Na Breeza

Desencaixado do mundo

Por Anita Krepp

“Muita gente pensa que eu uso ácido pra fazer aqueles desenho louco, e eu desenhando trancado no quarto, cheio de espinha, bebendo cafezinho, que nem refrigerante eu tomo”, diverte-se Pedro Vinicio, o jovem cartunista de apenas 19 anos, que há seis cria charges com desenhos toscos e frases desmotivacionais que ganharam o coração da internet e milhares de compartilhamentos justamente por sua genialidade tosca, que pode parecer coisa de chapado, mas ele garante que não.

Pedro Vinicio nunca fumou maconha, mas quando tinha 17 anos, chegou a se preparar pra esse rito de passagem. “Comecei a vida de ir pra festa, after, tal, aí eu disse ´hoje eu vou fumar, vou curtir, sou jovem´, mas chegando lá só fiquei olhando todo mundo, como se não fizesse parte daquele universo.” Ele não fumou, mas ficou chapado por tabela num nível de dormir no chão e esquecer a senha do celular. “Fiquei alterado, dormindo no chão achando uma maravilha, que cama gostosa, e era em Recife, aquele calor desagraçado. Quando acordei, nem a senha do celular eu lembrava, deu um branco.”

A curiosidade de experimentar maconha nunca mais se apresentou, mas o artista faz questão de esclarecer que não é por moralismo. “Ontem mesmo eu tava com uma amiga que fuma, só recebendo o axé dela. Não fumo, mas gosto de ficar junto de maconheiro”, conta ele, citando Otto, músico e amigo bom de fumaça. 

“Eu me alimento pelas pessoas que fumam, e acabo entrando na brisa delas, que normalmente têm a mente mais aberta. Eles me entendem, eu entendo eles, e o cheirinho é maravilhoso”, explica Vinicio, que se diz a favor da legalização e da normalização da erva. “Porra, as pessoas normalizam a nicotina, que não tem nenhum benefício, é uma coisa doida, que eu não entendo.”

Jovem de alma velha

Maconha ele tem certeza que nunca consumiu, mas desconfia que já experimentou outro tipo de psicodelia, a dos cogumelos mágicos, quando há dois anos, em pleno Festival de Inverno de Garanhuns, de visita à sua terra na natal, uma paquera ofereceu um brownie batizado que, sem pensar demais, de pronto aceitou. “Ela me deu, e eu quis me amostrar, ser corajoso, tal, mas logo senti um negócio, fiquei animado, depois meio alterado, depois meio agressivo, depois vi uma luz e essa luz me perturbava”, lembra da primeira vez que se sentiu fora de si, muito provavelmente estimulado pela psilocibina, substância psicoativa dos cogumelos. 

“Não gostei, porque sou uma pessoa mais calma, e fiquei com uma fúria dentro de mim, botei meus demônios pra fora, um lado que eu não conhecia. Acho que tava naquela coisa de sentir que não cabia direito no mundo”, analisa o artista. “Aí meu pai foi me buscar e eu vinha no banco de tras meio que querendo arengar com ele nesse dia que eu comi esse pedacinho de cogumelo”, diz, contando que arengar é um termo muito usado em Recife praquela vontade inexplicável de arrumar briga. “Depois um amigo me disse que você tem que estar bem pra tomar cogumelo, porque ele potencializa o que você tá sentindo.”

A sensação de desencaixe com o mundo que guiou Vinicio por essa espécie de bad trip é sua velha conhecida. “Me sinto muito velho, fico agoniado, digo meu deus, pareço meu avô, que aliás, fumava muito. Cruzava a perna e ficava fumando”, conta, recordando que pegava o cigarro dele “e não tinha coragem de fumar, mas botava na boca e ficava fazendo de conta que fumava”.

Desde os 7 anos de idade, Vinicio se sente assíncrono, uma sensação que foi agudizando conforme ia repetindo de ano na escola. “Quando repeti a primeira vez, foi muito triste perder os amigos que eu adorava, tudo subindo de série e eu ficando. Da segunda vez que eu repeti, igual. Aí no terceiro ano eu disse ah, nem vou fazer amizade nova, porque vou perder tudo de novo.”

Amante do erro

Foi só aos 10 anos que Vinicio se alfabetizou. “Sempre fui o cara que na sala de aula a professora dizia que não teria futuro”, pois não lia, não participava das atividades em grupo e quase não se expressava por conta da timidez extrema e do desinteresse pelos temas propostos na escola. “Acho que eu já estava à frente naquela época em que ir pra escola era tão chato, ontem foi a mesma coisa, nada mudava”, lembra, citando um texto de Michel Foucault, Vigiar e Punir, que compara escolas a presídios.

“As pessoas diziam que eu tinha déficit de atenção, diziam pra me levar no médico, mas minha mãe deixou fluir, e acho que o negócio é deixar ir, brincar… Deviam ter usado comigo aquele método de imagem do Paulo Freire, porque sou muito visual. Teria sido mais humano.”

O jovem, que foi desacreditado pelo ultrapassado sistema educacional brasileiro, hoje é incensado por artistas e intelectuais, que enxergam nele uma genialidade que não se encontra a cada esquina. Entre os seus mais de 800 mil seguidores no Instagram, estão Bruna Marquezine, Arnaldo Antunes, Fafá de Belém. “É uma maravilha ver as pessoas se identificando e sentindo um abraço coletivo em meio a tanta falta de originalidade de hoje em dia”, analisa ele, que já vendeu quadros para Paula Lavigne, Zélia Duncan, Dani Calabresa, entre outros.

“No começo, as pessoas diziam que era muito depressivo, mas eu acho legal tirar onda de si mesmo, não levar tudo tão a sério, porque, porra, a vida passa tão rápido. E eu gosto de toda hora machucar meu ego, porque o que importa é ser feliz, errar. Mas não errar sendo machista, homofóbico. As pessoas confundem, mas dar um golpe no país, fazer piada racista, não é erro, é crime.”