
Ravel Andrade encarou uma metamorfose importante para viver Raul Seixas na série da GloboPlay, em que precisou dar vida a um personagem amante dos excessos, sendo ele próprio o avesso disso.
Nesse papo com Anita Krepp, editora da Breeza, Ravel falou sobre o alcoolismo que matou Raul e, claro, sobre a maconha, com a qual ele diz ter uma relação equilibrada e muito benéfica em vários sentidos, principalmente na criatividade, que rola solta quando ele lê um roteiro ou pega o violão.
Ravel começou a fumar um beque já relativamente tarde, aos 20 anos, depois de se informar com o irmão do meio, ativista e entendido do assunto. É a favor da legalização para que tanto os usuários recreativos quanto os medicinais possam ter acesso a uma erva de qualidade e mais barata.
Agora, Ravel se prepara para viver Tostão, o camisa 9 da seleção tricampeã, na série Brasil 70, produção da Netflix, com estreia prevista entre o fim deste ano e o início do próximo. Nesse novo mergulho profundo, desta vez pelo universo do futebol, Ravel vai equilibrando foco, entrega e, de vez em quando, um baseado pra mente respirar diferente.
Ravel, você acabou de ser pai e de encenar talvez a obra mais importante da sua carreira até aqui. É real que o filho chega com um pãozinho debaixo do braço?
Cara, eu espero que sim (risos). Porque ter um filho também é bastante gasto, mas é muito mais maravilhoso do que isso, do que a coisa do dinheiro e do trabalho. Ser pai me transformou muito, tem um clichê que falam que você só vai saber quando o seu filho nascer. E aí, eu faço uma analogia também ao Raul, porque eu também não imaginava como seria quando nascesse a série. Quando a minha filha nasceu, eu olhei pra ela e é quase que como se a vida dali pra trás não tivesse tanta importância. Tudo que eu fiz era meio banal, sabe? E aí, quando você vê a criança, aí a vida te traz um propósito. Foi uma mudança radical, como se eu tivesse nascido junto com ela ali mesmo. Uma sensação, assim, de que agora é a vida. Agora eu nasci, agora eu tenho uma criança, a gente tem que cuidar dela, a gente tem que dar o melhor pra ela. E eu acho que a série do Raul foi a mesma coisa. Eu fiz a série, me joguei num mistério, porque eu fiz uma composição de personagem, um personagem que fala diferente de mim, que olha diferente de mim, que anda diferente de mim. O Raul é completamente diferente de mim.
Pois é, eu vi a Andréia Horta (esposa do Ravel) falando que não reconheceu nenhum traço da sua personalidade no Raul e achei interessante isso. Até onde você se via nele, até onde você teve que construir?
Com certeza, foi 100%. A única coisa que eu tinha junto com o Raul, era o violão, que eu acho que talvez fosse o mais importante, porque assim como ele, eu também tô sempre com o violão debaixo do braço. Passei minha vida inteira levando meu violão pros lugares, levando meu violão pra rua e tocando. E aquela coisa do “Toca Raul” sempre teve na minha vida também. Porque quando você vê alguém com o violão embaixo do braço, dá vontade de gritar “Toca Raul”. Então, a única coisa que eu tinha próxima dele, era a coisa do violão. O resto era um cara talvez até extremo oposto de mim, e eu não sou um cara dos excessos. O Raul era um cara dos excessos, ele era um cara do caminho dele. E eu sou o contrário. Eu sou um cara das coisas menores, sou mais calmo, eu não vou tanto, eu observo antes de tomar decisões. Mas quando estreou, foi tipo um filho. Eu falei, cara, que loucura. Agora a minha vida mudou, porque eu representei um ícone brasileiro. E a resposta do público me deixou muito feliz também, porque foi muito arriscado o que eu fiz. E aí, com a resposta do público, eu falei, cara, tá, o trabalho tá digno, foi feito, sabe? Representou bem o cara e o legado dele.
É curioso, porque mesmo as críticas que de repente falam sobre a produção em si, exaltam a sua atuação, né?
