Na Breeza

No modo colheita

Por provocação da vida, inspiração de negócios e chamado tanto espiritual, Lili nos conta a sua história de como foi levada a empreender cultivando cânhamo nos campos de Sintra, em Portugal
Fotos de Nathalia Lovati

Por Filipe Vilicic

Quem aí já não se imaginou plantando a sua própria erva e vivendo dela em um lugar paradisíaco? Já teve essa brisa? A alemã Lilian Ribeiro, a Lili, percorreu uma jornada não só entre países, assim como espiritual e empresarial, para chegar a esse seu sonho idílico em sua lavoura de cânhamo na Vila de Colares, na região de Sintra, no campo de Portugal. 

Ao atender a Breeza em uma chamada de vídeo, enquanto carregava o celular no carro, explicando-se pelo atraso com a justificativa de que não é versada em tecnologias, desculpou-se pela voz rouca, efeito de ter “bebido demasiado bagaço” em um festival de danças tradicionais na noite anterior. Verdade seja dita, sua voz não estava tão rouca assim.

Lili exibia felicidade. Na festa, tinha tido tambor, aguardente e muitas batidas de pés no chão. Mas também é época de colheita e sua lavoura de cânhamo floresceu super bem.

Ela nos conta que sua jornada profissional com a cannabis, em sua versão de cânhamo, a única permitida em plantações legais em Portugal, começou faz oito anos, quando nasceu seu filho. “Senti-me bastante perdida, principalmente pelos produtos embalados, não é? Com uma sensação de que há tantos produtos embalados à minha volta e eu faço mais lixo do que aquilo do que consumo”.

Nessa epifania diante das embalagens de itens de mercado, considerando que para ela aqueles produtos fariam mal ao seu filho, ela decidiu procurar por alternativa. Logo foi inspirada por uma amiga, búlgara, entendida do assunto, a pesquisar mais sobre o cânhamo.

Lili e a planta

A relação com a erva começou na adolescência, período em que a ganja entrou em um papel que ela vê como terapêutico. “A planta foi uma companheira muito importante, dos 15 a uns 21 anos, pois abriu a mente, me ajudou em processos psicológicos”, comenta Lili. “Meus pais se divorciaram cedo e foi incrível como eu consegui me manter numa certa segurança emocional com o apoio dessa planta”.

A cannabis esteve presente em momentos determinantes de sua vida. “Nós dois estávamos em muito amor e a planta nos acompanhou, de saltar esse medo e de dizer: ‘Olha, vamos lá levar a vida para frente’.” Compartilha ela, ao lembrar de quando, após viagens pela Ásia, decidiu viver com o ex, pai de sua filha, em Portugal. Ele dos Estados Unidos, ela filha de mãe alemã e pai português, ambos se encontraram pelo mundo e se uniram com a ajuda da diamba.

Em Portugal, inspirada pela amiga búlgara, incomodada com momentos da vida, instigada pela maternidade, chamada por Jah, com dinheiro no bolso (presenteado pelos pais e com o qual resolveu empreender), Lili se despertou pelo cânhamo. Em uma visão aguçada do mercado, notou que nos campos portugueses não haviam plantações do tipo, sendo que já era permitido e o país teve uma tradição na área no passado.

Juntou-se a dois sócios, um que já havia trabalhado no ramo canábico na Califórnia (EUA), e uma outra das finanças e com paixão por agricultura, e fundaram a 7 Irmãs há oito anos, em referência a um conglomerado de estrelas assim conhecido e que fica na constelação de Touro. Para ela, a empreitada “tem um lado muito terrestre, muito prático, mas também espiritual”.

Guiada pelo 7

Lili sentiu que deveria se guiar pelo número sete. Perguntava-se sobre sete vertentes da cannabis, sete chakras do corpo, sete produtos de cânhamo que poderia criar. É central para a 7 Irmãs de Sintra que a planta da cannabis seja usada em seu todo, não apenas em suas partes supostamente mais lucrativas. “Uma planta tão versátil que, e isso fomos aprendendo com os anos, para trabalhar ela inteira, precisamos de ao menos sete pessoas para isso”. O poderoso número sete!

Pela internet, a 7 Irmãs comercializa extratos, bálsamos, óleos, infusões e outros derivados do cânhamo, além de produzir a fibra em seu cultivo. “A minha abordagem de trabalhar com a planta tem tudo a ver com utilizar ela de forma inteira, completa, íntegra. Porque não dançamos só com uma mão. Quando dançamos, dançamos com o corpo inteiro, né?”.

Para Lili, o mercado da erva está cada vez mais motivado pelos lucros. “Vejo na indústria da cannabis, como em qualquer outra, na verdade, o foco na exploração de um produto único para atingir o lucro. Isso é um abuso da planta!”, alerta ela. “Quero utilizar a planta inteira, até a maturação final, e daí extraio a semente, o óleo de semente da planta, e faço cosméticos, não é?”, propõe, ao defender que usar toda a planta, inclusive o tronco, seria caminho também para a sustentabilidade de um mercado menos ambicioso.

Vê usos múltiplos para o cânhamo, indo de cuidados maternos a alívios para pacientes paliativos. A alemã que há oito anos, antes de sua empreitada, nada conhecia de plantações, virou craque e referência no cultivo da erva.

Nessa experiência de quase uma década no campo, passou a admirar a resiliência da cannabis, que “reage de forma completamente diferente de acordo com a maneira como a trabalhamos”. Lili compartilha já ter semeado em zonas onde só tinham pedras queimadas, em canteiros que eram para ser utilizados como retenção de umidade, tanto em secas quanto em chuvas fortes. “É incrível essa planta!”.