatra daqueles raros de se ver, genuinamente interessado na melhora do paciente, e não em outra coisa, Wilsão lançou mão da ayahuasca como ferramenta para trabalhar com certos pacientes resistentes a tratamentos alopáticos, mas já era bastante experiente no auto uso do chá quando ofereceu essa opção de terapêutica pela 1ª vez a um paciente. O tal paciente levou junto para a sessão a mãe, o pai e a irmã, que, testemunhas do processo de cura, propuseram abrir um centro ayahuasqueiro, e comprar um sítio onde plantariam a raiz e as folhas das quais se extrai o chá, e ser autosuficientes para poder receber outras pessoas com necessidades diversas.
Assim nascera o Rosa de Luz, que acabou sendo também celeiro da Ablusa (Associação Beneficente Luz de Salomão), uma iniciativa que realizava, com a soma de diversos voluntários, quase todos eles vinculados ao chá, trabalhos com pessoas em situação de rua, e a maioria delas, com uso problemático de drogas. “Ficou bem claro para os voluntários, naquela época, que era um exercício de amor para quem dava, então, quem dava era quem pedia licença, agradecia e se possível, explicava porque tava fazendo aquilo”, lembra o médico, que sempre foi atento para evitar a caricatura de “tô fazendo bem pra essa população de coitadinhos”.
“Ali tem seres humanos, e nós vamos chegar perto dessas pessoas, entender porque que elas estão ali, e enquanto estivermos aprendendo isso, vamos levar um pouco de dignidade para essas pessoas, que não é dinheiro. Se uma pessoa quisesse comer, aqueles que tinham peito para fazer isso, iam lá e compravam dois lanches, um para para o morador de rua, e um para si, sentar e comer com ele na calçada, dividir, partilhar o alimento, porque não era só o alimento, era a dignidade que a gente tava dando. E em troca, um pouco de conversa amorosa.”
Apesar de ter durado apenas um par de anos, o trabalho na Ablusa é o que mais o tocou ao longo da vasta trajetória. “Eu vi coisas muito bonitas. Eu vi coisas muito muito feias, e vi que eu tenho um mendigo dentro de mim. Eu aprendi com eles que eu sou muito parecido com eles. Todo mundo é muito parecido. Ele só tava ali por uma determinada circunstância. Eu poderia estar ali também. As pessoas não têm noção disso, de que eles estão muito próximos da gente.”
Microdose, fenômeno da automedicação
O sonho do Wilsão é ter na Cracolândia um albergue com a equipe preparada para acolhimento. “Para fazer sessões dissociativas pra aquelas pessoas, fazer um acompanhamento na rua, com microdose e ter política no SUS”, conta ele, que notou um aumento importante no uso das microdoses, principalmente, de psilocibina.
“A grande maioria faz microdose como medicação. A pandemia ampliou muito isso pela facilidade da experiência dentro de casa, no seu quartinho, com os seus discos, com as suas fitas, o seu banheiro. Nada com o próprio banheiro, né? Uh, isso aí faz muita diferença”, gargalha.
Outro fator que, para ele, tem feito boa propaganda para a microdose, é a ausência de ressaca, e de dependência. “O cara, se ele tem uma sessão recreativa, mesmo que tenha sido maravilhosa, ele não vai querer ter outra na semana que vem. Não é assim que acontece. As experiências psicodélicas podem ser intensas, demandam energia”, explica o psiquiatra, que lamenta. “Nós somos vítimas de uma campanha de demonização dos psicodélicos do governo americano, e isso tá enraizado no consciente coletivo.”
Parte de seu trabalho é justamente desenraizar bobagens tidas como verdades sobre tais substâncias, e servir de veículo facilitador para quem quiser se aproximar delas.. O ímpeto que um dia moveu Wilsão pela defesa da ayahuasca, agora ele dedica à normalização da psilocibina, tema central de palestras e retiros bimestrais em Atibaia, sem perder o costume de arrancar boas risadas.