E sempre pode melhorar, né? Sempre tem coisas falhas.
Até porque somos pessoas diferentes e vemos coisas diferentes. Você conseguiu enxergar o seu trabalho desde uma visão diferente, a partir do que outras pessoas também trouxeram ou tudo o que disseram você já tinha consciência?
Cara, eu não tinha consciência. O que eu sabia é que eu tava num momento muito maduro e que eu tava num momento certo pra receber um personagem desse. Quando eu recebi o Raul, eu agradeci muito, porque os atores têm uma trajetória às vezes gigantesca e eles não recebem a oportunidade de um personagem como esse, por exemplo. A pessoa trabalha durante 30 anos de carreira e ela não consegue desenvolver a maturidade dela em cena, não consegue ter um personagem… Eu sabia que não seria fácil. Eu sabia que o jogo não tava ganho. Eu tava num momento maduro e eu tive, sim, a coragem pra fazer um personagem dessa magnitude. Eu não sabia se ia dar certo, entende? Mas eu tava confiante, eu tava com coragem. E o Raul me dava muita coragem porque as letras do Raul são muito encorajadoras. Quando eu tinha minhas inseguranças de falar, “cara, não, tá tudo errado, meu Deus. Essa voz que eu tô fazendo, esse jeito de caminhar, cara, vai dar muita merda, isso não vai dar certo”, eu escutava uma letra dele e ele falava “coragem, coragem se o que você quer é aquilo que pensa e faz coragem, coragem, eu sei que você pode mais”, e aí eu escutava isso e eu falava “cara, vai, coragem”. A minha trajetória me ajudou a ter coragem, eu sabia que eu ia mergulhar ali, que eu ia me jogar pra fazer o melhor que eu pudesse. Eu sabia que eu ia dar o melhor de mim, então ele veio num momento em que eu tava esperando um personagem assim, eu tava esperando uma oportunidade dessa.
A gente vê muita gente que se destaca numa produção mas depois vem o trabalho de consolidação, você tá sentindo uma pressão ou uma vontade enorme de devorar o mundo?
Eu tô aproveitando esse momento do Raul como algo pra realmente me jogar pra frente. Mas quando a gente pega um outro trabalho, e eu já tô num outro trabalho agora, a gente não sabe nada, porque é um personagem novo, é um personagem diferente, a gente tem que começar tudo do zero. Por mais que eu saiba que eu seja maduro e que eu saiba tecnicamente algumas coisas que dão certo ali em cena, a gente não trabalha com isso, a gente começa do zero. Então o que o Raul me mostrou é que eu posso fazer personagens complexos, grandes protagonistas. Eu entendi que eu posso e que eu consigo fazer, porque não é só por fazer bem ou mal, mas é pela carga de trabalho, pela dedicação que você tem que ter. Fiz Raul e durante 7 meses eu não tinha vida, eu não dormia, eu fiquei doente, eu não via minha família, eu não via meus amigos, então o Raul me mostrou que eu consigo embarcar nessa concentração absoluta de personagem e fazer um trabalho digno, então me dá vontade sim de fazer grandes personagens, me dá vontade de me dar essa oportunidade, porque eu consigo trabalhar. Mas a gente nunca sabe se vai dar certo, a gente sempre começa do zero, o personagem sempre nos traz coisas que a gente nunca viu, que a gente nunca falou, então é sempre um começo.
A gente sabe que o Raul tinha uma questão com o alcoolismo. Como foi essa preparação para entender o que era ser uma pessoa de excessos?
