Na Breeza

Ayahuasca, boa conselheira

A atriz Fátima Macedo, que estreia em Pssica, série da Netflix que retrata abusos e exploração sexual, viveu esse drama na própria pele com um ex-namorado que o chá já havia aconselhado a abandonar

Por Anita Krepp

Pssica, nova série brasileira da Netflix, que estreia no próximo dia 20, já começa a chamar a atenção pelo estranhamento do termo, que, no Pará, significa alguma coisa parecida com “maldição”. Mas certamente irá também chamar a atenção pela forma direta e crua com que trata temas como tráfico humano, exploração e abuso sexual. 

A produção, que conta com a dupla Quico e Fernando Meirelles na direção, e com Fátima Toledo na preparação dos atores, tem também em seu elenco, Fátima Macedo, atriz cearense que vive um dos momentos mais promissores de sua trajetória. Este ano, ela marca presença em três produções audiovisuais, além de “Pssica”, também no premiadíssimo “Manas”, e na série “Guerreiros do Sol”. Obras diferentes entre si, mas unidas pela centralidade de personagens femininas potentes e complexas.

Tanto “Manas” quanto “Pssica” tiram de debaixo do tapete para esfregar no focinho da sociedade a violência sexual, uma epidemia silenciosa. “São produções muito potentes da perspectiva da pessoa que sofre a violência, tudo o que a gente vê na tela, a gente sente o impacto que uma violência como essa causa a mulheres e crianças. Algo se quebra e não tem mais volta, faça terapia, mate seu pai – como no filme –, mas não tem volta. É uma violação que tira parte da nossa dignidade”, diz, em 1ª pessoa, porque, sim, Fátima também entrou para as estatísticas. Ela foi vítima de abuso em duas ocasiões: quando criança, por uma pessoa próxima da família, e depois, já adulta, pelo seu namorado da época.

“Eu era muito jovem e não tinha entendido que aquilo era uma violência. Só uns dois anos depois que eu entendi que existe abuso mesmo estando dentro de uma relação. E ele me violou várias vezes”, conta, ressaltando os paradoxos que esse tipo de abuso produz. “É difícil isso, porque ao mesmo tempo que você é abusada, você tem uma relação afetiva com o seu violador, aliás, como quase sempre acontece.”

Trauma de abuso

Ainda que possa parecer inevitável trazer, para a personagem que sofre violência sexual, algo da própria experiência, Fátima não sentiu necessidade de representar – ou, se preferir, expurgar – a sua dor. Até porque, meu bem, são muitos anos de terapia. “Demorei sete anos pra conseguir me relacionar novamente de uma maneira razoavelmente saudável. E isso pelo estrago de uma relação de um ano e meio”, revela, contando também que a escrita tem sido sua companheira fiel por vários anos, desde que começou a terapia.

Foi na terapia, a propósito, que ela recuperou as lembranças do abuso que havia sofrido na infância. “Tive acesso a essa memória, que tava travada, e fiquei muito chocada, percebi que falta letramento pra gente identificar a violência.” Ainda que analisada, a atriz admite que era impossível não ser atravessada por sensações conscientes ou não, ao reviver o trauma. E lidava com isso sozinha, já que até hoje, a atriz não havia compartilhado tais vivências com ninguém.

Fátima havia conhecido o “infeliz do namorado abusador” na União do Vegetal, uma das vertentes que distribui ayahuasca em rituais religiosos. “No começo do namoro, eu recebia várias mensagens da força dizendo: ‘esquece, sai dessa, não é ele´. E toda sessão eu vomitava. Antes de começar a namorar com ele, eu não vomitava, e quando terminamos, parei de vomitar.”

Único caminho? WHAT?

Dos 6 aos 27 anos, a artista pertenceu a um grupo da UDV, para o qual entrou quando seu seu pai, que também era pai de santo, soube da ayahuasca, provou, se encantou, e levou os cinco filhos e a esposa para a doutrina. Nascida na periferia de Fortaleza, foi através do contato com outros membros do grupo que Fátima viu abrir seus horizontes. 

“Não só pelos ensinos, mas pela condição social de outras pessoas, o que foi muito bom, porque me deu abertura de percepção. A noção de que existem pessoas ricas e pobres eu descobri lá”, analisa ela, que muitas vezes se sentiu invisibilizada por sua condição financeira. “Sofri certa discriminação dentro da religião, por isso fica um misto de gratidão com esse sentimento.”

A arte foi que deu visibilidade para Fátima dentro do grupo, no qual ficou famosa pelas oficinas de teatro que promovia. “A arte abre portas, mesmo num meio onde você já tá dentro.” Mas, por ironia do destino, logo tudo aquilo passou a não fazer mais sentido para ela. Não foi nada em especial que levou Fátima à decisão de deixar o grupo, mas permanecer ou não era uma dúvida que ela tinha fazia tempo. “Eu era bem jovem quando escutei um mestre falando que a UDV é o único caminho verdadeiro. Daí eu pensei, peraí, não existe um caminho, cada um vai escolher o seu. E ficou uma pulga atrás da orelha.”

Do muito que aprendeu com a ayahuasca, Fátima conheceu o real censo de comunidade fazendo parte de uma egrégora em torno desse chá sagrado. E é disso o que ela mais sente falta. “Se eu tivesse um filho, eu enxergo a UDV como um lugar seguro e menos doentio para que uma criança possa crescer e se desenvolver.”