Por Anita Krepp

Desde que gravou um vídeo convidando a sociedade para a Marcha da Maconha, a deputada Larissa Gaspar (PT-CE) virou alvo preferencial da direita – e de um ou outro progressista performático – que não economizaram ataques. Vieram as acusações de sempre: “apologia”, “desordem”, “ameaça à segurança pública”, e o pacote de pânico moral a reboque, às quais respondeu no tom. “Não se trata de liberar droga, mas de direito à saúde. E o preconceito não passa na frente desse direito.”
A ponte dela com a pauta não nasceu de modismo, mas com o entendimento de que a planta tem servido, e muito, à população. Depois de conhecer pacientes com autismo, TDAH, esclerose múltipla, Parkinson – vidas que mudaram com cannabis medicinal –, a deputada subscreveu a iniciativa que já tramitava na Assembleia e transformou o tema numa luta coletiva, com foco no PL 1014/2023.
Organizar coletivos, aproximar associações que produzem cannabis medicinal, ouvir colegiados de mães e pacientes, conversar com profissionais de saúde que prescrevem a planta foi o método escolhido pela deputada. Audiências públicas, portas abertas na Assembleia, com a meta sempre clara de aprovar uma política que saia do discurso e vire cuidado na ponta.
Os ataques, claro, vieram junto com o vídeo postado em suas redes sociais – sempre elas, dando palco para o ódio covarde que alimenta perfis fakes. “Os ataques vieram a partir do momento em que foi publicado um vídeo onde eu fazia um convite à sociedade para a participação na Marcha da Maconha, que tem como um dos objetivos principais a aprovação do uso da cannabis medicinal no SUS.”
Cearálifórnia
Contas da extrema direita (e até gente do PDT) correram para a timeline, tentando colar nela a pecha de “maconheira”, que, cá pra nós, não é nada mal, mas que, em se tratando de alguém que nunca fez uso recreativo, foi sentido como um ataque. “Ninguém está propondo liberar geral; estamos falando de tratamento no SUS”, repete para quem ainda não entendeu.
O eixo do discurso de Larissa é o fornecimento gratuito de medicamentos à base de cannabis no SUS, afinal, tratamento que funciona não pode ser privilégio de quem pode pagar. Universalizar o acesso é política pública, e é por isso que o texto dela insiste em colocar a palavra “saúde” onde tentam empurrar a palavra “medo”.
Existe, ainda, uma contradição local: o Ceará está entre os estados com maior número de associações de pacientes e, ainda assim, continua sem regulamentação própria. Enquanto isso, estados governados pela direita – caso de São Paulo e Rio – já normatizaram o acesso. “O bloqueio por aqui tem cheiro de receio das narrativas falaciosas que tentam confundir cannabis medicinal com liberação de drogas.”
No papel, o projeto apresentado é completo. Não fala só em instituir a política terapêutica e garantir o remédio no SUS; regulamenta o trabalho das associações e incentiva pesquisa acadêmica com universidades, para expandir evidência científica e tirar a discussão do achismo. A proposta de lei foi feita “a muitas mãos”, do laboratório à farmácia, da mãe cuidadora ao gestor público.
Marcha da Maconha também marcha pela saúde
Há também uma ambição econômica honesta nessa história. O Ceará, que foi pioneiro em energia eólica, que avança em energia solar e ensaia hidrogênio verde, pode disputar a vanguarda de produção e distribuição de cannabis medicinal. Se já são mais de 30 associações em atividade, por que não organizar a casa e atrair players sérios, com regras claras e benefício social claro?
Na articulação nacional, a própria Larissa destaca o apoio recebido de Eduardo Suplicy, hoje deputado estadual pelo PT-SP e ex-senador, ele mesmo paciente de cannabis medicinal, relatando melhora concreta. Segundo a deputada, Suplicy mantém agenda frequente no Ministério da Saúde para tratar do tema e se dispõe a ir aos estados conversar com governadores e prefeitos, com o objetivo simples e urgente de destravar e universalizar o acesso à cannabis medicinal via SUS.
Depois de virar alvo por apoiar a Marcha da Maconha, Larissa abriu audiências, ouviu mães e pacientes, chamou associações para a mesa, costurou com universidades e levou o tema do Ceará a Brasília com quem topa trabalhar para que o SUS tenha remédio de maconha, para que as associações tenham segurança jurídica, e para que haja mais pesquisa sustentando a prática. Afinal, a utopia é só uma questão de ponto de vista. “Saúde em primeiro lugar, preconceito não pode estar acima do direito à saúde”, defende a deputada.