Eu fui atrás de pessoas que tinham esse tipo de vício, conversei com essas pessoas para entender um pouco, mas eu entendi muito através do Raul, dos vídeos dele, de como ele se comportava quando ele estava alcoolizado, porque o Raul tem vários vídeos de shows, entrevistas, que você vê claramente que ele está alcoolizado. Então prestei muita atenção em como ele aparecia nesses momentos. Tive acesso ao material de pesquisa da série, com uma pesquisa durante 5 anos ou mais do Paulo e do Pedro Morelli, diretores da série. Nesse material tinha depoimentos das ex-mulheres, dos melhores amigos, das pessoas que estavam em volta dele, do Marcelo Nova, que acompanhou ele no final etc., e através desse material eu pude saber profundamente como era a relação deles com o Raul nesse caminho dos excessos que ele escolheu. Foi muito triste, também, porque as histórias são super pesadas. O Raul, no final da vida, bebia 20 horas por dia, ele dormia um pouquinho, não comia nada, e acordava já alcoolizado. Então ele estava num momento muito difícil mesmo. Ele foi internado várias vezes, perdeu metade do pâncreas, não conseguiu sair dessa, e isso acabou matando ele. Esse material de pesquisa me ajudou muito a compor o Raul nesses momentos, além da minha própria intuição em relação a tudo isso. Com todas essas informações, com as pessoas que eu conversei que também tinham esse tipo de vício, junto com a minha intuição de como seria eu, Ravel, também naquele lugar, porque a gente também empresta muito do nosso sentimento pessoal, aquilo ali é o Raul e eu entrelaçados, nunca vai ser o Raul completamente. E junto de tudo isso, com a minha intuição, eu construí esse caminho que é um caminho difícil também, porque são energias muito complicadas de se mexer e que consomem muito da gente. Eu não queria entrar e viver e começar a beber para sentir não, eu fui no meu caminho.
E aí, eu queria saber se nesse acesso aos arquivos, à pesquisa e tal, se você conseguiu perceber alguma relação do Raul que fosse positiva com alguma substância?
Cara, não. Acho que Raul não era equilibrado nunca, ele era tipo um cara que ia muito a fundo, ele era alcoólatra mesmo, ele gostava de bebida mesmo, ele usava outras substâncias. Mas eu acho que ele usava só para conseguir beber mais, sabe, para poder cortar a onda e ele continuar bebendo. O lance dele era a bebida mesmo. Agora, não dá para dizer se ele tivesse escolhido outro caminho, se ele tivesse se curado, se ele teria criado tantas coisas lindas e deixado tantas belezas aí para a gente, tantos lugares que ele foi e que talvez a gente nunca chegue, porque a gente, quem não é do caminho dos excessos, talvez nunca chegue. Então não dá para dizer se esse caminho que ele escolheu foi bom ou ruim para a obra dele. Não sei.. será que ele teria criado tudo que ele criou se ele não tivesse embarcado o fundo? Acho que as referências dele de Bhagavad Gita e de Aleister Crowley, acho que tudo isso era substâncias lisérgica, porque eles também ficavam viajando naquilo, aquilo ocupava a cabeça deles e liberava substâncias no corpo que deixavam eles alucinados. Mas eu acho que é uma conversa muito sobre o álcool. O Raul transou com outras drogas, mas acho que o caso dele foi o excesso do álcool mesmo que é a única droga que é legalizada e que é permitida desde que a gente se conhece como gente e que está aí nos aniversários de criança e que está em todo lugar e que está aqui na esquina e tal. E é a droga que matou ele então, mas eu não sei dizer se isso foi bom ou ruim, se ele teria criado tudo isso ou não, se ele não tivesse ido pelo caminho dos excessos. São mistérios.
Como é a sua relação com a cannabis? Você faz uso recreativo ou medicinal? Aliás, esses usos se confundem, né?
