Na Breeza

Parir é uma viagem

Por Anita Krepp

“O que eu acho mais importante é a mulher ter informação, porque a coisa mais importante que o hypnobirthing (hipnoparto) traz é que existe uma ligação muito forte entre o medo, a tensão e a dor no parto”, defende Joana Sepreny, especialista na técnica que combina exercícios de respiração, relaxamento profundo e visualização positiva para ajudar a mulher a viver o parto de forma mais tranquila.  

Apesar de parecer conversa fiada, existem, sim, experiências de parto menos dolorosas. E para ir atrás desse tipo de experiência que Gabriela Morais (ex-Pugliesi), Fabiana Justus, Carol Peixinho e outras milhares de famosas e anônimas buscaram a ajuda de Joana. “O hipnoparto não é conhecido no Brasil, e eu quero conseguir levar essa técnica para o máximo de mulheres que eu puder, então, o alcance que conseguimos através dessas mulheres seguidas por milhões de pessoas é algo maravilhoso, sobretudo porque elas realmente se implicaram e tiveram resultado.”

A técnica, criada pela educadora americana Marie Mongan nos anos 1990, é amplamente difundida nos EUA e na Europa, e tem ajudado milhões de mulheres a controlar a respiração e melhorar a conexão com o corpo. “Lembrando sempre que o nosso corpo foi feito para parir. Se a gente não fizer nada, o bebê vai sair, ele vai nascer. E o relaxamento, que também faz parte, ele ajuda o nosso corpo a soltar, a relaxar. O que você imagina? É mais fácil o bebê sair por um corpo que tá todo contraído ou relaxado?”

Até chegar no hipnoparto, a psicóloga com especialização em psicologia infantil se formou também em doulagem e psicologia perinatal. Até que veio a pandemia, quando finalmente Joana arrumou tempo para se organizar e entender sua nova configuração profissional, que, com alguma dedicação, evoluiu muito em pouco tempo na esfera digital. Para confirmar a fase de abundância, Joana engravidou de sua 1ª filha e pôde, enfim, confirmar na própria pele que o hipnoparto funciona mesmo.

DMT ao nascer?

“A banheira é uma das ferramentas que mais tiram a dor, é o lugar mais confortável para você ficar e que você vai sentir menos as contrações. Antes da analgesia, ela é a mais potente”, sublinha Joana, que pariu a filha na água, depois que o anestesista fechara a via nas suas costas, por onde havia administrado uma pequena quantidade de epidural, que não inviabilizou o parto, e, pelo contrário, facilitou o processo na dose certa.

O hipnoparto pode reduzir a necessidade do uso de substâncias anestésicas durante os nascimentos, fato que ocorre em 100% das cesáreas – que representam cerca de 55% dos partos da rede pública, e 80% da rede privada – e em 25% dos partos vaginais. Em outras palavras, a maioria das pessoas já nasce sob o efeito de alguma substância não endógena.

Mas, se for pra falar das endógenas, podemos começar pela ocitocina, o hormônio da satisfação e do prazer com o qual as mães são invadidas no processo de parto e compartilham com o bebê no nascimento, responsável pela química do amor à 1ª vista, que às vezes só vai se manifestar meses depois, mas que ali plantou uma semente. 

E se você tem a impressão de que ouviu por aí que ao nascer e ao morrer nosso corpo libera uma descarga de DMT, a “molécula do espírito”, você ouviu certo. Essa hipótese, popularizada nos anos 1990 pelo psiquiatra Rick Strassman, ganhou força em documentários e fóruns de psicodélicos. De fato, faria sentido que a substância endógena associada a visões místicas estivesse presente nos dois maiores limiares da existência, mas até hoje nenhuma pesquisa em humanos comprovou essa ideia. O que temos são indícios, como o estudo em ratos, que em 2019 detectou picos de DMT cerebral após a morte e um imaginário fértil que preenche o resto.

Me dá um pouco desse óxido nitroso

Outra substância que vem ganhando espaço, inclusive como alternativa menos invasiva à peridural, é o óxido nitroso, um gás inalatório de efeito analgésico e dissociativo. Ele não é classificado como psicodélico, mas pertence à mesma família farmacológica da cetamina, esta sim considerada um psicodélico não clássico. “Tenho muitas alunas na Europa que relatam a experiência e dizem que o gás realmente ajuda muito. Mas, infelizmente, aqui no Brasil não temos acesso a esse recurso”, lamenta Joana, que reconhece a importância das substâncias, mas prefere se apoiar em técnicas de empoderamento pessoal, como o hipnoparto.

“Minha mãe e meu irmão, por exemplo, usam cannabis, e pra eles funciona muito bem. Mas eu trago sempre muito pra consciência, tento não usar nenhum medicamento, nenhuma substância, eu tento entender o que tá acontecendo. O que foi que me deixou nervosa? O que será que me incomodou? Tento ir pra esse lado”, e com essa premissa também guia as alunas gestantes.

A sugestão é sempre a mesma. “Parar com tudo: álcool, qualquer outra substância, qualquer outra droga, até com café, refrigerante, açúcar, tinta de cabelo. Tudo”, diz Joana, que desconfia que o segredo, de verdade, para um parto tranquilo e sem dor, não seja nem as substâncias nem qualquer técnica, mas uma habilidade que se tem como quem ganha na loteria. “Uma mulher tranquila, relaxada, de boa com a vida, essa é a regra geral de mulheres que não sentem dor no parto.”