Cara, eu faço os dois usos assim, o recreativo e o medicinal. Eu faço uso de CBD que é uma parada milagrosa se você compra algo de boa procedência. É claro também muita gente produz CBD que a gente não sabe a procedência, mas eu faço uso de CBD e eu faço uso recreativo desde os meus 20 anos de idade, e vejo a importância da legalização pra gente ter uma qualidade da parada, porque tanta coisa ruim que a gente vê que as pessoas fumam enquanto você poderia ter na sua casa um produto que tá ali na sua varandinha, no seu quintal, algo que você produz em casa super natural, que te ajuda em várias coisas. Pra mim, ajuda muito em muitos aspectos, no aspecto criativo principalmente, sempre que eu pego um personagem eu pego meu roteiro acendo um cigarro de maconha e eu consigo entrar, consigo focar naquilo então faz parte também do meu estudo e faz parte do meu dia a dia. Eu nunca fui um ativista eu tenho um irmão do meio que é ativista, ele é um cara que é programador, ele se chama Conrado. Ele é programador, ele é nerd e ativista, então ele misturou as duas coisas. Ele foi pro Uruguai e criou um sensor que você crava na planta e ele te dá o pH, te dá o crescimento do calo, então ele é um cara que luta pela causa. Até hoje ele é um cara que tá de frente, que acompanha todas as manifestações, todas as passeatas. Eu nunca fui esse cara, eu sempre fui muito discreto comigo, com a minha relação com a planta, mas eu também nunca escondi isso, porque eu não acho realmente que seja algo do capeta, do mal. Eu acho que com uso consciente você pode ter muitos benefícios e eu falo isso e eu defendo que a gente precisa legalizar muito pelo medicinal mesmo, não é nem pra gente que fuma. As coisas proibidas estão aí e as pessoas usam e elas compram e elas encontram, mas eu acho que quando a gente puder trazer isso pra ciência e os nossos cientistas conseguirem trabalhar com isso e aprofundar a pesquisa pro uso medicinal ou pras crianças com epilepsia. Eu li o último livro do Siddhartha, que é As Flores do Bem, é um livro que fala muito sobre isso e aqueles relatos ali você fica chocado, porque as crianças que tinham 300 crises por mês elas têm uma por mês. As pessoas em tratamento de câncer enfim, tem uma infinidade de doenças que são amenizadas com a cannabis. Então a minha luta é mais por isso mesmo, pra gente poder estudar, pra gente poder tirar o que tem de bom dela. E eu sou um cara que tem uma relação muito bem estabelecida com a cannabis ela me ajuda em várias coisas na minha vida, ela me acalma, ela tira a minha ansiedade ela aumenta a minha criatividade ela me dá apetite ela me faz dormir sabe? Então a minha relação com ela é super de amigo fiel.
Queria que você falasse um pouco mais dessa coisa da criatividade, como exatamente a cannabis te ajuda a ser mais criativo?
Ela me ajuda a concentrar, mas ela me leva também pra caminhos que eu não encontraria. E aí a gente volta um pouco no Raul e essas substâncias que ele usava e que levava ele pra caminhos que a gente não alcança. A maconha me abre realmente a mente, por exemplo quando eu leio uma cena, sei lá, o personagem sai do elevador e caminha até a rua, mas se eu tiver fumado um, cara, eu vou imaginar muita coisa, sabe? Ele já vai ter um olhar diferente, eu vou falar cara, esse cara pode sair, mas ele pode entrar de novo porque ele esqueceu a chave, ele volta, e aí isso faz com que ele encontre uma coisa lá, ele sai pela porta e isso tá no olhar dele. Me ajuda a ter uma visão muito mais ampla da coisa eu adoro, por exemplo, pra música, eu sou músico também, eu componho então, pô, eu fumo um e pego meu violão, e cara, quando eu fumo um e pego meu violão é uma coisa linda, porque ela me destrava lugares na mente que eu não estaria vendo se eu não tivesse feito o uso. Então pra música é algo extraordinário, pra concentração, pros estudos, é extraordinário. Mas eu falo por mim, porque eu acho que a relação com a cannabis é muito de pessoa pra pessoa. Eu acho que pra algumas pessoas faz muito mal, ativa lugares que não são legais, então a minha relação pessoal com ela foi sempre muito boa, nunca me causou mal, eu nunca virei um adicto de precisar de comprar. Se eu não tenho, eu não tenho, e tá tudo bem, não é uma coisa que me tira da vida, que eu não vou aproveitar um lugar se eu não tiver um baseado pra fumar. A minha relação com a maconha é muito tranquila. A planta me ensinou que ela é uma flecha, você fuma e tem que estar com o pensamento muito ligado. Você não pode fumar se você tá num lugar com uma energia ruim, pesada, porque ela vai entrar torta em você, entendeu? Eu vou fumar pra fazer uma música, pra ler o meu texto, pra descansar. É uma substância que você direciona muito.
E tem coisa que a gente possa ouvir sua feita meio chapadinho?
Tem o disco da minha banda, que chama Beradeiros. É uma banda que eu tenho junto com o Danilo Mesquita, que é ator também, um grande amigo meu, e a gente começou a compor juntos e falou, “cara, vamos fazer uma banda, vamos tocar por aí”. E aí a gente se deu um aperto de mão do outro e falou, cara, se você for eu vou. Ele falou, se você for eu vou, e aí a gente fez esse disco. A gente vai lançar um segundo disco. Eu também vou lançar o meu disco solo, que eu também não paro de compor, não paro de ter ideias e tal. Mas tem esse disco que a gente lançou há uns quatro anos.
E tem alguma música específica?
Tem uma música. Que ela é meio dichavada, se chama Hortinha, e é uma música que fala sobre isso. Você vai escutar e você não vai assimilar uma coisa com a outra, mas ela fala sobre isso. Agora sabendo, talvez você…
E vem cá, falando em Hortinha, você já plantou maconha?
Cara, já, uma vez. Eu morava numa casa com muitas pessoas e a gente ganhou umas sementes automáticas, que é aquela semente que você só joga e ela cresce. E a gente foi super despretensioso, nem achamos que ia dar certo o negócio. E jogou na terra e de repente falou nossa, tem uma flor aqui (risos). A gente nem regava, sozinha ela brotou e a gente fumou ela, mas nunca me dediquei ao estudo, porque eu acho que também tem que estudar muito. É uma planta forte, mas é uma planta sensível, precisa de cuidados. Tô aguardando muito também esse momento em que a gente vai poder. A gente já meio que pode os seis pés, mas eu ainda fico muito receoso com isso. Tipo, eu sou uma pessoa pública, então eu tento separar um pouco as coisas. Mas eu sonho com esse dia que vai chegar que a gente vai poder tranquilamente ter os nossos pés, consumir e tudo mais.
Interessante você ter começado tarde, se a gente for comparar com a média das pessoas, 20 anos é tarde. Como foi que você conseguiu passar pela adolescência sem experimentar?
Eu sempre fui um cara muito educado, muito quieto, muito responsável com o que os meus pais diziam. Meus pais sempre foram pessoas muito liberais, o que é quase um paradoxo, porque a gente podia fazer tudo, mas a gente tinha um respeito tão grande por eles que a gente não buscava o proibido. Sempre fui um cara que escutei muito meu pai e minha mãe, eles eram muito conscientes em relação a isso, e os meus irmãos também foram abrindo essa estrada pra mim. Eu sou mais novo, tenho três irmãos mais velhos, então os meus irmãos foram abrindo essa estrada pra mim, e a minha mãe foi entendendo, porque a minha mãe, teve uma época que ela falava coisas absurdas que é o pensamento, na verdade, do brasileiro comum, do Brasilzão, tipo “prefiro ter um filho morto do que um filho que fuma maconha”. Tinha umas coisas absurdas assim. Mas a cabeça dela foi abrindo e hoje em dia eu tô muito tranquilo, ela super entende, ela faz uso do CBD de vez em quando. Mas os meus pais sempre foram muito liberais e a gente nunca foi o tipo de criança, de adolescente, que ia pra esse lugar mais proibido. Então quando eu comecei, eu estava muito consciente, e eu fumava cigarro, e pô, cigarro é muito mais prejudicial. Então quando eu encontrei a cannabis eu larguei o cigarro. Meio que eu entendi que aquilo era uma coisa muito mais prazerosa e muito mais benéfica pra mim do que o cigarro, então a cannabis também me ajudou a sair do vício do cigarro e a minha relação com ela é de muita consciência. Quando eu usei a primeira vez, o meu irmão do meio já era um estudioso, ele já tinha sentado comigo, me explicado cientificamente o que aquilo causava, quais eram os benefícios, quais eram os malefícios, porque sempre tem malefício também. Se você usar de forma equivocada, pode te trazer também malefícios e tal, mas esse meu irmão, Conrado, foi um cara essencial pra gente entender o que era a cannabis e usar de forma consciente. E aí com 20 anos eu falei, pô, eu vou experimentar e aí me apaixonei pelo que me causava, e tô aí até hoje.
Ravel, qual é o mundo que você quer pra Yolanda, sua filha que hoje tá com sete meses?
Cara, é o mundo que é o meu mundo, que é o mundo que eu prego, que é o mundo do respeito pelo outro, do amor e das liberdades individuais. Sem liberdade a gente não vive, a gente não é a gente, mas sempre com muito respeito ao próximo, com o olhar aceso pro outro, os ouvidos abertos pro outro, porque a nossa liberdade vai até o limite do outro, isso todo mundo sabe. É claro que a gente não vai mudar o mundo sozinho, mas se cada um fizer a sua parte, a gente muda, então é isso que eu ensino pra ela desde agora, mesmo que ela não entenda, eu tô ali ensinando o amor, ensinando o respeito, ensinando a solidariedade com as minhas atitudes. Quando a gente tem um filho, pra gente criar esse filho não tem mistério. A gente só precisa ser a melhor pessoa possível, porque essa criança é uma esponja, ela vai absorver tudo que a gente é, então se você quer que seu filho espalhe amor você precisa espalhar amor também.
Você começou há pouco as gravações de uma série sobre futebol, né?
É uma série que chama Brasil 70, sobre a seleção de 1970, e eu tô fazendo um jogador agora, o que é muito louco, porque eu fiz um roqueiro que não gostava de futebol, odiava futebol, e agora eu tô fazendo o Tostão, que é o camisa 9 da seleção, brasileira da Copa de 70, que foi a última Copa do Pelé e tal, o extremo oposto do que foi o Raul. É uma série sobre esporte, então eu fiquei dois meses agora treinando que nem um condenado pra conseguir ganhar músculo na coxa, pra ficar com a coxa de jogador, tomando whey protein pra ganhar corpo, porque o Raul tinha 48kg, e agora o Tostão, ele precisa engordar um pouquinho, então tá sendo uma transformação radical no meu corpo e de rotina também, porque eu nunca tive essa rotina de exercícios. A gente começou a filmar e tá sendo incrível, um personagem completamente diferente, me instiga muito. É uma série da Netflix, eu ainda não sei quando sai, mas tem bastante expectativa aí porque é uma grande produção deles.
Você tem alguma conexão especial com Bolero de Ravel? Porque é um pedaço de arte maestra, um negócio maravilhoso que me emociona demais, e pra você, que é Ravel?
Tem uma conexão muito especial. O meu nome é por conta disso, o meu pai, antes de eu nascer, morava num sítio que era uma comunidade familiar, porque a minha mãe tinha 6 irmãs, então o meu pai trocou o apartamento pelo sítio e a gente foi morar no sítio porque meu pai não queria que ela ficasse sozinha, então ele dividiu o sítio em em 7 terrenos, então todas as irmãs da minha mãe foram morar lá. E eu tinha um tio que morava do lado, que todo domingo ele botava o Bolero de Ravel no talo e o meu pai era alucinado por isso. Quando ele botava, o meu pai saia e ficava viajando naquela coisa, e o meu tio deu esse cd pra ele, era um cd vermelho que tinha algumas músicas clássicas, uma faixa que era o Bolero de Ravel e aí quando eu nasci, o meu pai é muito criativo com nomes, e ele tava nessa onda do Bolero, e ele tinha ganhado o cd e botou Ravel. Mal ele sabia que eu me tornaria um músico, que eu me tornaria um artista, e que esse nome seria muito importante pra mim. Na infância, era um nome que todo mundo errava, todo mundo me chamava de Rafael, pastel, rapel, eu odiava esse nome. Quando criança eu queria me chamar João (risos), queria o mais básico possível, mas depois que eu fui crescendo e fui me tornando artista e fui consumindo arte, e falei “pô, meu pai tava muito certo, Ravel é o meu nome, meu nome é Ravel e faz todo sentido”.